CAPÍTULO #38


LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON

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- Então acabou não usando o mandato de busca? Depois de todo o trabalho que eu tive ..

- Sinto muito, Chad. O mandato tinha o objetivo específico de busca e apreensão do menor Scott McCall e ele foi encontrado sem que fosse necessário revistar a propriedade dos Argent. Teve o lado bom do Scott ter sido posto em segurança e de podermos rapidamente coletar o sangue dele para exames. E tempo é um fator decisivo para um resultado positivo em exames toxicológicos. Se for comprovado que Scott foi dopado, Christian Argent vai estar bastante encrencado. O lado ruim é que perdemos a chance de apreender armas que podem ter sido usadas no ataque ao shopping.

- Vejamos se eu entendi. O senhor acreditava que Christian Argent fosse o atirador misterioso do shopping e que Scott McCall fosse a vítima, o rapaz ferido a bala. O Scott foi encontrado na propriedade dos Argent dopado, o que é bastante suspeito, mas sem nenhum ferimento por arma de fogo. E, no entanto, sabemos que aconteceu um tiroteio no shopping e que alguém foi baleado. Há marcas de tiros e havia sangue no chão. Se não o rapaz baleado não é o Scott, estamos na estaca zero. Não sabemos quem é a vítima nem para onde foi levada e não temos provas que Christian Argent seja o atirador. Na verdade, não temos nem mesmo evidências que permitam classificá-lo como suspeito.

- As evidências vão aparecer. É só fazermos direito o nosso trabalho. Vamos tocar o inquérito. Interrogar testemunhas. Enviar uma amostra do sangue do rapaz baleado para exame de DNA. Enviar os projéteis e as cápsulas deflagradas que encontramos para a perícia técnica. Buscar pistas das identidades do atirador e dos homens que lhe deram apoio nas câmeras das vizinhanças do shopping. Sim, porque agora temos a confirmação que todas as gravações das câmeras do shopping foram destruídas.

- Eu entreguei a intimação para que Vernon Boyd dê seu depoimento sofre a suposta fuga de Erica Reyes. Está marcado para hoje à tarde.

- Antes do depoimento confirme com a família se a menina continua desaparecida. Algo mais?

- Teve também um caso de agressão contra um homem não identificado e a única testemunha é o agente Jacob Gray. A vítima foi levada para o BH Hospital entre a vida e a morte, mas teria fugido poucas horas depois, antes de receber alta e depois de atacar um enfermeiro na UTI. Eu ainda não fui ao hospital colher os depoimentos, mas soube que estão todos sem entender como isso possa ter acontecido. O homem tinha ferimentos gravíssimos e não estava em condições nem de levantar da cama quanto mais de derrubar um homem forte e desaparecer sem deixar pistas. A hipótese mais provável é de que o homem tenha sido levado do hospital por alguém ainda não identificado.

- Coisas demais. Chad, sabe aonde estão os federais?

- Não. Eu vi o agente Clay pela última vez pouco antes de sairmos para investigar o tiroteio no shopping. Parece que ele esteve no shopping pouco depois que saímos de lá. O agente Jake se envolveu no tal caso de agressão de que falei e sabemos que acompanhou o ferido até o hospital. Hoje, nenhum dos dois apareceu ainda.

- Precisamos do relatório do agente Jake para conhecer as circunstâncias da agressão e saber se há pistas sobre a identidade do agressor. Quanto à fuga do hospital, a testemunha-chave me parece ser o enfermeiro atacado. Convoque-o para depor aqui na delegacia. Requisite também as gravações de todas as câmeras de segurança do hospital.

- Ah! E nossa central recebeu um chamado para investigarmos o porquê do cemitério não ter aberto as portas hoje.

- O cemitério? Com a morte do pai, o responsável pela administração do cemitério passou a ser o rapaz .. Como é mesmo o nome dele? .. Ah! Isaac. É isso: Isaac Lahey.

- E o que faremos a respeito? Xerife! Xerife, o que houve?

- Isaac Lahey, Erica Reyes, Scott e um desconhecido que foge do hospital apesar de seriamente ferido.

- O que tem eles? Está vendo alguma ligação entre os casos? Eu não vejo nenhuma.

