CAPÍTULO #47


LOCAL: ESTRADA QUE LIGA O CENTRO DE BEACON HILLS À RESERVA FLORESTAL

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Sua prioridade era salvar a vida de Sam. Esta SEMPRE seria a sua prioridade. O que não significa que pretendia deixar-se matar. Morreria de bom grado por Sam, mas pôr-se à mercê do monstro não salvaria seu irmão. Sam precisava dele VIVO. E agora mais que nunca. Sam precisava que alguém que o resgatasse e levasse a um hospital. E isso só seria possível tirando Hale definitivamente do caminho. Metendo uma bala de prata no coração do monstro.

Não pode evitar um sorriso cínico. No CORAÇÃO do monstro. Como se algum monstro tivesse coração.

'Ah! Sam. E você acreditando que um monstro apaixonado é menos monstro. Um caçador não pode se deixar levar por ilusões românticas. Ser capaz de amar não torna alguém menos perigoso. Pode ter o efeito contrário. Principalmente, quando se ameaça o objeto desse amor. Pode ser a justificativa perfeita para esse alguém liberar o que existe de PIOR dentro de si. Você cutucou a fera com vara curta, meu irmão, e isso pode custar a sua vida.'

Hale sabia das balas de prata, mas não sabia de quantas dispunha. Sabia da faca com lâmina de prata, mas não conhecia sua aparência. Talvez fosse possível enganá-lo pelo tempo necessário.

Tinha todo um arsenal na mala do Impala. Mais as tralhas eletrônicas de Frank Devereaux. Podia até morrer, mas morreria lutando e levaria Hale junto. Nem que, para isso, tivesse que tornar-se um homem-bomba. Podia amarrar bombas incendiárias à sua própria cintura e detoná-las caso estivesse levando a pior num combate corpo a corpo. Em nenhuma hipótese deixaria o lobisomem rir por último.

'É, Dean Winchester. A vida é mesmo cheia de ironias. Quando que você podia imaginar que um dia faria planos para morrer abraçado a um macho? Pior, um que nem é tão macho assim. Um maldito lobisomem fruta.'

Hale o instruíra a estacionar na entrada da reserva florestal e seguir a pé até a Mansão Hale. O que significa que pretende emboscá-lo ainda na floresta. Hale nunca teve a intenção de dar-lhe uma chance, por menor que fosse, de resgatar Sam; de permitir que o visse uma última vez, mesmo que morto. Seria até estranho se fosse diferente. Hale é um monstro e está coerentemente agindo como um.

Mas, Hale o está subestimando se acha que lutar na floresta lhe trará vantagem. É justamente o oposto. Um ano no Purgatório dera a ele, Dean, a experiência que precisava. E lá contava apenas com armas improvisadas e as próprias mãos nuas. Lá podia contar apenas consigo mesmo.

E com Benny.

'Nós formávamos uma bela dupla, Benny. Queria que estivesse aqui ao meu lado neste momento. Aí mesmo é que esse lobisomem frutinha não teria a menor chance.'

Dean não parou para pensar no quanto a sua amizade com o vampiro ia de encontro a tudo que sempre pregara sobre monstros. As dúvidas que teve a respeito ficaram no passado. Enterradas no Purgatório. Há muito que tirara Benjamin Lafitte da categoria MONSTRO. Benny agora fazia parte de uma categoria bem mais restrita. Uma que Dean reservava a muito poucos. A categoria dos AMIGOS VERDADEIROS.

Da última vez que se viram, dissera a Benny que não voltaria a atender a um chamado seu. Que, naquele momento, seus caminhos se separavam para sempre. Mas, em seu íntimo, sabia que estava mentindo. Mentindo para si mesmo. Assim como não duvidava que Benny esqueceria suas palavras e viria em seu auxílio, caso pedisse. É o que gostaria de fazer naquele momento. Pedir ajuda. Mas, seria inútil. Até onde sabia, Benny estava do outro lado do país. Ele nunca chegaria a tempo.

