CAPÍTULO #40
LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON
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- Bom dia, xerife. É bom vê-lo recuperado.
- Agente Clay? Agente .. Jake?
Agente Jake. O parceiro do falso agente Clay. Com toda certeza ele próprio também um falso agente do FBI. Mas, precisava de uma confirmação oficial para dar voz de prisão aos dois. Rafael McCall estava investigando e prometera retornar a ligação assim que tivesse novidades. Peter Hale não mencionara o agente Jake. As investigações da polícia do condado de Park concluíram que, fosse quem fosse o homem que se apresentara na delegacia de Cody como agente Clay, agira sozinho. Não tinha base legal para voz de prisão ao agente Jake. Solto e armado, ele podia criar problemas. A força policial de Beacon Hills resumia-se atualmente à ele próprio, ao policial Chad Dalton e às duas atendentes que trabalhavam em turno. O agente Jake, sendo ele próprio um farsante e sabendo da vulnerabilidade do lugar, podia sentir-se tentado a libertar o parceiro.
O melhor era aguardar até poder agir contra os dois. O assassino de Gen e seu atual cúmplice. Ver o agente Clay entrar sorridente, saber que circulava impune pelas ruas, fazia seu sangue ferver. Sua vontade era pular no pescoço do agente Clay - ou fosse lá o nome que tivesse - e apertar até que o desgraçado confessasse onde Gen está enterrado. Supondo que esteja enterrado. Supondo que seu corpo e os dos dois outros policiais de Cody não tenham sido simplesmente deixados na floresta para serem devorados por feras. A mera hipótese de que algo assim possa ter ocorrido fazia o estômago do xerife se revirar.
Queria gritar toda a sua revolta e inconformismo, mas tudo que podia - que precisava - fazer no momento era sorrir e fingir que tudo continuava igual. Sorrir naquele momento ia exigir dele um esforço sobre-humano, mas ele tentou. Mas, sabia que o sorriso não sairia convincente. Sempre fora um péssimo mentiroso.
- Agente Jake. Que bom que está aqui. Precisamos do seu relatório sobre o incidente com o homem que deu entrada ontem no hospital distrital seriamente ferido. Como agente da lei sabe que não temos como evitar a papelada burocrática. E talvez saiba algo que possa nos ajudar a entender como é possível que alguém tão ferido possa ter atacado um enfermeiro e fugido sem que ninguém tenha visto.
O xerife notou que o agente Jake, embora tenha disfarçado depois, não demonstrou surpresa com a informação que o homem havia fugido do hospital.
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- Achei o xerife meio estranho. Como se desconfiasse de algo.
- Tive a mesma impressão. E o pior é saber que estamos vulneráveis. Nossas identidades estão por um fio. Derek Hale SABE quem somos. Sabe do vídeo. Ele é um cidadão livre, não precisa se esconder. Você ouviu o xerife dizendo que ele não é considerado nem mesmo SUSPEITO de nenhuma das mortes. Nada impede que ele entre nesta delegacia e nos denuncie. Ele vira o jogo e nós é que passamos a ser os monstros da história.
- Maldição. Pensando bem é até estranho que ele ainda não o tenha feito.
- E não é só ele. Seu NAMORADINHO também sabe. É outro que pode nos denunciar a qualquer momento.
- Quer parar com essa história de namoradinho. O Danny não vai nos denunciar. Mesmo você tendo dado a ele todos os motivos para isso.
- Você confia MESMO muito nele. Eu só não entendo o porquê.
- Você entenderia. Se tivesse se dado a chance de conhecê-lo melhor.
- Seja como for, o melhor é deixarmos o quanto antes esta cidade. O risco está ficando grande demais. Precisamos resolver nosso assunto com Hale ainda essa noite. E confiar que os Argent sejam capazes de cuidar do resto da alcateia.
- Não gosto disso. Deixar um trabalho pela metade. Lembre-se que não são somente os lobisomens. Existe uma rusalka matando cidadãos de Beacon Hills. Os mais desassistidos. Aqueles a quem a vida já tirou tudo. Se pensarmos bem, a rusalka é a verdadeira ameaça. A ameaça mais imediata. Um tipo de criatura que os Argent não estão acostumados a enfrentar.
- Um problema de cada vez. Primeiro, Hale. Depois, a rusalka. Sem descuidar do xerife. Se ele ainda não sabe, está desconfiado. Todo cuidado é pouco.
- Acho que sei como descobrir o que está acontecendo. A policial atendente. Até que ela é bem jeitosinha, não acha? Talvez eu consiga arrancar dela o motivo do xerife estar tão estranho.
