CAPÍTULO #61

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LOCAL: PORÃO DA MANSÃO HALE


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'Ainda não foi desta vez, monstro.'

Se fosse para acontecer algo, já teria acontecido. Só não conseguia entender. Na verdade, mal conseguia acreditar. Mas, o fato - a verdade irrefutável - é estava vivo.

E só havia uma explicação plausível para o fato de estar vivo. Não era nitrato de prata. Não era cáustico lunar. Se fosse, a injeção que recebera na veia jugular já o teria matado. Cáustico lunar queima ao toque. A metáfora usada por Gerard Argent, chamando cáustico lunar de bala de prata líquida, era bastante adequada. Uma bala de prata atingindo um órgão vital é mortal para um lobisomem e é igualmente mortal para um ser humano. O mesmo é verdade para o nitrato de prata injetado na corrente sanguínea.

Provavelmente, a agonia resultante também é sentida da mesma forma por lobisomens e humanos. Sentiria o pescoço em fogo no momento da inoculação e a queimação se espalhando rápido por todo o corpo, acompanhando o circuito do sangue. Provavelmente, a morte chegaria ao final de poucos segundos. Antes mesmo do veneno ter sido distribuído por todo o organismo.

Escapara deste destino, mas ainda não entendia COMO isso se dera.

Será que Christian Argent cometera um engano? A seringa que recebera DEVERIA conter nitrato de prata. Por sorte, NÃO TINHA. Sorte relativa. Se tivesse tido a chance de usar a injeção contra o lobisomem - confiando que isso o mataria - e descobrisse, no ato, que não fazia qualquer efeito, não ficaria nem um pouco satisfeito. As consequências poderiam ter sido catastróficas. Podia agora estar morto.

'Não se deve reclamar da sorte. O que importa é que esse engano, se é que foi mesmo um engano, acabou salvando a minha vida. Ou, pelo menos, adiando a minha morte.'

A bem da verdade, devia sua vida não somente a esse inexplicável engano. Também ao fato do lobisomem não ter ficado para ver o resultado. Fora salvo pelo excesso de confiança do monstro.

'Frustrado. Furioso. FURIBUNDO.' É como Dean Winchester imaginava que o lobisomem se sentiria quando descobrisse que sobrevivera à injeção letal que, contrariando todas as expectativas, revelara-se inofensiva.

'Você desperdiçou a sua jogada, lobinho. Eu imagino a cara que você vai fazer quando me ver vivo. Mas, eu só quero ver essa sua cara feia quando eu estiver novamente empunhando a minha faca. ESSA eu garanto que não vai falhar.'

Dean Winchester abre um grande sorriso. Não estava a salvo, mas ganhara tempo. Não deixava de ser uma vitória. Agora era uma questão de aproveitar bem esse tempo. Com sorte, ainda podia virar o jogo. Não desistira de querer matar o maldito lobisomem.

'Esse nosso joguinho ainda não acabou.'

Precisava se apressar. Livrar-se logo das algemas. O lobisomem podia descer as escadas a qualquer momento. Não podia encontrá-lo indefeso. Desta vez, o monstro ia querer certificar-se que estava realmente morto. Ia garantir que estivesse.

A urgência para se libertar não era só para salvar a si próprio. Era, principalmente, para ter a chance de tentar, de alguma forma, salvar a vida de Sam. Mas, sem o Impala ou um outro veículo, não conseguia imaginar uma forma de dar ou trazer tratamento médico a Sam. As perspectivas não eram animadoras.

A verdade é que já não acreditava mais ser possível salvar Sam pelos métodos convencionais. Mesmo que já estivesse livre, mesmo que tivesse o Impala à disposição, mesmo assim .. era muito sangue perdido, muito tempo perdido ..

Não que estivesse parado, aguardando um milagre acontecer. Pusera-se em ação no momento em que o lobisomem saíra de vista. Sua prioridade absoluta era libertar-se das algemas. Com uma ressalva: sem fazer barulho. O lobisomem tinha que continuar acreditando que estava morto.

Precisava ser cuidadoso. Se derrubasse a máquina de eletrochoque no chão, o barulho atrairia o lobisomem de volta. Ele descobriria que a injeção falhara e usaria as garras para completar o serviço. Ou, talvez, o revólver, como ameaçara fazer com Sam. Assim, poderia dizer depois que não tinha o seu sangue nas mãos.

