CAPÍTULO #52

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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE


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'Ele está próximo.'

Dean, que avançava na floresta em ritmo acelerado, se detém. Não sabia de onde vinha essa certeza. A certeza de que lobisomem estava próximo. Estava num trecho da floresta que era sombreado de dia. À noite, a escuridão era total. A lua ainda não estava alta o bastante para clarear o ambiente. Dependia totalmente da lanterna para enxergar o caminho. Mas, para enfrentar o lobisomem, ia precisar das duas mãos. A lanterna seria só um empecilho. Desligou-a e guardou-a na mochila.

Sai de cena a lanterna, entram a semiautomática e a escuridão.

Dean sabia que balas comuns não matariam o monstro. Esperava apenas derrubá-lo. Feri-lo o suficiente para que pudesse aproximar-se o bastante para o tiro de misericórdia à queima-roupa com uma das três únicas balas de prata que dispunha.

Dean estava agora 100% no modo caçador. Seus sentidos em alerta. Linhas de ação planejadas para diferentes cenários. Seu corpo pronto para a ação. Preparado para se jogar no chão, correr atirando ou sacar a faca com lâmina de prata. Preparado psicologicamente para detonar os explosivos e morrer levando o monstro junto. Preparado para tudo.

'Aí está você.'

No escuro, os olhos brilhando em vermelho podiam ser vistos claramente à distância. Sabia que era apenas uma questão de tempo para que o monstro o alcançasse. E ele chegara. Vinha da direção esperada. A mesma de onde viera. Focando nos olhos vermelhos, era possível vislumbrar o contorno do corpo. O suficiente para saber que o monstro assumira a forma de lobo. Um lobo grande de pelagem negra.

'Mais próximo. Venha.'

O Lobo avançava um passo por vez. Olhos nos olhos. Monstro e caçador estudando-se mutuamente. Os dois competindo para ver quem piscava primeiro. O caçador esperando o Lobo dar o bote. O Lobo esperando o homem puxar o gatilho.

Dean sabia que, no momento em que o lobo arrancasse em sua direção, viria em linha reta, na velocidade máxima, e ele poderia concentrar a rajada num arco mais estreito. O difícil seria não acertar nenhum tiro. Já o Lobo confiava nos seus sentidos aguçados para antecipar-se às ações do humano e surpreendê-lo agindo de forma diferente da que o caçador imaginava.

Dean olhava o adversário e via um lobo. Estava preparado para enfrentar a fera. Já enfrentara coisas piores. Já encarara um Cão do Inferno. Uma ameaça invisível que não pode ser parada por balas. O lobo não era invisível. Escondia-se nas sombras, mas os olhos brilhantes o denunciavam. Balas podiam pará-lo. E ia pará-lo à bala. Estava certo disso.

O problema era que Dean olhava o adversário e via apenas um lobo. E seu adversário não era um lobo. Era um homem transformado em lobo. O Lobo não pensava ou reagia como um homem, mas conservava o conhecimento de como um homem pensava e reagia. Sabia por experiência própria. Afinal, não deixara de ser, em parte, um homem.

O Lobo percebe o exato momento em que o homem toma a decisão de puxar o gatilho e faz o inesperado. Fecha os olhos e avança, não em linha reta como um lobo normal faria, mas em um arco amplo mirando o flanco esquerdo do homem.

Dean mantém o gatilho pressionado e a semiautomática cospe dezenas de balas enquanto ele move os braços varrendo um ângulo de 30 graus a sua frente. A arma expulsava as cápsulas deflagradas junto com fumaça e muito barulho. A escuridão era total. Dean levou cinco segundos para perceber que perdera contato visual com o lobo e que não havia nenhum indício de que ele tombara ferido ou que estava onde deveria estar: em sua linha de tiro.

'Onde .. ?'

Dean gira a cabeça para a esquerda em resposta a algo vislumbrado de relance por sua visão periférica.

