CAPÍTULO #49

.

LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE


.

O Impala seguia aos trancos, chacoalhando. O terreno muito irregular era um desafio para os amortecedores do sedan. Provavelmente iam precisar ser trocados quando aquilo acabasse. Um 4x4 viria a calhar naquele momento. Ia o mais rápido possível, mas era impossível avançar na velocidade que gostaria. Era impossível alcançar um décimo da velocidade que gostaria.

A estrada vicinal que levava diretamente à Mansão Hale, e que usara naquela mesma manhã, estava agora bloqueada. Uma árvore inteira fora derrubada, obstruindo a passagem num trecho onde era impossível contornar. Fora obrigado a recuar e a buscar outro caminho. A principal trilha usada por quem se aventura a pé pela mata, mas que permitia a passagem de veículos leves, também fora bloqueada. Um grosso tronco fora claramente arrastado até ali.

Restara aventurar-se pelo meio da floresta, por uma trilha precária, desviando das árvores, para tentar pegar a estrada vicinal num ponto mais à frente. Mas, aquele parecia ser outro beco sem saída. A floresta se adensava à medida que avançava. Ia acabar sendo obrigado a seguir a pé. O maldito lobisomem não era tão tapado quanto parecia.

O revólver deixado ao alcance da mão não tinha balas de prata. Elas eram poucas. Não podiam ser desperdiçadas. Se fosse emboscado e tivesse que rechaçar o monstro à bala, não podia ser com balas de prata.

O baque surdo sobre o teto do carro fez o veículo estremecer e amassou feio a chapa de aço.

'Maldito!'

Veio sem aviso, mas não chegou a ser surpresa. Dean meio que esperava por algo assim. Empunhou o revólver e respirou fundo. Sabia o que tinha que fazer. Por mais que lhe rasgasse o coração. Atirou para cima, perfurando o teto do carro. Uma, duas, três, quatro vezes, em rápida sucessão.

'Basta um único tiro bem dado que atravesse a mandíbula e siga até o cérebro deste monstro. Isso é pedir muito?'

Quatro perfurações na carroceria. Seu bebê ferido por suas próprias mãos. Deus sabe o quanto aquilo lhe doera.

'Que ao menos uma tenha acertado. Mesmo que só o pé. Isso tem que ter valido a pena!'

Era um preço alto. Mas, se fosse o preço para ter Sam de volta a salvo, pagaria sem hesitar.

Por Sam, estava disposto a sacrificar bem mais que o Impala.

Dean era um caçador experiente. Já passara por todo tipo de situação. Tinha protocolos não escritos para cada uma delas. Inclusive aquela. Ao sentir o baque sobre o teto, não se limitara a dar tiros para o alto. Os tiros nem foram a primeira coisa que fizera.

Ao sentir o baque sobre o teto, pisara no acelerador até o fundo. O carro saltou para a frente e quicou descontrolado, depois de um forte impacto do fundo do carro contra o terreno. Só a perícia de Dean ao volante e seus reflexos rápidos impediram que o carro desembestado se chocasse violentamente com as árvores próximas. Um verdadeiro milagre, considerando que havia árvores por toda a parte e que ele empunhava um revólver com uma das mãos. Quatro tiros e, só então, a freada brusca. Um tranco violento o bastante para projetar o lobisomem por cima do capô.

Firmemente agarrado ao volante, Dean também sentiu o violento tranco, mas estava preparado para isso e para os passos seguintes. O cinto de segurança, que o manteve seguro na manobra para lá de arriscada, foi rapidamente descartado tão logo seu corpo foi projetado de volta contra o banco.

Dean destrava e abre a porta, deixando-a, naquele primeiro momento, apenas encostada. Então, gira o corpo e chuta com força a porta de forma a escancará-la. Na sequência, projeta o corpo para fora e para frente, girando o corpo enquanto cai, numa cambalhota. Um segundo depois e já estava de pé, revólver na mão, pronto para tudo. Mais um segundo, já corria na direção em que o monstro caiu, com a arma empunhada.

'É agora que eu pego você.'

Estava muito escuro fora da área iluminada pelos faróis. A visibilidade era quase nenhuma. Mas, dava para ver algo grande se movendo uns dez metros à frente, à sua direita. Sorriu.

Dois tiros se fazem ouvir.

Seriam mais se, após seis disparos, a arma já não estivesse descarregada.

O som de algo grande se chocando com o chão.

