CAPÍTULO #39


LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE

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Para seu plano dar certo, ia precisar do Camaro. A ideia de deixar o inimigo a pé, no entanto, era boa demais para ser desperdiçada. Precisava mesmo criar uma distração e o Impala desprotegido ali tão próximo vinha mesmo a calhar.

- Ouviu isso?

- Vem de onde deixamos o Impala. Será que o desgraçado ... ?

Dean pensou que fosse enfartar. A cena à sua frente era por demais chocante. Só mesmo um monstro desalmado seria capaz de um ato tão cruel. Uma ação tão covarde. Era como se seu próprio peito tivesse sido rasgado por garras afiadas. Dean sentiu as pernas fraquejarem. Ele tombou de joelhos tentando segurar as lágrimas. Era um caçador. Estava acostumado a todo tipo de brutalidade. Mutilações. Corpos despedaçados. Mas, desta vez, o golpe fora muito duro e, por um segundo, ele se permitiu ser apenas humano. Então, lembrou-se de quem era e do que viera fazer ali. Respirou fundo e pôs-se novamente de pé. Seu lado caçador retomando o controle. Tinha que ser forte. Tinha que mostrar-se forte. O monstro podia estar à espreita. Não podia subestimá-lo. Derek Hale acabara de mostrar a sua verdadeira face. Mostrar as atrocidades de que era capaz.

- Dean, não fica assim. Nós vamos dar um jeito. Ele vai voltar a ficar legal.

- SEI QUE ESTÁ ME OUVINDO, MONSTRO. EU JURO QUE VOU MATAR VOCÊ POR ISSO. NEM QUE SEJA A ÚLTIMA COISA QUE EU FAÇA.

- Dean, controle-se. Essas ameaças .. Está chovendo no molhado. Nós viemos aqui para matar o lobisomem. Já íamos matá-lo de qualquer forma.

- Mas, agora é pessoal. Agora vou matá-lo e sentir satisfação em fazê-lo. Quero que esse desgraçado sofra como eu .. estou ..

Ao longe, o ronco do motor do Camaro acelerando. Pouco depois, a visão do carro negro cruzando em alta velocidade uma trilha paralela à que se encontravam em direção à cidade. Dean queria ter o rifle em mãos nem que fosse apenas para perfurar a lataria do Camaro e tirar do lobisomem o gostinho de vitória. A doce satisfação de ter um carro com a pintura perfeita. Naquele momento, Dean era o próprio retrato da impotência e do desalento.

Sam puxa Dean pelo braço e o abraça apertado. Sabia como o irmão reagia de forma dramática a qualquer arranhãozinho que encontrasse na pintura do Impala. Dean chamava o carro de seu BEBÊ e cuidava dele como se realmente fosse algo frágil e insubstituível. E não tinha sido um arranhãozinho qualquer. Muito pelo contrário.

O lobisomem havia cortado a chapa do capô do carro com as garras. Um grande V, cada perna do V formado por quatro profundos rasgos paralelos de cima a baixo. E não só isso. Os pneus do lado do carona estavam destroçados. Além de qualquer conserto. Iam precisar de pneus novos. Iam ter que chamar um reboque. Iam perder um tempo que não tinham.

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Não deixava de ser engraçado. Dois homens grandes, roupas em estilo militar, abraçados no meio da floresta. Um segurando um revólver e o outro uma faca de caça. O que segurava a faca, chorava desconsolado como um garotinho que teve o brinquedo quebrado. O outro, o consolava com palavras carinhosas e acariciava seus cabelos curtos com a mão livre.

Eram esses os caçadores implacáveis? Jackson jamais acreditaria que uma cena daquelas fosse possível.

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Derek guiava o Camaro exibindo um grande sorriso. Do seu ponto de vista, tinha pegado leve com os caçadores. Bastaria trocarem o capô e os dois pneus e o carro voltaria a estar novo em folha. Bem, NOVO era forma de expressão. O carro era uma velharia do tempo do rádio AM/FM. Um Chevy modelo 67. Era peça de museu. Já eles pretendiam explodir seu magnífico Camaro do ano, de preferência com ele, Derek, junto. Dera o troco. Fizeram por merecer.

