CAPÍTULO #21

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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE LODGE

EM SEGUIDA


- VOCÊ? O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI?

Clay procura ver alguma coisa além de medo na expressão do rapaz coberto apenas por uma toalha molhada enrolada na cintura.

- Clay, não é? Talvez você não lembre, mas nos conhecemos ontem na Jungle.

- Pelo contrário. Lembro muito bem de você. O que está fazendo aqui, Sr. Mahealani?

- Eu explico. Agora, se puder baixar essa arma ..

Ainda não completamente recuperado do choque de encontrar um estranho seminu em seu quarto, Clay observa atentamente o rosto de Danny tentando descobrir que tipo de criatura ele poderia ser.

É quando a porta do banheiro se abre e Jake, também apenas enrolado numa toalha e ainda secando os cabelos, aparece.

- Clay? Calma! Pode baixar a arma. É só o Danny. O Danny .. da Jungle, lembra?

- Não se aproxime Jake. Dê um passo na minha direção e eu atiro no Danny.

- FICOU LOUCO, CLAY? Está assustando o garoto. ABAIXE ESSA ARMA!

- Jake, não sei que tipo de criatura ele é, mas ele está controlando você. Está forçando você a fazer coisas que você nunca faria em seu estado normal.

- Que tipo de coisas você ACHA que ele está me forçando a fazer?

- Estou tentando não imaginar o que ele pode ter obrigado você a fazer.

- Clay, ele não me obrigou a fazer nada. Escuta: o Danny vai pegar as coisas dele e vai se vestir. Eu faço o mesmo. Eu levo o Danny até a casa dele, volto e a gente conversa com calma.

- Já disse para manter distância, Dean. Se preza tanto a integridade física do garoto, FIQUE ONDE ESTÁ.

- Sammy, eu ..

- QUIETO! Nem pense em interferir. Eu preciso me certificar que não se trata de um demônio. VOCÊ! BEBA ISSO.

Clay tirara de um bolso interno do paletó uma garrafa de bolso metálica e estendera a mão para que Danny a pegasse.

- BEBA!

Danny olha de esgueira para Jake, que, com um movimento de cabeça, tranquiliza o rapaz.

- Pode beber, Danny. Só faria mal se você estivesse possuído por um demônio.

Danny, desconfiado, mas levando a sério a ameaça de Clay, bebe um gole do conteúdo da pequena garrafa.

- Parece água.

- É água benta. Beba tudo e, ao final, vire a garrafa para o chão. Se cair uma única gota, eu atiro na sua cabeça.

Danny bebe e depois, com a mão trêmula, coloca a garrafa sobre uma das camas. Clay, sem baixar a arma, que continuava apontada para a cabeça do rapaz, e atento aos movimentos de Jake e de Danny, puxa um punhal com lâmina de prata e o aproxima do pescoço do apavorado Danny.

- Estenda o braço. Vou apenas encostar a lâmina de prata em sua pele.

- Fique tranquilo, Danny. A prata queima a pele de mortos-vivos como os vampiros e de muitas criaturas sobrenaturais, inclusive lobisomens. Não vai lhe fazer mal.

E, como Jake esperava, não acontece nada.

- Chega de testes, Clay! Acho que você já pode abaixar a arma e pedir desculpas ao Danny.

- Ainda, não. Você é hawaiiano, não? Não conheço bem os seres místicos do Hawaii, mas MATO você se tentar comigo seu truquezinho de controle da mente. Ou você de alguma forma força as pessoas a se apaixonarem por você? É isso que você é? Uma espécie de deus do amor?

Danny estava apavorado. Mas, não consegue evitar um riso nervoso. Ele, um deus do amor? Esse Clay só podia ser louco de pedra. Um doido surtado com uma arma apontada para sua cabeça.

- Cara, eu adoraria poder fazer quem eu quisesse se apaixonar por mim. Acontece que eu estava na boate ontem justamente porque acabei de levar um pé-na-bunda do meu ex.

Clay, ainda desconfiado, abaixa a arma e Jake o puxa para o que seria uma conversa particular se o quarto não fosse tão pequeno.

