CAPÍTULO #58
.
LOCAL: ÁREA PORTUÁRIA DE BEACON HILLS
.
- Como assim o sangue não é humano?
- É o que mostram os resultados dos testes. De todas as amostras.
- E o que isso significa?
- Não posso afirmar com certeza, mas está me parecendo que alguém montou uma grande FARSA. Alguém quis que pensássemos que houve aqui um assassinato bárbaro que, na verdade, não aconteceu.
.
.
LOCAL: PORÃO DA MANSÃO HALE
.
Dean Winchester passou vários minutos debatendo-se contra as algemas que o prendiam. Para quem via a cena, era difícil dizer se o caçador buscava desesperadamente libertar-se ou se queria apenas extravasar toda a sua dor e frustração pela condição aflitiva do irmão.
Não faltaram as costumeiras ameaças e xingamentos que Derek Hale, novamente em forma humana, escutou calado, com ar zombeteiro no rosto. A atitude passiva do lobisomem irritava mais ainda o caçador e dava origem a novas ameaças e xingamentos.
Os pulsos do caçador sangravam pelo atrito com as bordas retas das algemas. Ele, no entanto, persistia, mesmo ciente da inutilidade daquele esforço. Era simplesmente impossível partir aquelas algemas, feitas de uma liga metálica especialmente resistente. Nem mesmo um lobisomem conseguiria. Derek sabia, por experiência própria, que não.
- Que tal acalmar-se um pouco? Já disse que seu irmão NÃO ESTÁ morto. Poupe-se para quando acontecer.
- Como sabe que não está? Quanto tempo faz que verificou o estado dele? Depois de todo o sangue que ele perdeu ..
- Seu irmão NÃO ESTÁ morto. Não preciso ver para saber. Posso escutar daqui as batidas do coração dele. Os sinais vitais de Samuel Winchester estão fracos, mas ele está vivo.
- Até quando?
- Ah! Isso eu não posso adivinhar. Seu irmão é um homem forte. Não foi fácil dominá-lo. Ele lutou com todas as forças para manter-se consciente. Outro não teria resistido tanto. Mas, eu diria que .. não vamos ter que esperar muito. Logo, teremos novidades.
- E vamos ficar os dois aqui .. um olhando para o outro .. enquanto aguardamos que ele morra?
- Se tiver uma sugestão melhor ... Ah! Já sei! Podemos jogar para passar o tempo. O que acha? Eu proponho um jogo de Mímica. Só valem nomes de filmes de língua in ..
- Salve-o.
.. glesa.
- O que disse? Acho que não escutei direito.
- Escutou, sim. Eu disse: SALVE-O.
- Talvez não saiba, mas .. Eu não sou médico. E, mesmo que fosse, no estado em que seu irmão está, não há muito o que se possa fazer por ele. Mesmo que ele seja levado neste momento para um hospital, as chances são mínimas. Um padre seria mais útil.
- Não é médico ... mas, foi capaz de remover as minhas dores com apenas um toque de mão. Fez o mesmo por ele?
- Está perguntando se eu primeiro RETALHEI seu irmão com minhas garras e, em seguida, removi suas dores para que ele não sofresse? Não! Por que o faria? Você teria chamado a ambulância quando me encontrou ferido se soubesse que aquele homem, em terrível sofrimento, era eu, um lobisomem. Responda com sinceridade.
- Não. Mas, certamente teria abreviado seu sofrimento com um tiro de misericórdia.
- Tudo bem. Não vejo nenhum problema em fazer isso por ele. É o que deseja que eu faça? Que dê um tiro de misericórdia em seu irmão para abreviar o sofrimento dele? Eu faço. Só peço um minuto. Sua arma ficou caída lá em cima. Eu vou pegar.
Derek se afasta e Dean volta sua atenção para as algemas, desta vez com frieza de caçador. Abrir algemas era o capítulo 1 do Manual do Aprendiz de Caçador. Costumava manter uma 'chavinha' presa à manga da camisa exatamente para essas ocasiões. Um clipe comum ou um pedaço de arame fino serviriam, mas aquela pequena haste metálica, com a extremidade torcida, era especialmente projetada para abrir algemas de qualquer fabricante. Era a ferramenta própria para aquele serviço. Mas, de nada adiantaria libertar-se enquanto estivesse sendo observado de perto pelo lobisomem. Por isso o teatrinho de minutos antes, forçando as algemas. Hale precisava acreditar que o mantinha bem preso. Que era seguro deixá-lo sozinho.