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LOCAL: BEACON HILLS HOSPITAL

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A enfermeira Hauser mostrou-se irrepreensivelmente profissional enquanto coletava sangue do adormecido Scott McCall para o exame toxicológico. Nem poderia ser diferente já que a coleta estava sendo acompanhada com atenção pela mãe do rapaz, também enfermeira e, portanto, conhecedora dos procedimentos, e pelo xerife Stilinski, que já acompanhara tantos procedimentos de urgência que podia muito bem atuar como paramédico graduado.

A amostra de sangue coletada em duas seringas foi dividida em 6 recipientes plásticos devidamente identificados. O procedimento padrão do hospital seguia, como não podia deixar de ser, normas internacionais e, uma vez seguido à risca, dava segurança quanto à identidade do doador e ao não comprometimento da amostra por contaminação. Quanto à correta identificação de substâncias estranhas ao organismo, ia depender da substância e do tempo que a substância fora introduzida no organismo.

O sangue fornece uma janela de detecção muita estreita, geralmente de 24 horas. Nunca mais de 72 horas. É por isso que instituições interessadas em identificar usuários de drogas ou de medicamentos de uso controlado solicitam que os testes sejam feitos em amostras de cabelo, que permite detecção de substâncias até 90 dias após o uso.

Um exame toxicológico típico no caso de suspeita de uso de drogas ilícitas inclui a testagem para detecção de: maconha e derivados; cocaína e derivados; anfetaminas; metanfetaminas; ecstasy; heroína; morfina; codeína; oxicodine; e, PCP. Alternativamente, álcool.

No caso de Scott McCall, a suspeita era que estivesse sob a ação de um sedativo ou de algum tipo de medicamento controlado, combinado ou não com álcool. O xerife solicitou especificamente a testagem para barbitúricos, benzodiazepínicos e para alcaloides, mais especificamente para o alcaloide aconitina, o princípio ativo da planta venenosa acônito, popularmente chamada de mata-lobos (wolfsbane). O benzodiazepínico flunitrazepam é a substância mais usada em golpes do tipo 'Boa Noite Cinderela' (easy date).

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O que procedimento algum pode impedir é que alguém mal-intencionado que tenha acesso às amostras - alguém como, por exemplo, o enfermeiro O'Connor - substitua os recipientes legítimos por outros idênticos, com etiquetas de identificação também idênticas às originais. O conteúdo deste outro conjunto de recipientes viera de uma das bolsas de sangue do estoque do hospital. O'Connor, sabendo que McCall tinha sangue AB+, buscara nas fichas de controle do banco de sangue um doador do sexo masculino, saudável, também AB+, que tenha declarado não ser usuário de nenhum tipo de droga lícita ou ilícita e não fazer uso de nenhum medicamento de uso continuado. Encontrou um doador de 25 e outro de 53 anos. Utilizou o sangue do rapaz de 25 anos.

É claro que a farsa seria facilmente descoberta num exame de DNA ou mesmo num exame de sangue mais detalhado que não considerasse apenas o tipo sanguíneo e o fator Rh, mas, até lá, o organismo do garoto lobisomem, cujo metabolismo é mais acelerado que o de um humano normal, já teria eliminado qualquer traço de aconitina.

O'Connor agia sob ordens diretas de Christian Argent, mas o resultado previsivelmente negativo, também pouparia Scott de sérias dores de cabeça futura.

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LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON

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O xerife Stilinski traz as mãos ao rosto e respira fundo. A sensação era de atordoamento. Ia precisar de um tempo para processar tudo o que escutara e planejar seus próximos passos. Não que algo novo o tivesse surpreendido. Já sabia em linhas gerais o que acontecera. Peter Hale havia lhe contado. Mas, tinha agora a confirmação oficial. Escutara da boca de um homem da lei, de um colega policial. Não de alguém como Peter Hale, capaz de torcer a verdade conforme suas conveniências.

Acabara que falar com o atual xerife de Cody, no cargo desde o desaparecimento ainda não esclarecido de seu antecessor três anos antes.

Gen estava 'desaparecido'. DESAPARECIDO. Um homem como Yevgenyi Wiśniewski não desaparece. O homem que um dia chamara de melhor amigo estava MORTO. Fora assassinado e, ao que tudo indicava, não teve um sepultamento cristão. Gen vinha de uma família católica. Não era praticante, mas respeitava os preceitos. Acreditava em Deus. Mais que um bom policial, era um homem bom. Alguém que sempre quis fazer a coisa certa. Não foi culpa dele ter sido transformado. Ele nunca quis virar um lobisomem. Ele não merecia o destino que teve.

