Kiss and Control

Capítulo 1: Lar.

Talvez a moradia de ricos e nobres fosse fadada a não ser agraciada com a alegria, ou com moradores alegres. Ou talvez isso não passasse de imaginação e crenças que povoam a mente dos mais humildes, meio encontrado por estes para sobreviver e contentar-se com o pouco que têm.

Todavia, crenças ou não, naquele imenso casarão imponentemente branco, sentimentos positivos não existiam. Suas colunas se erguiam ameaçadoras sobre o chão igualmente branco. Antes de transmitir a imagem impecável de limpeza - já que não havia uma única mancha em qualquer centímetro do local - a mansão provocava uma angústia sufocante em seus visitantes. Não que devido a isso eles deixassem de se aproximar. Peculiarmente, a casa atraía a todos, desde um simples jardineiro a um arquiteto renomado. A diferença estava na justificativa que cada um repetia para si sobre a razão de ser hipnotizado pela construção.

A mais adequada fora dada pela filha de sete anos da senhora responsável pela entrega do jornal, a mansão era mal assombrada, choramingava a criança entre as pernas da mãe encobertas por uma enorme saia florida. E a senhora Doumionji a repreendia rudemente.

Por ser a mais adequada não significa ser, a afirmativa da pequena Doumionji, correta. Pois, por assombrada implica-se em abandono e a mansão tinha moradores, bem... vivos.

No momento, concentrados em se manter no inesperado aconchego e calor que aquela fortaleza luminosa lhes provinha contra o rigoroso inverno, do lado externo.

E como aquele clima afagava as paredes da casa... Não existia outra estação que lhe caísse melhor. Abraçava-a e a envolvia, provendo maior grandeza e beleza à mansão e, se tornando uma extensão alva e gelada do imóvel. Durante esse período gélido, o encanto era irresistível e se desprendia junto com a brisa cortante para pairar sobre os poucos transeuntes que se arriscavam a sair de seus lares.

Uma coisa que aquele paraíso em forma de casa nunca poderia ser chamado: lar. Principalmente por ela, Hyuuga Hinata.


Hinata retirou uma mexa de seu cabelo, que teimava em fugir do coque que ela mesma fizera, do lado da sua bochecha para prendê-la atrás da orelha e poder se reconcentrar em coisas mais importantes.

Por que não se aborrecer com o ódio que os outros lhe dirigiam? Por que ela mais do que concordava com eles, ela sentia o mesmo por si, pelos seus atos, pela ausência de sensatez e força nos seus atos. Ela aceitava, ela sabia, ela merecia.

Logo, dentre todos eles, Neji era quem mais possuía o direito de odiá-la. E de desejar a sua morte. Ele merecia o que era dela por direito de berço. E ele o merecia por direito de brilhantismo.

Seus pensamentos acompanhavam o ritmo e a precisão dos movimentos de Neji, durante o seu treino. Ele não tinha motivo para se esconder quando se empreendia em qualquer tarefa, o que não se aplicava a ela...

Provavelmente aquele isolamento ordenado pelo seu pai era isso. A tentativa de esconder do clã o tipo de líder que teriam na figura de Hinata, sua própria filha, razão de sua vergonha e desgosto. A garota não pôde evitar as lágrimas. Não pôde evitar o estremecer de seus ombros. Não pôde evitar a tristeza mais uma vez.

Ah... Como ela gostaria de se enraivecer e usar dessa tão desconhecida e misteriosa emoção como fonte para sua força. Para que ocultar? Ela invejava o seu primo. A partir do segundo que ela reconheceu o aperto no peito em fisgada como o pecado da inveja, a herdeira Hyuuga levou as mãos à boca, não acreditando realmente que era capaz de sentir algo tão... tão... tão...

- Hinata-sama – Neji despontou diante de seus olhos, varrendo de sua mente a necessidade de procurar um adjetivo para qualificar mais uma característica, recém descoberta, de si própria da qual não se orgulhava.

