CAPÍTULO #22
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LOCAL: TRAILER-RESIDÊNCIA DE VERNON BOYD, NA PERIFERIA DE BEACON HILLS
UMA HORA APÓS O POLICIAL CHAD RECEBER INSTRUÇÕES DO XERIFE STILINSKI
Boyd respira fundo e tenta se acalmar enquanto decide se abre ou não a porta do trailer para o policial. Quem não deve não teme. Quem disse essa besteira com certeza não nasceu preto e pobre no Arizona. Boyd tenta imaginar o poderia ter feito para que a polícia fosse procurá-lo em casa. Nada que se lembrasse, mas isso não afastava o medo arraigado do tempo em que ainda era um garoto indefeso e a polícia invadiu o apartamento onde a família morava em Phoenix e levou seu pai. Foi a última vez que o viu.
Ao pousar a mão sobre a maçaneta, lembrou que esse tempo há muito ficara para trás. Não era mais aquele garoto indefeso. Crescera. Ganhara corpo. Tornara-se um homem e, depois, um lobisomem. Não tinha do que ter medo. Era grande e forte. Se alguém tinha algo a temer, era o policial branco fracote do outro lado da porta.
- Vernon Boyd?
- Eu mesmo. O que deseja, policial?
- Isso aqui é uma intimação para que passe na delegacia amanhã à tarde a fim de prestar esclarecimentos sobre a fuga da menor Erica Reyes. Peço que assine o recebimento.
- Eu não fiz nada. Nem sabia que ela tinha fugido. Vocês não podem vir aqui me acusando de .. seja lá do que eu esteja sendo acusado.
- Sr. Boyd, o senhor não está sendo acusado de nada. Ao menos, não ainda. É apenas para que ajude a polícia com informações que nos permitam localizar a garota. Mas, se por acaso souber onde ela se encontra, convença a Srta. Reyes a voltar para casa. Mais uns poucos meses e ela será maior de idade. Então, poderá decidir sobre a própria vida. Por enquanto, goste ou não, ela precisa da autorização dos pais para deixar a cidade.
- E porque acham que sei de alguma coisa?
- Consta que sejam namorados. Sendo verdade, ela pode ter lhe dito algo que dê uma pista de para onde ela possa ter ido.
- Não somos namorados. Ela não me falou nada sobre sair da cidade.
- Bem, se ela procurá-lo, ou se telefonar, convença-a a voltar. Será melhor para todos.
- Porque vocês têm tanta certeza de que ela fugiu de casa?
- Ela disse à mãe que precisava desaparecer porque se sentia ameaçada. Ela saiu de casa com uma mala pequena dizendo que, se a pegassem, iam matá-la 'como mataram o Scott'.
- Mataram o Scott? O Scott McCall?
- Acredita que ela estivesse se referindo a Scott McCall? Conheço o Scott. É amigo do Stiles, o filho do xerife. Houve um tiroteio no shopping hoje à tarde. Não está sabendo? Toda a cidade está comentando. Testemunhas disseram que o rapaz em que atiraram tinha feições animais. Falaram em lobisomem. Não pode ser ele, apesar de todo esse diz que me disse na cidade.
Boyd baixa a cabeça, ainda sem ter absorvido completamente a informação. 'Scott morto?'
- Se tiver alguma notícia da menina Erica, ligue para a delegacia. E não deixe de aparecer amanhã na delegacia. Lembre-se que recebeu uma intimação oficial. Não pode faltar. Boa noite e até amanhã na delegacia.
Boyd, ainda atordoado com o que escutara, vê o policial Chad entrar na viatura e partir. Só então fecha a porta. Ainda no automático, tira o celular do bolso. Descarregado. Conecta o celular no carregador e o carregador na tomada. A bateria não era nova. Ia demorar até poder verificar as mensagens. O melhor era ir de vez até a casa de Erica e seguir farejando o ar até encontrá-la. Ela não estava assustada à toa. Deve ter ido ao shopping e visto algo. Mas, ele não deixaria que nada de mal acontecesse a Erica. Nem que tivesse que morrer. Nem que tivesse que MATAR.
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LOCAL: IMEDIAÇÕES DA RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA REYES
VINTE MINUTOS APÓS BOYD DEIXAR SEU TRAILER
Boyd já aprendera a identificar a maioria dos conhecidos pelo cheiro. Dependendo do vento, sabia quem encontraria antes mesmo de avistar a pessoa. Afinal, o vento faz curvas, a luz não. O cheiro pessoal é tão único quanto as impressões digitais para um lobisomem. E, se já é fácil para um lobisomem identificar pelo cheiro milhares de humanos, imagine quando se trata de uma fêmea de sua própria espécie que, além do mais, é receptiva a você. Como Scott tinha descrito para Stiles na véspera, aproximar-se de Erica chegava a ser embriagante.
Para Boyd, era uma tortura conviver com Erica e não dar vazão a seus desejos. Ao contrário do que muitos pensavam e alguns diziam, nunca rolara nada entre eles. Eles não se declaravam nem mesmo namorados. E, se alguém tinha culpa por isso, era ele próprio. Ela devia estar esperando que ELE tomasse a iniciativa. E ele não tomava a iniciativa porque .. bem, .. porque ficava intimidado por Erica ser uma garota de família. E também por Erica ser branca numa cidade habitada quase exclusivamente por brancos. Medos que lhe foram incutidos desde muito criança por sua mãe.
