CAPÍTULO #54
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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE
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Stiles seguia na direção norte, mais especificamente noroeste-norte. O Lobo em fuga correra para o sul, na verdade: sul-sudeste. Suas trajetórias convergiam para o mesmo riacho, mas para pontos diferentes, distantes entre eles 200 m. O Lobo chegou antes ao ponto mais ao norte. Se permanecesse ali, era certo que se encontrariam. Stiles planejava chegar ao riacho e acompanhar a corrente rio acima. A distância entre eles, que chegara a ser de um quilômetro, reduzira-se a um quarto disso e diminuía mais a cada passo do garoto.
Os sentidos acurados do Lobo eram seu trunfo e sua fraqueza. O ataque químico fora uma derrota por nocaute. Dez minutos no riacho e ele ainda não estava 100% recuperado. Seu fator de cura agira onde o agente químico fora removido pela água. A queimação nos olhos já desaparecera e a da garganta estava em vias de desaparecer. Já os danos ao sistema respiratório persistiam. A presença do produto retardava a cura.
Inspirava com sofreguidão o ar fresco e úmido da floresta, mas este chegava a seus pulmões trazendo agonia. O spray causara danos aos alvéolos. Mesmo assim, poder encher os pulmões de ar era uma benção. Sentia-se melhor só por conseguir respirar depois de momentos de puro pânico. A horrível queimação era preferível à terrível sensação de sufocamento. Ao pavor de morrer sufocado.
Naquele momento, chacoalhava freneticamente o corpo para expulsar a água gelada aderida a seu pelo. Movimentos enérgicos que já repetira várias vezes, porque seguidamente se desequilibrava e caia após sequências involuntárias de tosse e de assoadas das narinas. Era seu corpo tentando expulsar o spray das vias respiratórias e das sensíveis mucosas do interior das narinas.
Com o olfato comprometido, a audição era, naquele momento, a forma que tinha de integrar-se ao ambiente à sua volta. Mais que nunca, precisava estar atento. Fora ferido. Seu inimigo, o homem que acreditava ser lobo, podia aproveitar-se daquele seu momento de vulnerabilidade para atacar. Humanos já o feriram antes. Feriram sua forma humana. Feriram sua forma híbrida. E agora o feriam na forma de lobo. Humanos eram perigosos, traiçoeiros e covardes. Humanos não tinham presas nem garras, mas feriam com armas e palavras.
Em sua mente, flashes de lembranças dolorosas. Paige morrendo em seus braços. A voz indiferente ao telefone informando que toda sua família estava morta. A sua primeira visão das ruínas fumegantes da Mansão Hale. Sozinho e confuso entre estranhos numa cidade estranha. Agonizando envenenado por uma bala de prata impregnada de wolfsbane. Acorrentado e torturado com choques elétricos por Kate Argent. Kate dizendo displicente que nunca o amara. Algemado como criminoso pelo xerife Stilinski nas ruínas da casa que um dia chamou de lar. Os olhares de desprezo quando foi acusado injustamente de ser o assassino da própria irmã. Lydia soprando wolfsbane em seu rosto. Caçado na floresta por Christian Argent. Caindo indefeso aos pés do kanima e ouvindo o riso sarcástico de seu mestre humano. Massacrado por Boyd quando tudo que queria era manter sua alcateia a salvo. Indefeso enquanto os caçadores decidiam ao telefone quando e onde o matariam.
Não se deixaria ferir novamente. Não deixaria nenhum humano feri-lo. Mataria todos que tentassem. Mataria todos que se aproximassem.
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O aplicativo GPS do celular de Dean Winchester indicava pouco menos de 1,5 km em linha reta até a Mansão Hale. Um corredor médio venceria essa distância em 10 min em pista plana sem obstáculos. No ritmo anterior, passo acelerado, terreno irregular, contornando obstáculos, talvez fizesse em 20 min. No seu estado atual, o corpo todo dolorido, um ombro ferrado e um pé descalço, não menos que 30 min.
Uma bota com a ponteira reforçada com aço é peça essencial ao vestuário de qualquer pessoa que faça trilha. A que lhe restara era reforçada também no calcanhar, além de extremamente confortável. O modelo mais usado pela comunidade de caçadores. Tão popular que permitia reconhecer quem era experiente no ramo. Só dera crédito a Garth porque ele estava com uma quando se conheceram. Acabara de ter mais uma prova da sua eficiência. A bota salvara seu pé de ser destroçado por um lobisomem descontrolado. E, agora, caminhando na mata, a cada passo que dava mais sentia falta da que perdera.