Dean concentra-se nas passadas do lobisomem e espera até ouvir o ruído característico de passos subindo uma escada. Descalço, o lobisomem andava sem fazer barulho. Por sorte, a escada era de madeira e os degraus rangiam sob o peso do lobisomem.
Uns poucos segundos teriam bastado .. se a chave estivesse onde deveria estar. 'Maldição!' Será que a perdera na floresta? Ou ela caíra no chão quando tivera a camisa rasgada pelo lobisomem?
Costumava manter clipes no bolso da jaqueta, mas, preso naquela posição, era impossível alcançá-los. Naquela posição, sim, mas .. e se ficasse de cabeça para baixo? Suas pernas foram acorrentadas juntas, mas não estavam presas à estrutura de aço. A máquina de eletrochoques era rústica. A ligação aos eletrodos era feita com arames. Se os alcançasse, poderia usá-los para abrir as algemas em lugar de um clipe. A máquina estava ao alcance de seus pés. Se a derrubasse ...
Alternativas sempre existiam. O segredo era fazer o inimigo trabalhar a seu favor. Mas, precisaria de tempo. Um tempo de que Sam não dispunha.
Derek demorou bem mais do que Dean esperava. Voltou trazendo a mochila de Dean, que largou de forma displicente em um canto, e empunhando o revólver do caçador.
- Que bom que ficou aqui me esperando.
Derek sorri ao ver a cara enfurecida do caçador. Podia adivinhar o motivo.
- Creio que tenha procurado por isso. Encontrei preso à manga da sua camisa. Creio que serve para abrir algemas. Vou deixar aqui em cima desta mesa.
- Onde sabe que não posso alcançá-la.
- Creio que também não vai precisar disso.
Derek deposita sobre a mesa a chavinha e também a seringa com seu mortal conteúdo de nitrato de prata. Exibir a seringa era parte da guerra psicológica travada entre o lobisomem e o caçador. Derek estava deixando bem à vista do caçador meios que Dean podia usar para libertar-se e matá-lo. Apenas para deixá-lo ainda mais frustrado e exasperado que já estava. Apostava que Dean não tinha como alcançá-los.
Era uma provocação óbvia. Mais que isso, uma demonstração de arrogância que subestimava a capacidade do caçador de realizar o impossível. Inimigos muito mais poderosos que o lobisomem pagaram com a vida por esse erro.
Derek não podia negar que estava achando divertido provocar o caçador indefeso. Chame de vingança, se quiser. Seria uma vingança mais do que justificada. Seu corpo ainda se ressentia dos embates com o caçador. A ardência nas vias respiratórias ainda o incomodava. Os ferimentos a faca mais ainda. A atitude desafiadora do caçador fora, desde o começo, um teste difícil para a sua paciência, que nunca fora grande. Mesmo agora, imobilizado e à sua mercê, o caçador mantinha a postura arrogante de quem acredita que pode virar o jogo no momento que quiser. Não saberia dizer se aquilo era coragem, burrice ou um sério distúrbio psicológico.
Era divertido e tinha um gostinho de vingança, mas as provocações não tinham nada de gratuitas. Eram na verdade um teste, parte do "plano" de Derek. Tudo o que Derek fizera, desde o começo, tinha por objetivo forçar o caçador a tirar sua máscara. Fazê-lo revelar sua verdadeira personalidade e suas reais motivações.
É normal as pessoas esconderem seu lado sombrio e mostrarem aos outros apenas o que é socialmente aceitável. Derek suspeitava, com base nos seus encontros anteriores com os Irmãos Winchester, que eles faziam o contrário. Que, para não demonstrarem fraqueza, escondiam seu lado "bom". Mas, ninguém consegue fingir o tempo todo. Quando uma pessoa é posta numa situação extrema de estresse, quando é provocada além de seus limites, a máscara se quebra e a verdade vem à tona.
