CAPÍTULO #36


LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA ARGENT

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- Lydia? Não esperava você aqui tão cedo hoje.

- Não vai abrir o portão?

- Lydia, desculpe, mas hoje eu não estou nos meus melhores dias.

- Imaginei isso. É por isso mesmo que eu vim. Para que servem as amigas, afinal? Sei que deve ser abalada.

- Eu preciso de um tempo sozinha.

- Entendo que seja difícil encarar a perspectiva de uma chuva de perguntas por parte dos nossos colegas, mas .. queria ver você .. ficar com você .. um minutinho que seja. Please! Esqueceu? BFF.

- ok. Só um minutinho e encontro você no portão.

- Filha, despache a Lydia o mais depressa possível. Talvez eu precise da sua ajuda com o corpo do Boyd. Lembre-se que o xerife pode chegar a qualquer momento com um mandato de busca.

- Não se preocupe, pai. Mas, não podemos esquecer que a Lydia SABE que foi o senhor que atirou no Scott. Precisamos saber se ela contou para mais alguém. E talvez eu possa convencê-la a não falar nada pra ninguém.

- Está certo. Vale a pena tentar. Procure sondar o que ela realmente sabe e o que pretende fazer. Mas, depois, despache-a o mais rápido possível. E, o mais importante, tome muito cuidado com tudo que disser para ela.

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- Vem! Me deixa dar um abraço em você, amiga.

Allison hesita um momento antes de comandar a abertura do portão por uma botoeira atuada por senha. Lydia vai até ela e a abraça apertado. Allison estava na defensiva, mas deixa-se abraçar, sentindo-se reconfortada com o calor de um corpo contra o seu. Só naquele momento percebe o quanto precisava do carinho de uma amiga de verdade. Allison se aconchega, encaixa o pescoço no ombro da melhor amiga e fecha os olhos. Não vê quando Lydia usa a mão livre para enviar uma mensagem previamente digitada a uma enorme lista de contatos pré-selecionados.

Uma mensagem simples: AGORA.

Allison se assusta com o barulho de vários carros convergindo para o portão esquecido aberto e a quantidade de gente saindo deles e entrando na propriedade. Na maioria, colegas, mas também alguns professores. Na frente, exaltado, o técnico Finstock acompanhado de quase todo o time de lacrosse. Até mesmo o Greensberg.

- Entendo que seja difícil para você encarar a chuva de perguntas dos nossos colegas, Allison, mas .. você vai ter que nos dizer o que o seu pai fez com o Scott. Vamos ficar aqui até termos todas as respostas.

- Mocinha! A Lydia nos disse que encontraríamos o Scott aqui. Aonde ele está? Ou será que ele esqueceu que temos um jogo importante na terça?

- Vocês voltaram e o Scott passou a noite aqui com você, no seu próprio quarto? Que moderno! Meu pai me matava se eu fizesse algo parecido.

- O Scott ainda está dormindo? A cidade inteira achando que ele morreu e vocês aqui numa boa, esquecidos do mundo?

- Allison, como é transar com um lobisomem?

- SCOTT! Aparece, cara! Já sabemos que você está aqui. Não adianta tentar se esconder.

- É, Scott! DESCE AQUI. VEM FALAR COM OS AMIGOS.

- Turma, vamos lá. SCOTT! SCOTT! SCOTT!

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Cercada pelos colegas e sentindo-se acuada, Allison pede a todos que se acalmem e que lhe deem um minuto, e puxa Lydia para onde pudessem falar sem serem ouvidas.

- Lydia, você não podia ter feito isso comigo.

- Allison, você é que não podia ter feito o que fez com o Scott.

- Foi para protegê-lo.

- Eu sei. Mas, tudo ia ficar mais e mais complicado. Eu estou aqui para dar a você e a seu pai a chance de saírem bem da encrenca em que se meteram.

- Lydia, por favor ..

Allison não pode completar a frase. A pequena multidão mais uma vez converge em direção a ela, tendo o técnico Finstock como porta-voz.

- Allison querida, se você sabe onde está o Scott, por favor nos diga. Essas histórias, esses boatos, deixaram todos nós confusos e preocupados. Isso do Scott ser o rapaz baleado no shopping e dele estar morto. Ninguém aqui acha que o Scott seja um lobisomem, afinal lobisomens não existem. Mas, todo boato tem um fundo de verdade. E ninguém sabia o paradeiro do Scott. Foi um alívio para todos nós quando recebemos um msn da Lydia dizendo que tudo não passou de um grande mal entendido e que o Scott está bem. Que o Scott estava esse tempo todo aqui com você e que vocês nem deviam estar sabendo desta confusão toda. Foi ideia da Lydia virmos todos aqui para abraçar o Scott. E, então? Cadê ele?

- PESSOAL! ATENÇÃO! CALMA! Aqui está ele. O nosso garotão. Dê um alô para os seus amigos, Scott.

As atenções de todos se voltam para Chris Argent que se aproxima trazendo com ele um Scott que mal se aguenta em pé, precisando ser amparado para não cair de cara no chão. Scott abre ligeiramente os olhos e esboça um meio sorriso antes cair novamente num sono profundo.

