CAPÍTULO #37


LOCAL: BEACON HILLS HOSPITAL

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- Stiles? O que foi que deu neste garoto?

O xerife ficou ali, parado, sem entender nada. Ao escutar o nome Frau Gertha, Stiles saiu correndo desesperado pelos corredores do hospital. Não tinha um minuto a perder. Precisava salvar Scott da agente infiltrada de Gerard Argent. Em sua mente hiperativa, imagens da enfermeira sorrindo enquanto injeta cáustico lunar na veia do lobisomem teen. Mas, Stiles sabia que aquela mulher era capaz de coisas ainda piores. Ela não era apenas uma psicótica assassina. Era também uma ninfomaníaca tarada. Uma pervertida. Passa por sua mente a imagem bizarra de Frau Gertha sufocando Scott na cama com seus seios imensos. E, o horror absoluto: Frau Gertha abusando sexualmente do amigo adormecido. Precisava a todo custo salvar Scott daquela mulher horrível.

Ao dobrar o corredor correndo, Stiles se choca com estardalhaço com um enfermeiro enorme que caminhava distraído no sentido contrário derrubando as pranchetas com prontuários de pacientes que ele transportava. Foi como ir de encontro a uma parede. O sujeito se reequilibrou trazendo o pé para trás. Já Stiles bateu e voltou, caindo de costas no chão.

- Que pressa é essa, garoto? Não pode correr assim num hospital.

Ao ver quem está ali, de pé, à sua frente, com um sorriso zombeteiro no rosto, Stiles arrasta-se como pode para longe. Só após ganhar alguns metros de distância, Stiles volta a se pôr de pé. Por todo um minuto Stiles e o enfermeiro O'Connor se encaram como dois pistoleiros num duelo sem armas. Mas, bastou O'Connor fazer uma cara ameaçadora e fingir que ia avançar para cima de Stiles, para que o garoto fugisse assustado na direção oposta à que pretendia seguir.

O enfermeiro nem tenta segurar uma gargalhada triunfante.

'Eu ainda te pego, garoto. E, dessa vez, não vou ser tão gentil. Amiguinho de lobisomem não tem vez comigo. Você vai descobrir o quanto a minha mão pode ser pesada.'

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- AFASTE-SE DELE, SUA VACA PERVERTIDA!

A frase gritada atrai a atenção de todos no quarto onde Scott dorme profundamente sob ação do forte sedativo batizado com wolfsbane administrado por Christian Argent. Sim, porque a enfermeira Hauser não estava sozinha com Scott no quarto naquele momento. Stiles não se deu conta disso porque o corpo volumoso da enfermeira escondia de sua visão um médico, o enfermeiro que trouxera Scott para o quarto e acabara de colocá-lo na cama e Melissa, a mãe de seu amigo

- STILES?

- Rapazinho, que história é essa de entrar gritando num quarto de hospital e, pior, ofendendo uma de nossas melhores profissionais. Conheço a enfermeira Hauser há anos e a considero uma mulher extraordinária. Uma mulher rara, de sólidos valores morais. Alguém acima de qualquer suspeita. Alguém que merece todo o nosso respeito. Eu vou chamar a Segurança e o senhor vai ser posto para fora deste hospital imediatamente.

Enquanto o médico fazia o seu discurso inflamado exaltando as qualidades da enfermeira, esta, voltada para Stiles e tendo o rosto visível apenas por ele, ora exibia um sorriso debochado, ora mostrava a língua da forma mais indecorosa possível. Ao voltar o rosto para o médico, no entanto, sua face era a de uma mulher abnegada e injustiçada prestes a derramar sofridas lágrimas pelas terríveis injúrias de que estava sendo vítima. A visão daquele rosto sofrido deixou a todos penalizados e indignados.

- Querida, não fique assim. Juro, eu não sei o que deu neste garoto para ele dizer essas barbaridades. O Stiles é o melhor amigo do meu filho e a preocupação deve tê-lo deixado completamente DES-CON-TRO-LA-DO. Stiles, venha aqui e peça desculpas à Frau Gertha.

- Melissa, essa mulher ..

- Stiles, não piore a sua situação. PEÇAS DESCULPAS à Frau Gertha. VAMOS, Stiles. Estamos todos esperando.

- Me desculpe, .. Frau Gertha. Não foi nada pessoal. Eu .. só estava .. um pouco nervoso.

