CAPÍTULO #57

.

LOCAL: MANSÃO HALE


.

A segunda investida de Dean Winchester com a faca de lâmina de prata foi menos bem sucedida. Acertou o alvo, mas o novo corte não foi tão profundo quanto o primeiro. Derek novamente urra de dor. E, involuntariamente, comprime ainda mais o pescoço do caçador e pressiona ainda mais forte a sua mão. Mas, não só isso. O braço de Derek deslizou e a pressão se deu num ponto diferente do pescoço. O grito de Dean é sufocado.

Derek nunca foi um lutador técnico. Sempre se valeu de sua força, velocidade e resistência ampliados, mas, principalmente, de suas garras, para decidir a seu favor um combate corpo a corpo. Ao prender Dean numa gravata, Derek não posicionou corretamente o braço de forma a levar seu oponente à inconsciência. Apenas o imobilizou e, mesmo assim, só parcialmente. Dean ainda conservava um grau de mobilidade que lhe dava margem de reação. Mais técnico, Dean acabaria se libertando.

Para derrubar seu adversário, Derek precisava cortar o fluxo de ar para os pulmões do oponente via compressão da traqueia ou cortar-lhe o fluxo sanguíneo para o cérebro via compressão da carótida. O segundo método, mais rápido e eficiente, quando mal aplicado, pode facilmente causar a morte do adversário. A simples interrupção do golpe, o relaxamento da pressão, pode não ser suficiente. Geralmente, quando ocorre a inconsciência, é necessária a aplicação de técnicas de ressuscitamento.

Ao sentir que o caçador, após alguns movimentos espasmódicos, tinha cessado completamente a resistência e deixado cair no chão a faca molhada com o seu sangue, Derek reduziu a pressão no braço sem, no entanto, desfazer o golpe. Com sua outra mão, Derek aproveita para soltar os dedos de Dean do gatilho da arma que empunhava, deixando que também o revólver caísse no chão. Derek traz, então, sua mão, agora livre, até os seus próprios ferimentos e sente-a molhada de sangue. Sua camiseta branca tinha agora na lateral uma grande mancha vermelha que se estendia à calça. Uma mancha que só crescia.

Num humano, seria um ferimento muito sério. Num lobisomem, nem tanto. O tecido acabaria regenerado em poucos minutos se a lâmina não fosse de prata. A prata neutralizava o fator de cura e retardava a regeneração. Felizmente, a lâmina perfeitamente polida de uma faca de caça não deixava resíduos de prata no corpo. Levaria mais do dobro do tempo, mas, ainda assim, Derek acabaria se recuperando totalmente.

O ferimento ardia horrivelmente, mas o sangramento já começava a estancar. Derek volta, então, sua atenção para o caçador em seus braços. O caçador continuava inconsciente. Inconsciente após uma luta em que por muito pouco não o matara usando de forma eficiente as armas de que dispunha. Já ele próprio mais uma vez se contivera. Não atacara com tudo. Podia ter usado as garras para dilacerar o braço do caçador de uma forma que ele nunca mais poderia empunhar uma arma. Podia ter ido em frente e quebrado o pescoço do caçador no calor da luta. Houve um momento em que estava decidido a fazê-lo. Mas, antes disso, o derrubara. E o momento se perdeu.

Ainda assim .. Bastaria agora retomar por meio minuto a pressão no pescoço do caçador e estaria tudo definitivamente acabado. Dean Winchester estaria morto. Sua alcateia estaria livre para sempre de um inimigo implacável e ele ainda teria feito um favor ao mundo. Dean Winchester não era simplesmente um matador de lobisomens. Estava sendo procurado pelo FBI pelo assassinato de uma dezena de inocentes. Podia enterrá-lo na floresta. O corpo nunca seria encontrado. Depois de sumir com o carro e as armas, poderia voltar a tocar sua vida como se nada tivesse acontecido. Ninguém nunca ficaria sabendo.

Ninguém nunca ficaria sabendo .. que matara de forma covarde um homem já dominado, sem a menor condição de defender-se. Ninguém .. a não ser ele próprio.

Essa era a questão. Dean Winchester e o irmão podiam ser assassinos frios. Ele, Derek, não era. Matar Dean Winchester, naquele momento, deixara de ser uma necessidade e voltara a ser uma opção. Já não seria algo que aconteceu no calor da batalha. Seria assassinato a sangue quente. Sangue quente. A expressão não existe, mas é fácil adivinhar seu significado. Ainda estavam no campo de batalha. Ainda sangrava. Seu ferimento queimava como fogo e a dor alimentava sua ira. Uma ira mais que justificada. Afinal, não fizera nada que desse ao caçador o direito de matá-lo. Se o deixasse despertar, ele voltaria ao ataque. Sua morte era justificável.