Um bramido estridente de dor e movimentos espasmódicos de algo caído atrás da densa moita à frente fazem com que Dean se aproxime cauteloso.

'Te peguei, monstro.'

Um tiro de bala comum não basta para matar um lobisomem. Ferido, Hale podia ser ainda mais perigoso. Não podia subestimá-lo. Abre o fecho da bainha da faca presa à sua coxa e se apressa em recarregar o tambor da arma. Sua intenção era descarregar a arma no desgraçado. Dois braços, duas pernas, coração e cabeça. Seis balas. A conta perfeita.

Mas, aqueles bramidos .. gemidos? .. berros? .. não sabia que nome dar àquilo .. Havia algo errado. Por mais que Derek Hale fosse gay, aqueles gritinhos agudos não combinavam com ele.

'Frescura tem limite.'

Ao chegar perto, Dean constata, surpreso, que uma das balas acertara a perna traseira de um jovem cervo macho e derrubara o animal no chão. A pobre criatura se debatia, em sofrimento. Ao ver o caçador, se assusta e tenta mais uma vez se pôr de pé. E novamente falha. Aparentemente, o projétil partira em dois o osso da perna do animal.

'Foi mal, Bambi. Confundi você com um lobisomem grande e mau. Se bem que .. ele é gay, até que tem a ver.'

Não havia muito que pudesse fazer pelo animal. Após muito sofrimento, o bicho acabaria morrendo. Dean aponta a arma recém carregada para a cabeça do jovem cervo e dispara.

'Sinto muito. Mesmo. Siga em paz para o Céu dos Bambis.'

Caçador distraído nasce morto. Antes mesmo de escutar o rosnado baixo do lobisomem, um Dean sentira sua presença atrás de si.

E age no automático.

'Ainda não foi desta vez que me pegou desprevenido.'

Dean gira o corpo, ao mesmo tempo em que saca a faca de caça da bainha e a lança com toda sua força na direção do lobisomem. Os reflexos do caçador eram rápidos e sua pontaria excelente. A luta diária pela sobrevivência no Purgatório aprimorara suas habilidades inatas. A faca segue certeira na direção do coração do monstro.

Mas, Derek também era rápido e, num movimento preciso, detém a faca entre suas mãos nuas quando esta já estava a centímetros do seu peito. As palmas das mãos se fechando sobre as faces laterais da lâmina interrompem seu movimento.

Se a lâmina fosse de prata, talvez Derek não conseguisse retê-la com a força necessária para pará-la.

Dean era experiente o bastante para saber o que viria a seguir. O lobisomem não ia desperdiçar a chance de alvejá-lo com sua a própria faca. E, de fato, não demora para a faca cruzar o ar em velocidade e cravar-se fundo no tronco de uma árvore afastada. A faca passou um palmo à direita do ponto onde Dean estivera segundos antes. No momento em que atirara a faca no monstro.

Não que Derek tenha errado o alvo. Ele, na verdade, não tinha mirado Dean. Queria apenas tirar a faca do jogo. E, nisso, fora bem sucedido. A faca estava tão profundamente encravada na madeira, que Dean, mesmo que tivesse tempo para isso, nunca conseguiria arrancá-la usando apenas as mãos.

O monstro era rápido. Para enfrentá-lo, Dean ia precisar de maior poder de fogo. Pressentia que a batalha seria dura. Precisava da semiautomática e das armas na mochila. No campo de batalha não se pode dar trégua ao adversário. A pressão tem que ser constante.

Ao ver a faca passar ao longe, já sabendo-se a salvo do revide do monstro, Dean, que tinha se jogado no chão, retoma o ataque com disposição redobrada. Precisava abrir seu caminho de volta à cabine do carro para pegar as armas.

Seu alvo estava agora bem à vista. E sem nenhum bicho inocente que pudesse usar como escudo para se safar. Dean avança disparando contra o lobisomem. Sem correr. Procurando acertar o alvo. Cinco tiros. Todos perigosamente perto. Derek é forçado a recuar. Para sua sorte, o revólver do caçador estava novamente descarregado.

Dean conseguira. Não estava ferido. Pusera Derek para correr. E agora, de posse da semiautomática, a coisa mudava de figura. Não ia precisar mais contar os tiros.

- Apareça, covarde! Aparece que vou fazer você engolir chumbo grosso!

