CAPÍTULO #23
LOCAL: IMEDIAÇÕES DA RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA REYES
EM SEGUIDA
Dean se aproxima do lobisomem caído. Boyd fora abatido com um único tiro certeiro entre os olhos. Dá um sorriso de canto de boca, satisfeito com a própria perícia. Desfaz o sorriso ao lembrar que perto um homem agonizava vítima do monstro.
Precisava se apressar e retirar o corpo do lobisomem dali. O tiro ia trazer a polícia ao local. O problema não era exatamente a polícia. Para todos os efeitos, era um oficial do FBI. O problema era o morto ser um lobisomem e manter a aparência de lobisomem depois de morto. Tudo o que não precisava era atrair a atenção da imprensa para Beacon Hills. O corpo precisava desaparecer.
Se ao menos pudesse fazê-lo parecer humano. Não pretendia deixar que o corpo fosse encontrado, mas imprevistos acontecem. Melhor prevenir. Uma coisa ele podia fazer. Fechar as pálpebras do morto. Esconder aqueles inquietantes olhos amarelos.
Achou melhor também forçar a mandíbula a fechar, para disfarçar os caninos proeminentes. Achou o resultado satisfatório. Já parecia mais homem do que monstro. Parecia jovem, mas não conseguia atribuir uma idade ao morto. Foi inevitável lembrar que um dia o monstro tinha sido um homem. Um dia ele tinha sido a vítima. Um outro monstro fez dele o que ele era hoje. O verdadeiro inimigo, o criador de monstros, estava solto em algum lugar fazendo mais monstros e mais vítimas. Mas, ia encontrá-lo e matá-lo.
Tinha, no entanto, um problema mais imediato. Agachou-se e tomou a pulsação do homem inconsciente. Era surpreendente que ainda estivesse vivo. Afastou com cuidado os farrapos da jaqueta e da camiseta e viu cortes profundos por todo o tórax e abdômen do homem. Não eram cortes de borda regular como os feitos por uma lâmina afiada. A carne fora dilacerada. Não era preciso ser médico para concluir que o estado do homem era desesperador. Ele precisava de assistência médica urgente. Seria um verdadeiro milagre se chegasse vivo ao hospital.
Dean liga para a emergência e pede uma ambulância equipada com suporte de vida.
A iluminação não era boa no local. Dean precisa se aproximar bastante para poder observar atentamente o rosto do homem. Desistiu de tentar imaginar a aparência normal dele. O monstro tinha feito um estrago enorme no rosto de sua vítima. Havia grandes cortes no couro cabeludo feitos pela caixa metálica. O sangue que escorrera empapando o cabelo ainda não estava de todo coagulado. Havia arranhões extensos na face e no pescoço feitos por garras. Mas, o estrago maior devia-se aos murros. A cara do sujeito estava horrivelmente inchada. Roxa devido aos muitos hematomas. Provavelmente o nariz estava quebrado. Se sobrevivesse, precisaria passar por várias cirurgias plásticas reparadoras.
Um início de reconhecimento cruzou a mente de Dean. Havia algo de familiar no homem caído. Mas Derek tinha feito a barba e trocado de roupa após o encontro da manhã com os caçadores e a mente de Dean não uniu as duas pontas.
Mesmo inconsciente, o homem dava sinais de sofrimento. Parecia que até o ato de respirar causava-lhe dor. Dean olha penalizado para ele. Malditos lobisomens. Pelo menos aquele não mataria mais ninguém. Sem tocar no corpo, buscou marcas de mordida. Nenhuma visível. Menos mal. Se o homem não fora mordido, havia uma chance, mesmo que pequena, dele não estar infectado. Mas era muito pouco provável. Estava mais para milagre. Talvez se Cass ..
Não. A vida tinha que seguir seu rumo normal. As coisas seriam como tivessem que ser.
Talvez a própria infecção estivesse ajudando o homem a sobreviver. Sabia de relatos de cicatrização acelerada de ferimentos em lobisomens. A ficha médica de Scott McCall parecia apontar nesta direção. Ele próprio nunca vira acontecer. Todos os lobisomens que matara permaneceram mortos. Separar a cabeça do corpo certamente ajudava.
De qualquer forma, se o homem estivesse mesmo infectado não teria alternativa senão matá-lo antes de deixar a cidade. A maioria dos caçadores nem se daria ao trabalho de levá-lo a um hospital. Libertariam o homem daquele sofrimento e se poupariam do trabalho de caçá-lo no futuro.
Dean se aproxima do homem em evidente estado de sofrimento analisando as opções que tinha. Achou-se, no entanto, na obrigação de dar conforto e esperança ao homem.
- Se estiver me escutando, não se entregue. Já chamei a ambulância. Em poucos minutos, você vai ser tratado. A dor vai passar. Tenha esperança. Vai dar tudo certo.
Dean gostaria muito de acreditar nas próprias palavras.
Dean se volta então para o lobisomem morto e encara o desafio de esconder o corpo no porta-malas do Impala. Como se o porta-malas já não estivesse cheio de tralhas, a começar pelo enorme baú de armas e os muitos sacos de sal. Muda alguns itens de lugar para abrir espaço. Não ia ser fácil. O lobisomem era um homem grande. O lobisomem era um homem? Aquela frase precisava ser reformulada, mas não sabia como.
.
'Inferno.' O desgraçado do monstro parecia pesar uma tonelada. Se ao menos Sam estivesse ali para dar uma mão. Por outro lado, felizmente Danny não estava. É claro que a presença de Danny não mudaria em nada o roteiro. Ainda pararia o carro para ajudar o homem atacado e ainda ia atirar para matar o lobisomem. Mas, foi melhor que Danny não estivesse. Ele provavelmente ficaria muito abalado. Já tivera emoções suficientes por um dia. Dean sorriu ao lembrar do rapaz e do quão diferentes eram os mundos em que viviam.
