CAPÍTULO #53

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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE


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O ombro já estava de volta ao lugar, mas ainda doía horrivelmente. A dor obrigava Dean Winchester a manter aquele braço imobilizado contra o peito enquanto tateava o solo buscando a mochila em meio à escuridão.

Cada segundo contava e Dean já tinha perdido quase meio minuto quando finalmente encontrou o que buscava. Buscava as armas taser, mas revirando o interior da mochila encontrou algo que também poderia ser útil naquele momento: o spray de pimenta. Guardou-o no bolso da jaqueta.

Mochila novamente às costas, Dean se põe de pé, uma arma taser em cada mão. Nos três longos primeiros minutos, suportou a dor no ombro direito e manteve ambos os braços erguidos na horizontal, transversalmente ao corpo, de forma a cobrir melhor o espaço à sua volta. Ao mesmo tempo, girava lentamente o corpo inteiro, atento a cada ruído na floresta escura e silenciosa a sua volta.

O monstro mostrara-se ardiloso. Mais que isso. Podia-se dizer que agira com inteligência e estratégia. Não é porque desaparecera por uma direção que necessariamente reapareceria pela mesma. O subestimara da primeira vez. Não ia repetir o erro desta.

E nada.

O tempo passava, arrastando-se, e nada do monstro reaparecer. Ao final do quinto minuto, Dean baixou o braço para aliviar a dor no ombro pensando em reerguê-lo logo em seguida. 'Apenas um segundo', pensou.

Não teve tempo. O braço direito acabara de pender paralelo ao corpo do caçador, relaxado, quando seu ouvido treinado capta o ruído quase imperceptível de algo se deslocando rápido em sua direção, exatamente do lado do braço comprometido. Somente o ruído de uma ou outra folha sendo esmagada o denunciava. O monstro provavelmente avançava com os olhos fechados para ficar invisível. Guiado pelo olfato. Pelo cheiro de sangue.

'Maldito.'

Dean gira o corpo 180 graus para disparar com a arma empunhada pelo seu outro braço. Estava no meio do movimento quando sentiu o impacto em velocidade dos 100 kgf do monstro de encontro ao seu tórax. Foi como ser atropelado por um caminhão, lançado por cima da amurada de uma ponte e se estatelar lá em baixo contra um piso de concreto.

Dean estava grogue. Fora lançado metros adiante. A pancada da cabeça com o solo fora violenta. Seu corpo estava moído. A dor no ombro esquecida em meio a tantas outras. As armas tasers caídas fora de seu alcance.

Os segundos passavam e Dean jazia prostrado, costas no chão, sem forças para se reerguer. Sobre ele, o monstro negro, seus olhos vermelhos e sua grande boca cheia de dentes. Olhava para o monstro, para os olhos vermelho-sangue fixos nele, sem esboçar reação. Sua visão entrava e saia de foco. Uma ou duas vezes sentiu a vista escurecer. Foram vários segundos até sua visão se firmar e seus pensamentos ganharem coerência.

Preciosos segundos que podiam ter custado sua vida.

Ser atacado por um lobo é sempre uma perspectiva assustadora. Saber-se indefeso e prestes a ser estraçalhado pelos dentes de um monstro sobrenatural na forma de lobo, um monstro que tem o dobro do tamanho de um lobo normal e é mais forte e mais ágil que qualquer lobo, tornara-se, para Dean, uma realidade apavorante.

Morrer nem era seu maior medo. Tinha mais medo do que viria depois. Aqueles dentes podiam não só matá-lo, mas transmutá-lo. Transformá-lo em uma das coisas que dedicara a vida a exterminar. Uma ironia cruel do destino. Ser mais uma vez lançado no Purgatório e, desta vez, sem qualquer esperança de encontrar a porta de saída. Passar toda a eternidade na companhia de monstros.

O monstro devia achar que a partida estava ganha. Para Dean, só isso explicava ele ainda estar inteiro e o monstro ainda não tê-lo sangrado. Sabia que o monstro podia farejar seu medo. Talvez apenas quisesse saborear seu medo antes de destroçá-lo. Sim, estava com medo. Não ia negar. Medo de falhar com Sam. Mas, o monstro estava redondamente enganado se achava que estava paralisado de medo.

Estava em desvantagem, mas aquela não era a primeira vez e não deixaria que fosse a última. Estava baqueado, mas não estava morto. Esperar passivamente a morte era algo fora de cogitação. Lutaria. Além do limite das suas forças. O quanto fosse necessário. E viraria o jogo. Não era só a sua vida que estava em risco. Era a vida de Sam. Jamais desistiria dele. Dean busca dentro de si a força para manter-se consciente e recuperar a iniciativa. Seu objetivo não era simplesmente sobreviver. Não desistira do objetivo original: matar o monstro. Mesmo que isso significasse morrer junto com ele.

O monstro estava literalmente sobre ele. As patas dianteiras sobre seu peito. Estava praticamente pisando ..

'Os explosivos. Se pretendo mesmo fazer, a hora é agora.'

