CAPÍTULO #51
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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE
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A transformação se completara. A dor e a lembrança da dor já tinham desaparecido. Sentia-se revigorado. A sensação era de euforia e excitação; de liberdade e bem-estar. Havia também um senso de necessidade; de uma missão a ser cumprida. Sabia o que precisava fazer. Não saberia listar mentalmente cada passo ou mesmo descrever seu objetivo. Não pensava com palavras. Não precisava delas. Era um lobo e lobos não se comunicam por palavras.
O grande lobo fareja o ar para se integrar ao ambiente além dos limites da visão e se põe em movimento. A lua ainda estava baixa e a escuridão dominava a floresta. Enxergava melhor do que se fosse dia. De dia, a luz do sol o ofuscaria e o jogo de luz e sombras cobraria do cérebro mais atenção.
Aquele trecho da floresta tinha poucos obstáculos e isso permitia que o lobo se deslocasse rápido, mesmo sem correr. Seu pelo negro o tornava invisível em meio às sombras e ele se movimentava com elegância e leveza, praticamente sem fazer barulho.
Não ventava, mas uma leve aragem vinha da direção que sabia ser para onde sua presa se dirigia. Simplesmente sabia. O nome humano de sua presa fora esquecido, mas sua imagem estava gravada na sua memória, assim como o seu tom de voz. Também seu cheiro, mas isso era esperado. A memória de um lobo é predominantemente olfativa.
Uma ligeira mudança na direção do vento e o cheiro do humano invade suas narinas. Nunca perdera seu rastro, mas o sentia com mais intensidade agora. Melhor do que antes, quando estava na forma hibrida e o humano estava próximo. O cheiro do suor do humano. O cheiro da loção de barba barata que usava. O cheiro do seu sangue. Era apenas um arranhão insignificante no braço e o corte já estava fechado. Mas, que mesmo assim deixava uma trilha fácil de seguir. De todos, o cheiro de sangue era sempre o que mais sobressaia.
Sabia que encontrar aquele humano era sua prioridade. O humano que era sua presa. Que nada deveria desviá-lo deste objetivo, nem mesmo o outro. O humano cujo cheiro o excitava. Também podia farejá-lo. Ele estava próximo e vinha em sua direção. Seu cheiro era bom e lhe trazia segurança. Queria muito ir ao seu encontro e cheirá-lo, mas não podia. Tinha que ignorá-lo. Ignorar seu cheiro. A sua prioridade era o humano que usava loção de barba vagabunda.
Quando tudo tivesse terminado, iria ao encontro do humano com quem gostaria de acasalar.
Havia ainda os outros cheiros. Diferentes de todos os outros daquela floresta. Cheiros não naturais. Cheiros que acompanhavam o humano e o envolviam, mas que não pertenciam a ele. Um era o cheiro de fogo morto que sabia vir da arma do humano. Sua forma híbrida conhecia bem o cheiro de armas de fogo. Conhecia a dor que acompanhava o cheiro. Mas, o que o intrigava era um cheiro novo, não perfeitamente conhecido, mas ainda assim familiar. Era, na verdade, uma mistura de cheiros, mas estavam amalgamados de forma peculiar. Reconhecia cada um de seus componentes. Sua forma híbrida saberia identificá-los por nomes. Mas, aquela combinação era algo novo. Algo perigoso. Perigoso também para o humano. Sabia a forma que aquele cheiro poderia assumir: calor intenso, som ensurdecedor e fumaça. Sabia, simplesmente sabia.
O humano que era sua presa tinha pressa. Havia um senso de urgência nos seus movimentos. Ele não estava correndo, mas estava forçando um ritmo que não teria condições de manter por muito tempo. O esforço físico fazia que transpirasse. O cheiro do suor do humano lhe dizia coisas sobre ele e sobre as suas emoções. O humano cheirava a adrenalina, mas não a medo. Não era medo que o impulsionava. Ao menos, não o tipo de medo que a visão do lobo traz às suas presas. O humano tinha medo pelo outro da sua ninhada. Entendia esse medo. Afinal, humanos e lobos não nasceram para correr sozinhos. Ele seguia na direção deste outro, o seu beta, o que formava com ele uma alcateia de dois.
Pensar no outro humano, trouxe à sua mente o cheiro daquele outro. O cheiro daquele outro vinha fraco. Ele estava distante. Havia cheiro de suor impregnado nas roupas daquele outro, mas agora era cheiro de suor seco. O homem não mais suava. O cheiro do homem era fraco, mas o cheiro do sangue que cobria o corpo do homem era forte e sobrepujava o cheiro do homem. O cheiro de sangue sempre dominava. Mas, era cheiro de sangue velho. Era cheiro de sangue morto.
Já estava próximo. Não demoraria a alcançar sua presa. Agora não era só o cheiro. Era também o ruído que sua presa fazia ao caminhar na floresta. Ele tinha pressa. Ele não estava preocupado em caminhar sorrateiro. Estranho. O humano se pusera em alerta. O humano farejara a sua presença? Pressentira a sua aproximação? Como era possível? Era apenas um humano. Sua espécie tinha o olfato e a audição limitados e uma visão que só é boa de dia. Mesmo assim, o humano sabia. O humano interrompera a caminhada e perscrutava o ambiente com seus sentidos limitados. Seu suor acusava adrenalina fresca correndo em seu sangue. O humano podia escolher fugir ou lutar e escolhera lutar. O humano estava assumindo postura de combate. Aquele humano era astuto como um lobo. Era perigoso como um lobo. Mas, ainda assim, era apenas um humano. O humano se considerava um caçador, um lobo. Ia mostrar a ele o que ele era de fato. Ele era CAÇA.