.
'Finalmente.' Ia precisar de outro banho depois de todo o esforço para colocar sozinho o corpo do lobisomem no porta-malas do carro. Estava todo suado. Pelo menos, não estava suado e cheio de pelos. Aquele devia ser um caso raro de lobisomem sem pelos.
Fecha o porta-malas. Olha para o homem ferido. Confere o relógio. Tinham se passado mais de quinze minutos desde que ligara para a emergência. 'E essa maldita ambulância que não chega?'
.
- Clay? Jake. Escuta. Eu estava voltando para o hotel quando me deparei com um lobisomem atacando um homem. (..)
Jake se afastara e falava baixo para que o homem ferido não escutasse. Mesmo acreditando que o homem ainda estava desacordado, anos de experiência faziam Jake não facilitar com os procedimentos de segurança.
- (..) Não. Nenhum dos que conhecíamos. Um lobisomem negro. (..) Não. Não é que ele tivesse a pelagem negra. Aliás, ele nem tinha pelos. Negro no sentido de afro-descendente. (..) Está morto. (..) Não precisa. Eu dou conta sozinho. (..)
Derek tinha acabado de recuperar a consciência, mas a dor dificultava direcionar o pensamento para qualquer outra coisa que não fosse a própria dor. As lembranças do ataque covarde de Boyd estavam voltando. Não sabia o porquê de tanta fúria. O que fizera para que ele o atacasse? Para que quisesse matá-lo? Ele quase conseguira seu intento. Teria conseguido se o caçador não tivesse intervindo. Que ironia. Salvo por um matador de lobisomens. Salvo? Não, não estava a salvo. Se o caçador suspeitasse de sua identidade, estava condenado.
Derek descobre que não consegue se mover. O menor movimento causava uma dor insuportável. As costelas ainda não estavam recalcificadas no lugar certo. Os cortes foram muito profundos e a cicatrização era um processo lento de dentro para fora. Lento e doloroso. Os tecidos mais internos e os músculos já haviam começado a se reconstituir, mas acreditava que o processo de cura não se completaria em menos de seis horas. Ainda estava perdendo sangue, mas sentia que a hemorragia começava a estancar. Isso diminuía as chances de que entrasse em choque pela perda acentuada de sangue. Sentia seu corpo reagindo. A regeneração estava acontecendo, mas ainda voltada para a reposição do sangue perdido pelo organismo.
- (..) Não parece ter sido mordido, mas é possível que tenha sido infectado. Por enquanto, não há como saber ao certo se foi ou não. (..)
Escutou o caçador falando ao celular. Seu ouvido sensível permitia que escutasse inclusive o interlocutor. Reconheceu a voz do agente Clay comentando 'Provavelmente ele foi. Em sendo assim, o que pretende fazer? Vai matá-lo? Se vai, é melhor que o faça antes da ambulância chegar.'
Derek estremeceu. Sabia que muitos caçadores matavam também as vítimas de ataque de lobisomem. Estava completamente indefeso. A mercê do caçador. Não podia nem mesmo fugir. Se tentasse não iria longe. No estado em que estava mesmo uma bala comum poderia ser mais do que seu organismo enfraquecido poderia lidar. Uma bala na cabeça e seria o seu fim.
Um segundo ramo de wolfsbane o conduzira ao celular da Erica. O perdera na luta contra Boyd. Mas, ficara claro que Isaac e Erica havia sido emboscados pela mesma pessoa. Scott, Isaac e Erica foram atacados e levados. Podiam naquele momento estar tão mortos quanto Boyd estava. Ele próprio podia não escapar com vida. A traição de Boyd o jogara indefeso nas mãos dos caçadores.
- (..). Não. Por menor que seja, existe a chance dele não estar infectado. Vamos dar a ele o benefício da dúvida.
Derek não percebera que prendera a respiração enquanto acompanhava os caçadores discutirem sobre quando dariam cabo dele. Se imediatamente ou em mais algumas horas, quando ficasse evidente para todos que estava se curando rápido demais.
Por um lado precisava que o processo de cura fosse rápido, para que tivesse condições de fugir de um caçador armado e experiente. Por outro, a rapidez do processo denunciaria a sua natureza sobrenatural e poria os caçadores no seu encalço.
Estava ferrado.
.
- O agressor fugiu quando viu meu carro se aproximando e largou a vítima neste estado. Não consegui ver direito, mas ele tinha algo nas mãos quando fugiu. Creio que era a arma que usou para causar esses ferimentos. Uma madeira com pregos, talvez.
- O senhor avisou a polícia?
- Ainda não. Eu sou o agente Jacob Gray, do FBI. Eu passo amanhã cedo na delegacia e falo com o xerife Stilinski. Por agora, eu sigo vocês até o hospital no meu carro.
.
Derek foi imobilizado pelos paramédicos, posto sobre uma maca e transportado para a ambulância, onde colocaram uma máscara de oxigênio sobre sua boca e nariz e lhe aplicaram uma injeção de antibiótico. Não podiam aplicar analgésicos antes dele ser examinado por um médico.
O processo de cura atuava segundo a lógica da sobrevivência, priorizando o que fosse mais importante para restabelecer a funcionalidade do corpo. Agira primeiro para estancar a hemorragia e restaurar os músculos e os tecidos mais internos. A hemorragia já fora estancada em todos os ferimentos. A regeneração avançava e já começava a acontecer também nos tecidos superficiais. Os cortes na cabeça começavam a fechar. O sangue coagulado disfarçava, mas quando chegassem ao hospital o ferimento já não existiria. Era aí que morava o perigo.
14.09.2013