- Chad! Peça à nossa Central que faça contato com o atual xerife da cidade de Cody, no Wyoming. Peça para passarem à ligação para minha sala. E também com o escritório do FBI de Los Angeles. Eu quero falar com o agente Rafael McCall.

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LOCAL: BEACON HILL PRESERVE

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A movimentação dos caçadores estava sendo acompanhada à distância pelo lobisomem desde que eles estacionaram o Impala nas proximidades da Mansão Hale. A presença dos Winchester ali não era surpresa. Derek sabia que esse momento chegaria. Assim como sabia que de nada adiantaria postergar o confronto. O problema é que ainda não tinha uma ideia clara de como enfrentá-los e isso o deixava em desvantagem. Como gostaria de ter a objetividade de Peter. Por mais que detestasse admitir, Peter o conhecia melhor que ele próprio. A prova disso era o diagnóstico preciso que Peter fizera quando lhe contara de seu primeiro encontro com os caçadores.

A conversa que tiveram na ocasião - e que trazia as questões para as quais ainda não tinha resposta - volta à sua mente.

§ Derek, você é o alfa. Pense como um. Eles são profissionais. Já enfrentaram e mataram lobisomens antes. E não somente lobisomens. Todo o tipo de criaturas. Não pode enfrentá-los sem estar decidido a matá-los. Não pode hesitar. Se estiver em dúvida, o melhor é não enfrentá-los. Fuja. Esconda-se. Só não se esconda embaixo da cama do filho do xerife ou vai virar a piada preferida das rodinhas de pôquer dos caçadores.

- É esse o seu conselho? Que eu devo atacá-los de peito aberto?

- É CLARO QUE NÃO. Você não terá a menor chance numa luta limpa. Qual foi a parte de 'ELES SÃO PROFISSIONAIS' que você não entendeu? Terá que pegá-los desprevenidos. De preferência, quando estiverem dormindo. Vá ao hotel à noite e rasgue suas gargantas.

- Por que tipo de covarde você me toma?

- O tipo que escolhe permanecer vivo. Mas, se prefere arriscar-se, pode tentar emboscá-los. Mas, deve atacar somente quando estiverem afastados um do outro.

Sabia que Peter estava certo em tudo que dissera. Era o alfa e um alfa não pode hesitar por pior que seja a situação ou por mais difícil que seja a decisão. Derek sabia o que não queria: ser morto. E sabia o que não faria: fugir. O resto todo ainda era uma grande confusão em sua cabeça. Era duro reconhecer que Peter tinha razão também quando dizia que ele, Derek, era um PÉSSIMO alfa.

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As vozes dos caçadores trazem Derek de volta do seu devaneio. Estavam discutindo a estratégia que usariam contra ele e era do seu interesse não perder uma palavra da conversa.

- Eu fico com a faca com lâmina de prata. Vou na frente e tento atrair a atenção dele para mim. Você me dá cobertura com o revólver. Conferiu as balas?

- Três balas de prata intercaladas com três balas comuns.

- Usamos as bombas incendiárias?

- Melhor não. Estamos numa reserva florestal. Se começarmos um incêndio, o fogo pode devastar tudo.

- Podemos ligar uma delas ao sistema de ignição do carro. Assim acabamos com o bastardo caso escape de nós e tente uma fuga.

- Precisaríamos abrir o capô e levaríamos pelo menos cinco minutos para fazer a instalação. Se ele nos visse neste interim teríamos perdido tempo e estaríamos vulneráveis.

- Certo. Mas, vou usar a faca para furar os quatro pneus. Simples e rápido. Se ele quiser fugir, vai ter que ser a pé.

- Ele não vai escapar. Vamos acabar com esse monstro de uma vez por todas.

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Sua audição acurada lhe permitia acompanhar a conversa sussurrada dos caçadores melhor até que um escutava o outro. Os caçadores fariam de tudo para matá-lo. Nunca duvidara disso. Para eles não havia um componente ético a ser considerado. Monstro bom é monstro morto. Para os caçadores, matá-lo não era diferente de matar um rato ou uma barata. Como um bom monstro devia pensar da mesma maneira em relação a caçadores de monstros. Ou, pelo menos, ser pragmático. Pôr a própria sobrevivência e a de sua alcateia como única prioridade. Enxergar os caçadores como uma ameaça a ser afastada por quaisquer meios disponíveis. Mas, não conseguia. Talvez no calor da batalha, mas não de forma fria e premeditada.