- Como podem ver, o Scott está ótimo ou estará, depois de mais algumas horas de sono.

- Ele está BÊBADO? Sr. Argent, o senhor permitiu que um menor consumisse bebida alcóolica em sua residência?

- Não. É claro que não. PESSOAL, CALMA! TUDO VAI SER EXPLICADO. Mas, fiquem todos sabendo que o Scott NÃO PASSOU A NOITE COM A MINHA FILHA. Ele estava se recuperando no QUARTO DE HÓSPEDES.

- SCOTT! Graças a Deus você está vivo.

Stiles, que acabara de chegar com o pai, na viatura de polícia, corre até onde está o amigo e praticamente o arranca dos braços de Chris Argent. Seus olhos pareciam querer fuzilar o empresário.

- O melhor seria o Scott ficar aqui mais algumas horas. Depois, prometo levá-lo eu mesmo em casa.

- O Scott FICA CONOSCO, Sr. Argent.

- O menor Scott McCall está visivelmente em estado alterado. Vamos levá-lo para o BH Hospital. Ele vai passar por exames clínicos e toxicológicos e as responsabilidades serão apuradas. O senhor será chamado para depor, Sr. Argent. Tenham um bom dia. Vamos, Stiles. Vamos colocar o Scott no banco de trás da viatura. Professor Finstock, poderia por favor agradecer a todos e pedir que deixem a propriedade dos Argent e tomem o seu rumo.

- Claro, xerife. Vocês ouviram, pessoal. DISPERSAR. TODOS PARA O CÓLEGIO. Ainda dá para pegarem a terceira aula. VAMOS! ACELERADO. Greensberg, vamos logo, chega de atrasar o grupo.

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Christian Argent abraça a filha por trás enquanto observa as pessoas entrando nos carros e os carros manobrando e partindo. Ficam assim até bem depois de todos terem partido.

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LOCAL: STARBUCKS COFFEE, BEACON HILLS

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- Dean, NÃO É o que você está pensando. Eu não MATEI o Danny.

- Não mesmo? Como quer que eu acredite se você MENTIU para mim. Disse que ia voltar para o hotel e pesquisar sobre a rusalka. Ao invés disso, seguiu direto para o apartamento do Danny. O que aconteceu lá, eu não sei. Bem mais tarde, quando eu voltei ao hotel após horas de busca inútil por Derek Hale no hospital e vizinhanças, você disse que ficou acompanhando nas redes sociais a repercussão da suposta morte de Scott McCall. Nenhuma palavra sobre o Danny. Quando pretendia me contar a verdade? Ou não pretendia contar? Achou mesmo que eu não ia descobrir? A indiscrição do Jackson somente antecipou essa nossa conversa. De uma forma ou de outra, eu ficaria sabendo.

- Dean, acredita no que eu estou dizendo. Eu NÃO matei o Danny. Eu não fiz NADA contra o rapaz. Ele deve ter se assustado e fugido. Eu não sei onde ele está, mas tenho certeza que ele está bem.

- Vejamos. Você esteve no apartamento do Danny e ele fugiu assustado. Fugiu .. sem nenhum motivo?

- Ele teve bons motivos para ficar assustado. Em primeiro lugar, ele descobriu quem nós somos. Ele viu o vídeo do massacre de Ankeny. Além disso, eu o ameacei com uma faca. Eu fiz que acreditasse que eu ia matá-lo. Eu achei que assim o forçaria a usar seus poderes contra mim. Isso me daria o pretexto que eu precisava para matá-lo. Achei que matando-o, faria você voltar ao normal.

- Sam, o Danny É um garoto normal. Bem mais inteligente e intuitivo que a maioria, mas é apenas um garoto. E você está confessando que quase o matou.

- Eu não queria acreditar que você pudesse ter se interessado por um homem. Achei que o Danny estivesse controlando você. Que você estivesse enfeitiçado. Qualquer coisa, menos admitir que meu irmão pudesse ser gay.

- Sam, jura que não fez nada contra o Danny?

- Juro. Ele vai aparecer quando voltar a se sentir seguro. Mas, depois de ver o vídeo de Ankeny, ele pode não querer mais ficar com você. Sinto muito, Dean. Acho que estraguei tudo.

O vídeo de Ankeny. Qualquer um que tenha visto aquele maldito vídeo ia querer manter distância dele. Provavelmente nunca mais veria Danny. Nunca haveria outra tarde descontraída como a que passaram. Os comentários surpreendentes. As conclusões inspiradas. O humor afiado. A certeza disso deixou Dean triste. Algo que ele próprio não esperava sentir.

- Acredito em você, Sam. Vamos. Ainda temos que pegar Derek Hale.

Conhecendo o irmão como conhecia, Sam percebe a tristeza de Dean e se sente culpado por ter destruído as chances do irmão iniciar um relacionamento sério após anos de sexo casual. Mas, a culpa dura apenas alguns segundos. Sam se anima com a esperança de que, ao deixarem Beacon Hills, tudo volte ao normal e que o irmão volte sua atenção apenas para as vadias de sempre. E abre um grande sorriso.

