CAPÍTULO #48


LOCAL: RESIDÊNCIA ALUGADA DE IRINA SHAYKHLISLAMOVA, NOS LIMITES DA CIDADE DE BEACON HILLS

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- Valeu mesmo, Danny! Não matou minha fome, mas estava deliciosa.

- Quer que eu peça mais uma para você?

- Não. Mais tarde eu como alguma coisa.

- Sério que nunca tinha comido pizza? Não existem pizzarias na Rússia?

- Claro que existem pizzarias na Rússia. Existem pizzarias no mundo todo. Mas, eu cresci numa cidade tão pequena que, quando saí de lá, eram no máximo três estabelecimentos que podiam ser classificados como restaurantes. Com menu à la carte e garçons. O mais sofisticado servia comida tradicional russa e alguns pratos mais conhecidos de outras ex repúblicas soviéticas. O segundo, mais simples, somente de comida russa do dia a dia e uns poucos pratos da comida italiana. O terceiro, mais simples ainda, que era o que eu frequentava, pratos à base de peixes dos rios da região. O restante eram pensões ou biroscas que serviam prato feito para trabalhadores com muita fome e pouco dinheiro.

- Mas, já tinha ou não comido pizza?

- Não. Não me animei a experimentar. Sempre que eu posso, eu peço peixe. Peixe mesmo. Não gosto de frutos do mar. Gostei de sashimis. Pena que comida japonesa seja tão cara.

- Peixe em pizza, só mesmo atum ou anchovas, que é essa que você gostou.

- Gostei, estava deliciosa, mas é para uma vez ou outra. Não pretendo ficar pedindo pizza sempre. Prefiro algo menos industrializado.

- Como o quê?

- Um pouquinho só de paciência. Não demora e você vai descobrir o que eu realmente gosto.

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- Não pense que desisti do banho de rio. Só estou esperando a lua estar bem alta no céu. A gente sai daqui lá pelas dez da noite.

- Temos bastante tempo, então. A lua ainda não surgiu. Não prefere voltar para cama? Eu tenho ótimas lembranças dela. Tão boas que estava pensando numa reprise.

- oK. Mas, só se prometer que depois vai me acompanhar até o lago.

- Prometo. Agora fiquei curioso. Quero ver se você tem mesmo coragem de entrar na água neste frio.

- Nem está tão frio assim. Uns 12 graus, se tanto. A temperatura da água deve estar em torno dos 10 graus.

- Eu sou hawaiiano, esqueceu? Adoro calor. Caiu um pouquinho a temperatura, eu já visto um casaco. O pessoal daqui fica me zoando.

- É bom experimentar coisas novas. Todo mundo devia fazer pelo menos uma loucura antes de morrer.

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI

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'Nem sei o que faria, pai, se fosse o senhor que estivesse nas mãos daqueles homens.'

Aqueles homens. Os mesmos que estavam naquele exato momento na cola de Derek para matá-lo.

Como pudera deixar-se enredar por eles? Os falsos agentes Jake e Clay. Sabia desde o início que tinham vindo a Beacon Hills atrás dos lobisomens da cidade. E, se eram caçadores de lobisomens, nunca que poderiam ser agentes federais. Isso é tão óbvio. Bastava ter somado 2 e 2.

Mas, mesmo que fossem agentes de verdade, eles não teriam vindo para investigar circunstâncias e prender suspeitos. Não estariam atrás de provas para serem apresentadas num tribunal. Não faria sentido. Ninguém nunca foi julgado por crimes cometidos na forma de lobisomem. Seria como quando um cão feroz mata uma pessoa. Com a diferença que aqui não há um dono para ser responsabilizado. Lobisomens, assim como cães assassinos, não tem direitos civis reconhecidos. Não há juiz nem júri. Apenas o carrasco. Bons ou maus, assassinos de homens ou não, a intenção deles sempre foi uma só: matar os lobisomens, apenas por serem lobisomens. Mesmo que tivessem as melhores intenções, seria assim.