'Que ódio desse monstro cínico! "Eu nunca matei ninguém". Sei. Conta outra, que essa não cola. Fala isso pro Sam. Fala olhando para a cara dele.'

A visão do corpo do irmão, imóvel, coberto por um lençol manchado de sangue, tira Dean do estado de euforia em que entrara ao ter certeza que a injeção supostamente letal não tivera sobre ele qualquer efeito prejudicial imediato.

Dean se pergunta se aquele não seria o momento em que deveria começar a chorar a morte do irmão. Derek Hale dera a entender que a morte de Sam era iminente. Era questão de minutos e, desde então, vários minutos tinham se passado.

Não! Choraria quando fosse um fato consumado. 'Um jogo só acaba, quando termina'. E, neste momento, a bola estava em suas mãos. Tinha que atravessar o campo com ela e marcar um touchdown.

Hale o estrangulara e depois usara a máquina de eletrochoques para reanimá-lo. 'Certamente, me queria vivo para poder tripudiar. Esfregar na minha cara que ELE saíra vencedor.' Para isso, posicionara a máquina bem em frente à estrutura onde estava algemado. Numa posição que permitia que os eletrodos fossem fixados a seu tórax com sua certa folga. Próxima o bastante para ser alcançada por seus pés. Mas, os fios dos eletrodos não tinham comprimento suficiente para alcançar nenhuma das algemas. Para poder usar um dos fios para abrir as algemas, ia ser preciso arrancá-lo da máquina. E fazer isso sem derrubar a máquina no chão ia ser um grande desafio.

Para o que pretendia, Dean precisava combinar destreza nos dedos dos pés, contorcionismo e habilidade acrobática, aptidões que, até então, ele tinha explorado pouco. Para começar, precisava livrar-se da bota e das meias. Depois, era uma questão de esforço, habilidade e persistência.

Com muito esforço, e após várias tentativas, Dean finalmente conseguiu apoiar os pés descalços sobre a mesa. Essa era a notícia boa. A ruim é que o esforço de sustentar o peso do corpo fizera a dor no ombro voltar com força total. Bem que o lobisomem alertara que a lesão não estava curada.

A forma como suas pernas foram acorrentadas, acima dos joelhos, lhe permitia mover os pés de forma independente, embora sua margem de manobra fosse mínima. Pior seria se as correntes estivessem junto aos pés. Até por conta do peso extra.

Para alcançar a máquina, fora preciso projetar o corpo muito para frente, deixando o tronco inclinado a 45 graus. A posição forçava ainda mais os seus ombros. Não demorou para a dor ficar insuportável. Sabia que precisava aliviar a carga sobre os ombros - mesmo que por alguns minutos - ou não iria aguentar. Mas, também sabia que não podia dar-se a esse luxo. O monstro podia voltar a qualquer momento. Cada minuto contava. Respirou fundo, cerrou os dentes e iniciou mais uma tentativa de firmar a máquina com um pé e puxar o fio com os dedos do outro pé buscando arrancá-lo.

Mais uma vez. Outra. Era tentar até conseguir. Precisava ignorar a dor. Aliás, estava ficando frouxo. Aquela dor não era nada, comparado ao que sofrera no Inferno. Era Dean Winchester e não seria um lobisomem de quinta categoria que iria rir por último. Ia virar o jogo. Nunca entregara os pontos antes e não ia começar justamente agora, com a vida de Sam em jogo.

Jurara proteger Sam e não ia desistir nunca de ter seu irmão de volta, ao seu lado, saudável. Nunca. Sam já morrera antes. Ele próprio já morrera. A morte não precisa ser definitiva. A morte não é o fim. E Sam ainda podia estar vivo. E, se estava vivo, podia ser salvo. Pela pessoa certa.

Bem, .. PESSOA talvez não fosse o termo apropriado.

Na floresta, a caminho dali, rezara para Castiel vir em seu socorro. Em vão. Castiel voltara estranho do Purgatório. Estranho de uma forma que não sabia ao certo como descrever. Um estranho diferente do estranho de antes dele ser sugado para o Purgatório. A verdade é que Castiel já estava estranho há um bom tempo. Castiel sempre fora instável e absorver as memórias do período em que Sam ficou no Inferno levou-o muito próximo da insanidade.