- Não acha que está exagerando na dose? Você deve desculpas ao Danny.

- Então me explique o que aconteceu aqui. Porque você e esse .. esse .. Danny .. estavam tomando banho juntos?

- Nós NÃO ESTÁVAMOS tomando banho juntos. Você viu muito bem que o Danny já estava de banho tomado.

- Senhores! Permitem que eu me vista? .. Obrigado.

Danny pega suas roupas e se tranca no banheiro.

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- Juro que não estou reconhecendo você, Dean. Pelo amor de Deus, me diga o que está acontecendo. O Dean que eu conheço desde que me entendo por gente nunca se interessaria por um gayzinho de boate.

- Gayzinho de boate? Agora sou eu que não estou reconhecendo você, Sam. Você está sendo preconceituoso. Logo você, que sempre foi tão politicamente correto. O Danny é um sujeito legal. Ele é alguém .. especial. Diferente. Ele é inteligente. É divertido. .. É, .. como vou dizer? .. tudo de bom. Se é que me entende.

- Não, Dean, EU NÃO ENTENDO. O Danny é um HOMEM.

- E qual o problema dele ser homem? O mundo está cheio de homens que se apaixonam por homens. Eu escutei você repetir DEZENAS de vezes que é a coisa mais natural deste mundo.

- VOCÊ NÃO É COMO ESTES HOMENS, Dean. Ele ENFEITIÇOU você. É isso. Só pode ser. Ele é um WARLOCK. Você está enfeitiçado.

- Sam, raciocina comigo. Eu já tive centenas de garotas e nunca me prendi a nenhuma. Nenhuma significou nada para mim. Foram sempre transas de uma noite. A maioria eu nem quis saber o nome. Até então eu não sabia, mas estava procurando algo DIFERENTE. Se eu não tivesse conhecido o Danny, eu ia continuar me iludindo até não sei quando.

- Não pode ser. É ISSO UM PESADELO! VOCÊ NÃO PODE SER GAY!

- Porque não?

- Porque NÃO! Não combina com você. Com a forma como você age. Com a forma como se veste.

- Sam, você sabe muito bem que isso não define a identidade sexual de ning ..

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Os irmãos interrompem a discussão quando ouvem a porta do banheiro se abrindo. Menos de dois minutos tinham se passado. Danny sai receoso, mas já totalmente vestido. Jake se vestia enquanto falava e já estava de jeans e camiseta de manga comprida, faltando apenas terminar de calçar as botas em estilo militar.

Já calçado, Jake se aproxima de Danny, mas este não deixa que ele o toque.

- Estou indo embora, Jake. Gosto de você, a tarde foi ótima, MAS NÃO DÁ. Esse seu irmão é completamente LOUCO.

- Como assim 'GOSTO DE VOCÊ, A TARDE FOI ÓTIMA'? O que rolou aqui entre vocês dois? E que história é essa de sermos irmãos? Jake e eu somos apenas PARCEIROS. Viemos aqui fazer uma investigação. Desculpe, se me excedi, mas ainda acho que tem algo muito errado acontecendo. E mais, não vou deixar vocês dois sozinhos. O Jake leva você, mas eu vou junto.

- NÃO, Clay. Isso já passou dos limites. EU levo o Danny e VOCÊ me espera aqui para nós dois conversarmos.

- Não, nós vamos discutir esse assunto AGORA.

- Danny, pode por favor me esperar no carro. Não vou demorar. Está aqui a chave.

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A porta se fecha e Dean precisa virar de costas para que Sam não veja que ele está prestes a cair na gargalhada. Não esperava essa atitude exagerada do irmão. Teve momentos em que chegou a temer que Sam fizesse uma besteira e acabasse ferindo Danny.

Claro que esperava que Sam ficasse chocado ao descobrir que seu irmão machão tinha mudado de time. A graça da coisa era exatamente esta. Mas, achou que o irmão se recomporia do espanto inicial e que, como sempre, daria uma de politicamente correto. Que gaguejaria os clichês 'não tenho nada contra gays' ou 'nada vai mudar entre a gente' ou 'o importante é que você seja feliz'.