Dean move os braços para atrás da cabeça em busca do detonador preso à manga da jaqueta e é como se o monstro pudesse ler sua mente. Como se soubesse o que pretendia fazer. E mais uma vez o monstro surpreende agindo diferente do esperado. O monstro não o abocanha no pescoço como Dean esperava e temia. O movimento dos braços para cima visava justamente sacrificar o braço direito, já comprometido, para proteger o pescoço. Dean esperava conseguir resistir à dor de ter o braço estraçalhado pelo tempo suficiente para detonar a bomba incendiária. A manobra traria o monstro para ainda mais próximo de si, pegando-o em cheio na explosão.

Mas, o monstro não ataca os pontos vitais do oponente caído como um predador normalmente faria. Ele recua e investe contra os explosivos presos à cintura de Dean como um cinto e força para arrancá-lo, destroçando no processo a ligação entre as embalagens individuais e a fiação necessária à detonação da bomba. Quando Dean pressiona o detonador, a opção de explodir a si mesmo e ao monstro já não existia.

Embora não tenha sido mordido, a destruição do cinto explosivo não foi indolor para Dean. Ele foi chacoalhado acompanhando os movimentos de cabeça do monstro e suas costas sofreram seguidos baques contra o solo, todos violentos. Sua cabeça e braços também não foram poupados dos baques. Sua cintura foi dolorosamente comprimida contra a testa do monstro e ele teve a pele lacerada pelo atrito com as embalagens plásticas dos explosivos e pela fiação elétrica que dava voltas em sua cintura.

Com o monstro mirando sua cintura, a bocarra abrindo e fechando ameaçadoramente próximo de uma parte da sua anatomia pela qual aceitaria sacrificar um braço ou uma perna, Dean ataca às cegas com pés. E, num golpe de sorte, acerta um forte chute na cara do lobo. Forte o bastante para arrancar sangue do focinho. O lobo, surpreendido, recua a cabeça, mas isso não o salva de receber um segundo chute certeiro. Esse, ainda mais doloroso, faz inchar o olho esquerdo da fera. A surpresa e a dor se transformam em fúria. Fosse qual fosse o grau de influência que Derek estivesse exercendo sobre o Lobo, essa influência é quebrada. O monstro rosna ameaçador e investe contra os pés de Dean tentando mordê-los.

O Lobo, até então, vinha poupando o homem de ataques que comprometessem sua integridade física. Dean sangrava, mas não fora mordido nem arranhado pelo Lobo. Se isso era algo intencional ou mero acaso, o próprio Derek não saberia afirmar com certeza. Derek não queria infringir ferimentos sérios ao oponente e ele e o Lobo eram o mesmo ser. Em suas próprias palavras: 'somos, na verdade, um só. Como pode ser possível querermos coisas diferentes?'

Mas, as intenções originais podem se perder no calor de uma batalha. Podemos não querer matar, mas, provocados pelo inimigo, essa disposição pode mudar. Ameaçado, qualquer um de nós pode ser tomado por fúria homicida. Dor, raiva, espírito de competição e instinto de sobrevivência se combinam e se transformam em fúria. E a fúria cega. Numa batalha, nossas ações deixam de ser guiadas pelas estruturas cerebrais sofisticadas resultantes de milênios de evolução para serem guiadas pelos nossos instintos mais básicos. Pelo chamado "cérebro réptil".

Se até o mais ponderado dos homens pode perder a cabeça, o que dirá um lobisomem? Principalmente, quando banhado diretamente pela lua cheia, que acabara de despontar no céu. Agora não eram só os olhos vermelhos e as presas brancas em tênue contraste contra o fundo escuro. O luar finalmente vencera a barreira da copa das árvores e chegara ao solo. Dean começa a ver com mais clareza o tamanho da fera que está enfrentando. A fera que acabara de destroçar sua bota, felizmente com o seu pé fora.

O Lobo, transtornado, preparava-se para o bote fatal, para sangrar o inimigo no pescoço, quando é surpreendido pela nuvem do spray de pimenta. Quando mais sensíveis o olfato e o paladar, mais susceptíveis a um ataque químico. O Lobo urra de dor e bate em retirada.

Dean, que prendera a respiração e voltara o rosto para o chão, pode enfim tomar fôlego. Ele respira fundo .. e tosse devido ao spray ainda não completamente disperso no ar. Não está a salvo, mas ganhara preciosos minutos e pretendia fazer bom uso deles.

Com dificuldade, Dean se põe de pé. Seu corpo inteiro está dolorido e ele perdeu uma das botas. Ele se toca para ter certeza de que não está ferido. Que não foi mordido. Aliviado, olha ao redor em busca das armas taser. Ia precisar delas e de tudo o mais com que pudesse contar. Percebera uma súbita e profunda mudança no comportamento do lobisomem. Mais animalesco e muito mais brutal. E, para o caçador, isso era muito fácil de explicar: a lua estava agora bem visível no Céu.

Nunca acreditara nisso de lobisomem controlado em noite de lua cheia. Derek Hale era um lobisomem como qualquer outro. Um monstro perigoso e descontrolado que precisava ser morto. Para o bem de todos.