Era isso o que Derek pretendia: desestabilizar o caçador e fazê-lo falar o que normalmente não diria. Sabia que não seria uma tarefa fácil. Dean Winchester era experiente e bem treinado. Nas palavras de Peter, um profissional. Alguém capaz de manter uma atitude fria e controlada mesmo no calor da batalha, de resistir a torturas e de não se deixar intimidar por ameaças. A única trinca visível na armadura do caçador parecia ser o irmão.
Derek queria entender a natureza do laço que unia aqueles irmãos. Sabia que eram unidos, cúmplices, mas aquilo era expressão de amor fraternal ou dependência psicótica? O amor pode estar na origem dos atos mais monstruosos. O quão doentia era a relação daqueles dois? O que os motivava a caçarem monstros? Havia nobreza naquela cruzada ou pura e simplesmente ódio a tudo o que é diferente? Se Dean Winchester se revelasse o psicopata frio que tantos acreditavam que fosse, alguém acostumado a praticar monstruosidades, não lhe restaria escolha. Tinha que matá-lo. Mas, precisava desta certeza.
Derek fez questão de abrir o tambor do revólver à vista de Dean, para que o caçador constatasse que estava carregado, e de destravar a arma na sua frente. Fez como provocação, mas isso revelou a Dean que Derek tinha removido as balas de prata da arma. Podia tê-las escondido em qualquer lugar.
Uma bala comum fere um lobisomem, mas o ferimento nunca é fatal. Isso tem a ver com a natureza sobrenatural destas criaturas. Sem as balas de prata, Dean passava a depender da seringa com cáustico lunar para matar o lobisomem. A seringa que estava ali, tentadoramente próxima.
Se conseguisse se libertar e pegar o monstro num momento de distração, a seringa seria uma arma ainda mais eficiente que o revólver com balas de prata. O nitrato de prata quando injetado diretamente na corrente sanguínea mata em segundos. Já uma bala de prata age num lobisomem da mesma forma como uma bala comum age numa pessoa normal. Para matar instantaneamente precisa atingir um ponto vital.
Olhos fixos no caçador, Derek aproxima-se do homem inconsciente e praticamente encosta a arma em sua testa, sem, no entanto, afastar o lençol para descobrir-lhe o rosto. A arma já estava destravada. Bastava imprimir um pouco mais de pressão no gatinho e o revólver dispararia.
- Posso?
- NÃO!
- Pensei que quisesse acabar com o sofrimento do seu irmão.
- NÃO ELE MORRENDO. .. Quero meu irmão VIVO.
Derek quebra o contato visual com Dean e fixa seu olhar no rosto coberto pelo lençol, sem abaixar a arma. Como se estivesse considerando o que escutara, sem descartar a hipótese de atirar.
Os segundos passam e Derek mantém a arma apontada para a cabeça de Sam, aumentando cada vez mais a aflição de Dean. Apesar de parecer que a atenção do lobisomem estava focada no homem inconsciente, Derek, na verdade, acompanhava a forma como o organismo do caçador respondia à sua ameaça de assassinar Samuel Winchester a qualquer instante. E as reações intensas que seus sentidos captavam comprovavam que Dean Winchester realmente se importava com o irmão. Havia empatia. Não eram as reações que um psicopata teria. Mas, e quanto a Samuel Winchester? O que Dean Winchester pensava das atitudes extremas do irmão?
- O seu irmão MERECE que eu o salve? Samuel Winchester exterminou friamente a alcateia de Cody, Wyoming. Quatro lobisomens mortos, um alfa e três betas. E também a namorada humana de um dos betas. Ele justificou-se, mais cedo, dizendo que, na ocasião, não estava no controle de seus atos. Não me convenceu.
- Meu irmão disse a verdade. O Sam passou por um período .. estranho. Mas, o velho Sam está de volta. Sam não merece ser julgado pelo que aconteceu em Cody. Aquela não é a maneira como ele normalmente age. Meu irmão costuma ser cuidadoso. Ele se importa verdadeiramente com as pessoas. Tenho certeza que ele, mais que qualquer um, lamenta a morte dessa garota.
- Ele LAMENTA a morte da GAROTA? Digamos que eu acredite que o seu irmão PSICOPATA se importa com danos colaterais. Mas, o que me diz dos três rapazes, os betas, que ele matou friamente? Um único beta saiu do controle. Os outros se esforçaram para impedi-lo. Eles podiam tê-lo ensinado a se controlar. Só precisavam de tempo. Nenhum deles precisava ter morrido. Aqueles rapazes tinham família e amigos humanos. Gente que se importava com eles, que sofreu com suas mortes e que hoje não têm nem mesmo um túmulo onde chorar por eles.