Só que, após matar Dean Winchester, não teria escolha. Teria que matar também Samuel Winchester. E, neste caso, não teria uma boa justificativa para aplacar sua consciência. A morte de Samuel Winchester, vista por qualquer ângulo, seria assassinato a sangue frio. Seria um ato ainda mais covarde.

Podia retomar ao seu plano original. Forçar aos irmãos Winchester a mostrarem seu verdadeiro caráter antes de tomar uma decisão definitiva. Dar-lhes o destino que eles próprios escolhessem para si. As condições novamente permitiam. Mas, agora, que conhecia melhor o inimigo, já não acreditava tanto no sucesso da ideia.

.

.

- Aaaaaaaaaaai.

Foram três fortes descargas elétricas até que Dean Winchester finalmente reagisse. Derek já começava a duvidar que conseguiria reanimar o caçador. Achou que, ao tomar medidas para sua própria proteção, tinha deixado passar um tempo excessivo. O tempo para reanimação espontânea costuma ser de 30 s. Esse tempo fora ultrapassado e nada dos sinais vitais do caçador voltarem ao normal. Se não tivesse feito nada, Dean Winchester teria morrido.

Derek primeiro tentou técnicas simples de reanimação como tapas no rosto, massagem na região da carótida e pancadas ritmadas no peito, logo acima do coração. Em vão. Para sorte do caçador, existia na Mansão em ruínas um equipamento que podia ser usado como desfibrilador.

- Bem-vindo ao mundo dos vivos.

Foram necessários longos segundos para que o cérebro de Dean voltasse a processar as informações trazidas pelos seus sentidos. E as primeiras sensações foram de desconforto e dor. Pontadas de dor em seus ombros, especialmente no direito. Resultado direto da posição em que fora colocado. Com os braços erguidos em Y sobre a cabeça e sustentando o peso do corpo. Sentia suas pernas bambas e algo cortante lacerando seus pulsos. Dean tenta mover os braços, mas tem os movimentos impedidos.

'Eu estou .. preso? O que aconteceu .. ?'

Dean demora a abrir os olhos e a sua visão demora a entrar em foco. Sente os olhos pesados. Muito pesados. Também seus pensamentos demoram a ganhar forma. Dean sente sua mente nublada, como quando nos levantamos sem estarmos totalmente despertos. Com muito esforço, ele firma os pés no chão, aliviando assim a carga sobre os ombros e os punhos. Então, consciência volta num tranco. Anos de incessante luta pela sobrevivência, o fazem reagir contra a vontade do corpo que clama por repouso.

Dean olha em torno e confirma que está preso por algemas a uma estrutura reforçada de aço numa espécie de quarto iluminado por lâmpadas de emergência alimentadas por baterias carregadas por pequenos painéis solares. Não só seus braços estão algemados, como suas pernas estão acorrentadas. O lobisomem não estava no seu campo de visão, mas não devia ser longe.

- Onde você está? Apareça! ..

Derek se mostra para o caçador. Fora a testa, orelhas e nariz, sua aparência era humana. Mesmo as presas estavam ausentes.

.. Para onde você me trouxe? Que lugar é esse?

- Isso aqui é o porão da Mansão Hale. Foi a parte mais afetada pelo incêndio e a única a ser reconstruída. Eu às vezes durmo aqui.

- Reconstruída? Você quer dizer transformada em cativeiro e local de tortura.

- Exatamente isso. Há não muito tempo um homem foi deixado aqui por dias, preso com algemas, exatamente como você está agora. Aqui ele passou fome, sede e frio. Está vendo aquela maquininha? A que acabei de usar para reanimar você? Ela foi usada durante todo o tempo que o homem esteve preso para torturá-lo com uma corrente elétrica de baixa intensidade. De tempos em tempos, alguém descia aqui e aumentava a voltagem. Só pelo prazer de ver o homem gritar de dor. O que acha disso?

- É isso que pretende fazer comigo? É o que faz com todas as suas vítimas? Tortura e mata?

- Como estão seus dedos? Eu posso ver que seu pescoço está roxo. Ainda muito dolorido? Seu ombro? Imagino que esteja doendo muito. Sabe, eu também ainda sinto dores. Ainda não recobrei inteiramente meu olfato. Ainda sinto uma ardência incômoda nas vias respiratórias. O spray de pimenta fechou minha glote. Eu não conseguia respirar. Eu podia ter morrido, sabia? Eu achei que fosse morrer.