Ela ainda o encarou de olhos arregalados e com os dedos sobre os lábios, possivelmente até mais surpresa do que antes por ter pensado que conseguira dissimular a sua presença e ele nunca a notaria.

O gênio Hyuuga aguardou impassível que ela dissesse algo. Contudo, a falta de som advindo de sua prima lhe esfregava no rosto que Hinata piamente acreditava que não seria descoberta por ele, Neji.

Era muita presunção da parte dela...

Então estava ali, Hinata poderia jurar em nome de sua finada mãe que um sorriso de lábios comprimidos levemente tracionado para o lado direito, quase imperceptível, porém fatalmente demoníaco, havia passado como um flash sobre o rosto de Neji.

Depois ele havia se inclinado ligeiramente na sua direção, num cumprimento respeitoso e que anunciava a sua retirada, e lhe deixando sozinha no silêncio.

Ela criou raízes no piso e vidrou seus olhos sobre o nada adiante. A imagem de Neji grudada à sua retina, lhe sufocando numa piscina viscosa de medo.


Estava entardecendo e ela acabara de ser liberada da aula particular de inglês.

A maioria dos clientes da Hyuuga Corporation usava daquela língua universal para se comunicar. Em tempos passados tanto a companhia quanto o presidente, não precisavam se preocupar com a globalização.

Atualmente, as coisas eram bem diferentes.

Engolindo com certa dificuldade a própria saliva, Hinata percorreu suavemente, com a ponta de seus graciosos dedos, a superfície da mesa onde ela e sua sensei haviam estudado.

Um tímido sorriso aflorou-lhe nos lábios, como uma ingênua flor que teme o desabrochar e ao fazê-lo, esmera-se com cautela a fim de perceber se existem ameaças contra o seu bem estar num ambiente desconhecido e talvez, hostil.

Kurenai-sensei era o que de melhor poderia ter acontecido com sua vida. Ela não era somente professora de inglês, era a professora nos mais diversos assuntos possíveis, era como a mãe que Hinata nunca teve. Além de estar preenchendo o vazio no coração da jovem Hyuuga, vazio esse causado pelo afastamento abrupto e sem despedidas de seus amigos, irmã e de seu mundo.

Kiba-kun, Shino-kun, Hanabi-chan e o que causaria espanto em alguns: inclusive seu pai, Hiashi otou-san.

A mais de sete dias ali, sem direito a telefonemas, ou cartas, ou emails.

Ainda saudosa, ela descansou o olhar sobre o seu relógio de pulso, para se sobressaltar instantaneamente. Ela estava atrasada para a aula de preparação de chá: Chado¹.

Sutilmente escorregando pelo corredor, Hinata deslizou alguns centímetros para parar um pouco a frente do seu quarto. Sem pensar o quão inadequadamente ela deveria estar se portando, ela não vedou o aposento e rapidamente puxou a camisa por cima de sua cabeça, atirando a peça de roupa aos seus pés, os quais caminhavam incertos por uma trilha tortuosa em direção ao banheiro.

Já estava com a calça lhe rodeando os joelhos quando a sensação de estar agindo erroneamente lhe gritou dentro do cérebro clamando por razão e, descoordenando mais ainda seus movimentos e embaralhando seus pés e braços na ânsia de tomar a atitude correta.

Atitude que deveria ser... Fechar a porta, claro.

Mas o que Hinata viu em seguida de sua agitação sem habilidade, foi o chão bem mais perto do seu nariz do que o usual e a superfície áspera em contato com a sua bochecha.

Surpresa... Ela havia caído.

- Itai... – murmurou e num bolo confuso de roupas e dores, ela se ergueu, trôpega.

Precisava tomar um banho em questão de segundos e vestir os trajes específicos para a aula de Chado.

Não, não daria tempo... Ainda mais depois desse tombo, ela não conseguia nem andar direito. Hinata suspirou, não conseguia fazer coisas simples sem que algo desse errado, isso só provava que seu pai estava certo, que todos estavam certos...