- O que levou Sam a Cody foi a morte horrível de dois homens, que tiveram os corpos destroçados por um lobisomem descontrolado. Esses homens eu sei que tinham famílias que dependiam deles e amigos que sofreram com as suas mortes. Meu irmão, mesmo que de forma torta, agiu para proteger os cidadãos inocentes da cidade. Lamento pelas famílias, mas não vou chorar por monstros assassinos. Se estivessem vivos, eles podiam estar, neste exato momento, fazendo vítimas entre seus próprios familiares.
- O beta que se descontrolou era um monstro assassino? Já seu irmão descontrolado estava passando por um período estranho? Entendi perfeitamente a lógica de vocês. Eu devia neste momento apertar o gatilho e depois dizer que 'não estava no controle de meus atos'. Afinal, sou um lobisomem e hoje é noite de lua cheia. Posso alegar que a lua cheia aumenta a minha agressividade e diminui a minha PACIÊNCIA com quem nem ao menos tenta julgar os outros com isenção. Se a situação fosse inversa, se fosse eu aqui implorando pela vida de um membro da minha alcateia, você não teria nem mesmo me deixado terminado a frase. Já teria me matado.
Essa era uma verdade que Dean não tinha como rebater. Estava vivendo um pesadelo. Estavam sendo julgados e tanto o juiz como o promotor, o júri e o carrasco eram um único monstro, que, por coincidência, era "parente" das vítimas e parte interessada no caso. Estavam ferrados.
- Se isso tudo é para me fazer implorar, você venceu. Eu IMPLORO. Eu me ajoelharia, se pudesse. POR FAVOR, ABAIXE ESSA ARMA. ESTOU PEDINDO, ESTOU IMPLORANDO QUE SALVE A VIDA DO MEU IRMÃO. DIGA O QUE QUER EM TROCA.
- Salvá-lo está além da minha capacidade. Posso aliviar dores, não curar ferimentos. Você vai descobrir isso em breve. Os músculos do seu ombro continuam lesionados. Não demora e a dor vai voltar. Aconselho-o a não agravar a lesão com esforços inúteis. Se continuar se debatendo, a dor voltará ainda mais forte.
- Encontrei você horrivelmente ferido. Vendo, ninguém acreditaria que sobrevivesse. No entanto, em poucas horas, já não havia nem mesmo as cicatrizes.
- Existe um motivo para isso e você sabe muito bem qual é. Eu NASCI lobisomem.
- Se o Sam for TRANSFORMADO, ele vai se curar. Vai sobreviver.
- Sim .. como um lobisomem! Achei que odiasse lobisomens. Que nos quisesse todos mortos.
- Não odeio lobisomens.
- Ah! Não odeia?
- NÃO! .. Eu apenas ..
- ESTÁ MENTINDO! Eu posso perceber as mudanças sutis nos ritmos de batimento cardíaco e de respiração de uma pessoa. Posso sentir, pelo cheiro, a formação de suor e, coisa que nenhum polígrafo consegue, posso reconhecer o CHEIRO DA MENTIRA. A intenção de mentir faz o corpo liberar no suor uma substância que posso reconhecer pelo cheiro. Não conheço a teoria da coisa. Não sei que substância é essa. Não existem muitos estudos sobre a capacidade olfativa dos lobisomens, mas garanto a você que funciona. Vou SEMPRE saber quando estiver mentindo.
Bem que Derek gostaria que fosse simples assim. Que realmente pudesse FAREJAR uma mentira, como farejava o medo. É verdade que os sentidos acurados fazem de todo lobisomem um detector de mentiras vivo. Mas, com as mesmas limitações da máquina. O que a máquina registra precisa ser interpretado ou são apenas rabiscos sem sentido. A maioria das pessoas sabe como jogar com a verdade. As pessoas sabem como não dizer verdade sem mentir. É mais fácil identificar uma mentira quando a pessoa é forçada a declarar apenas 'sim' ou 'não'. Numa frase extensa, mentiras podem ser misturadas a verdades e meias verdades complicando a interpretação dos sinais.