Quanto à Cass, como já constatara mais de uma vez, ele há muito que deixara de ser confiável.

Mas, talvez pudesse contar com a ajuda dos outros aliados: os Argent. Com a vantagem estarem próximos. Tanto Christian quanto Allison declararam querer Hale morto. Não tinha os seus números de celular, mas o laptop de Sam tinha um programinha desenvolvido por Frank para hackear números telefônicos diretamente do banco de dados das operadoras.

De qualquer forma, o encontro com os Argent tinha sido proveitoso. Chris Argent tinha dado dicas preciosas e lhe presenteado com armas que poderiam ser decisivas na iminente batalha contra Hale: spray de pimenta; dois tasers, regulados para a exata combinação de voltagem e amperagem que neutraliza a capacidade de regeneração de lobisomens e os deixa indefesos; seringas e ampolas com cáustico lunar; e, um cilindro metálico com o pó seco do tronco da sorveira norte-americana (mountain ash), que, segundo Chris, tem propriedades místicas e funciona com lobisomens da mesma forma que o sal funciona com fantasmas.

'É, Sr. Hale! Quando nos encontrarmos na floresta, não pense que você é o lobo e eu uma inocente Chapeuzinho Vermelho.'

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI

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Stiles enfia a cabeça pela a porta entreaberta. Satisfeito com o que vê, entra cauteloso e se aproxima pé ante pé da figura deitada. Vestira até meias para não fazer barulho. Mais silencioso, impossível.

Precisou chegar bem perto para enxergar na obscuridade do quarto. Aguçou os ouvidos. E constatou, com alívio, que seu pai tinha a expressão serena e a respiração regular. Ele estava bem. Isso era tudo que importava.

Os pais cuidam dos filhos até que um dia são os filhos que passam a cuidar dos pais. Era assim que Stiles se sentia naquele momento. Protegendo o pai. Velando seu sono.

Aquele que sempre fora o seu herói, aquele que, quando criança, via como o homem mais forte do mundo, começava a lhe parecer .. frágil. Agora que sua mãe se fora, eram só eles dois. Naquele momento, a ideia de um dia ficar sozinho lhe pareceu insuportável.

'Nada de sair pela noite atrás de assassinos, pai!'

O FBI que se encarregasse dos irmãos Winchester. Depois do banho, pesquisara na internet sobre eles. Que vídeos sinistros. Uma folha corrida de assustar. Não é à toa que seu pai cedera à chantagem. Imaginar alguém que se ama nas mãos de homens como aqueles sem poder fazer nada ..

'Nem sei o que faria, pai, se fosse o senhor que estivesse nas mãos daqueles homens.'

Sorriu, enternecido. Seu pai estava profundamente adormecido. Depois de todo o estresse por que passara, isso era mais que natural. O dia não fora fácil para o xerife. Nem para o xerife nem para o viúvo que, nos últimos anos, se esforçara em dobro para ser um bom pai para um garoto traumatizado com a doença e a morte prematura da mãe.

Seu pai merecia uma noite de sono tranquilo. É por isso que desconectara o telefone fixo da rede, desligara o celular do pai e pedira ao policial Chad Dalton, que não o incomodasse nem em último caso. Se aparecesse um problema sério na delegacia, que ele mesmo, Chad, resolvesse da maneira que pudesse.

As poucas gotas de sedativo que pôs no chá certamente ajudariam seu pai a ter seu merecido descanso. Se bem que, sendo seu pai um homem forte, poucas gotas não fariam qualquer efeito.

'Só espero não ter exagerado na dose.'

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LOCAL: OFICINA DE CHRISTIAN ARGENT

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- Trouxeram?

Jackson ergue os braços acima da cabeça exibindo as muitas sacolas de supermercado.

- Perfeito. Creio que consigo adaptar um extintor portátil comum de pó químico, desses que são itens de segurança obrigatórios de qualquer veículo, para o nosso propósito. Meu pai tem uma oficina de reparo de armas muito bem equipada. Lá tem um compressor de ar e todo tipo de máquina-ferramenta. Dá para fazer qualquer coisa.