Conhecera Yevgenyi Wiśniewski ainda na academia de polícia, em Los Angeles. Dois polacos na Cidade dos Anjos. Eram pouco mais que garotos, ambos solteiros e Los Angeles exibia sua face de Cidade do Pecado. Ele, Stilinski, era um garoto de cidade do interior que se descobria livre na cidade grande com dinheiro no bolso. Não era muito dinheiro, mas, pela primeira vez, tinha algum dinheiro sobrando. Levava a sério o curso de policial, mas se permitia uma noite de farra por semana. Álcool e mulheres. Era jovem e bonito. Fazia sucesso com as mulheres. Mesmo as profissionais aliviavam no pagamento ou ofereciam duas pelo preço de uma. Quantas o receberam em seus próprios apartamentos como convidado especial? Gen fechava a cara sempre que ele aceitava um desses convites e sumia por todo o fim de semana.

Gen também chamava atenção das mulheres. Era alto, forte, tinha bonitos olhos azuis e um belo sorriso. Na época, Stilinski achava incompreensível que o amigo sempre se recusasse a ficar com alguma das garotas. Ele dizia que era porque não achava certo pagar por sexo, mas recusava mesmo quando alguma o dispensava do pagamento. Aí dizia que era por conta de sua criação católica. Que queria encontrar uma garota que pudesse apresentar à família. Uma com quem pudesse casar. Mas, quando pintava uma garota de família, as coisas simplesmente não engrenavam.

Na época, tudo isso lhe parecia ao mesmo tempo incompreensível e natural. A visão de mundo que tinha era ainda a de um garoto de província. Revendo agora as atitudes do amigo com a experiência que a vida lhe deu, podia enxergar as coisas por um outro ângulo.

'Pobre Gen, como as coisas devem ter sido duras para você'.

Gen o acompanhava a todos os lugares e agia como seu anjo da guarda. Após as noitadas, era Gen quem o trazia bêbado para o alojamento, o enfiava debaixo do chuveiro e o punha na cama. Todas as manhãs, era ele quem lhe preparava um café forte e cuidava para que estivesse apresentável ao entrar na academia. Graças a Gen, terminara o curso com a reputação não merecida de cadete exemplar.

Gen fora um dos primeiros colocados do curso e podia ter escolhido servir em uma cidade mais importante, uma que alavancasse sua carreira, mas escolheu acompanhá-lo em sua volta a Beacon Hills.

Yevgenyi Wiśniewski foi por muitos anos membro da força policial de Beacon Hills, seu parceiro oficialmente designado. Aí então é que ficaram inseparáveis. Passavam o dia juntos por conta do trabalho e as noites juntos pela falta de opções. Uma rotina de longas e tediosas rondas e plantões numa cidade pequena onde nunca acontecia nada. Pelo menos, era isso que acreditavam na época. Não sabiam ainda da guerra travada nas sombras entre os Hale e os Argent.

Então, conhecera Claudia e se apaixonara. Claudia antipatizou com Gen de cara e ele, embora não falasse a respeito, tampouco gostava dela. Stilinski não entendia como era possível que as duas pessoas que mais amava, não se entendessem. Achava graça deste ciúme bobo de parte a parte e incentivava Gen a também arranjar uma namorada séria. Via agora o quanto era ingênuo na ocasião.

Seu casamento empurrou Gen na direção de Peter Hale. E agora Gen estava morto.

- Desculpe, Gen, por nunca ter percebido o quanto me amava. Ou a forma como me amava. E agora tudo o que posso fazer é levar seu assassino à justiça. E forçá-lo a dizer aonde seu corpo está enterrado.

O assassino de Gen. O homem que se passa por agente do FBI usando o nome falso de Clay Miller. O homem procurado pela polícia do condado de Park como principal suspeito do desaparecimento do antigo xerife de Cody e de seus dois auxiliares. E pela morte culposa de uma garota de apenas 19 anos, namorada de um dos auxiliares do xerife. O caso estava sob a alçada do FBI, mas o xerife de Cody não sabia em que pé estavam as investigações.

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A porta se abre e, ao ver quem era, o xerife, num ato reflexo, olha para sua arma sobre a mesa. O tempo que precisava para definir uma linha de ação não lhe seria dado.

- Bom dia, xerife. É bom vê-lo recuperado.

- Agente Clay?

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: DEREK DE VOLTA À CAMA DE STILES


18.02.2015