'Mas, que diabo! Tenho que ... '

Dean gira o corpo para a esquerda e, junto com o corpo, a arma ainda cuspindo balas. Mas, já era tarde. O movimento estava um segundo atrasado. O lobo era rápido e já estava quase em cima dele. Pela primeira vez, Dean tem uma noção clara do tamanho do monstro que estava enfrentando. Não era um Cão do Inferno, mas podia perfeitamente passar por um.

O Lobo toma impulso e salta com a boca aberta, deixando clara a sua intenção de abocanhar. Aquelas mandíbulas podiam facilmente arrancar um braço ou a cabeça de um homem. Dean dá um passo atrás e reclina a cabeça ao máximo, ainda mantendo os braços estendidos empunhando a arma. As mandíbulas do Lobo se fecham em torno da parte central da arma e a arrancam com violência das mãos de Dean, quase levando seus braços junto.

Dean, que segurava firme a arma com a mão direita, teve sorte de seu braço esquerdo não ter sido abocanhado junto com a arma. Dean pressionava o gatilho com o indicador da mão direita e podia ter quebrado esse e todos os dedos da mão, mas novamente teve sorte. O Lobo avançara transversalmente a ele, visando a arma e não o homem. A inércia do salto fez com que o corpo do lobo passasse raspando o rosto de Dean. Tão próximo que Dean sentiu o pelo do lobo em seus lábios.

Dean teve sorte, mas não saiu incólume. Seu ombro foi deslocado e a dor quase o fez desmaiar. Seus dedos não quebraram, mas estavam sangrando. O Lobo desaparecera na escuridão levando a arma, mas não tardaria a retornar. Dean sabia que se não se pusesse rapidamente de pé era um homem morto.

Morreria, e, com ele, sua única chance de salvar Sam. A certeza de que a vida do irmão dependia de que ele matasse o monstro, lhe dá a força de vontade necessária para ignorar a dor e o medo. Com um braço comprometido não teria chances num corpo a corpo. Precisava manter o monstro afastado e acertá-lo à distância. Precisava ganhar tempo. Aquele ainda não era o momento de usar suas poucas balas de prata. Por sorte, tinha a opção das armas taser que ganhara de Chris Argent. Estavam na mochila às suas costas, mas a dor o impedia de pegá-las.

Dean dominava a técnica que lhe permitiria recolocar o próprio ombro no lugar. Sabia que o medo da dor e própria dor eram os grandes obstáculos para quem se dispunha a fazê-lo sozinho. A visão de olhos vermelhos se aproximando é o incentivo que precisava.

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai.

O grito de Dean ecoa na floresta silenciosa, que fica mais silenciosa ainda imediatamente após o grito. O grito vence as distâncias e é ouvido por Stiles a um quilômetro dali. O som chegou ali atenuado. Em termos de intensidade sonora, estava mais para sussurro do que para grito. Mas, a natureza do grito de dor ficava muito clara para quem o escutasse. Era um homem gritando. Um homem que experimentava uma dor excruciante.

O grito também seria ouvido da Mansão Hale, onde Sam fora deixado, se houvesse, naquele momento, alguém lá em condições de escutar. Mas, Sam não estava em condições de escutar. Ele não ouviu o grito de dor do homem que, como tantas vezes antes, como fez sempre que foi necessário, estava mais uma vez colocando a vida do irmão na frente da sua própria. O irmão que, um ano e meio antes, quando Dean desaparecera da face da Terra, se apressara em dá-lo como perdido. O irmão que, por todo um ano, fizera de tudo para esquecê-lo, na ilusão de que assim poderia finalmente viver a sua tão sonhada vida normal. A atitude de Sam doera mais do que ter seu ombro deslocado. Mas, nem mesmo essa mágoa fez Dean mudar em relação ao irmão. A prova disso é que, mais uma vez, Dean estava muito perto de sangrar e morrer por Sam.

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LOCAL: OFICINA DE CHRISTIAN ARGENT


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- Vamos lá. Já fiz o que me pediram. Agora, digam. O que está acontecendo?

- Uma parte, já contamos. Ou, pelo menos, nós tentamos. Você não quis acreditar.

- Essa bobagem do Danny estar possuído?

