CAPÍTULO #46


LOCAL: FILIAL BEACON HILLS DO SUPERMERCADO WALMART

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- Detesto quando me faz de motorista, Lydia. Eu tenho mais o que fazer que ficar parado por horas num estacionamento de supermercado enquanto você compra shampoo e absorvente íntimo.

- Grosso! Eu não vim comprar shampoo e muito menos absorvente íntimo. E não levou nem quinze minutos.

- Comprou o quê, então? O que são essas sacolas todas?

- Você vai saber no momento certo. Vamos! Segue para a casa da Allison.

- Ah, não! Se vocês estão planejando fazer compras no shopping, não contem comigo. Estou fora.

- Nada de shopping. Ainda estou traumatizada com o Scott caído na minha frente, sangrando.

- Se eu soubesse que isso manteria você afastada do shopping, eu mesmo já tinha dado um tiro no McCall há muito tempo.

- Se era para ser uma piada, foi de muito mau gosto. E que história é essa de 'ESTOU FORA'? Você não tem querer. Você faz o que eu mando e vai para onde eu digo para ir. Ou você não é mais meu namorado? Para você, o que poderia ser melhor do que passar as próximas horas ao meu lado?

- Ao seu lado, estando só eu e você, num lugar sossegado, onde não vai aparecer ninguém para nos interromper? Nada. Ao seu lado, mais Allison, mais papo mulherzinha, mais sacolas de compras? Qualquer coisa.

- Pois eu acho a segunda opção ainda melhor que a primeira.

- Mentirosa. Já disse que você dava uma boa animadora de torcida? Adoro ver você gritando: Vem, Jackson! Vem! E, depois: 'Vai, Jackson! Vai! VAI! VAAAAI'. E depois: 'Mais, Jackson! Mais! MAIS!'

- Cretino! Cafajeste! Eu nunca disse nada parecido com isso.

- Disse! E disse também que duvida que exista alguém melhor de cama que eu. Que o meu amiguinho aqui é o maior de todos. E que todas as suas amigas morrem de inveja de você por ter o namorado mais gostoso da cidade.

- Só da cidade? Não é o mais gostoso do mundo?

- Sou, mas a modéstia me impede de dizer.

- E, afinal, o que você tinha de tão interessante para hoje?

- Hoje tinha .. vejamos .. Ah! Lembrei! Hoje é aniversário do Greenberg. Ele chamou o pessoal do lacrosse para passar no Shamrock Pub, às 21:00.

- Jackson, você nunca deu nem bom dia para o Greenberg. Você só lembra dele quando é para dizer que ele joga ainda pior que o Stiles e que é um panaca.

- E você? O que acha dele? Eu devo ficar preocupado? Corro o risco de você me trocar pelo Greenberg?

- Nunca. Odeio concordar com você. O Greenberg é um panaca, joga pior que o Stiles e não vai ter você na festa de aniversário dele. Ao invés disso, você vai me levar e à Allison a um lugar.

- Que lugar? O que você e a Allison estão planejando fazer?

- Eu não sei se o termo certo é CAÇAR ou PESCAR.

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LOCAL: ÁREA PORTUÁRIA DE BEACON HILLS

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- Sam? (...) SAM! (..) SAM!

A ideia era passarem despercebidos e não ele estar ali gritando o nome do irmão.

Sam devia manter-se escondido, mas nada justificava que não atendesse ao celular. Que não respondesse a seus chamados. Numa caçada, comunicação rápida podia ser a diferença entre vida e morte.

Viu quando Sam iniciou a subida, embora não tenha acompanhado ele fazer todo o percurso. Combinaram que se falariam antes de Sam contatar Hale. Que Sam ligaria assim que estivesse posicionado. E, para isso, ele já tinha tido tempo mais do que o suficiente. Se fosse um problema com o celular, Sam já teria percebido. Ele teria aparecido na plataforma suspensa e feito algum sinal.

'Sam, o que está acontecendo? Porque não responde às chamadas?'

Ficava cada vez mais evidente que algo estava MUITO errado.

