CAPÍTULO #60

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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE

IMEDIATAMENTE APÓS OS ACONTECIMENTOS MOSTRADOS NO CAPÍTULO #54


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Stiles recuava um passo a cada novo passo do Lobo em sua direção. Mas, os passos do Lobo deviam ser mais largos que os seus, porque a distância que os separava diminuía a cada passo que dava.

- Derek, seja um lobo bonzinho, ok? Eu .. gostei .. gostei mesmo, juro! .. desta forma de lobo. Muito melhor que aquela coisa esquisita que o Peter se tornou. Mais clássico. Esse pelo preto caiu bem em você. Faz um contraste bonito com esses seus olhos vermelhos .. olhos vermelho sangue. Espera! Esquece a parte do sangue. Sem sangue. O que acha de voltar à forma humana e nós batermos um papo sobre os últimos acontecimentos? Foi um dia movimentado - pelo menos o meu foi - e a gente vai poder ficar falando por horas. Eu sei que você não é muito de falar e que eu, ao contrário, falo demais .. como agora, mas enfim .. É, acho que você já sabe disso, não precisa rosnar. Eu vim porque fiquei preocupado com você, sabia?. Bobagem, não é? Posso ver que você está ótimo e não está precisando de nada. Então, eu acho que já posso ir indo. Você deve ter mais o que fazer. Eu não quero atrapalhar. A gente se encontra depois em algum outro lugar, longe daqui. Pensando bem, o melhor é você ir para longe. Bem longe. Eu escutei uns tiros ainda há pouco. Os caçadores ainda podem estar por perto. Não vai ser nada bom eles encontrarem a gente aqui, agora. Eles podem achar que você está querendo me atacar e atirar primeiro e perguntar depois. Se bem que .. acho que é o que eles fariam de qualquer forma, não é mesmo? Não ia fazer diferença se isso é só um grande mal entendido. Para que arriscar, então? Sabe ..

Enquanto recuava, escutava as palavras saindo de sua boca num fluxo contínuo, que parecia longe do fim. Palavras que o surpreendiam como se não tivesse sido ele próprio a pronunciá-las. Frases inteiras que não passaram pelo crivo de sua mente racional. Não que estivesse dizendo coisas sem sentido ou indevidas. Apenas que sua atenção não estava voltada para o que dizia e, ao escutá-las, lhe pareciam proferidas por outra pessoa.

Falar sem parar sempre fora a forma como Stiles reagia ao estresse. Se todos o viam como uma pessoa que falava sem parar - e que dizia tudo o que lhe passava pela cabeça sem pesar as consequências - é porque não faltavam situações estressantes no seu dia a dia.

O colégio é um ambiente hostil para muitos adolescentes. A todo momento pipocam situações que os deixam desconfortáveis. Estressados. Situações como ser ridicularizado pelo grupo dos populares do colégio, desprezado pelos colegas esportistas, achacado pelos valentões de plantão, esnobado pelas garotas interessantes, assediado por garotas das quais se quer distância, perseguido por professores recalcados, ignorado por funcionários desmotivados, esquecido no banco de reservas por técnicos estressados, apresentado por todos e para todos como um exemplo negativo de tudo. É assim com a maioria dos adolescentes normais. Ou, pelo menos, é isso que Stiles se esforçava para acreditar. Ainda relutava aceitar a possibilidade de estar sendo vítima de um complô mundial.

Talvez fosse diferente com populares, esportistas, valentões e garotas interessantes, mas com adolescentes nerds magrelos hiperativos virgens certamente era assim. Na época do colégio, vemos a seleção natural acontecendo - ao vivo e a cores - em sua forma mais cruel. Ao cruzarem os portões, os estudantes parecem involuir para um estágio mais selvagem. A educação que receberam em casa, as regras básicas de civilidade e o espírito cristão são deixados do lado de fora. O colégio vira palco de disputas sangrentas por território, status e fêmeas. Ou, no caso das garotas, por babacas anabolizados estilo Jackson Whittemore. Transformam-se todos em predadores e presas. O colégio oferece, a cada dia, novos e terríveis desafios, como se uma mente perversa orquestrasse nas sombras para tornar a vida de todos um Inferno.