Um anjo é uma entidade extremamente poderosa. Sua existência é contada em milhões de anos. Supostamente, alguém que viveu tanto, que viu tantas coisas, deveria ser sábio. Os homens não mudaram sua essência em dois mil anos. Os erros, os vícios e os pecados são basicamente os mesmos. As atitudes dos homens não deveriam surpreendê-lo. Castiel, no entanto, mais parecia um recém-nascido em corpo de adulto.

Anjos são guerreiros. Membros de um exército supostamente imbatível. Mesmo dentro das limitações que se impunham havia tanto que poderiam fazer na luta contra monstros e demônios. Como um poder tão grande podia ser tão mal aplicado? Já desistira de tentar entender isso.

O fato é que Castiel não fora de muita ajuda no Purgatório. Mal chegaram e Castiel desapareceu. Deixou-o por sua conta e risco, no escuro, cercado de monstros. Segundo ele, para "protegê-lo". Ainda não engolira muito bem essa história. Não se sentira "protegido". Se o Benny não tivesse aparecido .. se não tivesse se aliado a ele ...

Voltara do Purgatório por mérito próprio e graças à inestimável ajuda de Benny. Chegara ao plano material sem saber ao certo se Castiel escapara junto ou não. Não havia certeza se o portal destinado a humanos permitia a passagem de anjos. Os dias passavam e nada de Castiel fazer contato. Acreditou que o tivesse perdido, que ele continuaria preso naquele lugar para sempre. Mesmo sabendo que fizera tudo o que estava ao seu alcance para resgatá-lo, sentia-se culpado por ter falhado com seu grande e verdadeiro amigo.

E, depois de semanas sumido, Castiel reaparece, sem dar uma boa explicação. Claramente, não estava no seu estado normal. Parecia estar mais precisando de ajuda do que em condições de ajudar. Até onde sabia, isso não mudara. Pelo jeito, ainda não dava para contar com seu anjo de estimação. No futuro, quem sabe? Castiel não o trouxera de volta depois de seis meses de morto? O que o impedia de fazer o mesmo por Sam? Não ia aceitar de Castiel discursos sobre a "ordem natural do Universo".

De qualquer forma, Sam ainda não morrera e Castiel não era o único anjo que existia.

Mas, onde encontraria outro anjo disposto a ajudá-lo? Por que algum deles se disporia a ressuscitar Sam ou a curá-lo milagrosamente? Milhares de pessoas perdem entes queridos todos os dias e, por mais que essas pessoas roguem a Deus para voltar a tê-los junto de si por mais um dia, uma semana, um ano, isso não acontece. Pessoas merecedoras. Pessoas de genuína fé. Ninguém volta. A velha lengalenga de que 'morrer é parte da ordem natural do Universo'. Anjos não costumam se sensibilizar com a dor dos humanos pela perda de alguém.

Além disso, a turma alada toda sabe que os Winchester foram aliados de Castiel na guerra contra Rafael. Guerra que terminou com Castiel declarando-se Deus e executando milhares de anjos que se opuseram a ele. O anjo das quintas feiras não estava, no momento, com sua popularidade em alta junto a seus pares da grande fraternidade celeste. Muito pelo contrário, a maioria queria esfolá-lo. Ter o nome associado ao de Castiel contava muitos pontos negativos.

Sua única esperança seria invocar um anjo que se comportasse como as pessoas comuns imaginam que os anjos se comportam e não como eles realmente costumam agir. Um que se importasse de fato com as pessoas. Um que fosse um pouco menos babaca que a maioria. Uma tarefa quase impossível.

Se não pudesse contar com os anjos, restavam .. os demônios? Não! Já cometera esse erro antes. Não era tão burro assim, era? Se fosse para errar, que fossem erros novos. Nada de repetir o que já dera errado. Muito errado. Muitas vezes.

Não conseguira fechar um acordo com Derek Hale para salvar Sam. Vendo as coisas do ponto de vista do lobisomem, não era realmente um bom acordo para ele. Talvez pudessem rediscutir os termos, talvez pudesse melhorar sua oferta, dar mais garantias. Mas, a questão central é que não confiava no lobisomem. E Hale estava certo quanto a não acreditar que Sam honraria o acordo que firmassem. Sam podia ser bastante cabeça-dura. Mal de família, com certeza.