Por isso eles terem vindo pouco antes de uma lua cheia. Devem acreditar que os lobisomens estariam descontrolados. Alguém os veria e alertaria a polícia. Por isso o disfarce de agentes. Eles atenderiam o chamado e matariam os lobisomens. Matá-los seria algo perfeitamente aceitável. Esperado, até. E eles ainda seriam os heróis da história.

Eles vieram MATAR Scott, que é como se fosse um irmão seu. Vieram matar Isaac, Erica e Boyd, que são problemáticos, mas que, mal ou bem, estão conseguindo administrar seus problemas e merecem um voto de confiança. Vieram matar DEREK.

Sabia disso e, mesmo assim, deixara-se seduzir por eles. Simpatizara com eles. Vira verdade no que diziam. Tratara-os como amigos.

Eles o fizeram acreditar que faziam o que faziam para PROTEGER pessoas comuns. Que se IMPORTAVAM com as pessoas. Que, no fundo, eram sujeitos legais. 'Droga! Eles PARECIAM sujeitos legais.' Nas vezes em que se falaram, eles sempre se mostraram amigáveis, solidários, .. até mesmos protetores. Bem diferentes dos homens do vídeo.

'Quem são, na verdade, esses homens?'

Eles podiam tê-lo sequestrado e não o fizeram. Será que isso significa alguma coisa? Provavelmente, não. A forma como aterrorizaram seu pai com ameaças .. Isso sim significa muito. Era uma pequena amostra das coisas terríveis de que eram capazes. Crimes muito bem documentados.

'Mas, será que alguém consegue esconder tão bem a própria natureza?'

Sempre se imaginou alguém capaz de olhar para uma pessoa e saber de cara se a pessoa prestava ou não. Que, quando implicava com uma pessoa, é porque essa pessoa não prestava. Quando gostava, era uma pessoa legal. Simples assim. Será que estava iludido quanto a isso?

Ninguém é tão ingênuo a ponto de deixar-se enganar quanto ao caráter de gente como Peter Hale ou Gerard Argent.

Mas, há aqueles que disfarçam bem.

Gente como Frau Gertha, a mulher-orca. A baleia do mal. Vira de cara que ela não era flor que se cheire. Pior, que era podre. De longe, o ser humano mais desprezível que já conhecera. Mas, não era assim que era vista pelas pessoas que conviviam com ela. Ela se fazia de pudica e abnegada. Conseguia enganar até mesmo uma mulher inteligente e ligada como Melissa McCall.

Gente como o Sr. Harris, seu professor de química. Toda aquela fachada de respeitabilidade e correção. Se passando por íntegro, isento e justo, enquanto o perseguia implacavelmente sob pretextos bobos com punições injustas e pontos roubados nos testes. 'Mas, um dia, alguém ainda vai descobrir os segredos sinistros que ele esconde.'

E há os que chamaria de indecifráveis. Os que confundiam sua capacidade de avaliação. Como esses Jake e Clay. Era assim que agora via aqueles homens, como incógnitas. Não sabia o que esperar deles. O que sabia sobre eles e o que a presença deles lhe transmitia não batia.

O mesmo com Derek. Nunca soube como classificá-lo. Derek não perdia uma oportunidade para depreciá-lo, humilhá-lo, machucá-lo, excluí-lo .. e, nestes momentos, o odiava. Mas, havia as outras vezes .. aquelas em que parecia haver uma inexplicável sintonia entre eles, uma ligação mais profunda .. Mas, sempre que parecia que essa ligação ia ganhar forma .. se quebrava.

A primeira impressão de Derek fora a pior possível. E a segunda e a terceira não foram melhores. Foi antipatia à primeira vista. Detestara sua atitude autossuficiente, sua arrogância, suas respostas irônicas, seu sorriso cínico, seus modos grosseiros, mas, principalmente, a forma como ele o olhava.