Chamar aquele lugar de Parque Florestal passava uma falsa ideia da dificuldade que era caminhar por ali. Aquele trecho era floresta nativa, não um Jardim Botânico. Não estava percorrendo uma trilha demarcada. Mais de uma vez teve que recuar e buscar um caminho mais fácil. E caminhar com o pé descalço pelo meio do mato machuca bem mais do que se imagina. Até tentou, não conseguia dar dois passos sem pisar num espinho ou dar uma topada em alguma maldita pedra semienterrada. Envolver o pé no tecido das mangas da jaqueta ajudou, mas, mesmo assim, ia terminar o percurso com o pé em petição de miséria. Era o preço que pagava por cuidar bem dos pés.
Não tinha pés delicados, mas cuidava bem deles. E também das mãos. Um creme hidratante depois do banho não fazia dele um metrossexual. Depois, ter sensibilidade na sola dos pés e nas pontas dos dedos já lhe rendera bons momentos na cama. Era também parte importante para alguns disfarces. Um agente do FBI que se preze não tem mãos com calos de estivador.
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Stiles conhecia a floresta bem o suficiente para evitar o trecho de mata fechada que Dean Winchester estava percorrendo e seguia por um caminho menos acidentado, embora mais longo. A maior distância era compensada pela possibilidade de avanço mais rápido.
Stiles seguia por uma trilha secundária que o levaria a um dos muitos riachos que alimentava o Beaver Creek. Depois, era só seguir o riacho por 1 km rio acima e chegaria à aleia que ligava o riacho à Mansão Hale. Tinha apressado o passo após ouvir o grito do caçador. Mais ainda ao escutar o que lhe pareceu um urro de dor de Derek. Tinha medo de chegar apenas para constatar que um ou outro - ou mesmo ambos - estavam mortos.
Sua preocupação maior era com Derek. E, justamente porque se preocupava com ele, não queria que matasse os caçadores. Isso poderia ter sérias consequências a longo prazo. Colocaria Derek na mira dos Argent. As mortes seriam um caso de polícia. Chamaria a atenção do FBI para a cidade. Abalaria o psicológico do próprio Derek, que tinha o péssimo hábito de cultivar culpas. E, inevitavelmente, mudaria a forma como ele próprio via Derek.
Como poderia conviver com naturalidade com alguém que tirara vidas humanas?
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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA McCALL
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- Termina o seu prato, filho.
- Não consigo. Não depois de saber da história toda. A senhora podia ter morrido, mãe. Foi atropelada.
- O carro conseguiu frear a tempo. Eu estava muito nervosa e o pessoal do hospital achou por bem me dar um sossega-leão.
- Fosse qual fosse a intenção dos Argent, podia ter acabado em tragédia. Eu nunca me perdoaria, nem perdoaria os Argent, se alguma coisa mais séria tivesse acontecido com a senhora.
- Mas, não aconteceu. Eu estou bem. E, mais importante, VOCÊ está bem. É isso que importa. O resto se acerta com o tempo.
- Uma coisa é isso ser uma iniciativa do Gerard, da Victoria ou mesmo do Chris. Deles, eu podia esperar qualquer coisa. Mas, a Allison? Mãe, eu preciso saber porque ela fez isso comigo.
- Não hoje, filho. Não em uma noite de lua cheia. Amanhã você fala com ela. Quando se está de cabeça quente, o melhor é só tratar do problema que está nos afligindo após uma boa noite de sono. Escuta sua mãe. Você e a Allison vão ter todo o tempo do mundo para conversar e se entender.
- Eu duvido que eu consiga voltar a dormir. Principalmente, depois de ficar apagado por mais de vinte e quatro horas seguidas.
- Mesmo assim. Promete que só vai procurar a Allison amanhã?
- Não sei se consigo esperar até amanhã. Desde que acordei e as lembranças foram retornando que isso está martelando a minha cabeça. Eu tento pensar em outra coisa, mas sempre volta.
- Filho, se concentra no que essa situação horrível trouxe de bom. Pensa em todas as pessoas que mostraram que se importam com você. Todas essas manifestações de carinho e preocupação ..
- É, foi incrível. E, amanhã, eu vou agradecer pessoalmente a cada uma delas. Principalmente, a Lydia. Mas, se por um lado eu fiquei feliz e comovido, por outro, a decepção com a Allison foi grande demais. Eu quero uma explicação, mas não sei se consigo olhar para a cara dela. Ela armou com o pai para me capturarem. Iam fazer sei lá o quê comigo. Talvez me matar.