- Pena que não morreu. Parece que as facadas que eu dei também não tiveram qualquer efeito. Você parece ótimo.

Derek levanta a camiseta e mostra os cortes já fechados, mas ainda não cicatrizados.

- Se isso o deixa contente, saiba que ainda doem bastante. Como ferro em brasa.

- Meus dedos estão doloridos, mas não estão quebrados. Meu ombro tinha melhorado, mas, a cada momento nessa posição, mais insuportável fica a dor. Dói como o diabo. Mas, não se importe. Vá em frente. Ligue a maquininha. Comece logo a sessão de torturas. Não me assusta. Eu passei um tempo no Inferno. Já estou acostumado.

Derek dá um sorriso. Aproxima-se de Dean, ficando bem de frente para ele. A dois palmos de distância. Cara a cara. Olhos nos olhos. Os olhos do lobisomem mostrando satisfação. Os do caçador, ódio. Derek gira, então, o pescoço e mostra sua forma híbrida. Deixa seus olhos brilharem em vermelho. Abre a boca de forma a mostrar suas presas afiadas. Aquela era a forma animalesca que normalmente mostrava. Não chegava a ser assustadora. Não intimidaria o caçador. Ele, então, avança na transformação. Seu rosto fica verdadeiramente animalesco, com o queixo se projetando mais para a frente. Ao abrir novamente a boca, o número de dentes era maior e sua disposição era outra, menos uniforme. Agora sim Derek estava assustador, um verdadeiro monstro. Ele aproxima ainda mais sua boca aberta do rosto de Dean, que se encolhe, tentando evitar o contato.

Derek solta, então, um rosnado selvagem, no tom mais elevado que conseguiu. Imagine-se imobilizado e um monstro rosnando bem próximo ao seu rosto. Era ainda mais assustador porque dava para sentir no rosto o hálito quente e os respingos de saliva expelidas pela boca cheia de dentes do monstro. É verdade que o hálito do monstro cheirava a menta e isso quebrava um pouco o impacto pretendido.

Quando desacordado, o caçador tivera a camisa desabotoada e a camiseta que vestia por baixo rasgada na frente para a fixação do eletrodo sobre seu coração e o eletrodo ainda estava lá. Com algo que parecia um sorriso maldoso, o monstro retira o eletrodo e termina de rasgar a roupa do caçador de forma a expor seu ombro direito. Feito isso, dá dois passos para trás e exibe para o caçador a sua mão espalmada. Primeiro, abre e fecha a mão seguidas vezes; depois, flexiona de forma sugestiva seus longos dedos cobertos de penugem negra e terminados em feias garras pontiagudas.

Dean olha preocupado para aquela mão, tentando adivinhar o que estava passando pela cabeça do monstro. Provavelmente, o monstro pretendia retalhá-lo com as garras e deixá-lo ali sangrando até morrer. Aquele preâmbulo todo falando de fome, sede e frio; e também dos ferimentos que sofrera .. dos ferimentos que ele, Dean, lhe infringira .. o monstro certamente não ia deixar barato. A qualquer momento falaria em devolver em dobro a dor que sentira.

Dean se surpreende ao ver Derek Hale reverter a transformação da mão, fazendo-a voltar à ter uma aparência totalmente humana, enquanto todo o resto mantinha a forma de monstro. Se bem que, só agora percebia, Derek não estava transformado da cintura para baixo. Ele mantinha a postura ereta e seus pés descalços não apresentavam garras. Era algo que nunca ouvira falar. Um lobisomem com um controle tão completo de sua transformação em plena noite de lua cheia.

Derek faz, então, algo ainda mais surpreendente. Aproxima-se e, com sua mão "humana", segura com força o ombro de Dean. O caçador, espantado, vê as veias saltadas do braço do lobisomem assumirem uma cor negra e a face do lobisomem se retorcer indicando sofrimento. Ao final, quando as veias do lobisomem voltam à sua cor normal, Dean percebe que já não sente mais dor.

- O que você fez?

- Eu absorvi suas dores. Não quero que me acuse depois de tê-lo torturado. O homem de que falei, o homem cruelmente torturado aqui, fui EU. Kate Argent, a mulher que mandou pôr fogo aqui e matou 11 pessoas da minha família, me capturou e passou dias se divertindo me torturando a troco de nada. Não se preocupe. Não vou fazer o mesmo com você. Se eu vier a matá-lo, Dean Winchester, será com um tiro na cabeça. Um tiro saído da sua própria arma. Nada diferente do que você pretendia fazer comigo. Eu não me divirto causando dor aos outros.