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA McCALL


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- Bem melhor agora, de banho tomado. Vem, filho. Senta, enquanto eu faço o seu prato. Não está lá grande coisa. Desculpe, por ser algo meio improvisado, mas a dispensa e a geladeira estavam quase vazias. Amanhã, eu saio para fazer compras e preparo um almoço decente pro meu filhão.

- Parece bom, mãe. E, com a fome que eu estou, qualquer coisa vai me parecer ótimo.

- Parece um milagre ter você aqui comigo.

- Do que você está falando, mãe? Mãe .. você está chorando?

- É de felicidade, filho. Eu .. todos nós .. pensamos que tínhamos perdido você. Agradeça à Lydia, ao professor Finstock e a seus colegas de turma, que resgataram você com vida da casa dos Argent.

- Eu fui levado para a casa de Argent? Mãe, me conta direitinho tudo o que aconteceu.

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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE


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O humano que acreditava ser mais lobo que um lobo o ferira com ar transformado em veneno. Ao inalar o ar-veneno sentira o fogo sem chamas invadi-lo pelos olhos, narinas e boca. Seus olhos queimavam quando fechados e mais ainda quando abertos. Sua glote fechara. Não conseguia respirar. Estava sufocando. Suas narinas, boca e garganta queimavam. Sentiu-se ferido de morte. 'Maldito humano que acreditava ser mais lobo que um lobo'.

Seu instinto de sobrevivência o fez fugir do lugar do ar-veneno. Correra às cegas, sem direção, empurrado pela dor. E, então, soube o que fazer para apagar o fogo sem chamas. Buscou a água corrente, que sabia existir a cerca de trezentos metros dali. Normalmente, farejaria a água. Como estava, cego e privado do olfato, dependia de seu senso de orientação e do seu conhecimento do terreno para encontrá-la. O senso de orientação era seu. O conhecimento do terreno era da sua forma humana, já que somente uma vez fora livre para caminhar na floresta sobre as próprias patas.

O caminho até o riacho pareceu mais longo do que realmente foi. A agonia alonga o tempo. Não mais que cinco minutos, mas pareceu uma eternidade. Estava sufocando. Tropeçava nas próprias patas. Caia. Se chocava contra os troncos de árvore. 'Maldito humano que acreditava ser mais lobo que um lobo'.

Naquele trecho, o riacho não chegava a ter quinze centímetros no seu ponto mais fundo. Era um pequeno afluente que ainda correria por mais trezentos metros antes de se reunir ao Beaver Creek. Mal permitia que o Lobo agachado imergisse completamente a cabeça. Mas, bastou ele mergulhar a cabeça para obter alívio. Ele ficou ali para que o fluxo de água gelada e cristalina lavasse o veneno de seus olhos, parte externa das narinas e boca. Bebeu uma quantidade enorme da água e a queimação na garganta amainou. Já respirava melhor, mas ainda estava ofegante.

Os ferimentos no rosto foram superficiais e já haviam desaparecido sem deixar marcas. O olho desinchara completamente e, neles, a ardência já não incomodava. Ainda sentia fogo no interior das narinas, mas agora menos. A garganta ainda incomodava. O olfato ainda não voltara. Mas, no geral, sentia-se bem de novo. Logo estaria em condições de caçar o humano. O maldito humano que acreditava ser mais lobo que um lobo.

A fúria, esquecida enquanto suplantada pela dor, retornava redobrada. A queimação nas narinas e garganta, ainda presentes, reforçavam a lembrança dos momentos de dor e intensa agonia. O humano que acreditava ser mais lobo que um lobo era o responsável por sua dor. Ia encontrá-lo e devolver em dobro aquela dor.

O Lobo estava mais uma vez dominado pela fúria. Mais até que antes, no calor da batalha. A fúria crescente o fazia ver o mundo em vermelho. A cor da ira. A cor do sangue. O olfato estava voltando, trazendo consigo o cheiro do sangue do adversário. E, naquele momento, tudo o que o Lobo desejava era sentir o gosto daquele sangue em sua boca. Banhar-se no sangue daquele humano. Devorar-lhe a carne.

Como humano, na época de estudante, tomara conhecimento de práticas canibais em algumas tribos indígenas americanas, algumas nem tão primitivas assim. Humanos que devoravam outros humanos em festins rituais acreditando que assim ganhariam a bravura dos inimigos tombados em combate. Uma forma torta de honrá-los. Isso o impressionara. Nas semanas seguintes, volta e meia o horror daquilo lhe vinha à cabeça. Com o tempo, esqueceu. Mas, aquilo ficou guardado em seu subconsciente.

Estava, portanto, gravado também no subconsciente do Lobo. E, isso agora voltava, não como palavras, mas como imagens sangrentas criadas pela imaginação do garoto impressionável que Derek fora um dia. Dean Winchester era, sem dúvida, um inimigo formidável. Um guerreiro valoroso. Ansiava por assimilar sua coragem e disposição de luta.

Ansiava por estraçalhá-lo e devorá-lo.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: O MENINO E O LOBO


22.08.2015