Além do mais, Hale deixara claro que a transformação em lobisomem podia não ser bem-sucedida. Fatores desconhecidos podiam levar o organismo a rejeitar a transformação e a pessoa morria. A mordida do lobisomem poderia matar Sam, mesmo que ele estivesse saudável. No seu atual estado, valia a pena arriscar?

E quanto a uma transformação em vampiro? A transformação acontece quando um humano bebe do sangue de um vampiro. Se pedisse, Benny certamente não se recusaria a ajudar. Mas, o risco seria ainda maior. Tivera uma pequena amostra de como é a sede de um vampiro e esperava nunca voltar a experimentar uma compulsão tão forte. E olha que foram menos de 48 horas e a transformação não chegou a se completar.

A lembrança dessa experiência fez com que desse ainda mais valor ao esforço que Benny estava fazendo para reintegrar-se a um mundo onde seu drinque favorito podia conversar com ele.

Já fora acusado antes de ser motivado mais por egoísmo do que por amor. Não seria esse o caso? Não estaria sendo simplesmente egoísta? Era justo manter Sam vivo a qualquer custo? Estava cogitando apelar para anjos, demônios, lobisomens e vampiros. Até onde iria desta vez para mantê-lo vivo? Quantas regras teria que quebrar? Não seria hora de simplesmente aceitar a estúpida 'ordem natural do mundo'? Permitir que Sam tivesse uma morte honrosa de caçador ao invés de transformá-lo em algo que ele passou a vida inteira combatendo?

Sam tinha uma personalidade forte, detestava que decidissem por ele. Era cabeça-dura. Jamais concordaria em ser transformado num monstro. Ia preferir a morte. Se fosse em frente, estaria tomando uma decisão irreversível sobre a vida do irmão à sua revelia e contra sua vontade. Tivera exemplos recentes de como Sam reagia quando ficava ressentido. Poderia alimentar esperanças que ele um dia o perdoaria? Sam acreditaria que fizera por amor e não pelo desejo egoísta de não se sentir sozinho no mundo?

Se Sam fosse transformado, teria seu irmão ao seu lado ou estaria criando um terrível inimigo?

Mesmo que não fosse assim. E depois? Depois de conhecer o Purgatório, estava mesmo considerando condenar a alma de Sam àquele lugar amaldiçoado? Um lugar criado por Deus para proteger o resto da Criação de um experimento frustrado Seu. Uma dimensão-prisão para os predadores supremos, os leviathans, monstros incapazes de conviver em equilíbrio com qualquer outra criatura. O Purgatório é o lugar onde os monstros passam a eternidade matando-se uns aos outros. Era isso que queria para Sam?

Até onde sabia, para monstros não havia um Julgamento, não haveria um Juízo Final. Não havia chance de salvação. A eles não fora enviado um Messias redentor. Estavam condenados como espécie. Mesmo, que se esforçassem para agir do modo correto, seu esforço não seria reconhecido nem recompensado. Parece injusto. E é. Um dia, Benny seria devolvido para o lugar de onde, a tanto custo, fugira. E não havia nada que ele pudesse fazer para evitar.

Por mais que às vezes relutasse em fazê-lo, tinha que reconhecer que nem todos os monstros eram igualmente malévolos. Que inúmeros humanos inocentes transformados contra a vontade se esforçavam para conservar resquícios de sua humanidade perdida às custas de muita dor e sacrifício. Nada disso seria levado em conta.

Já tinha poupado a vida de monstros antes. Tinha poupado inclusive vampiros: o grupo de Lenore. Mas, Benny fora o primeiro monstro a quem confiara sua vida. Mesmo assim, ao voltar, sentira-se inseguro quanto ao acerto de trazer seu novo melhor amigo, a quem devia tanto, de volta à "vida". Tudo por conta de seu arraigado preconceito contra monstros. Benny tinha confiado a ele, um inimigo declarado de monstros, sua alma imortal. Não seria certo trair essa confiança.

Enquanto analisava alternativas fora da medicina humana para salvar a vida a Sam, Dean continuava se esforçando para arrancar o fio do eletrodo da máquina de eletrochoques. Estava com a atenção voltada para os movimentos dos próprios pés, quando sua visão periférica captou o que lhe pareceu ser a mão de Sam se mexendo. Não tinha certeza de ter visto, mas a mera possibilidade fez com que prendesse a respiração em expectativa e que seu coração passasse a bater descompassado.