Dean escuta o lobisomem falar sentindo com um certo desconforto. E também um pouco de vergonha. Não sabia que um lobisomem podia aliviar as dores de outras pessoas e muito menos esperava que Derek Hale usasse essa habilidade para remover as suas dores. Ainda não acreditava que o fizera por nobreza de espírito. O monstro devia ter algo ainda mais maligno preparado para ele.

- Onde está meu irmão? Já perguntei antes e não recebi uma resposta direta. Que tal falar agora que estou imobilizado? Agora que estou indefeso e não posso agir contra você, como eu adoraria fazer.

Como resposta, Derek se afasta e remove uma espécie de biombo. Derek dissera um pouco antes que às vezes dormia ali. Aquela devia ser a sua cama. Havia um corpo sobre a cama. Imóvel. O tamanho do corpo batia com o de Sam. Dean sente o coração apertar. O corpo tinha sido deitado de costas na cama e estava coberto com um lençol. O lençol tapava inclusive a cabeça. Como se costuma fazer com os mortos. O lençol era branco e estava limpo, mas, na posição onde tocava o tronco do homem, via-se uma grande mancha vermelha.

O que prendeu a atenção de Dean, no entanto, foi a única parte visível do corpo do homem: a mão direita. O braço do homem pendia para fora da cama e a mão não estava completamente coberta pelo lençol. Além dos dedos, era possível ver também as pontas da jaqueta e da camisa que o homem vestia. Aquelas eram as roupas que Sam estava usando. Aquele era Sam, sem sombra de dúvida. Era possível ver também que a mão estava coberta de sangue coagulado.

Flashes do sangue espalhado na cabine do guindaste pipocam na mente de Dean e ele grita tentando extravasar toda sua dor

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!

Não foi surpresa. Já esperava. Mas, no fundo, persistia a esperança. Agora estava VENDO. Já não era mais possível continuar se iludindo. Acreditando em intervenção divina. Negando evidências. O horror que o irmão deve ter sofrido nas mãos - garras - daquele MONSTRO. E o monstro ainda tinha a cara de pau de dizer que não gostava de causar dor aos outros.

Enquanto atravessava a floresta, imaginava o quanto seria terrível encontrar o irmão gritando, sofrendo dores horríveis. Como seria difícil encarar meses até ele que estivesse recuperado. Mas, encontrá-lo morto era pior que qualquer coisa que pudesse imaginar.

- MONSTRO MALDITO! VOU FAZÊ-LO PAGAR! VOU MATÁ-LO! ESPERE SÓ PARA VER.

.

.

LOCAL: ÁREA PORTUÁRIA DE BEACON HILLS


.

- Encontrou algo na cabine, Mulder?

- Sangue. Sangue por todo o lado. Para aonde quer que se olhe. Inclusive marcas da palma da mão de alguém, possivelmente da vítima, impressas com sangue. O piso está coberto por uma fina camada de sangue nem todo ele coagulado. Eu próprio me movimentando aqui dentro já devo ter alterado sem querer a cena do crime.

- Vou avisar o policial Dalton e requisitar a perícia. Use o celular para fotografar impressões digitais. Todas as que encontrar. Não economize fotos.

- Não preciso que me ensine a fazer o meu trabalho, McCall. Eu vou fotografar e mandar os registros digitais diretamente para a nossa Central. Assim ganhamos tempo. Tivemos sorte. Há muitas impressões e elas estão bem nítidas. Se as fotos ficarem boas, com os equipamentos que temos lá, não vai demorar para termos uma identificação segura da vítima.

- Colete amostras de sangue de pontos diferentes. Com o kit que temos no carro podemos analisar as amostras aqui mesmo e descobrir o tipo sanguíneo e o fator Rh da vítima.

- Seria muita sorte podermos identificar vítima e agressor pelas digitais. O sangue é provavelmente da vítima, mas há sempre a chance do agressor ter-se ferido.

- Um assassino serial cuidadoso usaria luvas. Mas, acho que o adjetivo cuidadoso não se aplica aos Winchester. Creio que encontraremos aqui provas de que os Winchester estão por trás de mais esse crime.

.

.

- Estranho.

- O quê é estranho? Qual o resultado dos testes?

- Isso é sangue. Dá reação positiva para sangue. Mas, não é sangue humano. Nenhuma das amostras recolhidas na cabine acusa a presença de sangue humano.

.


ESCLARECIMENTO:

O Dean sofreu uma parada cardiorrespiratória (tecnicamente esteve morto com alguns minutos) e foi reanimado por desfibrilação (aplicação de corrente elétrica no coração).


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: UM DUELO VERBAL TAMBÉM PODE MATAR


13.11.2015