Kiss and Control

Capítulo 2: Rotina.

Existia algo que fora ensinado de forma impregnante e eficiente a ser buscado para a herdeira Hyuuga: rotina.

Uma rotina onde a procura pelo aperfeiçoamento e sabedoria eram constantes, principalmente para alguém como ela. Então, Hinata nunca seria vista lutando contra isso, quando durante sua formação e vida havia aprendido que rotina era um presente que poucos sabiam valorizar, utilizar ou muito menos poderiam ser agraciados com.

Entretanto, aquele rapaz loiro de palavras alegres e espevitadas parecia fugir à regra.

De pé com ajuda dele e depois de ter negado, prestes a explodir de vergonha, uma massagem em sua barriga e nuca, ela fitava Uzumaki Naruto analisar deslumbrando o aposento que acabara de invadir.

- Onde está minha educação, eu me chamo Naruto, Uzumaki Naruto, tebayo – ele pousou aqueles olhos, cheios de vida e aptos a revelar a alma de seu dono por inteiro, sobre a figura da garota à sua esquerda e num sorriso enorme, comprimiu suas fendas orbitárias até Hinata não poder mais vislumbrar aquele azul límpido que tanto gostara.

- Hy-Hyuuga H-Hinata – quase obteve êxito em não gaguejar.

- Desculpa por ter quebrado seu vaso Hinata-chan – após ter lhe apertado a mão, deixando Hinata mais abestalhada ao sentir quanto calor emanava do toque dele, ele se abaixara para catar os caquinhos do objeto de porcelana – Você tem cola?

Ao vê-lo com a boca constrita e a pontinha de sua língua se evidenciando para o meio externo tamanho o esforço em tentar desvendar onde cada pedaço do elemento decorativo deveria estar, fez a Hyuuga abrir um sorriso.

- Não se preocupe Uzumaki-san, é só um vaso – ela involuntariamente lhe tomou as peças da mão e ainda sorrindo permaneceu lhe fitando – Oh, desculpe – embaraçou-se ao notar a intimidade com o que o tratara ao tocá-lo, sem permissão e inapropriadamente.

- Pode me chamar de Naruto, Hinata-chan e não precisa desculpas – ele se ergueu e voltou seu olhar para a janela, o sol estava se pondo, colorindo o céu de laranja e rosa, como se uma menina sapeca estivesse brincando de aquarela.

- Preciso ir, amanhã eu venho te visitar Hinata-chan, ja ne – despediu-se pulando com destreza por sobre o parapeito e desaparecendo para aquém da visão de Hinata.

Preocupada, ela correu para acompanhar a ida do garoto sorridente e seu mais novo conhecido e ainda rosada, suas orbes peroladas seguiram o borrão laranja correr sobre a neve lá fora e desaparecer pela pequena estrada que ligava a mansão ao seu muro.

Ela nem se perguntara a razão para ele ter invadido o local e nem tão cedo perguntaria, tudo nele a havia cegado.

- Naruto-kun...


Aquela manhã parecia mais fria do que o usual, mais fria do que o suportável para Hinata e isso significava que a vontade dela de sair da cama era... Zero.

Quem em sã consciência sairia?, se perguntou e uma voz baixa e debochada – essa última característica passara totalmente desapercebida por Hinata - lhe respondeu: Neji.

Faça frio, faça calor, faça chuva, faça sol, ele nunca mudava sua rotina. O orgulho Hyuuga.

Bocejando e conjurando forças que todo o clã deveria reconhecer, ela se levantou.

Como o chão estava frio!, errara seu calçado por centímetros e seu pijama parecia a deixar mais nua do que protegida contra o frio. Depois arrumaria apropriadamente sua cama, pois seu cobertor iria consigo para o banheiro.

Feita a higiene, colocar sua roupa para esse domingo de manhã foi uma tarefa árdua. Porém, Hinata resolveu que ainda não era hora de se ver livre de seu cobertor e afinal, por que não se trocar debaixo dele também?

Foi com dolorosa tristeza que contemplou o edredom macio e quentinho pela última vez antes de sair de seu quarto e, verificando seu relógio de pulso, alarmou-se pelo atraso que incorrera para comer seu desjejum.

Oh não... A mesa já havia sido tirada... Pelo menos havia um ponto positivo, Neji-nii-san não estava ali.

