CAPÍTULO #33


LOCAL: BEACON HILLS

PRÓXIMO DA MEIA NOITE

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- Stiles, eu não vou conseguir. É melhor você me deixar aqui mesmo, em qualquer lugar. Eu vou ficar bem. Não se preocupe. Eu só preciso de um tempo para me recuperar. Você já fez muito.

- Derek, nós já chegamos até aqui. É só mais um pouco.

- Não. Eu não consigo. Eu preciso de um tempo. E, depois, não faz realmente diferença aqui ou lá em cima.

Stiles queria poder rebater aquele argumento, mas a verdade é que Derek estava certo. Era mesmo melhor deixá-lo ali, em algum lugar. Não tinha sentido arrastá-lo escada acima. Seria penoso para ele e, como ele mesmo disse, não fazia mesmo diferença.

'Ou talvez fizesse toda a diferença do mundo'.

- Stiles, OBRIGADO. Eu não teria conseguido sozinho.

Stiles sorriu. Dizer a palavrinha mágica devia ter sido mais difícil para o poderoso alfa do que tudo o mais pelo que ele passara aquela noite. Um simples 'OBRIGADO'. Mas, sempre acreditara que Derek ia preferir morrer a fazer um simples agradecimento. Mais ainda em se tratando dele. Talvez o mundo tivesse salvação afinal.

- Espera só um instante. Eu vou trazer um edredom para forrar o chão e também um travesseiro. Eu te ajudo a deitar. Ah! Deve ter algum short do meu pai que sirva em você.

Ao entrar em seu quarto e olhar para a sua cama espaçosa, bagunçada, confortável e VAZIA, uma imagem que não chegou a formar-se na sua mente o entristeceu. Como a nostalgia de algo que nunca aconteceu. Ou a perda de algo que nunca se teve. Stiles não conseguiu evitar um suspiro de frustração. Frustração que ficava evidente no seu tom de voz.

- Nunca vai acontecer. E talvez seja melhor assim.

Os ouvidos sensíveis do lobisomem escutaram aquelas palavras soltas e criaram um contexto para elas. Não sabia se sobreviveria àquela noite, mas seu coração ousou ter esperanças que um dia seria possível. Que PODIA ser diferente. Mas, NÃO PODIA. A quem estava querendo enganar? Nunca seria possível.

- NUNCA vai acontecer. É como TEM QUE SER.

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- Vasculhamos tudo e nem sinal dele.

- O que foi que o enfermeiro disse que aconteceu?

- Que o lobisomem despertou quando ele estava prestes a aplicar a injeção e o atacou.

- Mas, não o matou. Não tentou matá-lo.

- Não. Ele o agarrou pela garganta, sufocando-o, mas, ao que parece, afrouxou o aperto quando o enfermeiro perdeu os sentidos.

- Nem o feriu?

- Não. Nem mesmo um arranhão. Felizmente.

- Será que Hale sabia que o homem que estava tentando matá-lo?

- Acho que não. Pouco antes ele estava desacordado. Deve ter agido por reflexo. Podia ter acontecido com um enfermeiro que viesse trocar o soro. O mais provável é que ele nem tenha visto a cara do homem. Só isso explica que o sujeito tenha escapado com vida. Segundo Chris, ele conhecia o enfermeiro. Sabia que era associado aos Argent. Ele não teria deixado barato.

- Eu estive cara a cara com Hale no shopping. Me distraí um segundo e, quando vi, ele estava na minha frente. Ele poderia ter me matado.

- E .. ? Aonde está querendo chegar, Sam?

- A lugar nenhum. Só estava tentando entender melhor o quadro. Numa guerra é preciso entender como pensa o inimigo. Mas, não se preocupe. Nós VAMOS encontrá-lo. Hoje mais cedo eu instalei um rastreador no Camaro de Hale. Acabei de verificar a localização do carro. Está parado há horas a uma quadra de onde ele foi atacado pelo outro lobisomem. Ele está ferido e vai ficar escondido até se recuperar. Mas, em algum momento, ele vai voltar para pegar o carro. E aí, nós o pegamos.

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- Se apoia em mim. Vai.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAI.

- Desculpa. Eu pensei que dava conta. Precisava ser tão pesado? Vamos de novo.

- UUUUUUUUH!. AAAAAAAAAAAI.

- Desculpa novamente. Foi mal. Eu me desequilibrei. Não queria cair em cima de você. Machucou?