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA ARGENT

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- Talvez tenha sido melhor assim, pai. A Lydia me prometeu que não vai revelar que o senhor é o atirador misterioso do shopping. Uma preocupação a menos.

- O lado bom dessa confusão que ela aprontou foi que o xerife se deu por satisfeito após resgatar o Scott com vida e esqueceu de fazer cumprir o mandato de busca.

- O xerife falou em apurar responsabilidades. Ele deve abrir um inquérito policial. Acha que o exame toxicológico vai encontrar acônito no sangue do Scott?

- O exame vai acusar a presença de um alcaloide. Para identificar qual alcaloide teriam que saber primeiro o que estão procurando. O problema é exatamente esse. O xerife sabe reconhecer os sintomas de envenenamento por acônito. Não é novidade para ele. A questão é se ele vai querer levar esse processo em frente até as últimas consequências. Se ele vai querer realimentar os boatos sobre Scott ser um lobisomem. A associação seria imediata. O acônito é popularmente chamado de mata-lobos ('wolfsbane').

- Pai, acha que o Scott vai me perdoar um dia?

- Se ele gosta mesmo de você, querida, ele vai acabar entendendo as suas razões e perdoando. Mesmo que demore um tempo.

- Acha que ele vai estar seguro?

- Se depender do Stiles .. que deve estar com ele, no hospital, montando guarda .. vai. O risco é o Scott acordar e resolver intervir a favor de Derek Hale. Se ele fiz isso estará em grande perigo. Os Winchester deixaram bem claro que não vão se conter.

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LOCAL: BEACON HILL PRESERVE

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- Lá na frente. Está vendo? Devem ser as ruínas da Mansão Hale.

- Se pretendemos pegar Hale de surpresa, o melhor é estacionarmos aqui e seguirmos a pé. O ruído do motor o alertaria.

- Tem certeza que ele está aqui?

- Ao menos, o Camaro está. O rastreador indica que o carro está parado a trezentos metros à nossa frente.

- Eu fico com a faca com lâmina de prata. Vou na frente e tento atrair a atenção dele para mim. Você me dá cobertura com o revólver. Conferiu as balas?

- Três balas de prata intercaladas com três balas comuns.

- Usamos as bombas incendiárias?

- Melhor não. Estamos numa reserva florestal. Se começarmos um incêndio, o fogo pode devastar tudo.

- Podemos ligar uma delas ao sistema de ignição do carro. Assim acabamos com o bastardo caso escape de nós e tente uma fuga.

- Precisaríamos abrir o capô e levaríamos pelo menos cinco minutos para fazer a instalação. Se ele nos visse neste interim teríamos perdido tempo e estaríamos vulneráveis.

- Certo. Mas, vou usar a faca para furar os quatro pneus. Simples e rápido. Se ele quiser fugir, vai ter que ser a pé.

- Ele não vai escapar. Vamos acabar com esse monstro de uma vez por todas.

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LOCAL: BEACON HILL HOSPITAL

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- Como está o Scott?

- Aparentemente, bem. Ele foi despido e examinado. Nenhum sinal externo de ter sido baleado ou ferido de alguma forma. Nenhuma cicatriz em lugar algum do corpo. Nem mesmo aquela cicatriz na perna que ele ganhou por cair da bicicleta naquele pega quando vocês eram garotos. Nem a que um dia ele teve acima da sobrancelha como lembrança da batida do jeep quando o senhor tinha apenas um mês de habilitação e pegou a estrada ignorando minha proibição.

- Estranho isso, pai?

- Realmente. Ele vai passar ainda por uma tomografia. O exame também descartou que o Scott tenha sido vítima de violência sexual.

- Meu Deus! Alguém suspeitou que ele possa ter sido?

- Na verdade, não. Mas, é uma exigência legal. E assim fica eliminada de vez qualquer suspeita. Coletaram amostras de sangue para os exames toxicológicos.

- Está na cara que o Scott foi dopado.

- O organismo dele já eliminou qualquer vestígio de álcool que ele possa ter bebido. Mas, o resultado negativo já era esperado. Foram mais de doze horas entre o Scott desaparecer e o exame ser feito. Mesmo uma pessoa normal não apresentaria vestígios de álcool no sangue após tantas horas.

- O que o senhor quer dizer com "mesmo uma pessoa normal"?

- Nada. Eu me expressei mal. Esquece, filho.

- E onde ele está agora? Posso ficar com ele?

- Designaram uma excelente profissional para acompanhar o Scott. Me garantiram que é uma enfermeira muito conceituada aqui no hospital. A mesma que ficou responsável por mim nesta minha recente sonoterapia forçada. A enfermeira Gertrud Hauser. O apelido dela é Frau Gertha.

Stiles fica horrorizado ao escutar aquele nome.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: COMO JACKSON IMAGINA OS CAÇADORES?


26.12.2014