Ela enfim se pusera de pé e rodara sobre o próprio eixo, não segurando algumas caretas e muxoxos de dor quando seus olhos perolados se focaram sobre algo que não era para estar ali. Pelo menos não naquela hora e principalmente, com ela naquele estado.

A conhecida onda de medo foi somada à, também conhecida, de vergonha. Apesar desta ser mais forte e possuir nuances diferentes da que usualmente sentia. Afinal, era seu pudor, sua dignidade, seu corpo.

Nunca se sentira tão pequena, vermelha e nua.

Ela deveria ter gritado, ou saído correndo, ou se coberto com qualquer pedaço de pano.

Entretanto, ela era Hyuuga Hinata e o pavor a paralisara de novo como todas as vezes que se encontrava com ele, Hyuuga Neji. E isso, era imutável.

A vontade de chorar lhe apertou a garganta e suas mãos tremeram diante da idéia de se alojar ali, junto com a dor e a vergonha. Mas elas (suas mãos) provaram que nem tudo é como se imagina ao tentarem cobrir um pouco da pele alva da garota na região do busto.

Um grito iria ser liberto enquanto suas pernas se apressavam em direção ao toalete, era o que estava prestes a acontecer se ele não tivesse se pronunciado.

- Seu professor... – Neji desviou seus olhos dos dela e de outras partes que pertencessem a ela -... Ele não vem... – e sem dizer mais nada, ele fechou a porta com estrondo.

Ao se afastar dali, seus passos ecoavam pesados e incertos, o oposto do que inerentemente eram: silenciosos e determinados.

Sem dar asas para a sua imaginação sobre o que ele deveria estar pensando, a fim de não se machucar mais ainda, Hinata se trancou no banheiro e descansou a palma esquerda sobre a sua testa. Daria para secar todas as roupas da casa ali.

Mexendo-se desconfortável, ela se encaminhou para a banheira. Mais desconfortável ficou ao ter que tirar o restante de roupa, um par lilás rendado de sutiã meia taça e calcinha de alças finas. Relaxou ao verificar que a porta estava trancada.

Tentando esquecer o ocorrido, ela afundou sob as espumas.

Se na hora não estivesse tão chocada e embaraçada com a situação, ela teria notado a expressão estranha e inusitada que se apoderava do rosto não mais tão impassível de Neji. Além do sutil rubor que lhe assomava às maçãs da face.

As situações mudam, as pessoas mudam.


Hinata evitava sair do quarto. Atitude praticamente inútil, pois ela estava isolada do mundo e de todos os que lhe eram caros, com a finalidade de se preparar para assumir a liderança do seu clã.

Portanto, as tarefas a serem cumpridas, para que ela estivesse apta para abraçar as suas funções como líder, eram inúmeras e todas exigiam que a garota estivesse em vários lugares distintos. Sendo que nenhum deles incluía o seu quarto.

A primeira tentativa de não cruzar com Neji: pulverizada.

A segunda opção seria sempre se manter acompanhada. Postura que de certo ângulo poderia ser vista como fraqueza.

E q-q-q-que lhe contassem uma nova, ela já estava acostumada.

- Tudo bem Hinata-sama? – uma das criadas que lhe fazia companhia durante o jantar, chamada Mizuro, lhe interpelou.

A flor delicada dos Hyuuga olhou de soslaio para a subalterna. Por que ela estava lhe perguntando isso? Havia algo de errado? Ela, Hinata, estaria agindo estranhamente? Neji estaria agindo estranhamente?

- A senhorita estava falando algo... Sobre uma novidade e pensei que estivesse se dirigindo a mim – Mizuro acrescentou diante da discreta perturbação que Hinata demonstrou, que fora interpretada como desentendimento.

Compreendendo que acabara de exteriorizar a sua preocupação mental em palavras, Hinata sorriu. Era tão fácil e natural para a herdeira sorrir verdadeiramente que Mizuro deixou de lado o que antes perguntava.

- A sua professora de etiqueta logo chegará. Melhor a senhorita ir se preparar para a aula – Mizuro lembrou e retirando a esmo as louças daqui e acolá, procedeu para que tudo fosse encaminhado para a cozinha.