- O que vocês duas estão tramando, afinal? Posso saber que 'propósito' é esse que pretendem dar a um extintor de incêndio? Um que seja diferente de apagar incêndios.

- Na verdade, é um projeto. Digamos que eu e a Lydia estamos criando um tipo novo de secador de cabelos. A Lydia deu a ideia e eu estou botando em prática com a ajuda de vocês.

- Ainda bem que eu não tenho esse problema. Uma toalha e, em dez segundos, meus cabelos estão secos.

- Isso é uma coisa que invejo em vocês, meninos. Sempre tão práticos.

- Nem tanto. Vocês, garotas, é que complicam as coisas.

- Então, tratar dos cabelos para que fiquem bonitos para vocês é .. complicar as coisas?

- Esse cuidado todo, essas horas todas gastas em produção, é porque vocês estão sempre competindo umas com as outras. Não é por nossa causa.

- Sei! Quer dizer que você não ia se importar se a Lydia resolvesse ser prática e raspasse a cabeça?

- Não! Vocês garotas é que se ligam em bobagens. Eu ia amar a Lydia da mesma forma.

- Aaaah-dorei! Que declaração linda! Merece um beijo. Dois! Allison, esse meu namorado não é um fofo?

- Estou até estranhando essa fofura toda. Tem certeza que está se sentindo bem, Jackson? É você mesmo que está aí? Tem certeza que não é mais um caso de possessão?

- Possessão? Juro que essa eu não entendi.

- Isso de você não entender, Jackson, já me deixa mais tranquila. Prova que quem está aqui é você mesmo.

- Lydia, é impressão minha ou sua amiga me chamou de burro?

- Liga não, amor. A Allison está com inveja. É noite de lua cheia e ela não tem um lobisomem para chamar de seu.

- E que história é essa de alguém estar possuído?

- A Allison estava se referindo ao Danny.

- Agora é que entendi menos ainda. O que tem o Danny? Neste momento, o cara deve estar numa boa, tirando o atraso com a Irina.

- Jackson, se toca! Até ontem o Danny se interessava por homens. A quê você atribui essa transformação súbita?

- À Irina, é claro. Ela é muito gata. É quente. Deu mole e ele aproveitou. O que há de estranho? Quem não aproveitaria?

- E você não acha isso nem um pouco estranho? O Danny nunca se interessou por garotas.

- Vocês sabem que ele andou tendo umas decepções amorosas. Vai ver ele entrou numa de querer experimentar algo diferente. Ele escuta os amigos falando que é bom .. Ficou curioso. Quis ver qual é. Acontece!

- Eu só espero que VOCÊ não dê uma de curioso e passe para o outro lado. Isso sim é algo que acontece muito. Essa do Danny mudar de lado é como quando um homem morde um cachorro. Vira notícia.

- E qual a explicação de vocês para o comportamento do Danny?

- Já dissemos. O Danny está possuído.

- Eu estou falando sério.

- É sério, Jackson. Você viu o Danny hoje à tarde. Ele estava agressivo comigo. Fez insinuações. Fez ameaças. Para mim, está tudo muito claro. Aquele não era o Danny. Era o Matt. O Matt Daehler.

- O Matt está morto. Ah! Quer saber? Vocês estão cada vez mais malucas. Já deu! Acho que ainda dá tempo de passar em casa, trocar de roupa e ir dar um abraço no meu grande amigo Greenberg. Ele pode ser um panaca, mas a cerveja do Shamrock é ótima.

- Não, Jackson. Você vai ficar AQUI e nos ajudar. Ou corre o risco de não poder abraçar o seu grande amigo Danny no próximo aniversário dele.

- Ajudar .. neste lance do secador de cabelos? O que o Danny tem a ver com isso?

- O Danny tem TUDO a ver com esse nosso projeto. Mas, é só isso que você precisa saber por enquanto.

- Você escutou, Jackson. Menos falatório e mais ação. Temos pouco tempo. Pega uma faca e me ajuda a abrir essas embalagens.