Como no sonho ruim que tivera algumas semanas antes. No sonho, uma mulher maligna acompanhava em dezenas de telas alimentadas por centenas de câmeras cada momento da sua vida. Ela apertava botões que acionavam mecanismos que o forçavam a correr por um labirinto insano, onde monstros o espreitavam. O labirinto mudava a todo momento e nada daquilo parecia ter um sentido ou um propósito. Tudo se resumia a CORRER ou MORRER. Enquanto corria por sua vida, escutava a mulher repetindo sem parar, em um tom enganosamente sensual, que CRUEL É BOM.

Ao acordar do pesadelo na segurança do seu quarto, Stiles repetiu para si mesmo que coisas horríveis assim só acontecem em sonhos. Que, agora que estava acordado, estava seguro. Que nada no mundo real podia ser pior que aquele sonho. Estava enganado. A realidade sempre podia ser pior. Como estava constatando agora. Estar sozinho no escuro, na vida real, com um monstro de pelo negro e olhos vermelhos rosnando ameaçadoramente para você era bem pior que o mais assustador dos pesadelos.

'Ser estraçalhado por um lobisomem descontrolado' não costuma entrar na lista de situações estressantes a que um adolescente normal está sujeito no colegial. O colegial deixa marcas, mas um dia acaba e ficam apenas as memórias boas. As outras memórias, as não tão boas, serão resgatadas nas muitas sessões que você certamente terá com seu psiquiatra de confiança, na esperança de descobrir a origem de seus traumas e transtornos. Adolescentes normais costumam sobreviver ao traumático período acadêmico com, no máximo, alguns pontos na testa e um braço ou uma perna quebrados. Isso é claro se você não misturar bebida e direção. E tiver o bom senso de ficar longe de traficantes e agiotas.

Stiles é um adolescente normal. Ou, algo bem próximo disso. A hipótese absurda de acabar morto por um lobisomem descontrolado não devia estressá-lo simplesmente porque não é algo que costume acontecer com adolescentes normais. O problema é que, apesar de Stiles ser um sujeito comum, um humano como eu e você, alguns de seus amigos - e vários conhecidos que não chamaria de amigos - não são. Esses seus amigos - e vários conhecidos que não chamaria de amigos - ou não são humanos ou não são comuns ou não são nem humanos nem comuns.

Stiles convivia com monstros há tempo suficiente para saber que uma situação assim - morrer estraçalhado - não só era possível, mas altamente provável. Principalmente, em se tratando de alguém burro o bastante para deixar sua cama quentinha e aconchegante em noite de lua cheia e se embrenhar numa floresta fria e úmida para salvar um lobisomem idiota e insensível de dois psicopatas bem mais espertos que o lobisomem.

Alguém tão burro certamente precisava de um anjo da guarda em regime de dedicação integral. Um que o impedisse de fazer besteiras como aquela. Um anjo que sussurrasse o tempo todo em seus ouvidos - até que ele finalmente entendesse - que isso de alguém ir sozinho e desarmado ao encontro de um lobisomem, em noite de lua cheia, além de prova inequívoca de insanidade, é uma forma estúpida e dolorosa de cometer suicídio.

Stiles não merecia um anjo da guarda tão incompetente.

Infelizmente, não era uma questão do seu anjo ser ou não competente. O que Stiles nunca ficará sabendo é que seu anjo da guarda, assim como o de seu pai e os de muitos dos seus amigos, estavam entre as inúmeras baixas que se seguiram à autoproclamação de Castiel como Novo Deus. Não foi por acaso que o último ano foi tão difícil para ele, seu pai e seus amigos. O melhor seria ele não contar com ajuda celestial, porque ela não virá.

Seu pai. O que seria dele? Quem iria tomar conta do xerife quando estivesse morto? Seu pai ia descuidar-se ainda mais da própria saúde e isso acabaria apressando a própria morte. Isso não podia acontecer. Seu pai não podia pagar por sua irresponsabilidade.

