CAPÍTULO #32
LOCAL: BEACON HILLS HOSPITAL
QUINZE MINUTOS ANTES
.
- Agora somos só eu e você, monstro. Meu pai foi morto por um lobisomem e cada lobisomem que eu mato é uma homenagem que eu presto a ele. A sua vez chegou, Derek Hale.
.
O enfermeiro O'Connor tinha aguardado o horário em que serviam um lanche reforçado para o pessoal do turno da noite no refeitório do hospital. Um intervalo oficialmente de quinze minutos, mas que, na prática, era de vinte ou mais. É claro que quem estivesse atendendo a uma emergência perdia esse horário. Tinha que esperar o seguinte, três horas depois.
A unidade de tratamento intensivo tinha dez leitos e seis estavam ocupados naquela noite. O paciente sem nome horrivelmente retalhado era o único caso realmente crítico. Ele exigia atenção constante, mas não havia nenhuma nova ação a ser tomada a curto prazo. O que podia ser feito, já fora. Agora era rezar e aguardar que o próprio organismo fizesse a sua parte. Aos enfermeiros, restava acompanhar a evolução do quadro clínico.
Os demais pacientes estavam estáveis e não corriam risco de vida. A expectativa era que três deles fossem transferidos já na manhã seguinte para o centro de tratamento intensivo. Estava tudo calmo. Não havia motivo para que os enfermeiros não tivessem a sua parada para o lanche.
Em ocasiões como aquela, o procedimento-padrão era dois enfermeiros permanecerem em serviço. Um na central de monitoração e um no atendimento direto aos pacientes. Se fosse necessário, os demais seriam convocados pelo sistema de comunicação interno. Como já acontecia com os médicos. Mas, O'Connor convenceu os colegas que podiam fazer seu lanche tranquilos que ele dava conta do recado sozinho. Que qualquer problema os chamaria.
Na UTI, os pacientes eram monitorados por câmeras individuais durante as vinte e quatro horas do dia e o sistema conservava o registro das últimas 48 horas de gravação. Não deveria ser possível enganar o sistema. E não seria se o mesmo não tivesse sido uma doação da família Argent. Gerard Argent, como benemérito, fez questão de discutir pessoalmente a arquitetura do sistema e impôs um técnico de sua confiança na equipe que fez a implantação. Em suas palavras, para que tudo saísse perfeito.
Para que tudo saísse perfeito em situações como aquela.
Sem que a direção e a equipe do hospital sequer imaginem, a gravação podia ser interrompida ao simples toque de uma botoeira muito bem disfarçada instalada dentro do quadro de luz da ala de emergência. Foi o que o enfermeiro O'Connor fez ao chegar na ala de tratamento intensivo. Sem o olho eletrônico, sentia-se livre para matar o lobisomem. Precisava apenas ficar ali sozinho. Só ele e os pacientes. Aquela era uma morte que não ia surpreender ninguém. Ninguém que tivesse visto ou examinado o desconhecido nas suas primeiras horas no hospital alimentava esperanças que alguém com ferimentos tão graves pudesse sobreviver.
.
O'Connor puxou uma cadeira, posicionou-a ao lado da cama do lobisomem desacordado e sentou-se de frente para ele. Sorriu antecipando a satisfação que teria ao ver Derek Hale morto. E por saber que seria o responsável pela sua morte. Odiava Derek, sua arrogância e seu ar de superioridade. Queria assistir de camarote o lobisomem se debatendo em agonia quando a prata o queimasse por dentro. Era um católico fervoroso, mas amor ao próximo e piedade eram conceitos estranhos à forma como conduzia sua vida. O trauma de infância envenenara sua alma. Via a si mesmo como um cruzado solitário em luta abnegada contra as forças do mal que infectavam Beacon Hills.
Via os lobisomens como a expressão máxima do mal no plano terreno. Seres demoníacos que, sob a luz do Sol, se passavam por homens e caminhavam desapercebidos entre os verdadeiros filhos de Deus. Sua verdadeira natureza somente se revelava sob a luz santificada da lua cheia. A Lua, que exibe em sua superfície a efígie do santo matador de monstros, São Jorge, o padroeiro da Inglaterra.