Quando escutasse algo do tipo 'eu aceito você do jeito que é', Dean riria, abraçaria o irmão e diria que então Sam teria que se conformar e aceitá-lo 'machão e cafajeste como sempre foi e como nunca pretendia deixar de ser'.

Confessaria que armara aquela encenação toda para que Sam parasse de tachá-lo de homofóbico e de preconceituoso. E contaria a Sam o que ele e Danny REALMENTE tinham feito durante aquela tarde. O que tinham DESCOBERTO.

- Dean, eu realmente espero que você ESTEJA enfeitiçado. Porque eu não vou aceitar de FORMA ALGUMA esse novo Dean. UM DEAN QUE NÃO VÊ NADA DE ERRADO EM IR PARA A CAMA COM UM HOMEM.

- Sam?

Dean não esperava que Sam entrasse em negação e se recusasse a aceitar a hipótese de ter um irmão gay. Não sabia bem o porquê, mas estava decepcionado com o irmão. Sam seria capaz de REJEITÁ-LO se ele fosse diferente? Aquilo o magoou como se fosse uma possibilidade real. Afinal, PODIA ser verdade. Se fosse o contrário, por mais homofóbico que pudesse ser e admitia que era mesmo um pouco, não rejeitaria Sam.

O que começara como uma brincadeira inconsequente começava a ganhar outro contorno. Mas, ao invés de voltar atrás e desfazer o mal entendido, Dean resolveu seguir em frente e descobrir até onde aquilo ia levá-los.

- Sam, você pode até não aceitar, mas, gostando ou não, a verdade é essa: EU SOU GAY.

Dean precisou de todo o seu autocontrole para dizer aquilo e fazer parecer que era sério.

Sam precisou de todo o seu autocontrole para escutar aquilo e não partir para cima do irmão e bater nele até que ele voltasse ao seu normal. Que jurasse que voltaria a só transar com vadias. Dean podia até estar enfeitiçado, mas os Winchester tinham um nome a honrar. Ele não ia aceitar NUNCA um irmão veado.

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'Então Jake e Clay são na verdade Dean e Sammy? Dean e .. Samuel? Os dois se dizem federais, mas falam de demônios, vampiros e lobisomens como se fossem seres reais. Se bem que .. '

Danny SABIA que lobisomens eram reais. Sabia dos Hale, de Derek, de Scott, de Isaac, de Erica e de Boyd. Sabia de Jackson e do kanima. Só se fosse completamente alienado para não saber. Afinal, eles eram na maioria pessoas relativamente próximas a ele. Colegas de classe ou da equipe de lacrosse ou ambos. E nenhum se esforçava muito para manter sua condição em segredo.

Scott era o mais descuidado de todos. Como goleiro do time, observava a forma como cada membro da equipe jogava. O Scott de antes era um desastre ambulante. Como era possível que se tornasse de um dia para o outro o melhor jogador do time? Toda aquela rapidez, habilidade acrobática e resistência física. Não parecia possível. Não parecia natural. Mas, o que poderia ser?

Nunca passaria pela sua cabeça a hipótese de algo sobrenatural envolvido, mas Jackson ficara obcecado com a mudança de Scott e ele acreditava que Derek Hale estava de alguma forma envolvido. Tentou tirar aquilo da cabeça de Jackson porque tinha medo que ele se metesse com gente perigosa. E Derek parecia perigoso.

Mas, sabia que Jackson não desistiria. Ele estava obcecado. E, por mais que detestasse admitir, sabia que Jackson estava certo numa coisa. Existia mesmo algo estranho por trás das habilidades que Scott demonstrava ter.