Além disso, não se sentia à altura de Erica. Os Reyes não podiam ser considerados uma família rica, mas não moravam num trailer caindo aos pedaços no bairro mais pobre de Beacon Hills. A passagem pelo BH High serviu somente para que Boyd visse mais claramente o abismo social que existia entre ele e colegas como Jackson Whittemore. É mais difícil aceitar quando parece que você é o único perdedor.
Boyd via Erica como uma princesa vestida de dourado e a si próprio como um ogro desajeitado coberto por trapos surrados e baratos. Ficava travado quando estava com ela e ficava alucinado quando não estava.
Não era virgem, mas agia como se fosse. Fora iniciado muito cedo no sexo por uma mulher muito mais velha que ele. Ela seria muito mais velha mesmo se considerasse sua idade atual. Se lhe perguntassem como foi e ele resolvesse dizer a verdade, e não o que esperavam que dissesse, diria que foi assustador. Felizmente, ele não tinha na ocasião o faro apurado ou seria mais do que poderia suportar.
Depois dela, houve outras, mais jovens e mais bonitas, mas com roupas igualmente vulgares, gosto igualmente duvidoso para maquiagem, perfumes e bijuterias e um linguajar que denunciava terem vindo de baixo na escala social, mais até do que ele. Mulheres cujo presente não permitia acreditar que teriam um futuro diferente do de suas mães.
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Ainda estava a uma quadra da casa de Erica quando detectou o cheiro DELE. O que ELE estava fazendo ali? Ficara sabendo da fuga de Erica? Sentiu-se dominado pela ira. Sua expressão endureceu. Seus olhos mudaram de cor. ELE. ELE era o único culpado. Ele devia tê-los avisado que seria assim. Que viveriam cercados de medo e morte. Por causa DELE haviam sido torturados, Erica e ele. ELE era o responsável por estarem agora ameaçados de morte. ELE seria sempre o único responsável por qualquer mal que pudesse ter acontecido a Erica.
ELE, Derek Hale.
O que ser transformado em lobisomem lhe trouxera de bom? Que portas se abriram para ele? Continuava morando no mesmo pardieiro. Continuava contando centavos. Passara a temer pela própria vida. Perdera até mesmo sua identidade. No momento que seus olhos brilhassem em amarelo e seu rosto se tornasse animalesco perderia a solidariedade até mesmo dos de sua raça. Eles, todos eles, brancos e negros, se lembrariam que eram de uma única espécie, a humana, e que ele, Boyd, não pertencia a ela.
Estava mais forte, mais rápido, mais ágil. Mas, tinha que esconder essas habilidades. Enxergava, escutava e sentia odores melhor. Isso significava enxergar melhor as expressões de desagrado ou de medo que as pessoas faziam quando o viam aproximar-se, escutar de longe os comentários depreciativos ou preconceituosos que faziam quando passava e sentir mais forte o cheiro de lixo do lugar onde morava.
Mesmo entre os lobisomens havia classes. Havia a aristocracia puro-sangue. Lobisomens que, como Peter e Derek, não nasceram humanos, tinham controle da transformação e podiam criar outros. Criá-los e abandoná-los à própria sorte. Era assim para a maioria dos transformados. É por isso que existiam os ômegas, miseráveis incapazes de se controlarem nas luas cheias e que por isso mesmo tinham uma expectativa de vida limitada a poucos meses. Era questão de tempo até serem mortos por homens amedrontados, porém armados e em superioridade numérica. Os homens sempre podiam contar com a superioridade numérica. E mesmo um covarde era letal com uma arma na mão.
Dentre os ômegas, uns poucos ascendiam a betas. Um beta aprendia a controlar a própria agressividade nas luas cheias e isso lhes dava vantagem na inevitável convivência com humanos. Aumentava a sua expectativa de vida e lhes dava chance de subir mais um degrau. A de superar e suceder o seu criador, tornando-se um alfa. Matando o alfa anterior.
Mas, e se um ômega matasse um alfa? A perspectiva lhe pareceu extremamente tentadora.
Não importa que Derek mentisse dizendo que ele era um beta. Sabia que era um ômega. Estaria sempre em desvantagem contra o alfa. Não podia assumir a forma animalesca de lobisomem. Não fora suficientemente treinado. Nunca entrara em um combate real. Já Derek era um alfa puro-sangue. Crescera sabendo o que era e havia treinado anos para um dia enfrentar caçadores. Nas vezes que treinara com Derek, fora rapidamente dominado. Mesmo lutando por sua vida, mesmo impulsionado pelo ódio que sentia dele naquele momento, nunca teria chance contra Derek numa luta limpa.
Mas, se sua infância em Phoenix lhe ensinou algo, é que na luta pela sobrevivência o que importa é o resultado e não os meios.