- UUUUH! O .. que acha?

- Também não precisa fazer essa cara. Não foi de propósito. Eu estava querendo ajudar.

- CHEGA! Se quer mesmo ajudar, ... fique afastado de mim. Eu faço sozinho.

- O short ..

- Pode deixar o short aí. Eu visto quando melhorar.

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- Finalmente.

- Como anda a pesquisa?

- Pesquisa?

- Sobre a rusalka. Você não veio direto para o hotel porque queria se aprofundar na pesquisa?

- Ah! Claro! A pesquisa sobre a rusalka. É que .. eu fiquei lendo nas redes sociais os comentários dos colegas sobre a suposta morte de Scott McCall. Afinal, essa história ainda não terminou.

- De uma forma ou de outra esse assunto vai se resolver por si só em pouco tempo. Afinal, mais alguns dias e McCall vai estar de volta ao colégio forte e saudável. Mas, só depois que pegarmos Hale e deixarmos a cidade. Foi o que combinamos com os Argent. McCall poderia se intrometer e arriscava da volta dele ao colégio NÃO ACONTECER, se é que me entende. E isso não seria bom para ninguém. A Allison ficou de ir ao hospital amanhã bem cedo e tranquilizar a mãe do garoto.

- A enfermeira?

- Ela própria. Fiquei sabendo que a coitada ficou desesperada quando escutou que tinham matado o filho e acabou atropelada. Sorte que não foi nada sério. Ela está bem. O que você talvez não saiba é que o xerife Stilinski também está internado. Crise de pressão alta. Ele se recusou a ficar algumas horas em repouso e o puseram para dormir contra a vontade.

- Por isso ele não respondia ao celular.

- Provável. Bem, estou exausto. Tudo o que quero agora é tomar um banho e cair na cama.

Sam teve medo que o irmão desconfiasse de sua desculpa esfarrapada. Respirou aliviado quando Dean tirou uma muda limpa de roupas da mochila, tirou quase toda a roupa que estava vestindo e se trancou no banheiro. Teria que contar a verdade antes que ele voltasse a se encontrar com Danny e, com toda a certeza, Dean não ia ficar nem um pouco satisfeito. Mas, o dia tinha sido exaustivo e não se sentia pronto para encarar outra discussão com Dean àquela hora da noite. Estava ele próprio ansioso para cair na cama. Deixaria os problemas para depois.

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- Tem aqui outro lençol. Esse aí ficou sujo de lama.

Derek constatou com uma satisfação quase sádica que o coração de Stiles acelerou, sua respiração ficou irregular e suas mãos umedecidas de suor quando ele se aproximou hesitante para trocar o lençol que cobria a metade inferior do corpo de Derek. Podia ter agradecido e dito que era perfeitamente capaz de fazê-lo sem ajuda. Sabia que as motivações de Stiles não eram assim tão inocentes. Mas, resolveu entrar no jogo do garoto.

Mordeu o lábio inferior para disfarçar um sorriso. Sua vontade era se permitir dar um grande e autêntico sorriso. Foi difícil, mas resistiu bravamente à vontade de constrangê-lo perguntando se aquilo não era apenas um pretexto do garoto para vê-lo nu. Pobre Stiles. Chegava a ser desonesta a forma como seus sentidos lhe permitiam ler os sentimentos das pessoas a partir de suas reações corporais. Stiles era tão transparente. Houve um tempo em que Stiles conseguia esconder até de si mesmo os próprios sentimentos. Pelo jeito, não mais.

Sorte .. ou pena .. que Stiles vivesse em negação.

- O que houve? Que cara é essa? É a dor, não é? Está doendo muito?

'Ele não percebeu'. Só isso já seria motivo para um novo sorriso. A sua sorte é que Stiles não era um lobo e não podia escutar que a frequência de seu próprio coração também se alterava quando ele estava perto. Era algo que Stiles não podia nem desconfiar. Como também não podia desconfiar da SURPRESA que tinha preparado para ele. A surpresa que ele teria quando o visse SEM o lençol.