'Será possível ..?'

Aconteceu ou estava imaginado coisas? Vendo o que queria desesperadamente ver. Podia jurar que vira a mão de Sam se abrindo e os dedos sendo esticados e depois voltando à posição relaxada.

A ansiedade fez o minuto seguinte parecer uma eternidade. Quando Sam repetiu o movimento, sentiu lágrimas se formando em seus olhos. Sua vontade era gritar de felicidade, mas sabia que precisava se conter. Falar quase sussurrando. Não podia subestimar a audição do lobisomem. Ele podia estar próximo e a última coisa que queria era atrair a atenção do monstro e pôr tudo a perder.

- Sam, está consciente? Se estiver, mexa a sua mão esquerda. Pelo amor de Deus, Sam, MEXA essa maldita mão de uma vez.

Como que em resposta, o braço que estava, até então, pendente, tombado como que sem vida, se ergue. E não só ele. Ambos os braços se erguem, de forma sincronizada e simétrica. Os punhos cerrados e os braços retesados que emergiam do lençol foram mantidos por vários segundos acima do plano do corpo. Também foi possível ver o tórax de Sam se arqueando e as suas pernas se movendo em direções diferentes.

Sam não estava mais inconsciente. Para Dean, aquilo parecia um milagre. Talvez Castiel tivesse atendido às suas preces, afinal. Agradeceu a Deus por Sam ainda estar vivo. Por ter sua própria esperança renovada. Então, uma surpresa ainda maior. O braço direito de Sam dobra-se sobre o peito e a mão suja de sangue puxa o lençol descobrindo totalmente o seu rosto.

Dean podia ver Sam, ainda deitado, os olhos semiabertos, dando um grande bocejo.

- Sam, você está bem?

- Dean? Que lugar é esse? Que horas são?

Sam volta a se espreguiçar, desta vez abrindo os braços perpendicularmente ao corpo. Ele dá vários bocejos, abre e fecha os olhos muitas vezes, sacode a cabeça, faz todos aqueles pequenos gestos de quem tenta espantar o sono. Finalmente, ergue o tronco, gira o corpo e põe os dois pés para fora da cama. Leva as duas mãos ao rosto e, quando as afasta, já estava razoavelmente acordado.

- Tudo bem com você, Sam? Está sentindo muitas dores?

Como Dean estava falando num tom muito baixo, Sam acompanhou o tom usado pelo irmão. Não sabia aonde estava, mas o fato de Dean estar algemado indicava que não estavam a salvo. O lobisomem devia estar por perto.

- Dores? Não! Nenhuma. Bem, .. umas poucas. Mas, nada fora do comum. Eu estou sentindo mesmo é muito sono e cansaço. E também muita sede.

- Não está ferido? Suas roupas estão encharcadas de sangue. Os cortes em seu peito .. ?

Com uma olhada rápida, e mais o tato, Sam confirma que suas roupas e cabelo estavam, de fato, encharcados de sangue, agora já quase seco. E que as partes expostas do seu corpo estavam sujas de sangue seco. Como se alguém tivesse derramado um balde de sangue sobre ele. E, então, as lembranças da sua luta contra o lobisomem na cabine do guindaste vão voltando. O susto da visão da boca monstruosa avançando em sua direção pouco antes de perder os sentidos.

- Aquela boca vindo em minha direção! Será que Hale me mordeu?

Já totalmente desperto por conta da descarga de adrenalina que o receio de ter sido mordido ou arranhado pelo lobisomem provocou, Sam se põe de pé e retira a jaqueta, a camisa de flanela e a camiseta que usava por baixo da camisa, ficando nu da cintura para cima. A pele muito branca contrastando com o tom escuro do sangue seco que cobria suas mãos, pescoço, rosto e cabelos.

Preocupado, Sam inicia uma minuciosa inspeção visual da metade superior do próprio corpo, se tocando nos pontos onde sua vista não alcançava, como o rosto, o pescoço e as costas. Enquanto isso, de longe, Dean fazia sua própria inspeção independente, chegando às mesmas conclusões. Nenhum corte ou arranhão visível, nenhuma cicatriz recente, uns poucos hematomas. Nada que, em condições normais, preocupasse. Só que, naquelas circunstâncias, o preocupante não eram os ferimentos, mesmo porque não havia ferimentos. A preocupação agora era a incompreensível AUSÊNCIA de ferimentos.