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Derek cambaleia atingido na nuca por uma pedra. O tamanho da pedra e a força com que foi arremessada teriam matado um homem. Não mataria um alfa, mas podia incapacitá-lo pelo tempo necessário.
Derek, atordoado, apóia-se no tronco da árvore mais próximo. Sente a vista escurecer, mas resiste à tentação de resvalar na inconsciência. Não sabia quem o atacara ou o que o atingira, mas isso também não importava. Sabia que para sobreviver tinha que estar preparado para tudo. SEMPRE. Inimigos dispostos a matá-lo era o que não faltava.
O cheiro denuncia o agressor antes mesmo do golpe, mas, no estado em que estava, Derek não era páreo para a velocidade e a fúria do lobisomem enraivecido. Boyd ataca com as garras. Golpes seguidos retalham a jaqueta de couro e cortam carne e músculos. Um corte, por sorte superficial, cria uma linha vermelha na garganta de Derek.
Mesmo seriamente ferido, Derek esboça uma reação. Agarra Boyd pelo colarinho e o lança à distância, fazendo que derrube com estrondo uma caixa de correio.
Boyd sente o cheiro embriagante do sangue que escorre dos cortes abertos no peito e no braço direito de Derek. Sabe que os cortes logo começariam a fechar. Para manter a vantagem, teria que bater mais forte. Derek era um adversário formidável. Agora que começara, teria que ir até o fim. Teria que matá-lo ou seria morto por ele.
Apanha a caixa de correio caída e investe com ela contra o alfa. A pequena caixa metálica se amassa contra a cabeça de Derek, que mais uma vez cambaleia, mas, nem mesmo assim, cai.
Boyd, então, agarra Derek pela jaqueta rasgada e o empurra de frente, com toda a sua força, contra o muro da casa em frente. O impacto quebra parte do reboco do muro e algumas costelas de Derek.
Derek tomba de joelhos e Boyd o levanta pela jaqueta com uma mão enquanto com a outra dá seguidos murros no rosto do lobisomem inconsciente.
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Dean Winchester tinha deixado Danny em frente ao prédio de dois pavimentos onde este residia. Ainda estava extremamente constrangido com o comportamento de Sam. Tinha convencido o rapaz a participar de uma brincadeira e Sam por pouco não o matara. Danny tinha toda a razão de não querer mais olhar na cara dele.
Sam tinha razão quando o chamava de homofóbico. Ele era. Mas, também era capaz de deixar de lado idéias pré-concebidas face a situações reais. Podia continuar sendo homofóbico e isso não ia mudar o fato de achar Danny Mahealani alguém excepcional. Porque ele era. Não era à toa que conquistara o respeito dos colegas do colégio. As observações perspicazes que fizera. A habilidade que demonstrara ter com um computador. Danny era tão bom como Frank Devereaux e uma companhia muito mais agradável.
Danny poderia ajudá-los - e muito - a enfrentar a ameaça que rondava Beacon Hills. Mas, Sam botara tudo a perder. Danny escutara suas desculpas de forma educada e dissera que, apesar de tudo, gostara de tê-lo conhecido, mas fora vago quanto a um novo encontro para continuarem o que começaram.
Dean estava retornando para o hotel, quando escuta os sons da batalha entre Derek e Boyd. Não que soubesse que era uma briga de lobisomens. Mas, as ruas daquele bairro estavam vazias e silenciosas, o que destacava qualquer som mais alto. Ainda estava distante. A distância não permitia que visse claramente a cena, mas parecia que havia um homem caído sendo espancado por um brutamontes. Não podia se omitir face a tal covardia. Foi surpresa quando os faróis do Impala fizeram brilhar em amarelo os olhos do atacante.
Um lobisomem?
A aproximação do Impala faz o lobisomem interromper seu ataque. Dean vê quando ele solta o homem que cai pesadamente no chão e ali fica, aparentemente morto.
Agora é Dean que sente o sangue subir à cabeça ao imaginar que mais um homem morreu vítima de um monstro e que ele não agiu rápido o bastante para salvá-lo. Dean abre o tambor do revólver e substitui duas das balas por balas de prata. Faz isso muito rápido. Mal parou o carro e já estava de pé, ao lado do veículo, com o revolver apontado para a cabeça do lobisomem.
Dean encara o lobisomem e se surpreende ao ver que se trata de um homem negro. Boyd, sem saber que se trata de um caçador experiente, tenta assustá-lo com sua aparência animalesca e seu rosnado. Como Dean não se mostra intimidado, Boyd caminha na direção do homem armado, com a intenção de arrancar a arma de suas mãos. Sente-se poderoso. Sabia que uma simples bala não podia matá-lo.
Não era uma simples bala. Boyd descobriu isso tarde demais.
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AQUI NÃO HÁ ESPAÇO PARA DÚVIDAS. A PARTICIPAÇÃO DE BOYD NA FIC ACABA AQUI. AOS FÃS RESTA CHORAR SUA MORTE.
E, LEMBRANDO QUE A ARMA DE DEAN TEM DUAS BALAS DE PRATA, DEREK PODE SER O PRÓXIMO.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: A VIDA DO LOBISOMEM DEREK NAS MÃOS DE DEAN WINCHESTER
08.09.2013
