CAPÍTULO #56
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LOCAL: MANSÃO HALE
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- Estava à sua espera, Dean ...
O caçador não esperou seu nome terminar de ser pronunciado. Girou o braço guiado pelo som da voz do inimigo e disparou. Uma bala de prata cravada no coração e mais um monstro tombando morto. Simples e definitivo. Como sempre deveria ser. Sem perda de tempo. Sem conversa fiada.
- GAME ..
.. Win ..
Estava cansado, seu corpo todo doía e tudo o que queria era deixar o mais rápido possível aquela maldita floresta - e todos os seus malditos espinhos e pedrinhas.
E aquela maldita cidade e seus duplamente malditos lobisomens.
Antes, matara um lobisomem afrodescendente e, agora, um caucasiano. Perfeito. Assim, ninguém poderia taxá-lo de racista. Considerando que o lobisomem caucasiano era gay, restava torcer para que o finado lobisomem negro fosse hétero. Se todos naquela alcateia fossem gays, todo seu esforço para convencer Sam que não era homofóbico teria sido em vão.
'Nós ainda vamos rir muito desta história, Sam. A história de como eu convenci você de que eu era gay. Você vai me xingar de jerk. Eu vou xingar você de bitch. E nós vamos rir muito disso tudo, mano.'
.. ches ..
.. O ..
Ao apertar o gatilho, Dean parecia estar vendo o que se seguiria ao impacto do projétil contra o peitoral do monstro. A bala em velocidade perfuraria a pele e seguiria seu caminho rasgando o tecido vivo. A força do impacto, maior que o de um soco, empurraria o tronco do monstro para trás. O monstro, apanhado de surpresa e ainda não consciente da própria morte, reagiria ao impacto trazendo de volta o tronco à frente e deslocando um dos pés para trás, na tentativa de manter o equilíbrio. Para, finalmente, tombar de joelhos e cair de cara no chão. Morto.
'Acabou! Eu já fiz a minha parte, Sam. Matei o monstro. Agora, faça a sua: não morra.'
.. ter.
.. VER.
Só que não.
Dean é surpreendido pelo inconfundível barulho de vidro se quebrando. Eram os fragmentos de um enorme espelho vindo ao chão, com estrondo, ao ser atingido pela bala de prata. Ele avista, então, um celular, ligado a um dispositivo temporizador, completar a fala gravada. A mesma que seria repetida dez segundos depois, ignorando que a situação já era completamente diversa.
Foram dois segundos entre a bala acertar o espelho e Dean entender o que tinha acabado de acontecer. Fora enganado por um truque de espelhos. Isso significava que Derek Hale estava na verdade ..
Dean gira primeiro o pescoço e começa a girar o corpo, mas é tarde demais. Derek Hale vem por trás e, com seu braço esquerdo, prende Dean pelo pescoço, numa gravata sufocante. O lobisomem, com sua mão direita, aperta os dedos de Dean contra a coronha da arma ameaçando quebrá-los. Dean grita de dor ao sentir a mão que empunha o revólver sendo esmagada pelo punho de aço do monstro humanoide vestindo jeans e camiseta.
O que mais preocupava Dean naquele momento era a possibilidade de ser mordido. Derek Hale estava na forma híbrida, os olhos brilhando em vermelho e a boca cheia de dentes roçando sua nuca. O monstro estava perfeitamente posicionado para mordê-lo no ombro direito.
Ou para abocanhá-lo na nuca e sua estraçalhar sua coluna.
Mas, o caçador não teria sobrevivido por tantos anos se não estivesse sempre preparado para tudo. Dean já entrara na Mansão Hale tendo, em sua mão direita, o revólver e, na esquerda, a faca de caça com lâmina de prata. Tinha ainda essa outra mão livre. Dean ignora a dor e investe com a faca contra o flanco direito de Derek. Um ferimento profundo que alcança o rim direito do lobisomem.
Derek urra de dor ao sentir a lâmina penetrando sua carne. A lâmina entrou e saiu. A dor, mais do que pelo corte, foi causada pelo contato incandescente do tecido interno do corpo com a prata venenosa. E àquela facada logo se sucederiam outras. Não tinha escolha. Ou matava imediatamente o oponente, ou acabaria morto por ele. Peter estava certo. Peter sempre esteve certo. As palavras do tio voltam à memória de Derek enquanto ele aumenta a pressão de seu braço esquerdo contra o pescoço de Dean.
'Derek, você é o alfa. Pense como um. Eles são profissionais. Já enfrentaram e mataram lobisomens antes. E não somente lobisomens. Todo o tipo de criaturas. Não pode enfrentá-los sem estar decidido a matá-los. Não pode hesitar. Se estiver em dúvida, o melhor é não enfrentá-los. Fuja. Esconda-se. Só não se esconda embaixo da cama do filho do xerife ou vai virar a piada preferida das rodinhas de pôquer dos caçadores.'