- Não tire conclusões apressadas, filho. Eu sou a primeira a querer você bem longe daquela gente. Mas, você tem que escutar primeiro o que ela tem a dizer.
- Escutar o quê? Que eu sou um lobisomem e ela é a líder de uma família que caça e mata lobisomens há séculos? Que nós, lobisomens, somos os responsáveis pela mãe dela estar morta e o maldito código de família diz que ela precisa vingar a mãe? Que a mãe dela morreu porque teimamos em ficar juntos e ela agora não consegue superar a culpa? Não podia mesmo dar certo.
- Filho, eu não quero me intrometer na sua vida. Errando ou acertando, as grandes decisões têm que ser suas. Mas, se quiser minha opinião: afaste-se da Allison. Afaste-se daquela família. Você mesmo disse: não tem como dar certo. Você acabou de dizer que não perdoaria os Argent se algo me acontecesse. A mãe da Allison morreu e essa morte vai sempre se colocar entre vocês dois.
- Eu entendi e respeitei a decisão da Allison de nos afastarmos. Darmos um tempo. Mas, isso? Me drogar. Me fazer perder o controle. Atirarem em mim.
- Eu queria poder dizer alguma coisa para confortar você.
- DROGA! POR QUE ELA FEZ ISSO COMIGO? COMO ELA PODE .. ?
Scott bate com o punho fechado na mesa e ela parte ao meio, derrubando pratos e todo o resto no chão.
- Filho, fica calmo. Seus olhos estão vermelhos. Suas feições estão mudando.
Scott olha para as próprias mãos e vê as garras crescendo. Ele não pode ver, mas sente as presas pressionando seu lábio inferior.
- Não estou conseguindo reverter, mãe. A Allison, o meu amor por ela, era minha âncora. Sem ela, eu estou perdendo o controle.
- Respira, filho. Tenta se controlar.
- SAI, MÃE! Se eu perder o controle, eu posso machucar a senhora. Eu posso matar alguém.
- Não, filho. Você não vai matar ninguém. Você é forte. É bom. Não é uma decepção amorosa que vai derrubar você. Se a Allison não ama você como você merece, mais cedo ou mais tarde vai aparecer outra pessoa.
Melissa vai em direção ao filho e o abraça forte. Ele resiste ao abraço, mas apenas por um segundo. Naquele momento, Scott só precisava se sentir amado. O calor do amor de sua mãe o acalma. A ira reflui e, sem ela, a transformação reverte.
- Eu já estou bem, mãe. Obrigado por me lembrar que a Allison não é a única mulher importante na minha vida. Eu te amo muito, mãe.
- Não mais que eu amo você, filho.
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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE
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Dean Winchester estava certo. Naquele momento, Derek Hale era um lobisomem tão perigoso e descontrolado quanto qualquer ômega de primeira lua. Ou ainda mais perigoso. Um ômega com a força e a experiência de um alfa.
O descontrole de um ômega é, em grande parte, desorientação e atordoamento. A transformação vem acompanhada de um bombardeio sensorial para o qual sua mente não está preparada. A percepção do ambiente muda. O mundo se enche de luzes ofuscantes, sons ensurdecedores e informações olfativas desconhecidas. O excesso de informação sensorial sobrecarrega a mente e bloqueia o pensamento racional. Vem o medo e o ômega reage agressivamente. Uma agressividade que também é potencializada pela transformação. Não demora e tudo sai do controle.
Derek nascera lobisomem. Dominava seus sentidos ampliados e sabia fazer uso deles. Na forma de lobo, seus sentidos ampliaram-se mais ainda. E sua mente estava preparada para isso. Mas, não estava preparada para a perda de um sentido a que se acostumara a confiar. Mesmo em forma humana, o olfato sempre fora tão ou mais importante que a visão ou a audição. Essa importância crescia na forma de lobo, um animal cuja percepção do mundo era moldada pelo olfato. A perda do olfato trouxe medo e insegurança ao Lobo. A perda veio acompanhada de dor e essa dor tinha um responsável.
Dean Winchester desencadeara a fúria do Lobo, mas essa fúria não estava focada nele como indivíduo. A mente do Lobo classificava Dean Winchester como um humano. Um humano o ferira e, em consequência, sua fúria se generalizara e era agora dirigida contra todos os humanos.
