CAPÍTULO #25


LOCAL: BEACON HILLS HOSPITAL

HORAS ANTES

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Stiles entrou no hospital com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Estava tão abatido que o vigia do hospital foi até ele e perguntou se o estado do xerife era assim tão sério. Stiles ficou um tempo olhando com cara de abobalhado enquanto o homem falava sem parar. Quando ia responder, Stiles pela primeira vez sentiu na pele como é tentar responder algo a alguém que fala sem dar abertura para o outro responder. Até aquele momento, esta sempre fora uma prerrogativa dele, Stiles.

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Stiles fora informado mais cedo pelo policial Chad Dalton que seu pai sentira-se mal e que passaria a noite no hospital em observação. O policial reafirmara várias vezes que não havia motivo para ele ficar preocupado. Que o xerife tivera um dia estressante e que tivera um pique de pressão. Mas, que já fora medicado e estava perfeitamente bem. A internação era apenas para forçá-lo a descansar por algumas horas.

A primeira coisa que passou pela cabeça de Stiles foi que aquele estava sendo o pior dia de toda a sua miserável vida. Ou pelo menos o pior desde que sua mãe morrera.

O policial Chad estranhando o silêncio que se seguira ao final de sua explanação sobre o estado de saúde do xerife, precisou chamá-lo diversas vezes pelo nome antes de arrancar de Stiles uma resposta monossilábica.

- Obrigado, policial. Eu passo no hospital.

Meia dúzia de palavras era ser monossilábico para quem falava tanto quanto Stiles. O policial desligou o telefone intrigado com a estranha reação de Stiles. A ligação aconteceu antes do encontro do policial com Boyd e, naquele momento, não passava pela cabeça do policial que Scott McCall poderia ser a vítima do tiroteio no shopping.

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Fora Stiles quem dera carona a Scott até o shopping. Já em casa, quando recebeu os primeiros twitters no seu celular falando de um tiroteio no shopping e de um lobisomem morto, foi invadido por um desespero tão grande que não conseguia respirar.

Começou então a puxar o ar cada vez rápido e com mais força, mas a sensação de sufocamento persistia. Sabia que estava hiperventilando, mas não conseguia evitar. Já não tinha mais qualquer controle sobre as próprias reações. O pânico impedia a formação de pensamentos coerentes. Seu coração batia descompassado. Sentia palpitações e mais de uma vez sua vista escureceu. Por pouco não caiu no chão.

Meio que desabou sobre a cama e ali ficou, deitado de costas, fazendo força para trazer ainda mais ar para os pulmões. Seu peito doía e a sua única certeza é também ele morreria naquele dia. Encontrava conforto naquela ideia. Se reuniria novamente à sua mãe e a Scott e com certeza seu pai também logo se juntaria a eles.

Aquilo durou uma eternidade. Quando voltou a ser capaz de pensar, mal sentia o corpo. Qualquer movimento era acompanhado de dores. Câimbras. Forçou-se a movimentar os dedos das mãos e dos pés. Aos poucos, o formigamento foi passando. Alguns espasmos, mas ele finalmente conseguiu se pôr sentado na cama. Sentia a garganta seca e a necessidade premente de beber água.

Foi e voltou da cozinha se arrastando, ainda anestesiado, quase um zumbi. Deu uma passada no banheiro para se aliviar e jogar água no rosto. Suspirou, exausto. Seus pensamentos já estavam fluindo melhor e isso não era bom. Com os pensamentos, as lembranças estavam retornando. Scott. Algo ruim acontecera com Scott.

Ainda se sentia desorientado quando voltou ao quarto e sentou-se na cama. Seu olhar pousou sobre o celular largado na mesa do computador. As lembranças estavam voltando e não demorou para que uma lágrima solitária escorresse por sua face. Com o coração apertado, pegou o celular e olhou a lista de mensagens. Mensagens do pessoal do colégio, mas nenhuma de Scott. Nenhuma de Lydia. Aquilo não era um bom sinal.

Ao ler a primeira das muitas mensagens #ILOVESCOTT e #SCOTT4VER, Stiles caiu num choro compulsivo. Scott morrera. SCOTT MORRERA POR SUA CULPA.

Stiles passou as horas seguintes se torturando com conjecturas sobre tudo o que poderia ter feito para salvar Scott se o tivesse acompanhado em sua busca por Allison como ele pedira. Se estivesse com ele, teria salvo Scott como fizera tantas vezes antes.

