CAPÍTULO #43
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LOCAL: CEMITÉRIO DE BEACON HILLS
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- Sorte o cemitério não estar aberto. Assim não precisamos esperar anoitecer.
- Não teríamos que esperar tanto assim. Mais um pouco e começa a anoitecer. Quando terminarmos aqui já será noite. Noite de lua cheia.
- Acabou saindo tudo diferente do que planejamos. Lembra que a ideia era enfrentarmos o lobisomem bem no início do dia? Ele ainda não estaria totalmente recuperado dos ferimentos e não seria energizado - se é que este é o termo correto - pela lua cheia. Sem falar que, à noite, a visão e o olfato desenvolvidos dão vantagem ao nosso adversário.
- Nós fomos atrás dele. O covarde fugiu com o rabo entre as pernas. Maldito. Mas, eu vou perseguir esse desgraçado, esse monstro pedófilo, até que ele pague por todas as atrocidades que cometeu.
- Ele mordeu Victoria Argent e transformou adolescentes. Podia ficar tentado a criar outros. Fora isso ..
- Sam, esqueceu o que esse monstro fez com o meu bebê? Acha que eu vou deixar barato? Depois, quem faz uma coisa dessas é capaz de fazer qualquer coisa.
- Ah! É DESSA atrocidade que você estava falando? Foi sorte eles terem encontrado uma peça e substituído o capô.
- Sorte? Um capô velho, cheio de amassados, com uma pintura detonada que ganhou às pressas uma camada de primer que mal disfarça os pontos de ferrugem. Eu olho para esse capô e meu sangue ferve de ódio do monstro que fez isso.
- Podia ter sido pior. Já pensou se ele rasga também o teto e as laterais do carro?
- Aí, eu não ia só matar o desgraçado. Eu ia torturar o infeliz por meses a fio. Eu ia mostrar a ele tudo que aprendi no Inferno. Ia fazer esse monstro implorar para ser mandado logo para o Purgatório. Eu ia pegar ..
- Ok! OK! Já chega, Dean. Eu entendi perfeitamente o espírito da coisa. Vamos retomar o foco.
- Descobriu onde fica a sepultura?
- Setor 3, quadra 2, aleia 5, sepultura 5-13. Deixa eu ver .. É para aquele lado. O sistema informatizado facilita muito.
- Vamos, Sam. Ainda temos um lobisomem para matar.
- Deixa eu fechar o laptop. E calma. Lembre-se que esse galão de gasolina pesa.
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- Feito. Queimamos os ossos. Espero que isso seja suficiente para libertar o Danny da influência do estudante psicopata.
- Você se importa realmente com ele, não é mesmo? Estou vendo o quanto está preocupado.
- Você sabe que eu faria o mesmo por qualquer outra pessoa.
- Mas, não ficaria com essa cara.
- É que eu me sinto meio culpado. Você já parou para pensar que o Danny pode estar passando por isso unicamente por ter tido o azar de ter nos conhecido? Não fosse isso, ele teria dormido em casa, acordado e ido para a escola. Ele estaria seguro.
- Você diz que se sente culpado, mas o que está realmente dizendo é que acha que a culpa foi toda minha.
- Não, Sam. Eu não estou culpando você. Eu só queria que nada disso tivesse acontecido.
- Dean, você está mesmo apaixonado por esse Danny?
- Sam, a verdade é que ..
- Não, não responda. Não é isso o que realmente importa. A questão não é se você está ou não apaixonado. A questão é como eu venho agindo em relação a você.
- Sam, eu ..
- Dean, deixe que eu fale. Agora que eu comecei, me deixa falar. Dean, você é meu irmão, a pessoa mais importante da minha vida. Mais que o pai. Mais que a Jessica. Mais que a Amelia. A vida toda fomos só você e eu. Quantas vezes você se sacrificou por mim? E quantas vezes eu pisei na bola com você? Você merecia um irmão melhor. Um que fosse menos egoísta.
- Sam, eu amo você como você é. Eu não quero um irmão 'melhor', nem um menos egoísta. Eu quero você assim, com todos os seus erros e acertos. O meu Sammy de sempre.
- Eu sei. E é isso que faz com que eu me sinta pior. Eu também amo você, meu irmão, de verdade. Nada deveria ser mais importante para mim que a sua felicidade. Eu sempre quis que você vivesse um grande amor, acredite. E, quando acontece, o que é que eu faço? Eu estrago tudo. Você estava bem com a Lisa e o Benjamin e a minha versão sem alma foi lá e tirou você deles.
- Já falamos sobre isso, Sam. Nunca daria certo. Não foi você quem me afastou deles. Foi o que eu sou e os inimigos que fizemos. A Lisa estaria morta se o Castiel não a trouxesse de volta. Não seria justo expor a Lisa e o Benjamin a novos riscos.
- E, agora, pela primeira vez em anos, você se diz interessado de verdade em alguém e eu, ao invés de apoiar você, crio caso porque aconteceu de você se interessar por um homem. Eu, que sempre acusei você de homofóbico.