Stiles estava agora bem próximo e uma gota de suor se formou em sua têmpora. Suor nervoso. Derek fechou os olhou e entregou-se àquela sensação. Naquele momento, sentiu-se abençoado por ter um olfato tão sensível. O que mais o atraia em Stiles era seu cheiro. O cheiro natural de Stiles era embriagante. EXCITANTE. Essa era a palavra certa. Esse era o efeito que tinha. Será que era somente ele que se sentia assim? Stiles convivia com outros lobisomens e nenhum deles parecia reagir da mesma maneira. Scott com certeza não reagia à Stiles. Nem Isaac ou mesmo Erica. Isso tinha que significar alguma coisa. E, o pior, é que sabia muito bem o que significava.

Gostaria de ter coragem para pedir a Stiles que parasse de mascarar seu cheiro com perfume, loção de barba ou mesmo desodorante. Mas, seria dar muita bandeira. Até entendia um toque de perfume quando saísse à noite e o desodorante do dia a dia. Mas, loção de barba? Para quê? Ele não tinha nem mesmo penugem quanto mais barba.

Não tinha .. mas um dia teria. Por ora, Stiles era apenas um garoto imberbe e virgem. Mas, um dia, ele seria um homem feito. Estavam na California, século XXI. Não devia ser problema. Talvez não fosse. Talvez o problema estivesse na sua cabeça, na autoimagem que cultivava e em seus próprios preconceitos. É fácil aceitar quando se trata dos outros. É mais difícil quando o problema está em você mesmo.

- Você .. VESTIU o short?

- Desapontado, Stiles?

Desta vez, nem a dor impediu o sorriso.

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'É mais difícil quando o problema está em você mesmo'.

Era isso que passava pela mente de Samuel Winchester enquanto o irmão secava os cabelos molhados na sua frente. Passaram um ano separados. Para Dean, foi um ano de privações e de incessante batalha pela sobrevivência no Purgatório. E lá, mesmo vivendo um horror sem fim, sua maior preocupação continuava sendo a segurança de um irmão que se achou no direito de esquecê-lo e seguir sua vida em frente.

Dean 'sempre soube fazer uma distinção muito clara entre o que é certo e o que é errado. É como um dom que ele tem. Ele sempre soube escolher o caminho certo. Já eu me perdi diversas vezes no caminho'. Tinha dito isso sobre o irmão no início da noite para Marin Morrell. 'Será que isso continuava sendo verdade?'

No passado, Dean sempre fizera as escolhas certas.

- Boa noite, Sammy!

- Boa noite, Dean.

Sam esperava que o Purgatório não tivesse bagunçado a bússola do irmão.

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Danny tinha a chave do portão lateral da propriedade e a chave da porta da cozinha da casa. Cópias das que o próprio Matt usava quando não saía de carro. A propriedade dos Daehler ficava na região mais valorizada de Beacon Hills, a duas quadras da gigantesca propriedade dos Whittemore. Reparou que o jardim estava muito bem cuidado. A grama, recém-aparada. Os pais de Matt deviam estar pagando alguém para cuidar da propriedade. Confirmou isso ao circular pelo interior do imóvel. Tudo impecavelmente arrumado. Tinha que tomar cuidado para não ser descoberto. Afinal, o que estava fazendo era considerado crime.

A imensa maioria das pessoas se sente desconfortável ao entrar numa casa vazia na ausência dos donos sem o conhecimento deles. Danny, não. Afinal, ele era um hacker. Um hacker entra sem ser convidado e vasculha tudo que há para ser visto. Isso não o tornava um ladrão. Ele não tinha a intenção de se apropriar do que quer fosse daquele lugar. Estava apenas buscando refúgio. O que certamente Matt não lhe negaria, se pedisse. Afinal, foram amigos. E ele pediria, se isso fosse possível.

Danny apenas deita de costas na ampla cama que pertenceu a Matt e fecha os olhos. Sentia-se exausto física e mentalmente. Menos de um minuto depois já estava profundamente adormecido.

'Danny, velho amigo. É bom ver você de novo.'

Há quem acredite que todas as superfícies espelhadas do planeta estão conectadas. Talvez estejam. Há quem acredite que alguém nos observa do outro lado do espelho. E isso, às vezes, é verdade. Ao menos, é o que está acontecendo neste exato momento. Do espelho do quarto, Matthew Daehler observa o adormecido Danny Mahealani. E sorri.

É verdade que Matthew Daehler está morto.

Morto e enterrado.

Mas, não dizem que QUEM É MORTO .. SEMPRE APARECE?

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PRÓXIMO CAPÍTULO: CÂMERA INDISCRETA


27.03.2014