Seu pai não merecia um filho tão inconsequente.

Não podia morrer. E não ia. Tinha um pai para cuidar. E tinha também o Scott, seu irmão do coração, um otimista patológico que, por confiar demais nas pessoas, por muito pouco não fora morto pelos Argent. O que seria deles se morresse?

Não ia morrer. Já saíra de muitas situações difíceis antes. O segredo é não sucumbir ao pânico. Felizmente, lembrara de tomar ritalina antes de sair de casa. Aquele seria o pior momento para ter uma crise de ansiedade. Ou um ataque de pânico.

Seria perfeitamente compreensível que tivesse um ataque de pânico ou, simplesmente, que entrasse em pânico, coisa que pode acontecer com qualquer pessoa. Dada à situação, seria até esperado que acontecesse. Afinal, aqueles podiam muito bem ser os seus últimos momentos de vida. Mas, estava estranhamente calmo. Ou em algum tipo de estado alterado. Eram aqueles olhos. Estava mais uma vez hipnotizado. Hipnotizado pelos olhos vermelhos do Lobo, como costumava ficar hipnotizado pelos olhos verdes de Derek. Sentia a mente preenchida pelo brilho vermelho dos olhos do lobisomem em forma de lobo. É por isso que as palavras continuavam saindo de sua boca sem nenhum controle. Sua atenção estava toda voltada para aqueles olhos.

Stiles procurava Derek nos olhos raivosos do Lobo. O Derek que, tinha certeza absoluta, nunca o machucaria. Esse Derek estava lá, em algum lugar. Só precisava encontrá-lo. Só precisava trazê-lo à superfície. Mas, como?

Quando fora atacado por Scott, em sua primeira lua cheia, defendera-se usando um extintor de incêndio. Agira no impulso, na base da intuição, com os recursos que encontrara. E, por sorte, Scott conseguira se controlar.

Não. Não fora sorte. Scott não queria feri-lo. A transformação o deixara confuso e desorientado, apenas isso. O próprio Scott estava se esforçando para recuperar o controle. Scott só precisara de um tempo para pôr-se novamente sob controle.

Até onde sabia, Derek nunca tinha assumido antes a forma de lobo. Era bem provável que a transformação o tivesse deixado confuso e desorientado, como aconteceu com Scott. Derek parecia não reconhecê-lo, apesar de poder vê-lo, ouvi-lo e, supostamente, farejá-lo. Será que a transformação apagara suas memórias 'humanas'? Será que um lobisomem, na forma animal, comportava-se como um lobo de verdade, esquecido da identidade humana? Pior, como o monstro furioso estereotipado das histórias de lobisomem? Seja lá o que fosse, sua única chance era Derek reconhecê-lo e rápido. Tinha que acreditar que isso acabaria acontecendo. Que era apenas uma questão de tempo. Só precisava ganhar esse tempo, dar a Derek esse tempo. E não fazer nenhuma bobagem.

Em primeiro lugar, o mais importante de tudo: não demonstrar medo. Animais farejam o medo. Se fortalecem do medo de suas presas. Precisava limpar a mente e não deixar o medo se instalar. Precisava repetir para si mesmo que aquele era Derek e que Derek não queria fazer-lhe mal. Repetir sem parar, como um mantra. Precisava acreditar nisso para não sucumbir ao pânico. E para ter forças para fazer o que especialistas em comportamento animal recomendam para eventualidades como essa.

A transformação de Scott pegara-o desprevenido. Na ocasião, não sabia nada muito específico sobre lobos ou lobisomens. Estava bem mais preparado agora. Pesquisara a fundo o comportamento de lobos selvagens e de cães de grande porte treinados para atacar intrusos. Os estudos com cães eram muitíssimo mais numerosos. Mas, parecia ser consenso que o comportamento de ataque de cães de grande porte refletia o comportamento de lobos solitários.

O normal é que o treinamento de cães tenha por objetivo adestrar o animal para que ele aprenda a imobilizar o intruso sem causar-lhe ferimentos sérios. Mas, há quem reforce a agressividade do animal para usá-lo em rinhas, caçadas ou mesmo na função de guarda. Isso é, obviamente, ilegal. Mas, existe e é muito mais comum do que se imagina.