Um minuto. Dois. E nada. Nenhum ruído. Nenhum movimento. Nem mesmo o vento para agitar as folhas nas copas das árvores. Parecia que até os insetos tinham se escondido.

- Sumiu! É mesmo muito frutinha.

Rechaçara o primeiro ataque do monstro. Podia considerar-se vitorioso naquele primeiro embate.

.

.

Stiles tinha acabado de chegar ao ponto onde a estrada vicinal fora bloqueada e pensava nas alternativas que tinha para seguir até a Mansão Hale, quando escutou os primeiros tiros.

Os tiros vinham da floresta, de um ponto à sua direita. Quatro tiros de revólver calibre 45. Sabia reconhecer. Afinal, era filho de policial e acompanhara o pai muitas vezes ao stand de tiros.

'Os caçadores. Devem ter avistado o Derek. Ele tinha que desafiá-los.'

Mais dois tiros.

'Estão a menos de 1 km daqui. Longe ainda da Mansão Hale.'

Stiles sabia atirar. Aprendera ainda garoto. Mas, a experiência não fizera nascer nele o fascínio que leva tantos adolescentes americanos a abraçaram com fervor a segunda emenda da constituição e a acumularem arsenais dentro de casa. Muito pelo contrário, não gostava de armas. Não via sentido em pessoas se matando. Não aceitava a morte de animais por esporte. Nunca apelava para a violência. Numa briga, costumava ser aquele que se dá mal.

Sua sorte é que seu pai também era um homem de paz. Um homem com espírito conciliador. Que sempre respeitara sua forma de ser. Não era como tantos pais que não aceitam que o filho apanhe sem voltar para dar o troco. Destes que se orgulham de criar pequenos trogloditas. Destes que acham que cada agressão deve ser respondida com uma violência ainda maior.

Já tentara convencer o papai a não guardar armas em casa. Não acreditava que elas traziam segurança. Mas, entendia e aceitava que o pai as usasse profissionalmente. Afinal, ele era o xerife. Era obrigado a portar armas. E quem porta uma arma tem a obrigação de saber usá-la. Seria muita irresponsabilidade não saber. É por isso que evitava até pegar numa arma. Aprendera na delegacia que quem porta uma arma mais cedo ou mais tarde se sente forçado a usá-la. E a maioria não está preparada para isso. Ou para as consequências que traz.

Outro tiro.

Mais cinco.

'Estranho. Parece ter apenas uma pessoa atirando. O que será que aconteceu com o outro caçador? Será que Derek o pegou?

Ia perder muito mais tempo se ficasse buscando uma trilha livre para seguir com o jeep. Iria mais rápido indo a pé. Começava a ficar mais claro. A lua não ia demorar a aparecer. Mesmo assim era bom levar uma lanterna.

Conhecia bem o trecho da floresta que levava à Mansão Hale. Percorria a mata de bicicleta com Scott desde que ambos tinham doze anos. Além disso, tinha um bom sentido de orientação. Não tinha medo de se perder. Em último caso, seu celular tinha GPS.

.

.

Derek observa de longe o caçador colocar uma pequena mochila nas costas, consultar o GPS do celular e seguir adiante. Continuando sempre naquela direção, ele acabaria chegando à Mansão Hale. Não dava para seguir em linha reta. Havia obstáculos naturais, mas nada que o impedisse de avançar. Forçando um pouco o ritmo, Dean Winchester chegaria à Mansão Hale em 45 min. No máximo, 1 hora. E isso já considerando que ele não conhecia o trajeto.

'Mas, não vai ser assim tão fácil. Isso eu posso garantir.'

Antes, o caçador tinha trancado o carro e perdido um tempo observando os danos à carroceria. Derek já tinha percebido o quanto aquele caçador, Dean, era apegado à sucata ambulante que chamava de carro. Observara com atenção as expressões faciais e a linguagem corporal do caçador enquanto este examinava os estragos. Não era a expressão de quem apenas contabiliza prejuízos. O carro devia ter um grande valor sentimental para ele. Só isso explicaria as reações exageradas daquele homem em relação ao carro. Ele não devia estar nada satisfeito. Primeiro os cortes no capô, agora o afundamento do teto e os furos de balas.

'O irmão. O carro. Eu dei a você bons motivos para me odiar. .. Perfeito. Eu nem acredito que está tudo saindo como planejei. É hora de dar o próximo passo.'

.


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: OVELHA EM PELE DE LOBO


05.07.2015