- Sam, será que os cortes cicatrizaram porque você foi transformado?

- Não sei. Estou me sentindo igual. Você acha que eu posso ter me tornado um lobisomem? É rápido assim?

Sam abre a boca de forma a expor a gengivas e faz caretas que Dean corretamente interpreta como uma tentativa frustrada de fazer crescer os caninos. Em seguida, Sam distende os dedos como se esperasse ver surgirem garras.

- Nada. Ou talvez eu ainda não tenha pego o jeito.

- Se Hale atacou você com as garras, se ele rasgou seu peito e agora não há nem sinal de cortes ou cicatrizes, então existe uma enorme possibilidade de você ter se tornado um lobisomem. Isso ou temos um anjo em ação por aqui.

- ESPERA! Hale não me atacou com as garras. Ele me pegou de surpresa, me imobilizou e usou uma seringa para injetar alguma coisa no meu pescoço. Creio que um sonífero de ação rápida. Eu reagi. Me desvencilhei dele. Lutamos até que eu apaguei. Foi tudo muito rápido.

- Ele derrubou você com um sossega-leão? E esse sangue todo nas suas roupas? E aquele sangue todo na cabine do guindaste?

- Não sei dizer, mas dá uma olhada nas minhas roupas. Não há rasgos. Nenhuma marca de garras.

– Você acha que foi tudo um teatrinho daquele bastardo? Só não entendo porque Derek Hale ia querer que eu acreditasse que ele atacou você com as garras e que depois deixou você sangrar até quase morrer, se ele não fez nada disso. Eu até consigo entender que ele tenha vindo com aquele papo furado de ser um lobo bonzinho que nunca matou ninguém e que só quer ser deixado em paz. Agora, ISSO eu não consigo entender.

- O que mais ele disse a você?

- Sam, antes de mais nada, que tal me libertar daqui? A dor no meu ombro voltou forte. Não estou aguentando ficar nesta posição.

- Desculpa, Dean. Você aí algemado, sentindo dores, e eu preocupado só comigo. Onde .. ?

- Esquece, Sam. A hipótese de virar lobisomem assusta mesmo. A chave das algemas está encima da mesa.

- Bom que ele deixou aqui. Não estou vendo a chave do cadeado das correntes, mas um tenho um clip comigo.

Livre das algemas e da corrente, Dean aperta forte o ombro dolorido e faz movimentos curtos com o braço, para restaurar a circulação. Depois, faz movimentos mais amplos com o outro braço com o mesmo objetivo. Só de manter o braço junto ao corpo já sentia um grande alívio.

Ainda intrigado, Dean vai até a mesa, apanha a seringa e a examina. Cheira o interior. Prova com a língua.

- Isso é soro fisiológico. Com certeza, não era esse o conteúdo da seringa que Chris Argent me entregou.

'Será possível que Hale SABIA que a injeção que me aplicou no pescoço não me faria mal? Ou ainda: será que ele, deliberadamente, trocou o conteúdo da seringa para me dar um susto? Por que diabos ele faria isso? Isso não faz nenhum sentido. Ele não tinha motivos para me deixar vivo. Eu já tinha deixado claro para ele que, caso sobrevivesse, eu ia perseguí-lo até o fim do mundo. E que não descansaria até matá-lo pelo que ele fez ao Sam. Por ele ter sangrado o Sam até quase a morte. Só que, na verdade, ele NÃO FERIU o Sam. Ele pôs o Sam para dormir. E escondeu isso o tempo todo. Depois, fingiu que ia me matar, assim como fingiu que tinha ferido mortalmente o Sam. Já não entendo mais nada.'

- O que houve, Dean? O que você acha disso tudo?

- Bem .. Tudo leva a crer que Hale não pretendia nos matar, afinal. Só não me pergunte o porquê. Está parecendo que ele armou esse circo para nos convencer que, mesmo provocado, mesmo tendo a oportunidade, mesmo sendo esta uma solução mais segura e mais definitiva, ele não nos mataria se pudesse evitar. E oportunidades não lhe faltaram.