- Tem certeza que não prefere investir no policial Chad? Ele é um cara .. interessante. Ele não faz o seu tipo, é isso? Prefere morenos? Como ele, haveria um problema a menos. Ele é maior de idade.
- Jerk [Babaca].
- Ei, essa fala é minha.
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LOCAL: NÃO IDENTIFICADO
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- Ah! Aqui está você.
Derek Hale pega com cuidado o objeto. Viera ansioso, com medo que alguém o tivesse encontrado e levado. Seu plano dependia dele. Mas, agora, que o tinha em mãos, suas certezas começavam a se liquefazer. Quando teve a ideia, tudo parecia tão claro, o roteiro parecia tão perfeito. Tudo muito bem encadeado. Não tinha como dar errado. Não tinha? Quando um plano seu chegara a um bom termo? E esse tinha TUDO para dar errado. Peter é que estava certo. Suas alternativas eram MATAR ou MORRER. Era isso que tinha que ter em mente. SEMPRE. MATAR ou MORRER. E morrer não podia ser nunca a sua escolha. Não quando havia tanto em jogo. Não era só a sua vida que estava em jogo. Era a vida de Stiles. A vida de Scott. A vida das crianças que transformara.
As sobreviventes, pelo menos. Boyd estava morto. Não o matara, mas o peso de sua morte sempre estaria sobre seus ombros. Ele estaria vivo se não tivesse sido transformado. Boyd era sua responsabilidade. O Boyd o traíra, mas talvez porque se sentisse traído. Porque tivera suas expectativas traídas. Quem falhara com quem? Boyd devia-lhe lealdade. A tradição determinava que traição à alcateia fosse punida com a morte. Mas, Boyd não fora informado disso. Não no momento certo. Quando Boyd ainda era apenas um garoto pobre e marginalizado. Quando ainda era HUMANO.
Boyd fora um erro. Mais um de uma enorme lista. Mas, não dizem que os erros servem para nos ensinar?
- Eu aprendi a lição, Boyd. Nunca mais vou deixar a solidão falar mais alto. Não vou transformar mais ninguém. Você me causou muita dor. Mais do que pensei ser capaz de aguentar. Mas, a dor física já se foi. Ou, quase. As cicatrizes do corpo começaram a desaparecer. Muito em breve vão restar apenas as cicatrizes da alma. Perdoo você. Espero que também possa me perdoar. Que tenha encontrado a paz.
Olha mais uma vez para o objeto em sua mão. Sentia a esperança renascer. Sentia-se mais leve. Perdoar faz bem à alma. Já se decidira. Agora, era levar o plano adiante. Por menores que fossem as suas chances, iria em frente. O plano podia ter suas falhas .. Falhas? A quem estava tentando enganar? O plano tinha mais buracos que queijo suíço. Não importa. Podia não ser um plano brilhante, mas o levaria em frente assim mesmo. Melhor que agir no improviso. Que agir intempestivamente. Se desse certo, ótimo. Se desse errado, ainda tinha suas garras e suas presas. Faria uso delas. Não deixaria barato.
Tinha que fazer uma escolha. Qual dos irmãos? Dean ou Samuel. Com qual deles teria maior chance?
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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI
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Derek usa todos os sentidos no limite para perscrutar o ambiente à sua volta. Ninguém à vista. Ninguém próximo. Sentiu-se seguro. Permitiu-se relaxar.
A casa do xerife. A casa de Stiles. Um sorriso involuntário iluminou seu rosto. Lembranças da noite anterior. Stiles o levando para sua própria casa. Cuidando dele. Lhe dando força. Stiles era muito mais forte do que ele próprio imaginava. Estava indefeso e ele o fizera sentir-se protegido. Fora essa sensação de segurança que lhe permitira relaxar pelo tempo necessário para que todos os seus ferimentos fechassem. E, depois, o que dizer da sensação deliciosa de partilhar a cama com Stiles? Existe algo melhor que estar com quem se ama? Simplesmente estar junto?
Acordado, Stiles sempre o tirava do sério. Adormecido, Stiles era perfeito. Palavras só serviam para atrapalhar. Nunca fora bom com as palavras. Nunca encontrava as palavras certas. E, com Stiles, nunca podia usar as palavras que desejava. Dizia sempre o avesso do que queria.
Sorriu ao lembrar da sua velha ameaça vazia, tantas vezes repetida, de rasgar a garganta de Stiles com os dentes. Bem que gostaria de enterrar o rosto no pescoço do garoto e morder bem de leve. Seus caninos em contato com a jugular do garoto. Apesar do que pudesse parecer, em seus braços ele sempre estaria seguro.