Foi isso o que Stiles disse. O que seus olhos diziam era algo bem diferente. Parecia que iam saltar centelhas de seus olhos. Sua vontade era pular no pescoço da desgraçada e apertar até que olhos dela saltassem das órbitas.

- Assim é bem melhor, docinho. É claro que eu desculpo você pelas bobagens que disse. Você é só um menininho confuso. Mas, não precisa ficar estressado. Eu juro que vou cuidar muito bem do seu .. amiguinho.

- NÃO! Eu não vou permitir que encoste UM DEDO sequer no Scott, SUA .. sua ...

- CHEGA. Isso já passou dos limites. Você vem comigo, Stiles. Gertha fique olhando o Scott até eu voltar.

- Não se preocupe, Melissa querida. Ele está em ótimas mãos.

- Melissa, por favor .. você não entende ..

- Vamos, Stiles. Eu quero ter uma palavrinha com o seu pai.

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LOCAL: ENTREPOSTO BLUE MOON, ÁREA PORTUÁRIA DE BEACON HILLS

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- Marin! Notícias do Derek?

- Não o pegaram. E, como imaginamos, tentaram matá-lo no hospital.

- Tem certeza absoluta que Derek escapou e está a salvo?

- Tenho. Ele fugiu com a ajuda de Stiles Stilinski. Eu vi quando os dois entraram no jeep e partiram. Eu estava pronta para intervir caso fosse necessário. Caso alguém tentasse detê-los ou quisesse segui-los.

- Para onde acha que foram?

- Meu palpite? Para a casa do xerife. Quem imaginaria procurar Derek Hale justamente lá.

- O xerife .. ?

- O xerife Stilinski teve uma crise hipertensiva e ia passar a noite no hospital, em repouso.

- Quem estava com Christian Argent no hospital?

- Apenas o mais velho dos irmãos Winchester. Ele passou horas revistando o hospital à procura de Derek. Quarto a quarto, de forma bem minuciosa. Empurrava um carrinho com a refeição noturna que o hospital prescreve para alguns pacientes como disfarce. Eu fiquei curiosa para saber como ele ia agir. Afinal, estávamos em um hospital. Entrei no quarto de um paciente que estava sem acompanhante e esperei. Ele deve ter achado que eu era parente do paciente. Ele representou direitinho o papel de enfermeiro. Se eu não soubesse quem ele é, acreditaria que era um profissional do hospital. Ele foi até o paciente, ajeitou o soro, olhou tudo em volta, olhou embaixo da cama, olhou no banheiro. Tudo sem afobação, sem fazer parecer que estava procurando alguém. Mas, quando ele se abaixou, deu para ver que ele trazia uma lâmina escondida nas costas.

- Eles têm que ser muito bons na representação. Pelo que sei, eles não contam com uma estrutura de apoio.

- Antes de sair do quarto, ele me olhou .. sabe, como quem avalia uma mercadoria.

- Cafajeste. Você devia ter deixado bem claro o seu desagrado.

- Deveria .. Se tivesse me desagradado.

- Como é que é?

- Ele estava vestido de enfermeiro, com boina, luvas e máscara cirúrgica. Só dava para ver os olhos e imaginar como seria o corpo embaixo daquele tecido fino. Mesmo assim, dava para ver que era alguém extremamente sexy. Alguém que tem pegada. Aqueles olhos verdes. Aquela voz rouca. Ele me pareceu bem mais resolvido sexualmente que o irmão.

- Marin, isso não é coisa que se comente com um irmão.

- Não se preocupe, maninho. Não aconteceu nada. Nem vai acontecer. .. Infelizmente.

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LOCAL: BEACON HILLS HIGH SCHOOL

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- Ruiva, você é incrível. Ontem, você parecia a pessoa mais frágil e desamparada do mundo. Hoje, a mais segura. Eu deixei você dormindo à base de calmantes. Você acorda, arma sozinha uma verdadeira operação de guerra e resgata o Scott vivo da mansão dos Argent sem disparar um tiro. Como aconteceu essa transformação?

- Eu cheguei a acreditar que o pai da Allison tivesse realmente matado o Scott. Mas, assim, na frente de todo mundo? Não fazia sentido. E a Allison teria se desesperado e se voltado contra o pai se aquilo realmente a tivesse pego de surpresa.

- Então, ela armou contra o Scott. Eu é que não ia querer uma namorada traíra como ela.