Dean se afasta e estica o pescoço tentando enxergar o interior da cabine de comando do guindaste. Inútil, o ângulo não ajudava. O guindaste era do tipo torre, com o típico perfil em T assimétrico. A cabine ficava a cerca de 15 m do solo, o equivalente a um prédio de 5 andares. Dean vai até à escada e olha para cima. Inspira fundo e expira devagar. Não era medo, apenas não se sentia confortável em lugares altos. Sem alternativa, inicia a longa subida. A escada de marinheiro balançava a cada movimento que fazia, forçando Dean a usar as duas mãos para subir. Gostaria de poder subir empunhando o revólver, mas acabaria levando o quádruplo do tempo. Ou caindo lá de cima. Deixaria para sacar a arma quando estivesse bem próximo à cabine.

Aquele era o trecho mais degradado do rio. Do cais, era impossível não sentir a mistura desagradável dos odores de matéria orgânica em decomposição e fumaça de óleo queimado vindos do rio. Era diferente ali em cima. Uma brisa suave trazia ar fresco e o cheiro bom da floresta.

De onde estava, tinha uma visão privilegiada do entorno. Ninguém à vista, à exceção do vigia desatento de um armazém afastado. Havia movimentação de caminhões num ponto distante dali, próximo à rodovia. Um carro seguindo solitário na direção da rodovia. O rio correndo silencioso. A vasta região de floresta no lado oposto do rio se estendendo até onde a vista alcançava. Luzes acesas denunciando as poucas construções existentes do outro lado no rio. A maioria delas concentrada no trecho diretamente em frente ao porto fluvial.

Era uma vista bonita. A noite faz tudo parecer mais bonito do que realmente é. O silêncio dava uma sensação enganosa de paz.

Silêncio quebrado pelos sons metálicos vindos da escada a cada movimento que fazia. A sensação era de total insegurança. A impressão que dava era que a estrutura inteira podia desabar a qualquer momento. De cima, um ruído que parecia ser a porta da cabine do guindaste batendo contra o batente metálico ao fechar pela ação do vento. Seguido do rangido irritante da porta voltando a se abrir. Se Sam estivesse na cabine, já teria dado um jeito na maldita porta. Nervoso como estava, aqueles sons metálicos repetitivos em meio à ilha de silêncio perturbavam Dean mais que gritos ou barulho de briga.

Nos gritos, na luta, existe vida. Naquele silêncio ..

Ao chegar à cabine, Dean sente o coração apertar. No vidro da porta, pelo lado de dentro, a marca de uma mão espalmada impressa em sangue. Uma mão grande. Uma mão humana, que poderia perfeitamente ser de Sam. Uma marca que parecia recente. Perturbadoramente recente.

A cabine estava vazia, mas não foi isso que fez que Dean prendesse a respiração. Foi a visão do sangue espalhado por toda parte. Havia uma grande poça de sangue ainda não coagulado no piso em meio a uma sobreposição confusa de pegadas em vermelho. Havia uma marca de sangue fresco no painel de controle. Outra no assento do operador. Sangue espirrado no vidro, como o que costuma resultar de um corte rápido e profundo da artéria do pescoço. E muitas marcas de sangue sem padrão definido nas paredes da cabine.

Houve luta. Quanto a isso parecia não haver dúvidas. E aquele sangue era uma indicação clara de que pelo menos um dos combatentes saíra muito ferido. Sangue é sangue. Olhando, não dava para saber a quem pertencera. Mas, a lógica dizia que, se fosse do lobisomem, além do sangue, certamente haveria ali um corpo caído. E seu irmão estaria ali para recebê-lo. E ele não estava.

Sam estava com sua faca de caça, mas não com a faca com lâmina de prata. Sem ela, mesmo que Sam tivesse conseguido golpear o lobisomem, o corte não tardaria a fechar. Já tivera uma amostra da capacidade de regeneração do monstro.

Um rifle tinha pouca serventia num espaço confinado como aquele. No máximo, podia ser usado como bastão num combate corpo a corpo. O rifle estava largado num canto. A prova incontestável que Sam estivera na cabine. A marca grudenta no cano parecia indicar que fora posto ali por alguém com as mãos sujas de sangue.

Molhadas do sangue de Sam.

Tudo ali parecia indicar que Sam fora retalhado pelas garras do lobisomem. Será que o monstro também o mordera? Quase desejava que isso tivesse acontecido. Qualquer coisa que desse a Sam uma chance de sobreviver. Mesmo que como lobisomem.