É difícil conhecer o verdadeiro caráter de uma pessoa somente pelo que ela fala. Tem gente que interpreta um personagem a vida inteira. Existe um bom motivo para um detector de mentiras não ser usado num tribunal. É porque algumas pessoas conseguem enganar a máquina. E, da mesma forma que a máquina, um lobisomem também pode ser enganado. Se Derek soubesse avaliar corretamente as pessoas, não teria sido enganado tão facilmente por Kate Argent. Se seus sentidos lhe dessem sempre a interpretação correta, Derek não teria caído tantas vezes nas armações de Peter.
- Não sei se acredito nisso. Você pode muito bem estar blefando. Mas, quer saber: desta vez ACERTOU. ODEIO lobisomens!
- Então, não entendo. Achei que fosse preferir ter um irmão morto a vê-lo transformado em um de nós.
- Em primeiro lugar, eu NUNCA vou preferir ver meu irmão morto. Eu faço o que for preciso para vê-lo bem. Preferia mil vezes ser eu a estar ali, entre a vida e a morte, sabendo que meu irmão está a salvo.
Derek finalmente abaixa a arma e se volta para o caçador e, com um gesto, o estimula a completar o raciocínio.
- Quanto a ter um irmão lobisomem ...
- Eu odeio lobisomens, mas não por SEREM lobisomens. Eu odeio lobisomens - e monstros em geral - porque eles - vocês - destroem as vidas de inocentes. Matam. Mutilam. Deixam traumas para a vida toda. Cada vítima é uma família inteira destroçada. Vocês, lobisomens, perdem o controle três noites seguidas por mês e saem matando qualquer um que tenha a infelicidade de cruzar seu caminho. Quando não matam, roubam a humanidade das pessoas, criando novos monstros. Com vê, não me faltam bons motivos para odiar lobisomens.
- Está generalizando. Não pode condenar toda uma espécie pelas ações de alguns. Não nego que muitos alfas usem de violência para conquistar e manter a liderança do grupo. Que haja guerra entre alcateias pelo domínio de um território. Mas, isso não é uma prerrogativa nossa. Esses alfas praticam um jogo de poder que não é diferente do praticado por gângsteres humanos. Apenas as armas são diferentes. Garras e presas ao invés de rajadas de metralhadoras.
- E todos fazendo vítimas inocentes. Mas, você está me falando da violência intencional dos líderes de alcateias, dos seus iguais. A forma como vocês mesmos se matam. Acredito que fale com conhecimento de causa. Por mim, vocês podem se matar à vontade. Mas, eu estou me referindo aos infelizes que vocês transformam e que saem por aí matando pessoas. Vítimas fazendo novas vítimas.
- É verdade que recém-transformados, sem o apoio e a supervisão de um alfa, saem de controle e isso costuma resultar em morte de inocentes. Quando têm a sorte de sobreviver a suas primeiras luas, tornam-se ômegas, lobisomens desgarrados. Mas, a expectativa de vida de um ômega é sempre muito baixa. Os que não aprendem rapidamente a se pôr em controle - ou que não têm quem os ajude a se conterem nas luas cheias - acabam mortos. Somos os maiores interessados em nos manter sob controle. Não por bondade. Por necessidade de sobrevivência.
- Está dizendo que qualquer lobisomem pode aprender a manter-se controlado na lua cheia? Isso para mim é novidade.
- Estamos em noite de lua cheia e eu estou aqui, perfeitamente controlado, conversando civilizadamente com você. Nega essa evidência?
- Estou vendo, mas ainda não sei se acredito. Mais cedo, quando me atacou na floresta, você não parecia nem um pouco controlado.
- Como não? Você está inteiro, não está? Eu tive várias oportunidades de causar ferimentos sérios e me controlei.
- Um cuidado que você não teve quando atacou meu irmão.
- Não, não tive. Mas, não porque estivesse descontrolado. Eu estou controlado agora e, mais cedo, quando encontrei o seu irmão, eu também estava controlado. Tudo o que fiz - e o que eu deixei de fazer - foi de forma consciente.
- DESGRAÇADO!