Chegara a hora da decisão. Ou quebrava de uma vez o pescoço do caçador ou seria morto por ele.
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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA ARGENT
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A bicicleta parou em frente ao portão dos Argent no exato momento em que a porta da frente da casa se abria e Allison, Lydia e Jackson saíam. Jackson, o último a sair, carregava sozinho os quatro extintores portáteis carregados com cloreto de cálcio.
Os três pareciam animados, como quem está a caminho de uma festa, e essa alegria toda magoou Scott. Fora dopado, baleado, sequestrado, mantido em cárcere privado, passara mais de 24 horas inconsciente, outras tantas horas amargurado, tentando entender o que levara Allison a traí-lo, e ali estava ela, divertindo-se com os amigos, esbanjando sorrisos.
Não estava nem aí para ele.
Outro sentiria raiva. Ódio. Scott apenas ficou triste e decepcionado. Era uma prova do quanto Scott ganhara controle sobre o processo de transformação. Era um lobisomem. A lua cheia exacerbava sua agressividade. Trazia à superfície suas emoções mais primitivas. Scott tinha todos os motivos do mundo para explodir em fúria assassina, e estava ali, banhado pela lua cheia, tentando segurar o choro.
Enquanto Allison trancava a porta de casa, comandava a abertura remota do portão para carros e temporizava o religamento da proteção eletrônica da propriedade, Lydia se aproximara de Jackson e os dois se beijaram. Então, todos se dirigiram para o magnífico Porsche 911 Carrera do Jackson, estacionado em frente à casa. Lydia pega a chave no bolso da calça do namorado e abre o porta-malas. Jackson despeja dentro os extintores.
Scott tinha muitas perguntas. Mas, queria fazê-las a Allison e somente a ela. Não queria ninguém em volta para atrapalhar. Não queria ninguém presente para testemunhar. Tinha medo que o amor que sentia por Allison fosse maior que seu amor-próprio. Que esquecesse da própria dignidade e implorasse para que Allison voltasse para ele.
O carro deixa a propriedade e é seguido à distância por Scott. Scott não queria ser visto, mas o que faz o carro abrir distância é a potência do motor do Porsche. Jackson nunca perdia a oportunidade de pisar fundo no acelerador. Afinal, para que comprar um esportivo com motor de 400 cv, capaz de acelerar de zero a 100 km/h em 4,5 s e alcançar 300 km/h, se você pretende dar uma de cidadão respeitador das leis de trânsito e nunca ultrapassar os 120 km/h?
O carro desaparecera de vista, mas isso não impediria Scott de segui-los. Se havia algo que conhecia bem, era o cheiro de Allison. Em momentos como esse, agradecia ter se tornado um lobisomem.
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LOCAL: RESIDÊNCIA ALUGADA DE IRINA SHAYKHLISLAMOVA, NOS LIMITES DA CIDADE DE BEACON HILLS
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- Pegou as suas coisas?
- Peguei, mas apenas porque você está insistindo. Por mim, eu deixava já tudo aqui. Me poupava o trabalho de trazer tudo de novo amanhã.
- Então, se dependesse só de você, amanhã mesmo você trazia a escova de dentes junto com toda a sua tralha e se aboletava de vez aqui?
- Não! Aqui venta muito. Não está sentindo esse ar gelado que passa por baixo da porta? Pegamos a SUA escova de dente e levamos para o meu apartamento. Lá é mais perto do colégio, de uma padaria ótima e de um mercadinho que fica aberto até às 22:00. Você vai adorar.
- Danny, você pode não acreditar, mas, para mim, não tem lugar em Beacon Hills melhor que esse aqui. E sabe porquê? Porque é longe do colégio, longe de padarias e mercadinhos, longe de tudo. Aqui, eu posso sair de casa nua à hora que eu quiser sem ter que me preocupar com vizinho xereta. Mas, o melhor de tudo é a proximidade do rio. Nós estamos de frente para o Beaver Creek. Neste ponto, não é tão limpo quanto no lago para onde estamos indo, mas ainda dá para nadar.
- Até um tarado descobrir que você mora aqui sozinha. Não sei como é na Rússia, mas, aqui, pode ser muito perigoso.
- Pode não parecer, mas eu sei muito bem me defender. Eu MORDO, sabe? Eu ARRANCO pedaço. O tarado é que teria bons motivos para ter medo de mim.
- Falando assim, você me dá medo.
- E você devia mesmo ter medo de mim.
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- Tudo pronto?
- Tudo. Peguei duas toalhas. Eu me sentiria melhor de estivesse levando a minha sunga. A minha cueca é boxer, não deixa ver nada, mas, ainda assim, qualquer um vê que é apenas uma cueca.