O que dera errado? O lobisomem devia ter chegado antes deles, talvez horas antes, e emboscado Sam. Isso dava para entender. Mas, como foi possível o lobisomem fugir levando Sam sem que ele, Dean, tenha percebido? Levara poucos minutos manobrando o Impala, não mais que 5 min. Ficara atento a qualquer movimentação nas redondezas. SEMPRE estava atento. Seria possível o lobisomem ter saltado de uma altura de mais de 15 m carregando um homem de mais de 80 kgf e corrido com ele para fora de seu campo de visão num espaço de tempo tão reduzido? Uma luta tão sangrenta podia ter sido assim tão rápida?

De nada adianta brigar com fatos. Acontecera. Descobrir exatamente o quê e como acontecera, podia esperar. O importante era encontrar e socorrer Sam o mais rápido possível. Se ele ainda estivesse vivo, ia precisar de uma transfusão urgente. A cada minuto perdido, diminuíam as chances de sobrevivência de Sam. Não era do tipo que entra em desespero por qualquer coisa, mas estava difícil segurar a onda.

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A área em torno do guindaste era iluminada, mas com muitos pontos de sombra. Devia haver um rastro de sangue em alguma direção, mas o tempo estava passando e nada dele encontrar o rastro. Devia ter registrado o número do celular de Hale em seu próprio aparelho. O celular do Sam sumira com ele. Poderia rastrear Sam pelo GPS do celular se soubesse como fazê-lo. O jeito era pegar o Impala e sair à procura de Sam. Mas, podia levar um tempo que não tinha.

Dean é arrancado de seus pensamentos pelo toque distante de um celular. O celular .. do Sam? O toque familiar parecia vir do guarda-corpo de madeira da amurada do cais. Preocupado que a ligação caísse ou que desistissem do chamado, Dean corre na direção do som. O fato de ser o celular de Sam e ter sido deixado ali deveria ser motivo de preocupação, mas foi alívio o que Dean sentiu ao teclar o código de desbloqueio e levar ansioso o aparelho ao ouvido.

- Sam?

- Sinto desapontá-lo, Dean Winchester.

- Hale? O que fez com meu irmão? Se o matou, pode considerar-se um homem morto. Um .. lobisomem morto.

- Mais ameaças? Não se cansa de repetir sem parar as mesmas ameaças vazias? Você e seu irmão deixaram bem claro desde o início que pretendiam me matar independente de qualquer coisa. Qual a diferença então de ser morto porque nasci lobisomem, por ter arranhado a pintura do seu carro ou por ter matado seu irmão?

- O Sam .. está morto?

- Não prefere descobrir por você mesmo?

- Para onde levou o corpo do Sam, bastardo dos Infernos?

- Seu irmão enterrou os corpos dos lobisomens de Cody na floresta. Os corpos até hoje não foram encontrados. Acho que eu estaria fazendo justiça poética se desse ao corpo dele o mesmo destino. Um túmulo anônimo no interior da mata onde ninguém nunca vai encontrar. É isso que planejam fazer com o Boyd? Que já fizeram? Pretendem tirar da família dele até o direito de saberem onde foi enterrado?

- Eu não me arrependo nem um pouco de ter matado esse tal de Boyd. Quanto a isso, creio que me deve um favor. Eu só lamento não ter chegado cinco minutos depois. Você teria sido morto por sua cria e agora teríamos dois monstros assassinos a menos no mundo. E eu não estaria aqui rezando para que meu irmão ainda esteja vivo.

- Se importa de me dizer o que fizeram com o corpo do Boyd?

- Não antes de ter meu irmão de volta.

- Não acho que esteja em condições de fazer exigências. Quem dita as regras agora sou eu.

- Não vai escapar de mim, monstro. Vai morrer pelas minhas mãos. Vou buscá-lo no Purgatório se for necessário. Volto lá só para ter o prazer de cortar fora a sua cabeça como fiz com dezenas de sua espécie amaldiçoada.

- Você me chama de monstro? Não sou eu que dedico minha vida a uma carnificina sem fim contra tudo que é diferente. Não sou eu quem destila um ódio obsessivo por seres cujas necessidades e motivações você nunca procurou entender.