Aquele olhar o desconcertava. Parecia atravessá-lo. Parecia que Derek podia ver sua alma. Ver coisas que escondia bem fundo no coração. Coisas que escondia até de si mesmo. Era perturbador. Sentia-se nu na presença dele. Quando Derek o encarava, sentia a mente esvaziar, os pensamentos fugirem. Ficava ali, hipnotizado, incapaz de desviar o olhar. Incapaz de fugir. Era como se só existissem eles dois no mundo. O predador e sua presa indefesa. Era, ao mesmo tempo, excitante e assustador.

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Perdido em seus pensamentos, Stiles nem percebeu que descera as escadas no piloto automático e se detivera no ponto da sala onde, na noite anterior, improvisara uma cama para Derek. O cenário de sua mais recente decepção. Quando acordara, encontrara o edredom e as cobertas dobrados sobre o sofá e nenhum sinal de Derek. Não foi surpresa. Era bem típico de Derek desaparecer sem nem mesmo um "Muito obrigado, Stiles. Valeu por arriscar sua vida para salvar a minha mais uma vez".

'Nem sei por que ainda perco tempo me preocupando com você, sourwolf. Você não merece a minha amizade. Não merece que eu me arrisque por você.'

'Se ao menos o Derek tivesse o bom senso de ficar escondido até que os irmãos Winchester fossem capturados ou deixassem da cidade .. Mas, não. Ele fica dando ouvidos ao Peter, que joga a autoestima dele lá em baixo, e, depois, acha que tem que provar para o mundo inteiro que merece ser o alfa. Por que o Derek tem que ser sempre tão cabeça-dura?'

'Eles estão atrás de você. E, desta vez, não há nada que eu possa fazer para ajudar. Você está sozinho, sourwolf.'

Então, volta à sua mente a lembrança de Derek mal se aguentando em pé no hospital, seu rosto contraído de dor, seus olhos implorando por ajuda. Stiles sente mais uma vez o coração apertado. A dor é quase física. A angústia chega como uma imensa onda que o atinge, o faz submergir e ameaça afogá-lo.

'Eles não vão matar você, Derek. Não se eu puder impedir.'

Stiles sobe correndo as escadas, troca apressado de roupas, calça as botinas que comprara para usar na floresta, veste um casaco reforçado, pega o smartphone que pusera para carregar, pega das chaves do carro, e, assim como entrou, sai apressado. Do quarto e da casa.

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Somente ao ligar o motor do jeep, Stiles dá-se conta que não tinha a menor ideia de onde Derek poderia estar. E não tinha como entrar em contato com ele. Este é o mal dos celulares. Ninguém precisa decorar os números. Fica tudo registrado na memória do aparelho. Perdeu o aparelho, perdeu os contatos.

E agora? O que faria?

Mais uma vez agira por impulso. Não parara para pensar. Queria ajudar, mas não sabia como. Não tinha um plano. O que pretendia, afinal? Ficar entre Derek e os caçadores e pedir que resolvessem suas diferenças como criaturas civilizadas? Era só um garoto. Humano ainda por cima. Pretendia mesmo entrar de cabeça no meio do fogo cruzado entre um lobisomem acuado em noite de lua cheia e caçadores que também eram serial killers. Esgueirar-se entre presas, garras, facas e balas de prata? Era assim tão inconsequente que não via o quanto isso era perigoso?

O quanto isso seria inútil?

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Não! Inútil seria ficar ali parado sem fazer nada.

Descobriria o que fazer quando a situação se apresentasse. Não fora sempre assim e não dera sempre certo? Isso era ser inconsequente? Era. Pior. Era uma total insanidade. Mas, era assim que era e não ia ser agora que ia mudar.

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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE

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Dean Winchester se pergunta se deve mesmo estacionar fora da reserva florestal e seguir a pé. Se não seria mais seguro e mais eficaz seguir direto para a Mansão Hale e enfrentar a fera no seu próprio covil. Se tivesse certeza que Sam fora deixado nas ruínas da Mansão Hale e que Hale o esperava na entrada da floresta para emboscá-lo, essa seria sem dúvida a melhor estratégia. Resgataria Sam sem enfrentar resistência, o deixaria em segurança no hospital e voltaria para enfrentar Hale nos seus próprios termos.