- Está reclamando do quê? Não esqueça que foram vocês que começaram tudo isso. Você vieram a Beacon Hills com o propósito declarado de me matar. Eu escutei vocês dois planejando me explodir junto com o meu carro. Vocês me fizeram pensar que tinham sequestrado o Stiles. Ameaçaram matá-lo se eu não me entregasse. Seu irmão está ferido, mortalmente ferido, mas eu poderia tê-lo matado e não matei. Estou aqui, escutando você. Dando a vocês uma chance. Portanto, não negue que é possível um lobisomem manter-se racional em noite de lua cheia. Vocês só estão colhendo o que plantaram.
- Já enfrentei um lobisomem puro-sangue de quarta geração que também se dizia capaz de manter-se controlado. Ele também se passava por um cidadão exemplar. Um respeitado professor universitário. Ele até se mantinha limpo por um ano, às vezes mais. Mas, aí, tinha uma recaída, como acontece com qualquer viciado. Seu vício era corações humanos. Como um bom gourmet, ele preferia-os frescos, colhidos na hora. Então, de tempos em tempos, ele matava. Matava para saciar a vontade de degustar corações humanos ainda pulsantes, imediatamente após arrancados do peito.
- Ouvi histórias a respeito. Isso existe, mas não é a regra. Eu nasci lobisomem e nunca provei carne humana. E garanto a você que não tenho a intenção ou a curiosidade de fazê-lo.
- Vai querer me convencer que é vegetariano? Que isso de lobisomens precisarem matar humanos para devorar corações é mito? Não me faça rir. Já encontrei lobisomens antes. Vi o estado que deixaram suas vítimas. Não foi uma visão agradável.
- Assim com algumas pessoas tornam-se vegetarianas e outras decidem comer apenas alimentos crus, alguns lobisomens adotam uma dieta composta exclusivamente por carnes cruas. Acreditam que, por sermos meio lobos, deva ser assim. Que uma dieta de carne os manterá mais saudáveis ou que aumentará suas habilidades. Estou falando de proteína animal, não de carne humana. Nenhum lobisomem que tenha decidido alimentar-se exclusivamente de carne humana viveu para contar a história. Seus colegas caçadores costumam ser muito eficientes.
- É bom mesmo que nos temam. Que nossa ação os force a andar na linha.
- Não precisamos que nos forcem. Sabemos distinguir o certo do errado. Humanos nunca estiveram no cardápio da minha família, nem mesmo em ocasiões especiais. Comemoramos o Dia de Ação de Graças com peru, como todo o mundo. Não se preocupe, não vou devorá-lo. Darei a seu corpo e ao do seu irmão um enterro cristão. Acho que é mais do que oferecem aos da minha espécie.
- Imagino que devo ficar grato por não acabar no seu bucho.
- Não precisa me agradecer. Eu, com certeza, teria uma indigestão.
- Pode apostar que sim.
- Tudo que queremos é viver em paz. Nem eu nem nenhum membro da minha alcateia já matou quem quer que seja. Muito menos para devorar corações. Não comemos exclusivamente carne. Cada um com a sua preferência, mas comemos o mesmo que os humanos comem. Fazemos compras em supermercados. Frequentamos restaurantes.
- Ou apenas são mais discretos. Mais dissimulados. Diversas pessoas desapareceram em Beacon Hills. Pobres coitados a quem a vida tirou tudo acabaram perdendo também a vida. Quem me garante que a sua alcateia não está por trás dessas mortes?
- Existe uma rusalka agindo em Beacon Hills. Resolvido o meu problema com vocês, eu vou atrás dela. Vou fazê-la parar com as mortes. Um destes pobres coitados de que falou, Mike Maluco, era um homem bom. Um amigo. Não vou deixar que isso volte a acontecer em Beacon Hills.
- Quer virar o herói da cidade? Me desculpe se não acredito em você. Jura que nunca matou ninguém? Não me faça rir. Suas PATAS ainda estão sujas de sangue. Hoje mais cedo você retalhou meu irmão com suas garras. Sangrou-o. Está impedindo que ele receba cuidados médicos. Meu irmão está MORRENDO enquanto conversamos aqui CI-VI-LI-ZA-DA-MEN-TE. Portanto, quando você me diz que nunca matou ninguém, está MENTINDO. Ou está MANIPULANDO a verdade segundo suas conveniências. Porque AMANHÃ você não mais poderá bater no peito e dizer que NUNCA MATOU NINGUÉM.