- Por mais inacreditável que pareça, é a mais pura verdade. Seu amigo Danny está possuído pelo espírito do nosso falecido colega de turma Matt Daehler. Ao menos, ele estava quando o encontramos mais cedo no colégio. Como isso aconteceu nós não sabemos. Os caçadores disseram que queimar os restos mortais do Matt libertaria o Danny. Já deu tempo deles terem feito isso. Se deu tudo certo, estamos definitivamente livres do Matt. E aquele miserável está agora queimando no Inferno por tudo que aprontou. Mas, não é isso que está nos preocupando.

- E o que é, então?

- Vários cidadãos de Beacon Hills desapareceram sem deixar rastros nos últimos meses. Pobres coitados. Gente sem família e, a maioria, sem endereço fixo. Demorou para que alguém desse por falta dessas pessoas e relacionasse esses desaparecimentos isolados a uma causa comum. Mas, agora existe um corpo. Ou melhor, um braço. A prova que alguma coisa está à solta na cidade matando pessoas.

- E essas mortes tem a ver com o Danny? O Matt é o responsável?

- Não! Isso tem a ver com a Irina.

- A Irina?

- É. Primeiro, pensávamos que o responsável pelos desaparecimentos, por essas possíveis mortes, fosse um ômega. Há duas noites, soubemos pelo Derek que a responsável é a Irina.

- O Derek está maluco. Está tentando se safar ou safar algum outro da raça dele. Não tem cabimento isso de achar que a Irina é uma serial killer. Vocês garotas têm implicância com ela, mas a Irina é uma garota muito legal. Além de muito gostosa.

- O Derek disse a verdade, Jackson. A Irina é uma rusalka. Tudo indica que seja.

- Rusalka? Nunca ouvi falar. É um tipo de criatura?

- É uma espécie de sereia que habita rios do leste da Europa. Mulheres que se suicidam ou são mortas em rios podem tornar-se rusalkas. Rusalkas cantam e assim atraem homens para água. Eles se afogam e são devorados.

- Então essa da Irina cantar para o Danny num lugar romântico e isso dele falar de banho gelado .. Vocês acham que a Irina quer comer o Danny e, quando digo comer, é comer do jeito ruim?

- É uma possibilidade. Bate com o que sabemos dessas criaturas.

- O Matt se afogou no Beaver Creek. Foi assassinado. Ele pode ter virado essa coisa? Um rusalka?

- Não 'um' rusalka: um vodyanoy.

- Quando eu pensei que estava entendendo ..

- É mesmo confuso. Não achei que fosse entender.

- Allison ..

- Agora numa boa: é confuso mesmo. Os caçadores acham que o Matt ainda não se tornou um vodyanoy. Um vodyanoy é uma espécie de parceiro - e também amante - de uma rusalka. Elas sempre buscam por um. A Irina pode ter encontrado o Matt e o escolhido para seu parceiro.

- Você quer dizer encontrado o espírito do Matt. O Matt morreu semanas antes da Irina chegar a Beacon Hills. Morreu e foi enterrado. Eu fui no enterro do Matt. Nós éramos amigos.

- Não acho que fossem, Jackson. Eu não perderia meu tempo chorando por ele. O Matt era um psicopata e psicopatas não têm amigos. Eles manipulam pessoas.

- O Matt está morto há meses. Vocês acham que o espírito dele ficou vagando pela cidade esse tempo todo?

- A Lydia me fez essa mesma pergunta. O que muitos dizem é que o espírito de quem morre afogado pode ficar preso ao corpo de água onde essa pessoa morreu. No caso do Matt, o Beaver Creek, um rio. E sendo a Irina uma sereia ..

- Esse vodianow ..

- Vodyanoy!

- Esse vodyanoy é um fantasma?

- É isso que é confuso na mitologia de rusalkas e vodyanoys. O mito fala de espíritos de homens e mulheres afogados, mas eles voltam como seres físicos, não como fantasmas. Talvez o espírito do afogado possa animar o próprio corpo morto ou o corpo morto de outra pessoa.

- Achamos que, pelo tempo, o corpo do Matt já deve estar imprestável. A alternativa seria ele voltar em outro corpo.