- E nem pretendo. Não me interessam as motivações deles e sim seus atos e as consequências destes atos. As criaturas que matei deixaram um rastro de sangue e dor por onde passaram. Eu e meu irmão chegamos a elas pelos obituários das vítimas que fizeram. Os monstros, bruxas e demônios que matamos destruíram vidas, destroçaram famílias, mataram ou mutilaram inocentes.

- Não foi o que eu vi. Não é o que o FBI acredita.

- Você viu um vídeo fajuto e acha que sabe quem eu sou e como eu penso? Pois saiba que eu não dou à mínima para o que você pensa que sabe. Mesmo porque muito em breve você vai estar morto e o que pensa que sabe será enterrado com você. Mas, o fato - a verdade que eu sei que nunca vou poder provar - é que aqueles que aparecem no vídeo não somos nós. São seres de uma raça que passou milênios aprisionada em outra dimensão e que, se não tivéssemos agido, teriam matado a todos nós. E, quando digo a todos, estou me referindo tanto a homens quanto a monstros como você. Acredite ou não, se você está vivo hoje, deve isso aos esforços de homens como eu e o meu irmão.

- Ninguém nunca te disse que você é LOUCO DE PEDRA? Acredita mesmo nas fantasias que cria, não é mesmo? Monstros de outra dimensão? É ISSO que pretende declarar a um juiz quando estiver sendo julgado por múltiplos assassinatos em primeiro grau? Por que não seres de outro planeta? Ou possessão demoníaca? Eu aposto que vocês terão maiores chances num tribunal se alegarem possessão demoníaca.

- CHEGA! Estamos aqui perdendo um tempo precioso. Diga de uma vez se o Sam está ou não morto. Porque se ele estiver ferido, se perdeu mesmo todo aquele sangue, ele precisa de cuidados médicos urgentes.

- Sabe o que eu acho? Eu não acredito que se importe realmente com seu irmão ou com quem quer que seja. Psicopatas fingem sentimentos que na verdade não tem. Se você escapar, vai usar a morte do seu irmão como justificativa para novas chacinas. Vai continuar vendo monstros e demônios onde eles não existem e vai continuar matando. Vai sempre buscar novos motivos para matar. A cada temporada, uma nova ameaça.

'Não é verdade. Deus sabe que isso não é verdade. Tudo que eu sempre quis foi tornar o mundo um lugar mais seguro para todos. Tudo que eu quero é ter o Sammy aqui ao meu lado, em segurança. E ainda sou obrigado a escutar as besteiras que esse monstro fala.'

- Por acaso aprendeu essa baboseira pseudo-científica com alguma namorada psicóloga. Ah! É evidente que não! Esqueci que não gosta da fruta.

- Ah! Além das ameaças, tem também os xingamentos e as ofensas?

- Cadê o Sam? Onde escondeu meu irmão?

- Digamos que eu acredite que está realmente preocupado com o irmãozinho. E eu com isso? Raciocina comigo, Dean. Somos inimigos. Você acabou de declarar que arrancou a cabeça de dezenas de seres como eu e que não se arrepende de tê-los matado. Já repetiu não sei quantas vezes que pretende me matar. Que gostaria de me esfolar vivo. Nada mais natural que eu aja da mesma forma em relação a vocês. Estou errado? Você não me considera um monstro? Por que eu me importaria se um caçador de monstros sangrou até à morte?

- CHEGA! CANSEI! AONDE ESTÁ O SAM?

- Cansou do meu papo? Tudo bem. Eu posso perfeitamente desligar esse celular e esperar. Retomamos essa nossa briguinha amanhã ou depois. Isso se o FBI não pegar você antes. Só não sei se o Samuel vai poder esperar.

- Espera! Você venceu. Por favor, me diga onde está o meu irmão. Eu vou ao seu encontro desarmado. Não estou dizendo que não vou lutar por minha vida, nem que não vou tentar matá-lo, mas a vantagem será toda sua. É sua melhor chance para acabar comigo.

- As balas de prata e a faca com lâmina de prata. Traga-as com você. Nos encontramos na Mansão Hale. Estacione na entrada da reserva e faça o percurso a pé.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: MOSTRANDO AS ARMAS


11.06.2015