Ou poderia ter salvo Scott simplesmente se recusando a levá-lo até o maldito shopping para encontrar Allison. Devia ter gritado nos ouvidos sensíveis do amigo que isso de procurar Allison era uma grande idiotice. Scott era mesmo MUITO BURRO. Burro por acreditar em Allison. Ela não era diferente da mãe, de Kate ou de Gerard. Todos daquela família eram psicóticos assassinos.

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Até que não tinha mais força nem ânimo nem mesmo para continuar se culpando. Deitou-se de lado e recolheu as pernas trazendo-as de encontro ao corpo, numa posição que lembrava a fetal. Estava decidido a ficar ali até que o mundo acabasse e seu sofrimento tivesse fim.

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Quando o telefone tocou, ele pensou em não atender. Ao saber que o pai fora internado, Stiles teve certeza que aquele era o pior dia de toda a sua miserável vida.

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Podia parecer que, comparado com a morte de Scott, a internação do xerife por uma crise hipertensiva já controlada, fosse algo pequeno. Mas, não para Stiles.

Stiles se deu conta que agora ele só tinha o pai. Talvez, fosse como o policial Chad dissera e o pai estivesse bem. Mas, ele, Stiles, não estava. Precisava de um ombro para chorar. Precisava do pai.

Num insight, entendeu o que acontecera com o pai. O organismo de seu pai reagira à morte de Scott de um modo diferente do seu. Mas, de forma igualmente intensa. Era reconfortante saber que tinham esta sintonia. Que estavam unidos também no amor por Scott. Sentiu seu coração ser invadido uma onda de amor pelo pai. E, em meio a tanta desgraça, sorriu.

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Stiles seguiu direto para o hospital. Estava mais ansioso para ver o pai do que preocupado com ele. Ou melhor: não estava preocupado QUANDO ENTROU NO HOSPITAL. Mas, então, o vigia se aproximou dele e começou a falar e falar e falar. Aquele falatório todo estava deixando Stiles exasperado. Stiles estava tentando ser educado com alguém que se mostrava preocupado com ele e seu pai, mas já não estava realmente prestando atenção no que ele dizia.

Foi então que o vigia disse que o xerife era um bom homem e que não ninguém merecia morrer tão jovem. Aquilo foi como receber um soco na boca do estômago. Stiles começou a tremer. SEU PAI TAMBÉM TINHA MORRIDO? QUE BRINCADEIRA CRUEL DO DESTINO ERA AQUELA? Sentiu um novo ataque de pânico dominá-lo.

O vigia se expressara de forma confusa. O xerife passara mal e o filho da enfermeira McCall, que ele sabia ser amigo do filho do xerife teria sido assassinado. Ele ou alguém jovem como ele. Ele juntou as duas informações em uma única frase e gerou aquele mal entendido. O ataque de pânico de Stiles o assustou tanto que finalmente ele se calou, saiu de fininho e voltou para o seu posto. Mas, o estrago estava feito.

A atendente chamou os enfermeiros e Stiles foi levado para a enfermaria. Uma enfermeira mais experiente segurou Stiles pelos braços, buscando atrair para si e para suas palavras a atenção do rapaz. O próprio Stiles, em seu descontrole, dera a dica que o fator que desencadeara a crise fora a sua preocupação com o estado do pai e a enfermeira passou a repetir em tom tranquilizador que o xerife estava bem, que Stiles ia poder vê-lo assim que se acalmasse e que não havia motivo para ele ficar ansioso.

Quando a crise finalmente cedeu, Stiles estava com uma aparência horrível. A cara de quem presenciou um massacre. A enfermeira deu então a ele um sedativo leve e ficou com ele, segurando sua mão e dizendo que tivesse paciência e esperasse que ela já tinha pedido que trouxessem informações atualizadas do estado do xerife. Ficaram assim até que ele adormeceu.

Stiles ainda estava adormecido no ambulatório quando a ambulância chegou trazendo Derek Hale. Continuava adormecido enquanto Derek tinha seus ferimentos lavados e tratados. Ele só bocejou e abriu os olhos quando Derek tinha sido levado da sala de tomografia computadorizada para uma unidade de tratamento intensivo. Mas, ainda ficou um bom tempo deitado de olhos fechados aproveitando o silêncio e paz daquele lugar.

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Depois de dormir por quase três horas, Stiles levantou da cama com um astral melhor e a expressão do rosto mais desanuviada. Estava com muita sede e queria ver o pai o quanto antes.