O treinamento de cães de guarda para atacar pessoas adapta os comportamentos agressivos inatos de algumas raças. Comportamentos herdados de seus ancestrais selvagens. O animal vai atacar primeiro os tendões e os músculos das pernas para impossibilitar a fuga e depois atacar um ponto vital, que costuma ser o pescoço. É assim também que agem os lobos solitários. Em alcateia, o comportamento é diferente e envolve estratégias mais elaboradas e trabalho em equipe.

Especialistas recomendam que, a menos que a pessoa tenha certeza que pode se colocar a salvo de um cão agressivo antes de ser alcançado por ele, não deve dar as costas ao animal e ensaiar uma fuga. O animal vai vê-lo como presa e vai atacar com os dentes.

Nem fugir, nem confrontar o animal. A recomendação dos especialistas é fingir-se de morto.

A agressividade é uma reação do animal a algo que ele vê como uma ameaça. Uma ameaça a ele próprio ou a algo que o animal considere como dele. Pode ser seu dono, que o cão vê como o substituto do líder da matilha, uma fêmea ou um território. A melhor estratégia quando se está desarmado e vulnerável é, portanto, não permitir que o animal o veja como uma ameaça. Não gritar e não fazer movimentos bruscos. Buscar minimizar os danos, ficando em posição fetal, para proteger o abdômen, e usando um braço para proteger o pescoço. Infelizmente, é grande o risco da pessoa perder os movimentos do braço ou o próprio braço. Mas, terá maiores chances de sair viva ao final de tudo.

O que os especialistas pregavam batia com o que aprendera de sua própria experiência de vida.

Não dizem que o colégio te prepara para a vida? Era o momento de pôr em prática as técnicas de sobrevivência que aprendera no colégio. O mundo é cruel. O mundo divide seus infelizes habitantes em predadores e presas. Os que devoram e os que são devorados. Se você não faz parte do grupinho que devora, tem que aprender a não deixar-se devorar. Isso é uma das primeiras coisas que você descobre no colégio.

Os predadores da natureza não são diferentes dos valentões que tentam te achacar no horário do recreio. Você não pode deixar-se intimidar. No exato momento que em você demonstra medo, torna-se presa. Eles nunca mais te darão sossego. Por mais que você esteja em desvantagem física ou numérica, você não pode baixar a cabeça e aceitar o rótulo que querem dar a você. Você não pode aceitar a condição de PRESA. Não pode acreditar no que eles dizem. Você precisa descobrir a melhor forma de reagir.

Reagir não significa necessariamente aceitar a provocação e partir para a briga. Não quando a vantagem é deles. Pelas regras da seleção natural, sobrevivem os mais APTOS, não necessariamente os mais fortes ou os que fazem cara feia e gritam mais alto. Dependendo da situação, os mais aptos podem ser os mais fortes, os mais rápidos, os mais resistentes, os mais espertos ou os que se escondem melhor.

Ou aqueles que contam com um amigo mais forte ainda para protegê-los.

A pessoa não pode se acovardar e correr, mesmo arriscando-se a levar uma surra. Muitas surras. Precisa resistir às provocações e às pancadas. Fazer-se respeitar é uma questão de sobrevivência. Vai ver os especialistas que desenvolveram esses estudos foram, um dia, nerds magrelos hiperativos virgens, apanharam muito e hoje estão montados na grana.

Quanto a pôr em prática aquilo ..

Uma coisa é alguém dizer que você deve agir assim ou assado com base em estudos e experimentos. Outra, bem diferente, é você manter o sangue frio e seguir as recomendações dos tais "especialistas" quando estão só você e um lobo furioso e, à sua volta, tudo é escuridão. Não é fácil aceitar numa boa a ideia de sacrificar um braço, mesmo que para salvar a própria vida.