- Lydia, quantas embalagens vocês trouxeram?

- Trinta embalagens. Cada embalagem tem 200 g. A carga de um extintor é de 1 kgf. Isso dá cinco embalagens por extintor. Vamos poder encher seis extintores.

- Não podemos correr o risco de, na hora H, não funcionar. Adaptamos um extintor e testamos. Mas, com isso, perdemos uma carga.

- Creio que cinco cargas são suficientes. De quantos extintores dispomos?

- Eu tenho quatro aqui. Com o do carro do Jackson, são cinco.

- Nem pensar. Podem esquecer.

- Quatro é o ideal. Dois para cada uma de nós. Correr carregando dois já vai ser difícil. Nem sei se consigo disparar um extintor segurando outro.

- Mas, não somos só nós duas. Com o Jackson, somos três.

- Não, Lydia. Não vamos poder contar com o Jackson para isso.

- Por quê não? E que lance é esse de correr?

- Paciência. Na hora certa, você vai saber. Por ora você fica calado e continua abrindo as embalagens.

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LOCAL: ACOSTAMENTO DA ESTRADA QUE LEVA À RESERVA FLORESTAL

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- Christian? Aqui é Dean Winchester.

- Dean? Como conseguiu esse número? É de uso restrito. Eu não repasso para ninguém. É minha linha direta com a Allison. Antes, também com a Victoria, a minha irmã Kate e o meu pai. Agora, é exclusivo meu com a Allison. Ela .. está aí .. com você?

- Não, Chris. Fique tranquilo. Eu hackeei o número. Eu quero saber se posso contar com você contra o Hale.

- Adoraria ajudá-lo, Dean. Ninguém mais do que eu quer acertar definitivamente as contas com Derek Hale. Mas, estou neste momento a 300 km de Beacon Hills. Como sabe, minha família tem uma rede de informantes. Na última lua cheia, houve um ataque de lobisomem que resultou na morte de dois homens na periferia de Las Vegas. Um agente meu rastreou um suspeito de ser o ômega até um povoado afastado. Eu vim com quatro dos meus homens. A lua vai aparecer em breve. Estamos neste momento cercando a área onde acreditamos que esteja escondido.

- Fica frio, Chris. Pegue o maldito. Eu dou conta das coisas por aqui.

- Dean, eu tenho um contato no FBI. Soube por ele que o xerife Stilinski botou o FBI atrás de vocês. Não se preocupe. Um dos meus agentes vai garantir uma rota de fuga segura para vocês.

- Obrigado, Chris. Boa sorte, aí.

- O mesmo para vocês.

'Melhor assim. Não tenho que me preocupar com a segurança de mais ninguém. Bem, resta separar as armas que vou levar comigo. Uma semiautomática. Munição. Dois revólveres, um deles com 3 balas de prata. Mais munição. Duas facas de caça, uma com lâmina de prata. Os dois teasers. Um seringa e duas ampolas de cáustico lunar. Spray de pimenta. O cilindro com mountain ash. Tudo certo. Agora é dar um jeito de prender essas bombas incendiárias de forma segura e conectar a elas o detonador.'

'Chegou a hora, Hale. Não tem volta. Um de nós dois não viverá para ver o sol nascer amanhã.'

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LOCAL : RESIDÊNCIA ALUGADA DE IRINA SHAYKHLISLAMOVA, NOS LIMITES DA CIDADE DE BEACON HILLS

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- Valeu mesmo, Danny! Não matou minha fome, mas estava delicioso.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: STILES ENTRE A RAZÃO E O CORAÇÃO


ESCLARECIMENTOS:

1) Derek SABE que Dean dispõe de apenas 3 balas de prata.

2) Na primeira metade da oitava temporada há um clima de suspense sobre se Castiel escapou ou não do Purgatório (as participações dele são flash backs) e, quando ele reaparece (episódio 8x7), está (mais) estranho (do que de costume). Daí o comentário do Dean.


18.05.2015