- Não se preocupe. Vai ser só eu e você. Nenhum de nós vai precisar de roupas. Eu, com certeza, não pretendo usar.
- Ainda não acho uma boa ideia. Banho gelado ao ar livre. À meia noite. Pelado.
- Aposto que qualquer um dos seus colegas do colégio ia adorar nadar pelado comigo. Se você não quer, eu chamo outro.
- Você não faria isso comigo.
- Se eu fosse você, não arriscaria.
- Se não tem jeito, vamos. É meio longe. Nós vamos à pé?
- Claro que não. Vamos de bike.
- Jura?
- É como eu vou todo dia ao colégio. Você não sabe porque antes prestava mais atenção nos rapazes. .. Não faz essa cara. Você sabe que é verdade. Mas, isso acabou. Agora sou eu e apenas eu.
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LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON, BEACON HILLS
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- Onde encontro o xerife Stilinski, policial?
- Boa noite, agente McCall. Eu respondo pela delegacia na ausência do xerife Stilinski. Sou o policial assistente Chad Dalton.
- Sim! Chad, o neto do juiz Murray. Lembro de você ainda garoto.
- Faz muitos anos. É bom tê-lo de volta, senhor. O Scott vem sempre aqui, na delegacia, com o Stiles. Todos aqui gostamos muito do Scott. Felizmente, acabou tudo bem. Eu soube que ele já está em casa.
- De quem estamos falando?
- Do Scott. Se bem que eu poderia estar falando do Stiles. Ou até mesmo do xerife. A diferença é que, no caso do Stiles, quando eu fiquei sabendo ele já estava em casa. São e salvo. Com o Scott é que o susto foi grande.
- Stilinski me contou do falso sequestro do Stiles e de como os irmãos Winchester usaram isso para chantageá-lo. Mas, o Stilinski não me falou de nenhum problema envolvendo o Scott. O que houve com ele?
- Não falou? Com certeza, o xerife não quis preocupá-lo. O Scott ficou desaparecido por mais de 18 horas. Neste interim, correram boatos de que ele estaria morto. A cidade ficou em polvorosa.
- Morto? Meu filho podia estar MORTO e a Melissa nem para me avisar?
- A Sra. McCall ficou transtornada ao saber dos boatos e foi atropelada. Mas, sem gravidade. No hospital, acharam por bem sedá-la. Se não fosse por isso, tenho certeza que ela o informaria. Acabou que o Scott foi localizado na casa da família da namorada, mas em estado alterado. Ele foi resgatado pelo xerife Stilinski e levado para o hospital, onde fez exame toxicológico. O Stiles passou a tarde no hospital com o Scott e por isso não foi localizado. E, assim, deu margem para que ocorresse a história do sequestro. Mas, agora, felizmente, estão todos bem.
- Se o Scott está em casa e tanto ele como a Melissa estão bem, eu trato deste caso de família depois. O importante agora é pegarmos os irmãos Winchester antes que matem alguém. Reconhece-os como os homens destas fotos?
- São eles, senhor. Sem sombra de dúvida.
- Ótimo. Identidades confirmadas. Agora é prendê-los. Estou com sete homens lá fora em duas viaturas. De quantos homens pode dispor?
- Estamos aguardando para breve um reforço no efetivo da delegacia, mas ainda não há previsão de quando eles chegam. O xerife teve uma crise hipertensiva e o Stiles o pôs para dormir. Não podemos contar com o xerife hoje. Mas, eu posso convocar a outra policial assistente e isso me libera para acompanhá-los na caçada.
- Faça isso. Estaremos em nove. Três equipes de três. Eu e você conhecemos bem a região e ficaremos em grupos diferentes. O terceiro grupo será comandado pelo agente Mulder. Não é o ideal, mas é o que dispomos. Eu vou dispensar meus homens por 60 minutos para que comam alguma coisa, já que vamos virar a noite caçando esses assassinos. Aproveitamos esse tempo para discutir estratégias.
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- Vamos lá, policial Dalton. O que sabemos dos motivos que trouxeram os irmãos Winchester a Beacon Hills?
- Eles mostraram interesse pelo inquérito sobre a série de mortes que aconteceu aqui no ano passado. Um caso já elucidado. Cinco civis e quatro policiais foram assassinados por um psicopata. Todos os civis eram membros da equipe de natação de 2006 do BH High. Crimes em série planejados e executados por um aluno do BH High: Matthew Daehler, encontrado afogado no Beaver Creek. Após a morte de Daehler não houve novos assassinatos com o mesmo modus operandi.
- Algum assassinato recente? Algum desde que os Winchester chegaram a Beacon Hills?