Avaliando a distância dali para o seu quarto, Hinata inconscientemente pousou seu dedo indicador sobre o queixo, em estado de reflexão.

Já estava tarde, a probabilidade de se deparar com Neji era aproximadamente negativa. E apesar de sua má sorte, justificada por sua estadia nessa imensa gaiola de paredes brancas, Hinata não poderia ter uma quantidade suficiente para resultar em um encontro com seu primo.

Encorajada por suas conclusões ligeiramente animadoras e positivas, Hinata rumou para o seu quarto. Completando o seu banho e a troca de vestimentas, ela desencostou a porta e se arriscou a espiar o corredor.

Sem sinal de passos.

Respirando fundo e caminhando de forma Nejiesca, ou seja, tal qual um fantasma: sem produzir barulho e mais flutuando do que andando, ela chegou à sala reservada para as aulas de etiqueta. Vedando o compartimento sem trancá-lo, ela largou seu peso contra a parede mais próxima, seu peito arfou em busca de oxigênio e o seu coração voltou a bater normalmente aos poucos.

Ela conseguira.

Com a adrenalina pulsando em menor concentração por suas artérias, Hinata procurou um local para se sentar e aguardar sua sensei. E então sua atenção foi presa pelo vaso recém colocado no aposento.

Simplesmente magnífico.

Ela se aproximou para vê-lo com mais detalhes, aventurou seus dedos pela superfície pintada de azul e branco do objeto e o estava trazendo para a altura de seus olhos quando um ruído estranho a impediu.

Repousando o vaso na sua posição original, ela localizou a agitação advinda da janela, cuja intensidade progredia quando ela se apropinquava de lá.

Os sons eram uma mistura confusa de murmúrios e expirações forçadas, além de chutes e socos contra o concreto. Coisa muito estranha, já que ela estava no segundo andar da casa e a possibilidade de alguém chutar e dar socos nas paredes dali não estando pelo lado de dentro, só poderia estar...

Nada.

Não havia nada e ela estava a olhar para fora. Só havia silêncio.

Intrigada ela se segurou ferrenhamente ao parapeito para que pudesse se debruçar em direção ao exterior e obter uma visão mais acurada, quando um borrão loiro lhe transpassou a frente para se chocar contra ela, logo em seguida.

Abrindo uma pálpebra por vez e restabelecendo lentamente o seu foco visual, Hinata viu um rapaz, aparentemente da mesma idade que ela, com olhos brilhantemente azuis comprimidos de preocupação sobre ela.

- Moça? Você está bem? Moça? Moça? – ele perguntava desesperado ao lhe sacudir os ombros sem muito tato.

- Hun... – foi o máximo que conseguiu articular sob o contato mais íntimo que já tivera com um indivíduo do sexo oposto.

Era impossível não corar.

- Ufa... – ele deslizou a costa de uma das mãos sobre a testa em alívio e, seu cabelo loiro e arrepiado balançou para frente e para trás com o gesto – Pensei que você estava morta, dattebayo – e ele lhe sorriu alegremente.

Hinata nunca tinha visto um sorriso tão bonito e reconfortante quanto o dele.

Era duas vezes mais impossível não corar.


N/A: Ainda 'tô em dúvida quanto a esse "dattebayo"... É a marca do Naruto, mas me soa estranho quando escrevo que ele está dizendo isso...

Obg pelas reviews meninas, é a primeira fic de anime que não tenho mt vergonha em postar, as outras eu desisti, mas essa, eu não consegui deixá-la mofando na minha pasta e prometi que independente do número de reviews, continuarei a postá-la.

Chado¹: A cerimônia do chá no Japão - "Chado" (Caminho do Chá) ou "Chanoyu" (água quente para o chá) tem como principal objetivo elevar o espírito de todos os participantes e não pode ser realizada sem estudo e preparação. Não basta servir o chá, é preciso conhecer cada um dos símbolos usados, cada um dos movimentos, o significado dos diferentes tipos de incenso e etc.

R&R! o/