CAPÍTULO #30
.
LOCAL: APARTAMENTO DE DANNY MAHEALANI, NA REGIÃO CENTRAL DE BEACON HILL
IMEDIATAMENTE DEPOIS
.
- Eu não mostrei a ele. Você não precisa matá-lo.
- ELE? ELE QUEM?
- O Jackson. Ele não viu o vídeo. Não sabe o verdadeiro nome de vocês. Ele não representa uma ameaça. Não há nenhum motivo para que o matem.
- Quanto a isso, não se preocupe. Eu não planejo matá-lo. E quanto ao vídeo, eu não espero que acredite, mas aqueles no vídeo não somos nós.
Na busca por amor e felicidade, coisas ruins às vezes acontecem com os gays. Danny sabia de muitas histórias que terminaram mal. Mais de uma vez se pegou pensando em como reagiria se acontecesse com ele. Aquele era o seu momento da verdade. O momento de provar para si mesmo que era o homem que desejara ser. O momento de mostrar ao seu agressor que ser gay não significa ser covarde. Não ia implorar por sua vida. Não ia. Clay era um psicopata. Nada que dissesse ia adiantar. Restava-lhe morrer com dignidade.
- Para que continuar mentindo? Vai me matar mesmo. Por que perder tempo em negar o óbvio?
A certeza da inevitabilidade da morte deu a Danny a coragem para ser sarcástico. Era a única reação que podia esboçar. Podia ser grande e forte, mas nunca fora bom com os punhos. Falar talvez lhe desse mais uns poucos minutos. Mesmo um minuto às vezes faz diferença. Tudo pode mudar em um minuto. Mas, havia o risco de piorar as coisas. Irritar um agressor podia fazê-lo explodir em violência. Mas, Samuel Winchester não pretendia entrar naquele jogo.
- Realmente é perda de tempo. Qualquer coisa que falemos será perda de tempo. Eu não tenho que ficar me explicando. Mas, ainda assim, estou dizendo a verdade quando digo que aqueles no vídeo não somos nós.
Samuel Winchester encosta a ponta da faca de caça no peito de Daniel Mahealani, bem na direção de seu coração. Danny recua ao sentir a ponta afiada da lâmina pressionada contra sua pele. Recua até dar de costas com a parede. Fim de linha. Danny fecha os olhos e faz uma prece silenciosa. Tenta esvaziar a mente para afastar o medo. Era estranho. Sentia-se em paz. Em paz consigo mesmo e com o mundo. Não se considerava um santo, mas sempre fizera o acreditava ser o certo. Amar não é pecado. Vale o sentimento, não a quem é dirigido. Fizera o seu melhor. Acreditava que isso seria reconhecido e que, se é verdade que existe algo além deste mundo, a ele estava destinado um bom lugar no outro lado.
Danny sente quando a faca é afastada de seu peito. Com certeza, para dar mais força ao golpe. Danny se prepara para ter o coração transpassado. Acreditava que sentiria uma dor aguda e depois .. mais nada. Mas, os segundos passam e nada acontece. A demora começa a deixar Danny ansioso. Aquilo era de um sadismo tão grande que chegava a ser desumano. Fazer alguém desejar que a morte viesse logo só para se ver livre da angústia da espera.
Após todo um minuto de aflitiva espera, Danny reabre um olho. Depois o outro. Clay ainda estava à sua frente, mas a determinação que mostrava minutos antes tinha desaparecido de seus olhos. Ele parecia .. derrotado.
- Eu esperava que, para se salvar, você tentasse controlar a minha mente ou lançar algum tipo de feitiço. Que fizesse algo que comprovasse esses seus poderes.
- Que poderes? Eu NÃO TENHO poderes. Eu não sou uma criatura sobrenatural, se é a isso que está se referindo. SOU HUMANO. Sou uma pessoa como qualquer outra.
- DROGA!
O braço que empunhava a faca pendia ao longo do corpo. Samuel olhava para Danny, mas seu olhar não estava dirigido para ele. Na verdade, Sam olhava para dentro de si próprio, tentando encontrar uma saída. Ele apenas parecia estar no controle da situação. A verdade é que não sabia o que fazer. A sensação que tinha era de profundo desalento. A de quem perdeu o seu último fio de esperança. A esperança de que seus problemas se resolveriam num passe de mágica. Tudo é muito mais difícil quando acontece na vida real. Quando o dia amanhece e os problemas ainda estão lá, esperando você.
Sam se vira e deixa apressado o apartamento, sem se preocupar em fechar a porta. Desce as escadas como se fugindo de um monstro e busca consolo no cheiro familiar do estofamento do carro da família. Aquele carro e seu cheiro estavam presentes nas suas lembranças mais antigas. Eram parte indissociável de sua história. A única coisa invariável em toda a sua existência. O Impala era como uma âncora firmemente amarrada na realidade.
Sentado no banco do motorista, as duas mãos ao volante, Sam percebe que lágrimas escorriam pela sua face. Então, era verdade. Era tudo verdade. O que Dean dissera fazia sentido, mas não queria .. não podia acreditar. Não queria acreditar que o irmão pudesse se apaixonar por um homem. Era mais cômodo acreditar que ele fora enfeitiçado.
Sam tentou imaginar qual seria a reação de John. Talvez a mesma que tivera. Era como se o irmão que conhecera tivesse morrido e ele, Sam, estivesse passando pelos cinco estágios do luto. Negação. Raiva. Negociação. Sim, acabara de passar pelo terceiro estágio, o da negociação. O de tentar reverter a perda para fazer seu mundo retornar ao que era antes. No caso, tentar reverter o feitiço matando o feiticeiro.