- Eu sei o quanto a Allison ama o Scott. Ela só aceitaria participar de algo assim se fosse para protegê-lo. A conclusão óbvia é que foi tudo uma farsa. Mas, por quê? Lembrei, então, da conversa que tivemos na véspera. A Allison estava angustiada porque não contou ao Scott que chegaram à cidade dois caçadores de monstros. Segundo ela, dois sujeitos implacáveis. Sanguinários. Muito mais perigosos que os Argent.

- Se ela sabia, porque não alertou o Scott?

- Ela não queria que o Scott alertasse o Derek. Você sabe que ela culpa o Derek pela morte da mãe.

- Então, era para os caçadores irem atrás do Derek?

- Não só atrás dele. De todos os lobisomens. A preocupação dela era só com o Scott. Eu só estou te contando porque você sabe do Scott e sabe dos Argent. E para ver se assim você esquece de uma vez por todas essa história de querer virar lobisomem. Você podia ser agora mais um alvo deles.

- E você sabe quem são esses caçadores? Como eles se parecem?

- Não. Ela não entrou em detalhes sobre os caçadores.

- Eu espero nunca cruzar o caminho deles. Imagina. Devem ser dois brutamontes de meter medo. Desses com quem é impossível manter uma conversa civilizada por mais de dois minutos. Se você diz algo inconveniente, eles passam fogo. Parece que eu estou vendo. Cabelo raspado, barba por fazer, braço musculoso tatuado, cicatriz no rosto, expressão de quem acabou de mastigar marimbondo.

- Não viaja, Jackson. Você anda vendo muita televisão.

- Ah! Então como você imagina que eles sejam? Rostinho de modelo de moda? Olhos de cachorrinho perdido? Acha por acaso que eles circulam pela cidade bem mauricinhos vestindo terno e gravata? Imagine um deles entrando por engano na Jungle. Era bem capaz de sair e voltar cinco minutos depois, de metralhadora em punho, gritando: 'Morram seus pederastas depravados. Morram todos.'

- Então é fácil. Se eu vir alguém que corresponda a essa descrição, eu juro que passo bem longe.

- Eu poderia até apostar que eles são exatamente assim. Brutais. Óbvios. Conheço o tipo. Se eu avistasse um desses caçadores, tenho certeza que reconheceria na hora.

- Agora, bico calado. Já sabe que não pode contar para ninguém o que eu falei. Nem mesmo para o Danny.

- Falando no Danny, eu estou preocupado com ele. Ele parece que sumiu.

- E não só ele. Erica, Boyd, Isaac, Irina. Nenhum deles respondeu à minha convocação. Nenhum deles apareceu aqui hoje no colégio. Não acredito que seja mera coincidência.

- Sabe que, às vezes, eu invejo o Danny. Ele não sabe a sorte que tem por não saber das coisas bizarras que acontecem aqui nesta cidade. Agora eu entendo porque dizem que a ignorância é uma benção. Os lobisomens. Os Argent. Eu, seu melhor amigo, transformado em um monstro e quase o matando. O mundo desabando ao redor e o Danny vivendo sua vidinha tranquila. Para o Danny a vida se resume aos estudos, aos jogos de lacrosse e às baladas na Jungle. O pior que pode acontecer a ele é levar um pé-na-bunda de mais um namorado. Ele nunca vai saber o que é ter uma arma apontada para o peito. O que é ter um psicopata na sua cola.

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LOCAL: BEAVER CREEK

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- Danny?

- Não. Não apenas.

- Não esperava você aqui.

- Eu senti vontade de esticar um pouco as pernas. Meu velho amigo Danny veio bem a calhar. E, depois, eu queria muito fazer isso.

Quem visse a cena ia estranhar muito. Quem imaginaria encontrar no ponto mais romântico do Beaver Creek Daniel Mahealani, que sempre se declarara gay, trocando beijos ardentes com Irina Shaykhlislamova, a garota mais desejada da cidade?

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: OS CAÇADORES SEGUEM DEREK ATÉ A MANSÃO HALE


1) No CAPÍTULO #34, Jackson se dirigia aos Winchester chamando-os de agentes Jake e Clay. Revisei o texto, eliminando a palavra 'agentes'. Jackson não tem essa informação. E aproveitei para apimentar um pouco mais a conversa entre eles.

2) Não acho que 'olhos de cachorrinho perdido' seja aplicável ao Sam. Seria mais o Jared. Mas, haveria absurdo maior? Um caçador implacável fazendo cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança?


30.12.2014