Se estivesse em sua forma híbrida, Derek já teria usado a própria raiva para recuperar o controle. A raiva sempre foi a sua âncora. Mas, sua forma animal não agia sob o controle de sua mente racional. A margem de manobra de Derek, que já era mínima, se estreitara ainda mais. O lobisomem estava dominado por fúria irracional.
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A audição acurada do Lobo capta passos. Passos descuidados em sua direção. Ainda distantes, mas podia ouvir perfeitamente folhas sendo esmagadas, pedrinhas chutadas e gravetos partidos. Um humano caminhando na floresta. Um maldito humano.
A lua estava alta e sua luz difusa já permitia uma pessoa caminhar na floresta sem esbarrar nos troncos das árvores. Mas, não estava claro o bastante para evitar que essa pessoa tropeçasse numa raiz. As sombras ainda predominavam. A pelagem escura ainda ocultava o lobo nas sombras, mas já era possível vislumbrar seu vulto sem muita dificuldade.
O Lobo correu oitenta dos cem metros que os separavam e se deteve. Ergueu a cabeça e tentou farejou o ar à sua volta, mas isso só reavivou a queimação em suas narinas. A ardência já estava num nível suportável, mas a sensibilidade olfativa ainda estava bastante comprometida.
Podia distinguir cheiros de naturezas distintas, mas sutilezas dentro de uma mesma categoria de cheiros ainda não. Já podia distinguir pelo cheiro um humano de um cervo, mas não voltara a ser capaz de identificar uma pessoa pelo cheiro. O sexo sim, por conta da diferença de níveis de hormônios.
O Lobo avista o garoto, mas não o reconhece. Ao Lobo basta saber que ali está um humano. Uma presa que pode usar para descarregar sua fúria e vingar sua dor.
Stiles se detém ao ver os olhos brilhando em vermelho à distância. Um lobisomem, com toda a certeza. Olhos de verdadeiros lobos não brilham em vermelho. Ele esboça um sorriso.
'Derek?'
O sorriso vai morrendo aos poucos. Havia algo estranho naqueles olhos e Stiles levou vários segundos para descobrir o que estava errado. O maior afastamento entre os olhos e a pequena altura em relação ao solo. Ao firmar a vista, a constatação do que já sabia. Um lobisomem, mas na forma de lobo.
- Derek, é você? Sou eu, Stiles. Está tudo bem com você?
A resposta foi um rosnado baixo e continuado. E o Lobo avançando cauteloso, um passo por vez, corpo rente ao chão, orelhas na horizontal, presas e gengivas à mostra. Pronto para o bote.
- Derek, sou eu. Stiles. Não está me reconhecendo?
Uma sucessão de rosnados curtos, num tom cada vez mais alto, mais intimidante, fizeram Stiles desconfiar que talvez o Derek não o estivesse reconhecendo. E que isso não era um bom sinal. Ou talvez aquele não fosse Derek. Nunca vira Derek na forma de lobo. Na verdade, nem sabia que Derek podia assumir a forma de lobo. Mas, se não era ele, quem poderia ser?
- É você, não é? Me diz que é você e que você está só querendo me pregar uma peça.
Novamente o rosnado continuado, mas num tom ainda mais alto que da primeira vez. O Lobo estava agora a cerca de 5 m, uma distância que podia vencer em segundos.
- Você ameaçou muitas vezes rasgar a minha garganta com os dentes e eu nunca acreditei. Talvez um pouquinho nas primeiras vezes. Você não vai fazer isso, vai? Você não quer fazer isso. Somos amigos. Eu salvei você. Mais de uma vez. Vamos fazer o seguinte: você não me mata e nós estamos quites.
- Owooooah!
- Dizem que cão que ladra não morde. É isso, não é, Derek? Você está só ladrando. Uivando. Rosnando. Não vai me morder. Diz que não vai me morder. Por favor!
- Owooooah!
- Você sabe que eu nunca quis virar lobisomem. Mesmo o Peter respeitou minha vontade. Eu ia ser uma péssima aquisição para a sua alcateia. Em primeiro lugar, eu falo demais e você não ia me querer ao seu lado falando e falando. E não importa que você seja o alfa. Eu não v..
O rosnado que se seguiu calou Stiles. Olhos nos olhos, Stiles não vê qualquer indício de reconhecimento, apenas fúria cega. Não era uma peça. Derek não pretendia mordê-lo. DEREK IA MATÁ-LO.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: FANTASMAS DA MANSÃO HALE
31.08.2015