Se Sam estivesse mesmo nas ruínas da Mansão Hale, teria que levar o carro até ele em algum momento. Voltar para pegar o carro, o faria perder um tempo que não tinha. Se encontrasse Hale por lá, o enfrentaria. Estava preparado para isso.

Tinha dito que viria desarmado e tinha se armado até os dentes. O problema era se Hale estivesse mantendo Sam próximo de si, na entrada da floresta, na condição de refém. A quebra do combinado podia precipitar as coisas, com consequências imprevisíveis para Sam. Não era a hipótese mais provável, mas precisava considerar a possibilidade.

Já se o confronto acontecesse na floresta, longe de Sam, tudo seria mais fácil. Partiria com tudo para cima do monstro e não se deteria até que o tivesse derrubado ou morto. Não precisaria se preocupar com a segurança imediata do irmão. Apenas em fazer sua parte.

Era muita coisa para carregar nas mãos ou esconder na roupa. Melhor transportar um dos revolveres, os teasers e o cilindro com mountain ash numa mochila pequena. No momento do enfrentamento, era só largar a mochila. Teria assim mais liberdade de movimento.

Não precisava se preocupar em ser furtivo. E nem conseguiria. Estava sendo esperado e lobisomens tem a audição acurada. Folhas secas, gravetos quebrados, pedras soltas. Seria impossível atravessar uma floresta desconhecida à noite despercebido. Uma praticidade era poder carregar as coordenadas da Mansão Hale num aplicativo e usar o GPS do smartphone para orientá-lo quanto à distância e direção do seu destino. Um recurso que nunca imaginou que existiria nos tempos em que acompanhava o pai nas caçadas, em meios a mapas, bússolas e lanternas.

A lua estava começando a surgir. Com sorte, não precisaria de lanterna a maior parte do tempo. Lobisomens enxergam à noite melhor que humanos. O luar deixava tudo mais equilibrado. Era um ponto a seu favor.

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Decidido, Dean acelera o Impala. Ultrapassa a área de estacionamento e avança pela floresta.

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LOCAL: OFICINA DE CHRISTIAN ARGENT

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- Funciona.

- Então, mãos a obra.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: A VEZ DO CAÇADOR


ESCLARECIMENTOS:

1) Não é por que rusalkas comem carne humana que não podem apreciar uma boa pizza de vez em quando. No caso, coerentemente, uma pizza a base de peixe. Os bestiários não relatam isso porque foram escritos antes das franquias de fast food invadirem o mundo. Já gostar de salada de alface e rúcula seria muita forçação de barra. Eu próprio não como verduras. O Dean também não. Seria muita crueldade submeter a pobre criatura a uma dieta dessas.

2) Eu adoro de pizza de alici (ou aliche). No Rio de Janeiro, é chamada de pizza romana, e tem como ingredientes anchova, azeitona preta e tomate fatiado (que eu deixo no prato; não como tomate nem cebola). Eu pensei especificamente nesta pizza para a fic. Não sei se é comum na Califórnia.

3) Aliche é um peixe mediterrâneo e, embora também exista um peixe de nome anchova, a anchova da pizza é o resultado do processo de conservação que dá ao aliche o seu característico sabor acentuado. A anchova produzida no Brasil utiliza sardinha e também o peixe conhecido como manjubinha. Portanto, anchova de aliche é necessariamente produto importado. Existe muita confusão de nomenclatura entre processo de fabricação (anchova ou anchovagem) e o peixe que se presta a esse processo (vários, mas não a anchova). É como no caso do bacalhau, que não é um peixe e sim um processo de fabricação. Existem cinco espécies de peixes de famílias diferentes que se prestam (sabor e textura) a esse processo específico de salgamento e que, após salgamento, podem ser vendidas como bacalhau.


25.06.2015