Mas, digamos que você se disponha a sacrificar o seu braço. Como isso se daria na prática? O Lobo arrancaria seu braço na articulação e se afastaria para devorá-lo com calma? Ou deixaria o braço no lugar e, com sucessivas mordidas, arrancaria e engoliria um naco de carne após o outro? O que você deve fazer enquanto isso? Fechar os olhos e esperar até que o Lobo se dê por satisfeito? E se ele ainda estiver com fome e quiser mais um pedaço?

Não estava escrito nos estudos, mas o especialista certamente recomendaria à pessoa que não gritasse enquanto seu braço estivesse sendo devorado pela fera enraivecida. Isso poderia deixar o bicho irritado. Quem não se irritaria com alguém gritando ao seu lado enquanto você está comendo? O bicho pode ficar tentado a MATAR o infeliz para voltar a comer em paz.

O especialista também recomendaria não perder muito sangue e não entrar em choque devido à perda de sangue. E, principalmente, recomendaria NÃO MORRER. Isso tiraria a credibilidade do estudo.

A tentação de virar-se e sair correndo é sempre muito grande. Correr ou morrer ou correr e morrer? Não correr e não morrer. Com o Lobo tão próximo, correr deixara de ser uma alternativa. Stiles força seu corpo a fazer o que cabeças mais sensatas que a sua disseram ser o correto: parar, agachar-se e deitar no chão em posição fetal.

Devia fechar os olhos e pensar em campos floridos e montanhas nevadas. Afastar do pensamento imagens de braços arrancados, sangue jorrando e pedaços de carne sendo devorados. Devia ignorar os olhos vermelhos, os rosnados, a baba viscosa, o bafo quente mentolado e a boca cheia de dentes da fera negra.

'Mantenha os olhos bem fechados. Não abra por nada. Acredite em mim, você não vai gostar do que vai ver.'

'Mantenha a sua grande boca fechada. É para fingir de morto, lembra-se? Mortos não falam. Se escutar sua voz ajudasse, Derek já teria o reconhecido, de tanto que você já falou.'

'Não grite. Por tudo que é mais sagrado, não grite. Não com ele tão próximo. Ele pode se assustar e não vai ser um assustar "bom" tipo lobo sai correndo para longe. Vai ser um assustar "ruim" tipo morde primeiro e pergunta depois.'

'Deixe-o sentir seu cheiro. Se ele encostar em você, não faça movimentos bruscos. Não faça. É para fingir de morto, lembra-se? Mortos não fazem movimentos bruscos.'

Não sabia se o tempo estava correndo muito rápido ou muito devagar. As duas coisas. Parecia já ter passado uma eternidade desde que se deitara no solo úmido. Parecia também que o cronômetro que indicava, em contagem regressiva, o tempo que ainda lhe restava de vida acelerara no exato instante em que avistara aqueles olhos vermelhos brilhantes em meio à escuridão. E, agora, aproximava-se rapidamente do zero.

Quanto mais de tempo Derek precisava para reconhecê-lo?

E se estivesse errado e aquele não fosse Derek? Se fosse outro alfa? Um alfa inimigo de Derek? Não estava mais conseguindo controlar o próprio medo. A barreira mental que erguera começava a trincar. A dúvida começava a corroer as ferragens que mantinham a barreira íntegra. Não era forte o bastante para resistir a tamanho estresse. Já fizera tudo o que lhe disseram para fazer. Estava funcionando. Afinal, ainda não fora mordido. Mas, por quanto tempo? Sabia que só lhe restava esperar para ver, mas a ansiedade o estava matando.

Stiles tinha até esquecido que continuava segurando as roupas que Derek deixara para trás quando se transformara em lobo. Não se dera conta que, ao se agachar, trouxera as roupas para a frente do rosto e o cobrira com elas, como o avestruz quando envia a cabeça no buraco. O que os olhos não veem .. Bem, neste caso específico, o coração e o corpo certamente sentiriam.