- Quanto a isso você estava certo, Sam. Eu cansei de fazer comentários homofóbicos. E não descarto a possibilidade de voltar a fazer no futuro. Mas, eu não pauto minhas ações por qualquer preconceito que eu tenha. Eu nunca esqueci que se estamos vivos hoje devemos isso a três homossexuais: Alan Corbett, o assistente dos ghostfacers; Damien e Barnes, nossos covers da convenção de fãs de Supernatural, aquela infeliz série de livros do Chuck Shurley. Se eu tivesse dinheiro, comprava até o último exemplar e fazia uma grande fogueira com eles.
- Isso é verdade, Dean. Foram poucas as vezes que dependemos que alguém de fora - alguém que não fosse um caçador - nos salvasse; e coincidiu de terem sido gays.
- Uma grande ironia, não acha?
- É. Mas, como eu estava dizendo, eu sempre acusei você de homofobia e acabou que quem se mostrou um babaca preconceituoso fui eu mesmo. Estou envergonhado das coisas que disse e das besteiras que andei fazendo. Me desculpa, Dean. Se é o que você quer, se é o que vai te fazer feliz .. você tem o meu apoio. Quero de verdade que você seja feliz, seja da forma que for. Mas, acho que por muito tempo vou achar estranho ver você agarrado com um macho e não precisar correr para apartar a briga.
- Sam, isso é tudo que eu queria ouvir. Me doeu imaginar que você pudesse me rejeitar se eu fosse diferente. Ter a sua aceitação, qualquer que seja a situação, é muito importante para mim.
- Mas, não pense que foi fácil para mim. Se nesse momento você me disser que não é nada disso e que você só estava curtindo com a minha cara .. Acho que eu MATAVA você.
- Quanto a isso, Sam ..
'Droga! O quê que faço agora. Não queria estragar esse momento. É melhor eu dar um tempo antes de confessar ao Sam que tudo isso era mesmo só uma brincadeira.'
- O quê? Fala, Dean!
- Não é nada, Sam. Só me dá um abraço apertado.
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LOCAL: BEACON HILLS MEMORIAL HOSPITAL
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- Nada dele acordar?
- Nada. Mas, tenho certeza que ele está bem.
- Obrigado por tudo, Stiles. Eu assumo daqui em diante.
- Que é isso, Melissa? Não precisa agradecer. Eu viria e ficaria aqui com o Scott mesmo que você não tivesse pedido. O Scott é o meu melhor amigo. É mais que um irmão para mim.
- Sei disso, querido. Você também é como um filho para mim. Mas, eu sei o quanto deve ter sido penoso para você ficar aqui por tantas horas sem ter nada para fazer nem ninguém para falar. Logo você, que nunca pára quieto.
- É. Acabou a carga da bateria do meu smart e eu deixei o cabo de força em casa. Melhor assim. Eu precisava mesmo de um pouco de paz. O dia de ontem foi o pior da minha vida. Só de pensar que eu podia ter perdido de uma vez o Scott, o pai e o Derek ...
- Derek .. Hale? Não sabia que ele era assim tão importante para você. O que aconteceu com ele?
- Não! O Derek não é importante para mim. Nem de longe. E ele já está bem. Eu nem sei porque falei dele.
- Stiles, você mente muito mal, sabia? Me conta o que vai neste coraçãozinho.
- Ah! Não é nada disso, Melissa. E depois ele nem sabe que eu existo.
- Então é porque ele é um grande idiota. Vem aqui, deixa eu te dar um abraço.
- Melissa, não comenta nada disso com o meu pai.
- Não vou comentar. Fica sendo um segredo nosso. Mas, você devia confiar mais em seu pai. Os pais às vezes nos surpreendem.
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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI
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Era raro o xerife voltar para casa antes do final do seu turno. Se havia acontecido antes, ele não conseguia lembrar quando. Mesmo nos piores momentos da doença de Claudia, ele se esforçou para separar seus problemas pessoais de suas responsabilidades como xerife. Foram tempos difíceis. Se conseguiu superar a morte da esposa e seguir em frente, foi porque sabia que tinha um filho que precisava dele forte. Esse filho era agora tudo o que lhe restara. Perdê-lo seria o mesmo que morrer.
Mas, agora era diferente. Antes, o verdadeiro problema estava do lado de fora daquelas paredes. Agora, era o ambiente da delegacia que o estava sufocando. McCall voltara a ligar e ele voltara a mentir. Isto o estava destroçando por dentro. Era um homem da lei, simplesmente não sabia viver fora dela. Ajudar assassinos perigosos a escapar da justiça era um pesadelo que nunca imaginara viver. E o pior era saber que isso provavelmente não salvaria Stiles. Os Winchester não costumavam deixar testemunhas. Será que a melhor alternativa não seria fazer o que era certo? Acreditar na competência de seus colegas policiais e ter fé em Deus que tudo acabaria bem?