Com o aperto em seu estômago relaxado, ela rumou para a cozinha, pensando em pedir algo para Mizuro, talvez mais ocidental dessa vez, sempre quisera provar um café da manhã diferente só que com seu pai à mesa nunca pudera ousar. E agora com Neji-nii-san, somente se ela fosse suicida e bem, Hinata ainda não chegara a esse ponto.

- Mizuro-chan...! – chamou pela mulher e sua alegria esvaziou tão rápido quanto um balão que fora espetado por um afiado alfinete, o tão conhecido peso se infiltrando por dentro de seu esôfago e instalando-se angustiantemente sobre seu estômago.

Seu primo estava atrás do balcão central de mármore italiano, dando instruções para Mizuro e Kyoko, ambas não desviavam seu olhar do homem, suas expressões temerosas. E a causa de todo esse pavor estava fixando seu impiedoso e perscrutador olhar em Hinata.

Seus joelhos deram o primeiro aviso que não agüentariam por muito tempo e o bolo constituído por vergonha e receio voltou a se instalar no meio da garganta de Hinata, piorando a cada segundo que Neji não cedia sua atenção sobre a figura da prima.

Quase não percebendo, ela o ouviu dizer algo as duas empregadas e mais inquieta, pode notar com clareza ele emparedando com ela.

- Hinata-sama, bom dia – não havia inflexão em seu cumprimento, ele poderia muito bem estar desejando um inferno de dia e vida para ela – Precisamos conversar, siga-me até o escritório, por favor.

E tomou a frente, seus cabelos longos e lisos balançando lentamente às suas costas, como se fossem uma cortina feita com o mais macio e elegante veludo, cor da terra, cor da madeira mais nobre, cor de chocolate...

- Hinata-sama – a voz dele a arrancou de suas reflexões.

- S-sim? – devolveu, a insegurança personificada ali, numa das garotas mais infeliz da face da Terra.

- Seus treinos passaram a ser comigo – informou, impassível.

- P-p-por que? – embaraçada por ter deixado a curiosidade dominar sua língua e por Neji voltar a refincar seus olhos nela, Hinata abaixou a cabeça e começou a fitar os próprios pés, conjuntada num amontoado de ossos mantidos erguidos por pura vergonha.

- Seu mestre está impossibilitado de vir durante uma semana, para que não haja atraso em seu aprendizado, eu assumo a responsabilidade.

- Mas v-v-você não precisa Neji-nii-san, eu po-posso treinar sozi-zinha.

Não era mais vergonha que ela sentia, quão estúpida e atrevida havia sido ao se dirigir de tal forma petulante ao seu primo. Sabendo disso e se preparando para a repreensiva, automaticamente se encolheu, acostumada com as reações do seu genitor quando ela se portava semelhantemente.

Contudo, a recriminação ou humilhação não veio, e ao procurar pelo primo, ele continuava na mesma posição de antes e ainda a fitava, sem demonstrar qualquer emoção.

- Mizuro-san me relatou que havia um vaso quebrado na sala em que você esteve há três dias.

Hinata corou imediatamente e Neji parecia querer perfurar um buraco na calota craniana da garota, tão intenso e inflexível seu olhar se concentrava sobre ela. A Hyuuga já não estava conseguindo respirar e seu joelho começava a repetir os mesmos indícios de anteriormente, eles estavam se liquefazendo e logo não poderiam mais sustentá-la.

Diga a ele a verdade, metade dela lhe ordenava, a outra rezava para não ser morta de um jeito cruel.

- Sente-se Hinata-sama – ele indicou uma das confortáveis poltronas, seu tom soara imperativo e nunca Hinata o desobedeceria.

- Há algo que queira me contar?

Ela arregalou os olhos e de novo, aquela sombra de sorriso maléfico havia transpassado o rosto dele. Ela sabia que não conseguiria mentir. E ele sabia que ela sabia.

Como ele descobrira? Oh sim, uma tonta e desajeitada como ela não era capaz de montar um cenário, sua habilidade dedutiva era igual a zero, sua percepção e sensibilidade sempre lhe abandonavam em situações de ansiedade, ela sempre se sentia coagida o suficiente para calar a boca e se resignar a reduzir seu olhar para o chão nas reuniões do clã junto de seu pai, nunca considerada digna. Entretanto, Neji-nii-san não era assim.

