CAPÍTULO #59
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LOCAL: MANSÃO HALE
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Não fossem as fisgadas agudas a cada estiramento do músculo que recebeu as facadas, o oblíquo direito, Derek teria subido as escadas exibindo um grande sorriso silencioso no rosto. Ao invés disso, pequenos gemidos e caretas de dor, que ele, a muito custo, evitara fazer na presença do caçador.
Ao chegar no topo da escada, Derek aproveitou a boa iluminação do local para examinar cuidadosamente os pontos onde a lâmina de prata perfurou sua pele. Os cortes estavam fechados, as cicatrizes quase não eram mais visíveis, mas toda a região ainda estava muito dolorida. O dano interno fora grande e ainda não estava sanado. Precisaria de um tempo em repouso para que a cicatrização emergencial, que estancou a hemorragia, desse lugar à regeneração completa do tecido muscular. Ferimentos com prata não podiam ser negligenciados.
Apesar de tudo, Derek estava feliz. Momentaneamente feliz. Não dizem que a vingança pode ser doce como o mel? Ainda estava saboreando o gostinho. Só de lembrar da cara de pânico que o caçador fez quando agarrou-o pelo queixo e injetou-lhe, na veia jugular, o conteúdo da seringa que ele próprio trouxera, já lhe valera o dia.
Não, dizer que valera o dia seria exagero. Um outro dia, talvez, não um dia terrível como aquele. Para um dia como esse que vivera, em que tantas vezes estivera tão próximo da morte, seria preciso muito mais. Uma alegria mais duradoura. Mas, essa pequena vingança já valera o esforço de trazer o caçador de volta à vida e todo o estresse do duelo verbal que travaram em seguida.
Dean Winchester provou ser um homem difícil de se lidar. Tão ou mais cabeça-dura que Christian Argent. Pelo jeito, era assim com todo caçador de monstros. Para eles, é mais que um desafio a ser vencido ou um dever profissional. Eles encaram o lance como uma missão sagrada. Uma cruzada solitária contra as forças da escuridão. Há sempre um viés religioso. Matar monstros seria parte da eterna batalha do Bem contra o Mal, com eles desempenhando o papel dos caras bons. Como convencer alguém que pensa assim que um monstro tem tanto direito à vida quanto um ser humano? Que o Mal tem um rosto diferente quando se está do outro lado do espelho?
Já fizera a sua parte. Agora era esperar para ver. Breve saberia se valera a pena investir tanto em Dean Winchester ou se este fora somente mais um dos muitos erros que cometera na vida.
Permitiu-se relaxar. Ter saído vivo da série de embates com Dean Winchester já fora uma proeza. Vencê-lo, e, mais que isso, ter tido a oportunidade de matá-lo e ao irmão, merecia uma celebração. Peter estava certo. Contra homens como aqueles, não se pode hesitar. Não se pode esmorecer. É preciso ter um objetivo claro e dar tudo de si para alcançá-lo. Porque é isso o que eles fazem. Eles vêm com tudo e, se você deixar, eles passam por cima de você. Passam por cima do seu cadáver, sorrindo. Peter também estava certo quanto a enfrentá-los separados. Jamais teria dado conta dos dois irmãos agindo juntos, de forma coordenada.
Mas, Peter errou no principal. Subestimou-o. Peter nunca acreditou que seu sobrinho inútil pudesse vencer os temidos Irmãos Winchester sozinho. Quando voltassem a se encontrar, ia esfregar essa vitória na cara dele. Essa, sim, seria uma alegria duradoura.
Mas, era melhor esperar para ter certeza. Podia ainda não ter acabado. O jogo ainda não estava ganho.
Foi bom ter enfrentado os Winchester sozinho. Não apenas para provar para si mesmo que era capaz. Saber que sua vida e o destino de sua alcateia estavam inteiramente em suas mãos ajudou Derek a manter-se focado em seu objetivo, a persistir no "plano". Quando se está sozinho, não existe bola dividida. Não existe "deixa que eu deixo". É tudo com você. Um passo em falso e você cai. Não vai ter ninguém para ampará-lo. Em compensação, você não tem que se preocupar com mais ninguém e isso é libertador. Ninguém pagaria por um erro seu, por um comando errado que desse. Se acontecesse de um dos seus morrer em batalha, ao seu lado, nas mãos do caçador, nunca conseguiria se perdoar. Talvez desmoronasse em pleno campo de batalha e aí sim seria o fim de tudo.
Como se já não bastasse ter sobre seus ombros senão toda, uma parte da responsabilidade pela morte de Boyd, talvez a parcela maior. Boyd estaria vivo se não tivesse sido transformado em lobisomem.
Mas, era igualmente verdade que Boyd estaria vivo se não tivesse se voltado contra seu próprio alfa, quando tinha o dever de apoiá-lo contra qualquer inimigo da alcateia. Se Boyd não estava satisfeito, devia ter vindo até ele e expressado sua insatisfação. Não era um ditador. Faria o que estivesse a seu alcance para atendê-lo. Não merecia ter sido atacado de forma tão covarde. Mesmo assim, sentia-se culpado por sua morte.