Não aguentava mais ter sobre si o olhar inquisidor do policial Chad. E não era para menos. Estava dando muita bandeira. Tinha que fingir que tudo estava bem, mas estava ansioso, agitado e irritadiço. Chad convivia com ele por tempo suficiente para saber que algo estava errado. E volta e meia tentava arrancar dele uma pista do que estava acontecendo. Sabia que as intenções do rapaz eram as melhores possíveis e isso só servia para fazê-lo sentir-se ainda pior.
Chad Dalton era um bom policial. Era determinado, honesto e bem intencionado. Mas, ainda era inexperiente. Mal saíra da academia. Era praticamente um garoto. Ainda não tivera seu batismo de fogo. Nunca precisara matar ninguém. Já os irmãos Winchester eram assassinos cruéis. Mesmo policiais e agentes experientes não foram páreo para eles. Sabia que Chad daria o seu melhor, não teria qualquer chance contra eles. Não tinha o direito de arrastá-lo para a morte.
Monstros. Ainda estava chocado com o vídeo do massacre em Iowa. Com os relatos da imprensa sobre as outras quatro chacinas. Sobre outros assassinatos atribuídos aos dois irmãos. As especulações de envolvimento deles com seitas satânicas. Civis inocentes, policiais e agentes treinados do FBI que cruzaram o caminho dos Winchester acabaram mortos. Muitos deles horrivelmente mutilados. Precisava fazer algo.
Mas, não como xerife.
Para sua própria proteção, um policial não pode sair em diligência sozinho e dispunha apenas de Chad. Levá-lo estava fora de questão. Um policial está preso a protocolos de conduta na abordagem de suspeitos. Sempre seguira à risca todos os protocolos. Mas, esses protocolos não foram pensados para o enfrentamento de homens para quem a vida humana nada significa. Em casos assim, segui-los seria suicídio. As tropas de choque e as forças armadas seguem protocolos diferentes. Se não podia agir dentro das regras, como xerife, agiria fora delas, como o pai desesperado que se tornava mais e mais a cada minuto sem notícias.
Um homem tem o direito de proteger sua família por quaisquer meios. Tinha porte de armas e guardava em casa armas de uso pessoal devidamente registradas. Um bom revolver e um velho, mas confiável, rifle de caça. Precisaria também de seu carro particular. E de facas, cordas e lanternas. Da delegacia até sua casa eram quinze minutos de caminhada. Usaria esse tempo para planejar seus próximos passos.
A casa estava às escuras e silenciosa. Claro, era como esperava que estivesse. Mas, no seu intimo, alimentara até o último instante a esperança de encontrar a casa iluminada e de ser recebido por Stiles sorrindo e contando animado seus planos para o fim de semana.
Entrou sem fazer barulho e subiu as escadas sem ligar as luzes. Antes de entrar seu próprio quarto, pousou a mão sobre a maçaneta da porta do quarto do filho. Hesitou por um momento. Nada mais doloroso que encarar aquele quarto deserto e saber poderia ser sempre assim. Mas, e se .. por um milagre .. ?
Não queria, era irracional, mas a esperança teimava em voltar. Novamente a esperança louca fazendo que prendesse a respiração e entrasse cauteloso. O quarto estava às escuras, mas aquecido. Stiles devia ter esquecido de desligar o aquecimento quando saiu de manhã. Será que ele não ia aprender nunca a economizar energia. A irritação veio e passou. Se recebesse a graça de ter o filho de volta são e salvo, jurava nunca mais discutir com ele por besteiras como aquela.
Foi então que viu as roupas caídas no chão próximas da cama. E um quase imperceptível movimento em meio às cobertas. Tinha alguém dormindo ali.
'Stiles! Graças, Senhor! Ele está bem. Obrigado!
Cheio de esperança, o xerife puxa de supetão as cobertas com um sorriso no rosto e tem o maior susto da sua vida quando vê quem é que erguera o tronco e o olhava com os olhos arregalados.
- HALE? O quê diabos está fazendo nu na cama do meu filho?
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: A ARMA DO XERIFE APONTADA PARA A CABEÇA DE DEREK HALE
ESCLARECIMENTO:
Alguém aqui achou que os Winchester tivessem sequestrado o Stiles e o estivessem mantendo prisioneiro em algum lugar? Eles nunca fariam uma coisa dessas com um adolescente humano inocente. Eles fizeram algo muito mais simples. O Sam pediu para tirar uma selfie, o Dean distraiu o Stiles e o Sam aproveitou para trocar o chip e a bateria do smartphone do Stiles sem que ele percebesse. O Sam só precisou instalar o chip no seu próprio aparelho. Quando alguém liga ou manda mensagem para o Stiles, quem recebe é o Sam. A bateria que instalou no smartphone de Stiles tinha apenas 5% de carga e, poucos minutos depois, parou de funcionar. Lembrando que o Sam nunca ameaçou fazer algo ao Stiles. Ele apenas deixou que a imaginação do xerife construísse esse cenário.
26.05.2015