- O que fiz, o que estou fazendo é em legítima defesa. E para defender a minha alcateia. Estou protegendo garotos que vocês não hesitarão em matar se tiverem a chance. Eu não queria nada disso.
- Você os condenou no momento em que os atacou e transformou em monstros.
- Eu não os ataquei. Não impus a transformação a ninguém. Eu propus compartilhar meu dom como uma solução para problemas que eles tinham. Eles se sentiam deslocados. Tinham problemas de socialização. Sofriam de baixa autoestima. Eu quis ajudá-los. Fazê-los sentirem-se parte de um grupo. Dar-lhes uma família. Torná-los a minha família.
- Transformando-os em monstros?
- Não em MONSTROS. Você tem o direito de acreditar no que quiser, mas eu não me considero um monstro. Fui criado entre humanos, compartilho dos seus valores. Somos diferentes, mas não nos aspectos fundamentais. Queremos simplesmente viver nossas vidas. De preferência, em paz.
- O lobisomem que atacou você e que eu matei era da sua alcateia. Um dos adolescentes transformados. Não me pareceu controlado. E certamente não pareceu agradecido.
- Ainda não entendi o que levou o Boyd a me atacar. Creio que não correspondi às expectativas que ele tinha. O que me força a reconhecer que errei quando o recrutei. Deu errado, mas minhas intenções eram boas. Já você nunca errou? Nunca se arrependeu de uma atitude equivocada?
- Eu nunca me arrependi de ter matado um monstro. Arrependimento eu teria se tivesse deixado de matar um e descobrisse depois que um inocente morreu porque eu não fiz o que precisava ser feito.
- Você fala muito em inocentes vitimados por monstros. O que me diz dos inocentes mortos nos massacres de que são acusados?
- Já disse que não éramos nós. Eram leviathans, seres transmorfos que assumiram a nossa aparência e mataram para nos atrair até eles. Nós os matamos. Se você é mesmo capaz de reconhecer uma mentira, sabe que estou falando a verdade.
- Os tais monstros extradimensionais? O que eu acho é que ..
- CHEGA DE CONVERSA. VAMOS AO QUE INTERESSA. VAI TRANSFORMAR MEU IRMÃO OU NÃO?
- Dê-me um bom motivo para que o faça.
- Estou disposto a fazer um acordo.
- E qual seria esse acordo?
- Você transforma meu irmão e não perseguimos mais você.
- E em que isso é melhor e mais seguro para mim e para minha alcateia do que simplesmente matar vocês dois? Digamos que você cumpra a sua parte do acordo. Seu irmão pode não querer cumprir a dele. Ele pode não gostar da opção de viver como lobisomem e alegar que não foi consultado. Estou achando o risco muito grande. Seu irmão, depois de transformado, seria um inimigo ainda mais formidável do que ele já é. Pode GARANTIR que fala pela dupla?
- Não.
- Cumpriu todos os acordos que fez com .. não humanos?
- Eu ..
- Sim ou não?
- NÃO!
- Tem a real intenção de cumprir um acordo de cavalheiros feito comigo. Sim ou não?
- SIM.
- Está mentindo. Quantas vezes vou precisar repetir que sei reconhecer quando está mentindo? Essa proposta de acordo é para ganhar tempo? Não está ganhando, está desperdiçando tempo. Breve não será mais possível salvar seu irmão.
- ESPERA! Eu .. DOU a minha palavra.
- Dá a sua palavra que você e seu irmão vão deixar essa cidade para nunca mais voltar? Que não vão enviar outro caçador para fazer o serviço sujo? Que eu e minha alcateia seremos deixados em paz?
- Eu dou a minha palavra.
- Antes de fecharmos o acordo, devo alertá-lo que uma mordida não necessariamente transforma a pessoa em lobisomem. Em mais da metade dos casos, o organismo rejeita a transformação e a pessoa morre após muito sofrimento. Não dá para saber antecipadamente se dará certo. A própria transformação é um processo longo e doloroso. Acho muito difícil que alguém que perdeu tanto sangue sobreviva à transformação. Se eu morder seu irmão e ele não sobreviver, o que acho provável, manterá o nosso acordo?