- Foi encontrado um braço decepado no Beaver Creek. O agente Jake, que agora sabemos ser o assassino em série Dean Winchester, acompanhou o xerife na operação de resgate do braço. Ainda não temos os resultados do teste de DNA.
- Mais alguma ocorrência?
- Muitas. Tiroteio no shopping por um grupo de homens ainda não identificado. O ataque a um desconhecido numa área residencial. Esse homem levado pelo falso agente Jake ao hospital distrital com ferimentos potencialmente fatais inexplicavelmente fugiu de lá horas depois e ainda não foi encontrado. O caso de uma estudante que saiu de casa e não chegou à rodoviária. O cemitério, que não abriu as portas hoje. E fomos informados há pouco de uma movimentação suspeita no porto no início da noite.
- O tiroteio. Pode ter sido obra dos irmãos Winchester?
- O falso agente Clay, Samuel Winchester, estava aqui na delegacia quando o tiroteio começou. E sabemos que o tiroteio não foi ação de um atirador solitário. Há indícios do envolvimento de pelo menos dez homens. Mas, nenhum indício do envolvimento direto do agente Jake.
- E a estudante desaparecida?
- Erica Reyes. Ela .. Espere! Algo que me veio agora à cabeça. Pode não ter nenhuma relação, mas .. o desaparecimento da garota aconteceu um pouco antes do agente Jake levar o homem ferido ao hospital. E o local onde a ambulância recolheu o homem é muito próximo da casa da família da garota desaparecida.
- Precisamos estabelecer a ligação entre Dean Winchester e o homem levado ao hospital. Desde quando um assassino serial se preocupa em socorrer uma vítima de violência?
- Acha que o agente Jake .. Dean Winchester .. pode ser o verdadeiro responsável pelos ferimentos do homem levado ao hospital?
- Acha improvável?
- Bem .. tudo o que sabemos foi o que o próprio Dean Winchester nos contou. Sim, é perfeitamente possível. Mas, por quê?
- Talvez o homem tenha testemunhado o ataque à garota. Talvez ele quisesse ter acesso livre às dependências do hospital. Talvez tenha achado que era o jeito mais fácil de livrar-se do corpo do homem que atacou. Os ferimentos não eram seríssimos? Talvez acreditasse que o homem não chegaria vivo ao hospital. O homem ferido não desapareceu horas depois? O próprio Dean Winchester pode ter voltado e dado sumiço no homem para que esse não o denunciasse.
- Existe uma testemunha. O enfermeiro da UTI encontrado desacordado. Ele declarou ter sido atacado pelo próprio homem ferido.
- Pode ser que sim. Pode ser que não. E quanto ao cemitério?
- O responsável por abrir o cemitério não é visto há mais de 24 h. O rapaz é filho de uma das vítimas do estudante psicopata Matthew Daehler. O cemitério passou o dia fechado, mas fomos informados de que no início da noite alguém andou queimando algo numa das alas. A fumaça e um cheiro de queimado descrito como 'estranho' chamaram a atenção do cidadão que ligou para a delegacia.
- Então, temos um rapaz relacionado ao caso que atraiu a atenção dos irmãos Winchester desaparecido?
- Não dá para afirmar que esteja desaparecido. Não foi aberta uma ocorrência. É muita coisa acontecendo e nós estamos com baixo efetivo.
- Me parece que temos muitas linhas de investigação. A informação que tínhamos é que os irmãos Winchester não tinham feito vítimas na cidade. Mas, podem ter feito e muitas. Eles precisam ser detidos. Precisamos saber onde estão escondidos neste momento.
- Como eu disse, recebemos uma ligação duas horas atrás sobre uma movimentação suspeita na área portuária da cidade. Mais especificamente em torno do guindaste de cargas. Conheço o homem que ligou. O vigia de um dos armazéns. Ele conhece todo mundo que circula naquela região e não ligaria se não fosse algo atípico.
- Essa parece ser a nossa melhor pista. Acho que vale a pena investigar.
- A outra possibilidade é que estejam escondidos na floresta. Mas, se estão mesmo lá, não será fácil desentocá-los.
- Eles não são do tipo que se esconde. Se os Winchester não deixaram a cidade é porque ainda não completaram o que quer que tenham vindo fazer aqui. Se queremos encontrá-los, precisamos saber primeiro qual o real objetivo deles. Precisamos de pistas. Isso exige uma abordagem diferente. Dois homens vão para o hospital, dois para o lugar onde o homem levado ao hospital foi atacado e dois para o cemitério. Você acompanha esses três grupos até cada um destes destinos e, no caminho, passa para eles o que sabe. Eu e Mulder seguiremos imediatamente para o porto. Se precisarmos de reforço, avisamos.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: GAME OVER - O CAÇADOR PERDE UMA VIDA
02.11.20115