Devido à gravidade de seus ferimentos, Derek fora deitado nu, com um fino lençol cobrindo apenas a metade inferior do corpo. A metade livre de ferimentos. A parte superior fora deixada exposta. Era impressionante como o intervalo de uma hora fizera diferença. Os cortes ainda eram perfeitamente visíveis no tórax e no abdômen, mas estavam reduzidos a cicatrizes na face, no pescoço e nos braços. Um único corte ainda não perfeitamente fechado no topo da cabeça e na orelha direita, mas o afundamento do crânio estava corrigido. O inchaço do rosto tinha desaparecido. O nariz quebrado estava reconstituído. As feições já eram claramente identificáveis. Qualquer um que o visse agora o reconheceria como Derek Hale.
Era fato que o processo de cura avançava rápido. O sangue perdido já tinha sido inteiramente reposto. A pressão arterial já estava nos níveis normais. Os órgãos internos da região do abdômen, severamente lesionados, estavam quase que completamente regenerados. As paredes dos órgãos tinham se fechado, mas a camada de tecido formada ainda era muito fina. Derek precisava de mais uma hora de repouso absoluto.
Os focos de infecção tinham sido erradicados. A antissepsia feita no hospital contribuiu, mas a maior resistência dos lobisomens à grande maioria dos agentes patogênicos que causam infecções perigosas em seres humanos fez toda a diferença.
Faltava as costelas quebradas voltarem ao lugar. O organismo dera prioridade à reparação de tecidos e órgãos. A reconstituição dos ossos, a parte mais dolorosa, estava apenas começando. Mesmo desacordado, a face do lobisomem exibia sinais de sofrimento.
O'Connor sabia que estava perdendo um tempo que não tinha e se arriscando desnecessariamente. Que o melhor a fazer era fechar logo a fatura e deixar a comemoração para depois. Mas, não dizem que o melhor da festa é esperar por ela? Queria esticar aquele momento de triunfo. Sentia-se poderoso. Senhor da vida e da morte. Saber que o monstro respirava somente porque ele permitia era embriagador.
A hora chegara. A hora de passar à ação. Amarra um pedaço de mangueira flexível no antebraço de Derek. A veia estava bem visível. Expulsa o ar da seringa. Mais profissional, impossível. Gira o braço do lobisomem em busca de um ângulo mais favorável à introdução da agulha. Aproxima a agulha da veia. Mas, para isso, precisou dobrar o corpo e trazer seu rosto para bem próximo do rosto do monstro. 'MORRA, DESGRAÇADO.' O'Connor encara o monstro com ar de escárnio por um segundo e, então, baixa os olhos em direção ao ponto em que a agulha tocava a veia do braço. A agulha estava prestes a romper a pele de Derek quando O'Connor é surpreendido pela mão em sua garganta.
O susto e a necessidade de usar as duas mãos para se safar fazem com que O'Connor largue a seringa, que cai no chão e rola para trás do monitor cardíaco, onde será encontrada depois por Christian Argent. Com o fluxo de ar para os pulmões interrompido, O'Connor se debate em desespero enquanto tenta afastar o punho de aço do monstro e pegar algo que pudesse usar como arma contra ele. Mas, isso não dura muito.
Ao sentir que finalmente o homem parara de se debater, Derek afrouxa o aperto e deixa o enfermeiro cair pesadamente no chão. Sua reação fora instintiva. Perguntado, Derek não saberia dizer como soubera que aquele homem queria o seu mal. O'Connor não pronunciara em voz alta 'MORRA, DESGRAÇADO.' Ele apenas pensara. Talvez o ódio do homem pudesse de alguma forma ser captado pelo lobo que existia nele.
.
O lobisomem sabe que precisa fugir. Um enfermeiro encontrado desacordado chamaria a atenção de todos. E matá-lo só pioraria tudo. Mais que a atenção, atrairia a fúria do caçador. Depois, Derek não era um assassino. E não queria se transformar em um.
Derek tenta levantar o tronco, mas é impedido pela horrível dor no abdômen e por aquele bando de fios. A primeira coisa que faz é desconectar-se dos eletrodos presos ao seu peito, braço e cabeça. E também da agulha que injetava soro em seu outro braço. O monitor cardíaco, incapaz de distinguir um cabo desconectado de uma condição de óbito, dispara seu irritante alarme.