Boyd fora desleal e, pela tradição, pelas leis não escritas de sua espécie, traição ao líder da alcateia é punível com a morte. Peter com certeza insistiria em executar Boyd. O tiro certeiro do caçador o tinha livrado de uma decisão difícil e, talvez, de carregar uma culpa ainda maior.
Um ruído metálico vindo do porão chama a atenção de Derek. O lobisomem não tinha a menor intenção de voltar lá embaixo enquanto não estivesse tudo acabado, mas, em se tratando dos caçadores, não podia dar chance ao azar. Era preciso ficar de olhos abertos. Ou melhor, de ouvidos atentos. A verdade é que não precisava ir lá. Sua audição lhe permitiria acompanhar tudo o que estava acontecendo no piso de baixo como se estivesse presente.
E contava não só com a audição. Voltava a poder contar também com o olfato. Demorou, mas a ardência nas vias respiratórias finalmente tinha passado. Seu olfato estava se recuperando rapidamente. Já conseguia novamente individualizar cheiros.
Derek inspira fundo e o cheiro forte do sangue coagulado entranhado nas roupas de Samuel Winchester invade suas narinas. Mais uma vez ele sorri. Agora lembrando da expressão de Samuel Winchester entrando na cabine do guindaste e encontrando-o lá. A expressão de fúria impotente no rosto do caçador durante o curto combate que travaram e a cara que fez quando caiu a seus pés já sabendo que não tinha mais condições de levantar-se.
Samuel Winchester não teve nenhuma chance. Fora pego de surpresa e facilmente dominado. Derek não precisava ter exibido sua face mais assustadora e aproximado seus dentes pontiagudos do pescoço do caçador enquanto este lutava para manter os olhos abertos, mas gostou de fazê-lo. Samuel merecia esse susto. O desgraçado tinha, menos de uma hora antes, ameaçado matar Stiles. Para sorte do caçador, naquele momento, Derek já sabia que as ameaças a Stiles não passaram de um blefe.
- Ah! STILES! Eu sinto tanto! Você não merecia ter passado por isso.
A lembrança de Stiles, que Derek vinha evitando, fez o coração do lobisomem se apertar. Sua vitória sobre os caçadores tivera para Derek um preço muito alto.
- Por que teve que ser assim?
Seria mais fácil para Derek culpar os caçadores por ter perdido Stiles para sempre. Podia ter-se agarrado nisso e voltado toda sua frustração contra eles. Mas, já aprendera que empurrar a responsabilidade pelo que dá errado em nossas vidas para cima dos outros não nos leva a lugar algum.
- Stiles! Só mesmo você para fazer algo tão estúpido quanto entrar na floresta em noite de lua cheia.
Aconteceu agora, mas era algo que acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde. Aconteceu porque era um lobisomem e nada que fizesse poderia mudar esse fato. Fora tolo achando que podia acabar de outra maneira.
Não que acreditasse que tinham um futuro juntos. Sabia que algumas pessoas simplesmente não estavam destinadas a serem felizes no amor. Sofreria menos se tivesse entendido isso antes.
- Eu só queria que você acreditasse que nunca foi a minha intenção ferir você.
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E pensar que o dia começara tão bem. Despertara sentindo o cheirinho bom que exalava do corpo de Stiles. E o melhor é que ele estava bem ali, ao seu lado, adormecido, a própria imagem da perfeição. A palavra que melhor descrevia aquele cheiro, o cheiro natural do corpo de Stiles, era VICIANTE. Porque fazia que quisesse ter sempre mais e mais dele. Ou, talvez, EMBRIAGANTE. Porque nublava seu raciocínio e o fazia agir como não queria e, principalmente, como não devia. Ou, apenas, chamar de DELICIOSO, dispensando qualquer outra consideração.
Sabia que era simplesmente cheiro de suor masculino. Que provinha dos mesmos componentes químicos presentes no suor de qualquer marmanjo. Não tinha nada de especial. Não devia afetá-lo de uma forma diferente. Mas, aparentemente, afetava. E muito. Parecia que o corpo de Stiles, e apenas o dele, reunia aqueles componentes banais, de uma forma que só podia ser descrita como mágica, numa combinação única. Um odor irresistível. Um cheiro que tanto podia excitar quanto trazer tranquilidade. E o melhor de tudo é que apenas ele, Derek, parecia perceber. O único a ter esse privilégio.
Dormir e acordar ao lado de quem se ama, embalado por aquele cheiro gostoso. Dormir e acordar sabendo-se seguro, após ter sido ferido e quase morto. Acordar relaxado e já esquecido das terríveis dores. Saber que Stiles arriscara-se por ele. Mais uma vez. Uma prova de amor maior que qualquer declaração. Tudo isso junto transformara os atos corriqueiros de deitar, dormir e acordar numa experiência inesquecível. Uma noite perfeita. Uma sensação de plenitude que provavelmente nunca voltaria a sentir. Que não seria possível repetir com nenhuma outra pessoa.