Stiles escuta a respiração do Lobo de muito próximo. Escuta seu rosnado baixo. Sente o focinho da fera cutucar seu ombro, depois seu dorso, depois sua perna. Mais para empurrão, do que para toque. Em todas essas ocasiões, o que o impediu de gritar não foi sua decisão anterior de seguir as recomendações dos autoproclamados especialistas. Não foi o resultado de uma força de vontade excepcional. Foi, pura e simplesmente, MEDO. Estava com tanto medo que não conseguia gritar. Seu coração estava tão acelerado que poderia enfartar. A cada momento, mais e mais aterrorizado Stiles ficava. Em situações assim, é fácil alguém perder o controle da bexiga. Tinha até demorado demais para acontecer.

Então, do nada, um uivo apavorante. Um uivo parecido com o primeiro que escutara, com a diferença que antes era um uivo distante e este vinha de um ponto assustadoramente próximo. O tom era bem diferente dos rosnados de pouco antes. Os rosnados tinham a clara intenção de intimidar. Esse uivo, não. Era um uivo de dor. Um longo e pavoroso uivo de dor. Parecia que o Lobo estava sendo rasgado ao meio.

Stiles se encolhe ainda mais e cerra os olhos com mais força ainda. Seu corpo inteiro treme descontroladamente. Sua mente entra em curto.

Um.

Dois.

Três minutos.

Não foram três minutos de silêncio absoluto. Foram minutos repletos de ruídos estranhos, um meio termo entre rosnados e gemidos, estalos, baques contra o solo e outros barulhos estranhos. Algo estava acontecendo ali, ao seu lado. Não imaginava o que podia ser. Nem queria. Só queria ser deixado em paz. Esquecido. Ficaria ali quietinho até o amanhecer, até o Fim dos Tempos, se necessário, rezando fervorosamente para não ser mordido ou rasgado pelas garras da versão Lobo Mau do Derek.

O pavor o mantinha mudo. A tensão dificultava sua respiração. A umidade do solo impregnava-se em suas roupas e ele começava a tremer também de frio. A intervalos curtos, seu corpo trêmulo era sacudido por calafrios.

Ao ser sacudido de leve no ombro, Stiles não consegue conter o grito.

- SAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI.

- Calma, Stiles. Sou novamente eu, Derek. Obrigado por me trazer de volta. Por favor, me desculpa se o assustei. Como você está? Eu não feri você, feri?

Stiles abre os olhos. Apesar de estar muito escuro, muito sombreado, podia ver o rosto e podia sentir a angústia do homem à sua frente.

- Stiles, eu ..

- NÃO ME TOCA! SAI DAQUI! EU NÃO QUERO VER VOCÊ! NUNCA MAIS CHEGA PERTO DE MIM!

Stiles levanta lentamente, tremendo dos pés à cabeça. Ao pôr-se de pé, sente um princípio de vertigem. Ainda trêmulo, dá um passo desajeitado para trás, os olhos arregalados fixos em Derek. Apavorava-o a possibilidade de Derek levantar-se e caminhar em sua direção. Precisava sair dali. Ir para bem longe. Tinha medo de não conseguir, suas pernas bambas mal sustentavam o peso do corpo. Outro passo desajeitado. Mais um. Vários outros, até que tropeça e cai sentado. Engatinha de costas, olhos assustados na silhueta distante de Derek, até que, com Derek já fora de vista, finalmente, levanta e sai correndo. Sem saber para onde. Sem olhar para trás.

No meio da floresta, ajoelhado, nu, cobrindo-se de forma improvisada com suas próprias roupas, que Stiles deixara para trás, Derek sente um nó se formando na garganta e as primeiras lágrimas escorrendo por seu rosto. Sua única certeza é que tinha perdido Stiles para sempre.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: IRMÃOS UNIDOS NA VIDA E NA MORTE


ESCLARECIMENTOS:

1. O que fez Stiles concluir que o Lobo é Derek foram os olhos brilhando em vermelho, uma prova inconteste que tratava-se de um lobisomem e de um alfa. O único lobisomem alfa que Stiles esperava encontrar naquela floresta era Derek.

2. Acredito que todos tenham reconhecido as referências ao filme Maze Runner (em português: Correr ou Morrer), protagonizado por Dylan O'Brien.


20.12.2012