Uma segunda tentativa de pôr-se de pé. Desta vez, mais cuidadosa. Respeitando os limites da dor. Avançando milímetro a milímetro. Seu pé toca sem firmeza o chão gelado. Derek sente a vista escurecer e a força que mostrara minutos antes abandoná-lo. Sente a dor insuportável atravessar todo o seu corpo. Derek precisa de muita força de vontade para não sucumbir ao desejo de seu corpo de simplesmente deixar-se ficar onde estava. Não podia se entregar. Seria o seu fim. Precisava viver. Não só por ele próprio. Por Stiles. A rusalka iria atrás dele. Precisava ignorar a dor e pôr-se a salvo.
.
É neste instante que Stiles abre a porta e fica paralisado ao escutar o som que aprendeu a associar à consumação de uma morte. O apito do monitor cardíaco era como um pavoroso grito de banshee. Um anúncio de morte. Presenciara mais mortes que podia suportar nos meses da longa agonia de sua mãe. Até hoje, aquele som habitava seus pesadelos.
Stiles entra hesitante e logo vê Derek. Eles ficam ali, parados, por quase um minuto, apenas se encarando. Olhos nos olhos. Os corações de ambos agradecidos por aquele momento estar sendo possível.
.
Stiles conhecia a entrada lateral usada pelos funcionários. Mais de uma vez esgueirara-se pelo hospital à noite para ver a mãe fora dos horários de visita. Em noites em que o pai estava de plantão e o silêncio da casa se tornava insuportável. Nas vezes em que ele rolava na cama sem conseguir dormir e a angústia em seu peito ameaçava sufocá-lo.
Algumas vezes, conseguia chegar ao quarto da mãe sem ser visto. Em outras, era apanhado e posto para fora sem alcançar seu intento. E tinha as vezes que uma enfermeira se apiedava dele e fingia que não o tinha visto.
.
Seu problema agora não era entrar. Era sair. Sair levando consigo um homem, ou melhor, um lobisomem de quase dois metros e pesando mais de uma tonelada que mal conseguia ficar de pé. Sabia objetivamente que Derek tinha pouco mais de 1,80 m e que pesava 100 kgf, se tanto. Era quase tão alto quanto ele, mas ficava muito atrás no quesito força muscular. Debilitado, Derek precisava apoiar quase todo seu peso sobre o ombro de Stiles, ameaçando derrubar os dois no chão.
Stiles ficara chocado ao ver o estrago no peitoral definido do lobisomem. Pior agora que minutos antes, já que os ferimentos voltaram a sangrar em alguns pontos. Era algo irreal. Não combinava com ele. Sempre vira Derek como indestrutível e ali estava ele vulnerável e fragilizado. Tão frágil que Stiles não sabia por onde segurá-lo para que não quebrasse. O rosto de Derek mostrava todo o esforço que ele estava fazendo para não gritar de dor.
Como era estranho sentir o calor daquele outro corpo encostado ao seu. A consciência deste contato o distraia de seu objetivo. Sentia o calor daquele corpo invadir o seu. Sentia-se febril. Saber que Derek estava coberto apenas por um fino lençol não ajudava em nada. Foco, Stiles. Aquilo só teria sentido depois que estivessem a salvo. Espera! Que diabo de pensamentos eram aqueles? O que estava passando por sua cabeça, afinal? Ele e Derek eram dois homens. Aquilo não devia fazer sentido NUNCA. E aquela situação não tinha nada de erótica.
Stiles olha para Derek com carinho. Sua mente hiperativa já deixara o momento erótico para trás. Esquecido. Naquele momento, tudo o que Stiles desejava era que Derek voltasse a mostrar o sorriso cínico de bastardo arrogante que tanto o irritava. Que ele sobrevivesse para mais uma vez empurrá-lo contra uma parede com suas ameaças vazias de rasgar sua garganta com os dentes. Que voltasse a ser o detestável sourwolf que ele vivia xingando. Se pudesse, aceitaria dividir com ele um pouco daquela dor, para aliviar seu fardo. Apesar de tudo, agradecia a Deus por aquele momento.
.
- Por aqui.
Stiles se sente travar ao escutar a voz antipática da enfermeira Gertha vindo em sua direção.
.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: UM FANTASMA NO ESPELHO
A bandeira da Inglaterra traz a cruz vermelha de São Jorge contra um fundo branco. Apesar de tradições populares, o soldado romano Jorge da Capadócia nunca pisou em solo inglês. O'Connor (personagem original) tem origem irlandesa, onde São Jorge é popular. Mas, isso de Lua de São Jorge é do sincretismo religioso brasileiro. Não vai fazer sentido para leitores de outros países.
09.03.2014