- É difícil imaginar um lobisomem agindo assim. Mas, lembra que os Argent disseram não ter encontrado provas de que Hale já tivesse matado um ser humano? Eu acredito que tenham se empenhado bastante para encontrar provas.

- Quando eles disseram, eu não acreditei. Mesmo agora, ainda acho difícil de acreditar. Mas, confesso que já não sei mais. Ele jura que nunca matou ninguém, mas, sabe como é. Ele pode estar mentindo.

- E quanto a ele se descontrolar na lua cheia e sair matando?

- Hoje é noite de lua cheia e eu vi o Hale transformado em Lobo e, depois, novamente em forma humana, perfeitamente controlado. O que não seria esperado, já que ainda não amanheceu. Confesso que me impressionou o controle que ele tem sobre a transformação. Mas, eu ainda tenho dúvidas se ele realmente se mantém racional na forma de lobo.

- Não parece tão difícil assim perceber se uma fera está ou não descontrolada.

- Comigo algemado e indefeso, e ele podendo me matar no instante que quisesse, Hale afirmou que se conteve nos nossos embates na floresta para não me causar ferimentos graves. É claro que eu não acreditei quando ele disse isso. Mesmo porque, na hora, não me pareceu que ele estivesse se contendo. Foram embates muito duros. O Lobo destruiu minha bota a dentadas. Por pouco não me arrancou o pé. Mas, o fato é que eu estou inteiro. Fora, é claro, essa lesão no ombro. Que eu ganhei quando o Lobo arrancou, com os dentes, uma semiautomática da minha mão, quase levando meus dedos juntos. Mas, a mão e os dedos ainda estão aqui. E, estranhamente, Lobo não tentou me morder no pescoço ou no estômago. Mas, também é verdade que em momento algum eu facilitei para ele. Prefiro acreditar que, se estou inteiro, é porque eu sou muito safo.

- Depois disso tudo, se ele aparecesse aqui, agora, na nossa frente, o que acha que devíamos fazer?

- Não sei. Talvez ouvir o que ele tem a nos dizer. Mas, vou preferir escutar tendo nas mãos um revólver carregado com balas de prata. Caçador prevenido morreu de velho.

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NO PRÓXIMO CAPÍTULO: PRECONCEITO MATA


ESCLARECIMENTOS:

1. O motivo óbvio para Castiel não ser um personagem desta fic é porque, com seus poderes, ele desequilibraria a balança em favor dos Winchester. Castiel poderia, a qualquer momento, fulminar o Derek e, desta forma, frustrar os fãs de sterek. O motivo menos óbvio é que eu não gosto do personagem Castiel (nem do intérprete Misha Collins). O problema, na minha opinião, está na própria concepção do personagem. Faço algumas considerações a respeito no texto da fic. Acho que o comportamento de Castiel destoa do dos demais anjos. E, principalmente, não vejo um motivo convincente para Castiel ter sido trazido de volta após ter sido explodido por Lúcifer/Sam no capítulo final da quinta temporada. Nenhum outro anjo, arcanjo ou serafim retornou.

2. Na cronologia da série, Castiel ficou um tempo desaparecido após Dean voltar do Purgatório. Dean volta no episódio 8x01 (We Need to Talk about Kevin) e Castiel reaparece apenas no episódio 8x07 (A Little Slice of Kevin). Castiel aparece para Dean com as memórias recentes apagadas e sob a influência de Naomi. É por isso que Dean, na fic, acha que ele voltou 'estranho'. Essa fic se passa em algum momento entre os episódios 8x09 (Citizen Fang), em que Dean manda Sam ao encontro de Amelia, para proteger Benny (fato citado na fic), e 8x12 (As Time Goes By), em que os Winchester descobrem que são Legados, herdeiros diretos dos Homens de Letras (na fic, é dito que tudo o que eles possuem está guardado no porta-malas do Impala). Neste período, Castiel encontra Dean em apenas três ocasiões: quando reaparece (episódio 8x07), quando se oferece para ajudar os Winchester como caçador no caso do ladrão que se aproveita de efeitos de desenhos animados (episódio 8x08, Hunteri Heroici) e quando pede ajuda a Dean para salvar Samandriel de Crowley (episódio 8x10, Torn and Frayed).

3. Dean foi transformado em vampiro no episódio 6x05 (Live Free or Twihard), sem que Sam, na sua versão sem alma, tentasse salvá-lo.


29.12.2015