Entrava agora no quarto estágio: o da depressão. Sentia-se péssimo. Quase matara o sujeito por quem o irmão se dizia apaixonado e isso só pioraria tudo. Se ao menos pudesse voltar atrás. Nunca deveriam ter entrado naquela boate. Nunca deveriam ter vindo para aquela cidade. Os Argent podiam perfeitamente cuidar de seus lobisomens. Tudo o que queria naquele instante era ir embora para sempre daquela maldita cidade.
Sam deixou aquela linha de pensamento interrompida. Inconclusa. Faltou o reconhecimento de que, mais cedo ou mais tarde, gostasse ou não da ideia, chegaria ao quinto estágio do luto. ACEITAÇÃO.
.
Danny desaba, esgotado e confuso, no sofá da sala de seu apartamento. A porta permanecia aberta e ele não sentia forte o bastante para levantar de onde estava e fechá-la. Nem mesmo a hipótese de ver Clay entrando de novo no apartamento, faca na mão, para retomar do ponto em que pararam, lhe dava forças para fechar a maldita porta.
Clay não o pegara de surpresa. Sabia que ele estava a caminho. Instalara um programa de monitoração nos bancos de dados de empresas de cartão de crédito e de concessionárias de serviços públicos para que acusassem quando alguém acessava o sistema buscando informações sobre ele. Mas, não tivera tempo para pôr-se a salvo. Não com Jackson por perto.
Queria fugir, mas, antes, precisava despachar Jackson. E Jackson não era alguém fácil de despachar. Jackson o fizera perder preciosos minutos.
Jake o deixara em frente ao prédio e seguira em frente. Ao entrar no apartamento, encontrara Jackson sentado no sofá da sala a sua espera. Ele usara a sua cópia de emergência da chave para entrar. Queria desabafar. Estava abalado pela morte de Scott McCall.
Danny passara a tarde inteira com Jake e não ficara sabendo do tiroteio no shopping. Estava atônito. Scott McCall estava morto? Mas, quem o matara? Não fora Jake e, aparentemente, também não fora Clay. Quem então? Aquele fora um dia estranho. Tivera sorte daquela vez. Podia não ter da próxima. Precisava desaparecer.
Sabia onde podia se esconder até tudo se resolver. Na casa que pertencera a Matt Daehler.
.
.
LOCAL: NÃO IDENTIFICADO
.
- Finalmente!
- Estávamos preocupados. Cadê o Boyd?
- Morto.
- MORTO? Como aconteceu?
- O caçador o matou com uma bala de prata na testa.
- Qual deles?
- O mais velho. O que se apresenta como Jacob Gray.
- Isso não podia ter acontecido.
- Na verdade, FOI BOM que tenha acontecido.
- Como é que é?
- Me poupou o trabalho de matá-lo eu mesmo. O maldito traidor atacou Derek a uma quadra da casa de Erica Reyes. Derek estaria morto se não fosse a intervenção do caçador.
- Temia algo assim. Que Boyd não resistisse à pressão. Ele estava se sentido acuado. Injustiçado e com medo. Boyd deve ter achado que Erika corria risco de vida ou pior, que estava morta, e que o culpado por ela estar em perigo era Derek.
- Acabamos piorando as coisas. Deveríamos tê-lo pego em primeiro lugar.
- Não. O caçador nos prestou um favor. A punição para um lobo que se volta contra seu alfa é a morte. É assim numa alcateia.
- Ele era um garoto e estava confuso.
- Ele pode ter sido um garoto confuso. Garotos confusos existem aos montes. O problema é quando um garoto confuso é transformado em lobisomem. Um lobisomem não pode ser confuso. Um lobisomem confuso acaba MORTO. Boyd foi um grande erro. Um dos muitos cometidos por Derek. Convenhamos, Derek nunca teve aptidão para ser um alfa. Falta-lhe inteligência, determinação e estratégia.
- Qualidades que sobram em você.
- Exato, Srta. Morrell. Embora esteja sendo irônica, esta é a mais pura verdade.
- Boyd devia estar desesperado para investir contra Derek. Ele mal começou explorar suas habilidades. Ele nunca teria qualquer chance contra um alfa.
- Pelo jeito ele não sabia disso. O fato é que ele emboscou Derek e quase o matou. Derek deu entrada no hospital distrital entre a vida e morte.
- E como ele foi parar lá? Quem chamou os paramédicos?
- O caçador. Ele não sabia que se tratava de Derek.
- Mesmo assim é estranho. A maioria dos caçadores mataria a vítima de um ataque de lobisomem.
- Para alguém com fama de implacável é realmente estranho.
- Estamos perdendo tempo aqui. Precisamos tirar Derek no hospital. O mais rápido possível. Mesmo que os ferimentos sejam sérios, com o tempo ele acabará se recuperando totalmente. A recuperação dele acontece num ritmo que vai chamar a atenção dos médicos.
- Os Argent mantêm agentes no hospital. Se descobrirem que Derek está indefeso, eu não daria um tostão pela vida dele.
- Você devia ter impedido que Derek desse entrada no hospital. Sei lá, devia ter interceptado a ambulância.
- O caçador escoltou a ambulância até o hospital. Se eu me mostrasse, seria obrigado a enfrentá-lo.
- Devia ter arriscado. Você deve isso a ele. Afinal, é o seu sobrinho. E, como um bom membro da alcateia, deve lealdade a ele.
- Derek é o alfa. Para merecer a liderança, deve ser capaz de salvar sozinho a própria pele.
- Eu sabia! Chega de teatrinho, Peter. É isso que você queria desde o começo. Você queria Derek Hale morto.
.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: CAÇADO NO HOSPITAL
27.02.2014