O que estava esperando? Já que estava ali, o melhor a fazer era entrar. Ou, acabaria sendo visto por alguém.
Ainda era cedo. Só agiria depois que o sol tivesse se posto. Com a lua cheia dominando o céu. Com a primeira lua cheia do mês exercendo sua magia. Potencializando suas habilidades. Aumentando a acuidade de seus sentidos. Aumentando sua força e velocidade. Tirando suas inibições. Tornando-o mais instintivo. Mais animal.
Até lá, precisava de um lugar para descansar. Precisava estar totalmente recuperado quando enfrentasse os caçadores. E que lugar melhor que aquele? A casa do xerife. Lá estaria seguro. Pelo menos, pelas próximas 6 horas.
Após um breve momento de hesitação ao pé da escada, subiu. A cama de Stiles chamando-o. O cheiro do garoto estava na casa toda, mas era ali que era mais forte e mais gostoso. Na cama, em meio às cobertas. Tudo que queria se jogar ali e ficar. Suas roupas estavam empoeiradas, mas isso podia ser facilmente resolvido. Tirou as roupas e deitou-se, completamente nu. O lugar era deliciosamente aconchegante. Ligou o aquecimento no mínimo, envolveu-se nas cobertas e, em menos de um minuto, estava profundamente adormecido.
Em seu rosto, um sorriso.
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LOCAL: BEACON HILLS HIGH SCHOOL
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Por onde passavam, os olhos se voltavam para o inesperado casal. Olhos arregalados de surpresa, sorrisos cúmplices trocados com quem quer que estivesse ao lado, comentários de estranheza e de incredulidade. Aquilo era uma brincadeira daqueles dois. Só podia. Não fazia sentido. E, mais que depressa, sacavam os smartphones e enviavam mensagens para os mais íntimos. Mesmo que esses íntimos estivessem ali ao lado. Vendo o mesmo que eles viram.
As mensagens tiravam outros alunos de suas salas de aula e enchiam os corredores de gente que jurava que só acreditaria vendo. Ninguém falando nada em voz alta. Mas, mensagens com brincadeiras, piadinhas e comentários picantes são trocadas em ritmo frenético. Não demoraria para que as hashtags #DANNYMACHOALFA e #DANNYPEGADOR dominassem as redes sociais da cidade. Scott ser ou não um lobisomem passara a ser assunto de ontem.
Eles seguiam em frente, ignorando a tudo e a todos. Pareciam estar num universo à parte, onde só eles existiam. Mãos dadas, olhos nos olhos mais do que no caminho à frente, largos sorrisos, selinhos intercalados com beijos mais profundos. Com direito a paradas para troca de beijos cinematográficos e para as mais diversas manifestações de carinho. Quem os visse poderia jurar que estavam realmente apaixonados. Que eles tinham acabado de descobrir que estavam perdidamente apaixonados um pelo outro e não tinham um minuto a desperdiçar com mais nada. Era o que parecia. Mas, se eles realmente estavam, então o mundo tinha virado de cabeça para baixo. O gay mais assumido do colégio pegando a garota mais desejada?
Percy O'Brian vê a cena sem acreditar. Danny Mahealani e Irina Shaykhlislamova? Juntos? Não pode ser. O desgraçado só está fazendo esse teatrinho para ridicularizá-lo.
- Danny, o que significa isso? Você e a Irina?
Danny passa pelo ex-namorado como se ele não existisse. Seu objetivo era mesmo humilhar quem desdenhara do seu amor. Mas, essa pessoa não era Percy O'Brian. Era Allison Argent.
O casal para em frente a Allison, que, naquele momento, estava acompanhada por Lydia Martin e Jackson Whittemore.
- Meus queridos e velhos amigos. ESTOU DE VOLTA.
Allison sente um calafrio percorrer sua espinha. Aqueles olhos. Aquela forma de sorrir. Podia estar ficando louca, mas poderia jurar que quem estava à sua frente não era Danny Mahealani. Era Matt Daehler.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: ALLISON ENFRENTA MATT DAEHLER
ESCLARECIMENTOS:
1) Não foi dito antes, mas os lobisomens betas da cidade de Cody eram os policiais assistentes do xerife, que, como já sabemos, é o alfa do PRÓLOGO e era o xerife da cidade.
2) É isso mesmo. Danny está possuído pelo espírito vingativo de Matt Daehler.
04.04.2015