A noite fora perfeita, mas a magia começara antes. Bem antes. Ainda no quarto da UTI, quando seus olhos se encontraram e ficaram os dois apenas olhando um para outro, sem dizer uma única palavra, momentaneamente esquecidos da urgência de deixar aquele lugar. Lembrava do próprio coração acelerado e do seu medo ridículo de que Stiles percebesse o efeito que sua mera presença estava provocando nele.
Já tinha desistido de negar a atração que aquele garoto despertava nele, mas ainda insistia em não reconhecer que essa atração tinha natureza sexual. Não podia ser verdade. Tinha que ser alguma outra coisa. Não gostava de homens. Nunca antes se sentira atraído por alguém do mesmo sexo e Stiles nem mesmo podia ser chamado de homem. Era apenas um garoto. Talvez por ser tão garoto, Stiles despertava nele uma atitude protetora. Era apenas isso. E não era protetor apenas com Stiles. Era protetor com todos que gostava, talvez por já ter perdido tanto.
Seu grande e verdadeiro amor chamava-se Paige, a garota mais adorável que já existiu. Paige era doce e intuitiva. Tudo nela o fascinava. Paige era tudo o que poderia querer para sua vida e um pouco mais. Paige é quem devia estar agora ao seu lado, como sua companheira para a vida toda. Foi o seu amor egoísta que a matou. Foi sua desastrosa decisão de trazer Paige para o seu mundo que a condenou à morte. Porque era isso que seu amor amaldiçoado fazia. Seu amor matava. Por que seria diferente com Stiles?
Paige se foi, deixando-o só, consumido pela dor e pela culpa. Sua responsabilidade na morte dela foi exposta ao mundo no brilho azul de seus olhos. Perdê-la de forma tão estúpida bagunçou sua cabeça. Fez com que buscasse uma mulher que fosse o seu oposto. Uma mulher mais velha, mais experiente, independente e dominadora: Kate Argent. Na ocasião, pareceu-lhe uma boa ideia ter alguém para comandá-lo. Alguém para impedi-lo de fazer escolhas estúpidas. Mal sabia ele que Kate fora a escolha mais estúpida que poderia ter feito.
Kate matou toda a sua família e desapareceu de sua vida, deixando o serviço incompleto. Ela podia - devia - tê-lo matado junto com os seus, mas preferiu deixá-lo vivo apenas para que fosse torturado pelo remorso.
Fora Kate que o fizera temer as mulheres? Fora isso que abrira caminho para Stiles? Stiles tinha a suavidade, a inteligência e a perspicácia que admirava em Paige. Foi isso que o levou a aproximar-se de Stiles? A lembrança de Paige?
Durante a fuga do hospital, talvez porque estivesse tão vulnerável, talvez porque estivesse precisando desesperadamente sentir-se amado, suas defesas mentais desmoronaram. Pensou em Stiles, pela primeira vez, como uma possibilidade real. Sozinho no andar térreo da casa do xerife, enquanto aguardava seu corpo se curar, pensou seriamente em pôr de lado seus preconceitos e assumir seus sentimentos por Stiles. Até mesmo fazê-lo seu companheiro.
Mas, e o sexo? Não descobrira o sexo com Paige, ela morreu ainda muito menina, mas, com toda certeza, sexo fora o ponto forte de sua relação com Kate. Ansiava por estar com ela. Fazerem sexo todos dias, no momento que quisessem, era como viver no Paraíso. Uma mulher como Kate parecia a melhor coisa que acontecera na vida do adolescente ingênuo que fora um dia. Não tinha a menor dúvida de que gostava, e muito, de fazer sexo com mulheres. O que trazia a questão: como seria ir para a cama com um homem? Como seria com Stiles? Certamente diferente. Estranho no começo, talvez. Mas, .. seria tão bom quanto com Kate? Ainda melhor?
Pelo jeito, nunca ficaria sabendo.
Foi bom ter convivido com Stiles. Isso nunca seria motivo de arrependimento. Não tiveram tantos momentos quanto gostaria, mas os que tiveram foram certamente intensos. A maioria deles em situações que o risco de morte estava muito presente. Agora que tornara-se alfa, os riscos seriam cada vez maiores. Quanto tempo até que o pior acontecesse? Perder Stiles para a morte não era uma possibilidade assim tão remota. Muito pelo contrário.
Enfim, a decisão fora tirada de suas mãos. Acabara. Se é que tinha mesmo começado. Agora, só lhe restava aprender a viver sem Stiles. Como aprendera a viver sem Paige. Sabia que as lembranças daquela única noite tornariam isso ainda mais difícil, mas também sabia que seriam essas lembranças que lhe dariam a força que precisava para seguir em frente ... sem ele.
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: NEM CORRER, NEM MORRER
ESCLARECIMENTOS:
1. Relembrando que estamos no hiato da segunda para a terceira temporada e Kate Argent ainda não retornou dos mortos. Paige aparece na terceira temporada, mas é um personagem do passado de Derek. Já Jennifer Blake e Braeden ainda estão no seu futuro.
2. Em Teen Wolf, lobisomens na forma híbrida têm olhos amarelos (dourados). Ao matarem um inocente, a cor dos olhos muda para azul. Olhos vermelhos são exclusivos de alfas enquanto alfas.
12.12.2015