Mesmo sabendo quem aqueles dois eram. Mesmo sabendo que eles estavam longe de poderem ser classificados como inocentes qualquer que fosse o critério adotado. O FBI acreditava que estivessem mortos, mas, se eles fossem presos e julgados, não escapariam da pena de morte. Seriam consideramos monstros mesmo que julgados pelos seus.

Ou será que não. Vira o vídeo do massacre de Ankeny. Lá eles se mostravam frios e desumanos. Mas, nos poucos contatos que tiveram, pode notar calor por trás das vozes frias e uma humanidade mal disfarçada pelas atitudes agressivas. Em cada diálogo, uma pista de quem eles realmente eram.

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§ Houve duas mortes em Cody. Era preciso pará-los.

- Ao final de tudo, foram sete os mortos. Mesmo que vocês, CAÇADORES, não incluam seres como eu em sua contabilidade.

- Humanos estavam sendo mortos.

- TRÊS humanos acabaram mortos ao final de tudo. Melhor assim? Um deles MORTO POR VOCÊ. Ou já esqueceu que matou um SER HUMANO em Cody? INOCENTE ainda por cima. Uma garota cujo único crime foi gostar de um rapaz que ela não sabia que era um lobisomem. A namorada de um dos três rapazes que você abateu sem se importar em saber quem eram ou se eram importantes para alguém.

- Eu .. não estava no comando dos meus atos na ocasião.

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§ Você é uma destas pessoas? Essas que combatem ameaças invisíveis para proteger pessoas como eu?

- Estou mais para o grupo que descobriu da pior maneira que essas ameaças existem. Não quero que aconteça com mais ninguém.

- Não quero ser invasiva, mas vai se sentir melhor se desabafar com alguém. Às vezes, fica mais fácil falar coisas muito íntimas para um completo estranho. Ou para uma total desconhecida para quem se pediu uma carona.

- Obrigado. Eu logo vou estar bem. Eu sobrevivi ao Inferno. Vou sobreviver a algumas verdades desagradáveis, como as que despejaram na minha cara há pouco.

- Sobreviver, tenho certeza que vai. Estou falando de extrair algo bom de uma experiência ruim.

- Não se preocupe comigo. Não foi nada demais. E só que às vezes .. Você dá tudo de si e ninguém nunca vai saber o quanto aquilo lhe custou.

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§ Não parece ter sido mordido, mas é possível que tenha sido infectado. Por enquanto, não há como saber ao certo se foi ou não.

- Provavelmente ele foi. Em sendo assim, o que pretende fazer? Vai matá-lo? Se vai, é melhor que o faça antes da ambulância chegar.

- Não. Por menor que seja, existe a chance dele não estar infectado. Vamos dar a ele o benefício da dúvida.

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§ Se estiver me escutando, não se entregue. Já chamei a ambulância. Em poucos minutos, você vai ser tratado. A dor vai passar. Tenha esperança. Vai dar tudo certo.

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§ Eu tenho um irmão. Ele é muito determinado. Ele sempre soube fazer uma distinção muito clara entre o que é certo e o que é errado. É como um dom que ele tem. Ele sempre soube escolher o caminho certo. Já eu me perdi diversas vezes no caminho.

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Então, do nada, uma luz. Uma inspiração súbita. Derek sorri. Já sabia o que tinha que fazer e sabia como fazê-lo. Daria aos irmãos Winchester o destino que eles próprios escolhessem para si. E essa escolha, fosse qual fosse, definiria o destino dele próprio, Derek. É o que faria. Agindo assim podia até não sobreviver. Mas, pelo menos, não estaria traindo a si mesmo.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: DEREK ATACA E DEAN CHORA NA FLORESTA


ESCLARECIMENTO:

1) Derek escutou do lado de fora do pub SHAMROCK IRISH toda a conversa entre a Marin Morrell e Samuel Winchester (CAPÍTULO 20).


13.01.2015