- Enfermeira, o meu pai .. ?

- O xerife está num dos quartos, descansando. E você? Como está se sentindo?

- Estou bem. E vou ficar ainda melhor depois de ver o meu pai.

- Você assustou muita gente na recepção. Você tem essas crises com muita frequência?

- Não! Não! Claro que não. Eu tomo medicação e fico bem. Mas, hoje .. Teve essa história do tiroteio. Meu pai é o xerife. Me ligaram dizendo que ele fora internado. E aí, eu fiquei preocupado e ..

- Entendo. Mas, fique tranquilo que seu pai está bem. Eu vou chamar um médico para examinar você e, se estiver tudo bem e tenho certeza que está, ele te dá alta e você pode subir para ver seu pai.

- Obrigado.

O médico era jovem, mas bastante focado e minucioso. Fez questão de saber detalhes do histórico de crises de Stiles e dos remédios e da frequência de administração. Aparentemente, estava tudo certo com seu tratamento. O médico finalmente se deu por satisfeito e liberou Stiles.

Stiles seguia pelo corredor do segundo piso do hospital quando viu passar uma figura que lhe trazia péssimas lembranças. Instintivamente, escondeu-se temendo ser visto pelo homem.

Stiles não conhecia o homem pelo nome, mas descobrira da pior maneira possível que ele era um dos capangas de Gerard Argent. Aquele era um dos homens que o espancara após o jogo em que sua jogada dera a vitória para o time de lacrosse de Beacon Hills. Era um dos homens que participara da sessão de torturas de Boyd e Erica. O que um tipo com aquele estava fazendo num hospital vestido de branco?

Stiles seguiu o homem pelos corredores à distância, tomando o máximo cuidado para não ser visto por ele. Viu quando ele bateu na porta de um dos quartos e aguardou abrirem a porta dando sinais de impaciência. Aquela era a ala onde disseram que seu pai estava internado e pela lógica da numeração era aquele o quarto ou um bem próximo. Seria possível que o miserável estivesse atrás de seu pai?

A porta abriu e Stiles viu de relance uma enfermeira gorda e mal encarada olhar para um lado, depois para o outro e então puxar rapidamente o homem pelo braço para dentro do quarto. Seriam namorados? Não, impossível. Homem algum teria coragem de encarar aquela mulher. A mulher devia ser também alguém ligado aos Argent.

A porta é fechada e trancada por dentro. Stiles se aproxima silenciosamente, olha em torno para certificar-se que não está sendo observado e cola o ouvido na porta. Os sons chegavam abafados, mas, naquele silêncio, dava para escutar.

- Derek Hale?

- O próprio. Muito ferido. Foi trazido inconsciente, mas, se deixarmos, vai acabar se recuperando. Essa é a melhor chance que já tivemos.

- E pretende fazer o quê? Recebeu alguma instrução?

- Não precisamos de novas instruções. Conhece as diretrizes. Sabemos com certeza que trata-se de um lobisomem. Um alfa. Vou acabar com o monstro. Eu vi o prontuário. Aqui ainda não sabem quem ele é.

- E como está pensando fazer?

- Uma injeção. Vão pensar que não resistiu aos ferimentos. E temos um homem nosso entre os legistas.

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'Oh My God! Eles vão matar o Derek! Preciso fazer algo para impedir. Preciso ..

NÃO! Esse maldito sourwolf é o culpado por tudo de ruim que aconteceu na minha vida e na do Scott nestes dois últimos anos. Scott morreu porque foi transformado em lobisomem. Quem transformou Scott foi Peter, mas Derek, mal virou alfa, transformou Isaac, Boyd e Erica. Que mais cedo ou mais tarde vão matar alguém ou vão ser mortos por caçadores. Sempre virão caçadores. Um alfa sempre vai precisar criar uma alcateia para enfrentar os caçadores. Isso nunca vai terminar. A guerra entre os Hale e os Argent já custou a vida de Scott. Quantos mais vão precisar morrer? Quantos ainda vão ser transformados? ISSO PRECISA PARAR. É como o agente Jake deixou subentendido. Para acabar de vez com as mortes e com gente sendo mutilada .. Para garantir que a cidade volte a dormir tranquila .. talvez seja melhor .. deixar que Derek morra'.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: STILES, .. VIVA E DEIXE MORRER!


05.01.2014