- O que vimos hoje à tarde era o Matt possuindo o corpo do Danny. O problema é que um espírito não pode possuir o corpo de uma pessoa viva por tempo indeterminado. Se for verdade que o vodyanoy pode animar um corpo morto, o Danny é a opção mais provável.

- Então, o que estamos esperando? Vamos tirar o Danny das garras da russa. Se bem que .. vocês têm mesmo certeza disso tudo? Porque o Danny parecia estar se divertindo bastante com a Irina. E convenhamos que é muito melhor ser morto por uma sereia do que por um lobisomem.

- Sério que você acha isso, Jackson? Você acha mesmo o máximo ser devorado por uma sereia? Por que então você não se oferece para ficar no lugar do Danny?

- Está vendo como ela é, Allison? A Lydia morre de ciúmes de mim. Ela me quer todinho para ela. Calma, ruiva, eu não vou deixar a Irina arrancar nenhum pedacinho meu.

- Quando eu digo para você trocar de namorado, Lydia ..

- É bom você manter o olho aberto, Lydia. Essa atitude agressiva da sua amiga para comigo .. sei não. Estou começando a achar que é uma tentativa de disfarçar algum outro sentimento. Ela se diz a sua melhor amiga, mas passou a reparar muito em mim depois que rompeu com o Scott. Esquece, Allison, você não tem nenhuma chance comigo. Eu amo a Lydia de verdade.

- O Jackson ainda me tira do sério, Lydia. A sorte dele é não ser mais um lobisomem. Porque isso me daria a desculpa perfeita.

- Não estamos perdendo tempo, meninas? A ideia não era salvar o Danny?

- Nós vamos. Mas, quando digo nós, somos só eu e a Lydia. Você é homem e rusalkas podem controlar a mente de homens. Se você estiver perto, ela vai controlá-lo. Ela pode fazer você nos atacar.

- E para que servem os extintores?

- É nossa arma contra a rusalka. Se estivermos erradas e a Irina for uma garota comum, não vai acontecer nada com ela. Não vai fazer mal. No máximo, vai arruinar o cabelo dela. Ela vai nos xingar, nós vamos pedir desculpas e dizer que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto.

- Mas, se ela for realmente uma rusalka e se o mito estiver certo, isso vai matá-la. Notou que os cabelos da Irina parecem estar sempre molhados? A mitologia diz que uma rusalka morre se o cabelo dela ficar seco.

- Por isso termos carregado os extintores com um produto que absorve umidade?

- O cloreto de cálcio é higroscópico. Mais que isso, é deliquescente. Quando desidratado, é um pó branco que absorve a umidade do ar e forma uma solução supersaturada. A solução continua a absorver umidade do ar. Captura uma quantidade de água muitas vezes maior que seu próprio peso. Se essa água absorvida evaporar, o produto passa para a forma de gel. É vendido como desumidificador de uso doméstico para evitar formação de mofo em armários.

- Nem é preciso dizer que foi ideia da Lydia. Química é com ela mesmo.

- É verdade. A Lydia é a nossa expert em armas químicas. Lembra que foi ela que preparou os coquetéis Molotov que usamos contra Peter Hale?

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA McCALL


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- Mãe?

Scott abre e fecha os olhos enquanto se espreguiça e dá seguidos bocejos.

- Já era tempo de acordar, mocinho. Eu já estava ficando preocupada. Você dormiu o dia inteiro. Já é noite.

- Noite de lua cheia. Eu posso sentir.

- Como você está?

- Meio tonto ainda. Com muito sono. E fome. E sede.

- Eu vou preparar alguma coisa para você comer. Por que não toma um banho para ajudar a acordar?

- Como eu cheguei aqui, mãe? Eu lembro que estava no shopping. Eu estava com a Allison. Nós estávamos abraçados. Eu estava feliz. Eu achei que nós íamos voltar a nos acertar. E aí, ela aplicou uma injeção no meu pescoço. Wolfsbane. Eu surtei. Por que ela fez isso comigo, mãe? Por que a Allison me traiu?

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: FERA FERIDA


17.08.2015