- Não. O acordo é para eu ter o Sam VIVO. Se ele morrer, eu vou caçá-lo nem que seja no fim do mundo.
- Imaginei algo assim. Uma curiosidade: o que acontece se eu transformo o seu irmão em lobisomem e ele mata alguém?
- O Sam passa a ser responsabilidade minha. Vou mantê-lo seguro e vou cuidar para que não mate ninguém.
- Acredita que pode proteger um lobisomem descontrolado de si mesmo? Acredita que é possível proteger as pessoas de um lobisomem descontrolado?
- Eu vou conseguir.
- VOCÊ consegue. Os outros, NÃO. Aonde está a sua coerência? Você mata lobisomens sob o pretexto de que não conseguimos nos controlar e que nada garante que possamos ser contidos. Mas, quando se trata do seu irmão, acredita que pode fazer diferente. Que vai funcionar. Para vocês, as regras são outras.
- Se o Sam matar um inocente, eu farei o que é necessário, não importa o quanto isso me doa. Como eu disse, ele passa a ser minha responsabilidade. Mas, eu vou procurar e vou encontrar uma maneira de reverter a transformação. Eu vou tornar o Sam humano de novo.
- Existem lendas que dizem que o transformado volta a ser humano se conseguir matar o lobisomem que o transformou. Conhece essa história?
- Conheço.
- Tinha em mente essa possibilidade ao propor esse acordo? Primeiro, eu transformo o seu irmão. Em seguida, ele me mata. Ele volta a ser humano e eu permaneço morto. Me parece uma boa opção para vocês e péssima para mim.
- Eu concordo que é uma opção bastante tentadora. Mas, devem existir outras.
- São apenas lendas. Mas, creio que iam querer comprovar se são verdadeiras. Você não disse que faria qualquer coisa para salvar seu irmão? E que não tem um bom histórico de cumprir acordos?
- Sem acordo, então? Isso significa que primeiro vai deixar o Sam morrer e depois vai me matar?
- Que alternativa vocês me dão? Sua proposta não me traz qualquer vantagem e não me dá nenhuma garantia. Existe algo que eu possa fazer ou dizer que faça vocês simplesmente desistirem de querer me matar?
- Não.
- Lamento saber. Esperava que pudéssemos chegar a um acordo em que todos ganhassem. Não um em que todos perdemos. Além disso, o seu irmão ..
- O que tem o Sam? Ele morreu?
- Não, mas .. o momento que eu estava esperando está próximo. O batimento cardíaco de seu irmão .. a respiração dele ... Creio que é questão de minutos.
- Ele está morrendo?
- Você logo saberá. Acho que não tenho mais nada a fazer aqui. Vou deixá-los a sós. Mas, antes disso ...
Derek vai até a mesa e apanha a seringa com nitrato de prata. Dean se debate quando Derek, parado à sua frente, expulsa o ar da seringa e aproxima a agulha do seu pescoço.
- Acho que seria muita crueldade da minha parte deixá-lo testemunhar a morte de seu querido irmão.
O medo torna-se pânico quando a mão forte do lobisomem imobiliza a cabeça do caçador, segurando-a pelo queixo. Dean sente a picada da agulha furando sua pele. A solução de nitrato de prata é mortal para lobisomens, mas não só para eles. É igualmente mortal para um humano. Dean sente o líquido sendo injetado na sua veia do pescoço.
'Pelo menos, nós dois seguiremos juntos, irmão.'
Derek devolve a seringa vazia ao tampo da mesa, faz um cumprimento zombeteiro, cujo significado é claramente de despedida e se afasta. Pouco depois, Dean escuta seus passos escada acima. E, então, mais nada. Apenas um silêncio opressivo e a visão do corpo inerte de Sam coberto pelo lençol branco com uma enorme mancha vermelha.
Dean se pergunta quando o produto começará a agir. Já era para ele estar agonizando.
.
ESSE É O FIM DOS WINCHESTER? OU NADA É O QUE PARECE?
.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: MATANDO SEU GRANDE AMOR
ESCLARECIMENTO:
Na mitologia de Supernatural, a cada coração humano que devora mais selvagem o lobisomem se torna quando transformado e menos controle tem sobre a transformação. O encontro com o lobisomem puro-sangue narrado por Dean acontece no episódio Bitten (8x04).
26.11.2015