Resolveu investigar Derek Hale para descobrir se ele era realmente traficante de drogas ilegais como Jackson suspeitava. Mas, não só por isso. Derek atraía sua curiosidade. Derek era um homem muito atraente, o típico macho alfa. Ele chamara sua atenção desde o dia em que voltara a pisar em Beacon Hills. Não só a sua, mas a de todos os gays da cidade. Mas, mantinha-se a uma distância segura. A simples presença de Derek era intimidante. E se ele fosse homofóbico? Tinha medo de se aproximar e levar uma surra.

Mas, então, qual não foi a sua surpresa ao encontrar Derek no quarto de Stiles? E aquela de Stiles apresentar Derek como sendo seu primo Miguel? Isso mexeu um pouco com suas fantasias. Será que estava rolando algo entre aqueles dois? Derek não devia ser tão homofóbico como temera. Se fosse, ele passaria bem longe de Stiles.

Derek tinha em torno de si uma aura de mistério e de tragédia. Pesquisou a história da família Hale. Para uma família que fora tão rica e influente, eles foram sempre muito discretos. Recuando mais no tempo, para as gerações anteriores da família, havia inúmeras referências a lobos e rumores de casos de licantropia. Mas, não levou aquilo muito a sério. Lobisomens não existiam. Ou seria possível que houvesse alguma verdade naquilo tudo que descobrira?

Veio então um período em que não sabia no que acreditar. As mortes estranhas na cidade. O ataque contra Lydia. O comportamento cada vez mais estranho de Jackson. A transformação de Erica. As marcas de garras nos armários do colégio. Isaac se mostrando agressivo. Se admitisse o fator lobisomem na equação, tudo parecia encaixar-se.

Com Jackson mais distante, aproximara-se de Matt Daehler. Sentia-se feliz de ser tão bem aceito pelos colegas hetero e tentava não confundir as coisas. Matt era inteligente e tinha um humor deliciosamente ácido. Mas, tinha mudanças de humor repentinas e não reagia bem quando era preterido ou rejeitado. Sabia de seu trauma por água, mas não conhecia a história por trás deste trauma. Nunca imaginou que ele se tornaria um assassino. Matt escondia bem a sua psicopatia.

Ficou atônito quando soube da morte trágica de Matt. Matt, que evitava até chegar perto de uma piscina, morrera afogado no Beaver Creek. Aquilo não fazia sentido. Não resistiu à tentação de procurar as respostas no computador pessoal do amigo. Usou a cópia da chave que Matt lhe confiara e entrou no apartamento antes da polícia confiscar o equipamento. Foi quando descobriu o dossiê sobre os lobisomens de Beacon Hills. E também o vídeo de Jackson se transformando no kamina. A prova definitiva de que era tudo verdade.

Matt estava morto. Não havia mais nada que pudesse fazer por ele. Mas, Jackson seria responsabilizado pelas mortes. Seria preso e talvez condenado à morte. Jackson não merecia isso. Ele agira sem ter controle ou consciência de seus atos. Tinha sido usado como uma marionete para que Matt realizasse a sua vingança. Copiou os arquivos comprometedores num HD externo e apagou do computador de Matt todos os arquivos referentes a lobisomens e a kanimas. Fora amigo de Matt, mas não pretendia acobertar um maníaco homicida. Deixou para que a polícia encontrasse os dossiês que Matt fizera do técnico e da equipe de natação de 2006 do BH High.

Sabia agora que lobisomens existiam. Até chamava alguns de amigos. Jake e Clay - ou melhor: Dean e Samuel - vieram atrás dos lobisomens para matá-los. Jake parecia ser um sujeito legal. Talvez pudesse ser dissuadido desse intento. Mas, Clay parecia ser ainda mais psicótico que Matt. O mais sensato seria cair fora o quanto antes e se manter o mais afastado possível de tudo aquilo. Mas, já estava envolvido naquela loucura até o pescoço.

O que podia fazer se tinha uma queda por homens bonitos como Jake e Derek e não queria ver nenhum deles morto?


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: BOYD x DEREK


ESCLARECIMENTO: Que ninguém pense que Dean Winchester passou a duvidar de sua identidade sexual. Foi tudo um teatrinho. Se o Dean tiver uma porção mulher, essa porção é com certeza lésbica.


31.08.2013