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LOCAL: OFICINA DE CHRISTIAN ARGENT
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- Terminamos aqui. Quatro extintores prontos. Podemos dar o próximo passo.
- Jackson, liga para o Danny e tenta descobrir onde ele e a Irina estão.
- Primeiro, vocês me contam o que vocês duas pretendem. Senão, não tem ligação pro Danny e eu volto para casa.
- Está certo, Jackson. Você tem o direito de saber. Eu prometo contar tudo. Mas, primeiro, você fala com o Danny. Quanto menos você souber, mais convincente você vai ser e não queremos que o Danny desconfie que existe algo por trás do seu telefonema.
- Não estou gostando disso.
- Vai logo, Jackson. Liga de uma vez. Convida o Danny a ir com você .. no aniversário do Greenberg.
- Aí mesmo é que o Danny vai achar suspeito. Me responde você, Lydia. O que VOCÊ pensaria se o Jackson te convidasse para a festa do aniversário do Greenberg?
- Ok. Não ia colar. Mas, o Jackson é esperto e vai saber o que dizer para não levantar suspeitas.
- Dá um tempo, Lydia! Dizer que o Danny seria bobo o bastante para cair na conversa do Jackson é uma coisa. Dizer que o Jackson é esperto o bastante para não dizer besteira, já é forçar a barra.
- Está vendo como a sua amiga me trata?
- A Allison só está zoando você, honey. Você sabe que, para mim, você não é só um rostinho bonito. Ou um corpinho sarado. Ou um amante bem-dotado. Eu sei que existe um cérebro nessa cabecinha.
- Há controvérsias!
- Falou a ex do Scott, o cara mais burro da turma. E saiba que eu sou tudo isso que a Lydia falou: bonito, sarado, bem-dotado e COM cérebro.
- Bonito e sarado, ok. Bem dotado, não sei. Tenho que acreditar na Lydia. Quanto a ter um cérebro ..
- Não começa, Allison! E o Jackson pode até ter exagerado um pouquinho quanto ao Scott ser o mais burro da turma, mas existe aí um fundinho de verdade.
- Eu nunca disse que o que me atraiu no Scott foi o intelecto dele. O Scott tem muitas .. qualidades.
- Então, para de atirar pedras no Jackson, Allison. Lembre-se que o seu ex tem um enorme telhado de vidro.
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- Danny?
- O que você quer, Jackson?
- Chamar você para sair.
- Eu vou estar ocupado. Eu e a Irina vamos estar muito ocupados essa noite.
- A noite é longa e está só começando. Podemos sair em quatro. Eu e a Lydia. Você e a Irina. Podemos ir na Jungle, o que acha?
- Eu acho que eu e a Jungle não temos mais nada a ver um com o outro. E o meu lance com a Irina é um lance a dois.
- Eu interrompi vocês?
- Se tivesse interrompido, não estaríamos agora nos falando. Eu simplesmente teria desligado o celular.
- Você sempre adorou dançar ..
- A Irina fez uma proposta melhor. Algo especial. Ela vai cantar para mim num lugar super-romântico. O que vem depois fica por conta da sua imaginação.
- Então, as coisas estão mesmo pegando fogo entre vocês?
- Se estão! E não é um banho gelado de rio que vai nos esfriar, isso eu garanto. A gente se fala outra hora, Jackson. Até!
- Escutaram?
- Cantar, lugar super-romântico, banho gelado de rio ..
- O Danny é mesmo um cara de muita sorte.
- Há controvérsias!
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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE
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- O Chevrolet dos federais? Quer dizer .. dos falsos federais. Aqui? Detonado?
Stiles observa o teto afundado e o capô substituto mal pintado. Não era exatamente o tipo de cara que vive polindo a pintura do carro, mas se imaginou por um minuto o dono daquela relíquia sobre rodas que, até a véspera, apresentava uma pintura impecável e teve certeza de como Jake se sentiu a respeito.
- Acho que você deu a eles ainda mais motivos para quererem você morto, sourwolf.
Stiles retoma a caminhada em direção à Mansão Hale, a lanterna buscando o melhor caminho, quando algo chama sua atenção. O feixe de luz da lanterna incide sobre algo em flagrante contraste com as cores terrosas e o verde dominantes. Algo imaculadamente branco encostado num tronco de árvore.
- Uma camiseta?
Era uma camiseta branca, mas não imaculadamente branca. Estava suja de terra. Bem suja até.
- Camiseta, calça e .. cueca. Roupas de homem. As roupas .. do Derek? Aquele uivo! Será que ele se transformou .. ?
A lembrança da figura monstruosa de Peter Hale que enfrentaram um ano antes é a primeira coisa que passa pela cabeça de Stiles. Sabia que Derek mantinha-se racional em sua forma semi-humana. Quanto a ele manter-se racional na forma de lobisomem, já não tinha tanta certeza.
- Talvez essas roupas o ajudem a lembrar-se de quem é.
Stiles até tenta resistir, mas acaba trazendo a peça branca junto ao rosto buscando nela o cheiro do .. amigo. 'Só para saber se é realmente dele.' Antes e depois, ele, envergonhado, olhou em volta para ter certeza que ninguém estava vendo. Mas, no minuto em que permaneceu de olhos fechados envolvido por aquele cheiro tão .. masculino, ele esqueceu completamente de tudo, inclusive de sentir vergonha.
- O que que eu estou fazendo? Eu devo estar mesmo louco.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: O LOBO ATACA
12.08.2015