- E-Eu e-e-encont-t-t-trei e-e-esse garoto – tremeu mais que o normal e desviou seus olhos da figura imponente e amedrontadora de Neji, se não tivesse teria visto uma ruga surgir entre as sobrancelhas de seu ouvinte.

Neji esperava que ela estivesse fazendo tempestade em copo de água, ele saboreava cruelmente o que infligia a ela, fosse medo, fosse sentimento de culpa, ou simples vergonha. Mas isso... Havia calculado que ela, como sempre descuidada, derrubara o vaso. Entretanto, ao escutar o que Hinata lhe contara...

- Você está isolada Hinata-sama, espera que não relate isso ao seu pai? – ele a impediu de prosseguir e propositalmente, aproximou-se, sua aura gélida e imobilizadora se abatendo sobre Hinata como a pior das tempestades e escuridão.

- P-p-por f-f-favor Neji-nii-san... – suplicou, os olhos já transbordando as lágrimas e buscando vestir um pouco da postura digna de um Hyuuga, dando-se conta do quão fraca estava agindo de novo, murmurou fracamente – Desculpe-me.

- Está claro o que nos trouxe até aqui? Eu saberei se você está descumprindo seu papel Hinata-sama – e para finalizar, ele a deixou, seus passos de tão leves eram inaudíveis.

Já Hinata podia ouvir seu coração batendo freneticamente dentro do próprio peito, como se desejasse escapar e se ver livre daquelas angústias que o torturavam, o choro havia cessado, apesar de que o pavor, não.

Era a segunda vez que ele sabia de algo e não fazia nada. E Hinata sentia a corda se apertando mais e mais em volta do seu pescoço. Neji estava planejando algo, não estava? Por que ele não o fazia de uma vez? Estava matando-a aos poucos...

Talvez fosse esse seu objetivo.


A nevasca havia cessado algumas horas atrás e a incontrolável saudade de montar bonecos de neve e instaurar uma guerra usando perigosas e letais bolas da mais enregelante neve percorriam todas as artérias de Hinata, dominando-a com tal eficiência que ela não conseguia pensar ou sentir outra coisa.

Completara uma semana sem ver Naruto-kun de novo e por mais que ela não admitisse nem sob o pior dos suplícios, desobedeceria Neji sem refletir duas vezes para rever o adolescente espevitado.

Seus olhos se mantinham inertes sobre a paisagem inconscientemente, sua mente tentava estimar quanto tempo mais agüentaria nessa solidão, nessa prisão sufocante e gélida. Viver ali era alguma espécie de provação? Ou o clã reconhecendo a inútil que era enfim resolveu se livrar dela para sempre? Suas cogitações tomavam rumos cada vez mais deprimentes e não suprimindo um suspiro, apertou a roupa que cobria o centro do seu tórax como quem imagina coibir a dor que aí se instaurara.

Ela se ocuparia com qualquer tarefa para impedir o ócio de plantar coisas horríveis na sua cabeça, criar hipóteses em cima de hipóteses não a levaria a lugar algum. Muito pelo contrário, a consumiria mais do que ela já estava esgotada. Hinata precisava seguir em frente, ela não desistiria e...

- Hinata-sama – Mizuro interrompeu a trilha de reflexões da herdeira Hyuuga, inclinando ligeiramente a fronte em sinal de respeito.

Dando um pequeno salto ao ser pega desprevenida e imersa em reflexões, Hinata aguardou a empregada elucidar o motivo de sua vinda, coibindo os receios de ter deixado transparecer um décimo do que afligia seu âmago.

- Neji-sama a espera na área de treinamento – informou e com mais uma inclinação respeitosa, retirou-se.

Para uma pessoa tão cruel, ele a havia poupado de treinar debaixo daquela tempestade de neve e como o vendaval havia terminado, então retomara a programação. Enquanto Hinata orava para todos os deuses prolongarem a tempestade por uma semana, não custava perder as esperanças, certo?

O treinamento implicava em ter que enfrentá-lo, literalmente. Era óbvio. Era óbvio e horrendo! Um pesadelo longo e bem sólido. Além disso, ele a estaria ensinado e para ensiná-la ele teria que analisar todos os seus movimentos, e grudar sua atenção a ela incessantemente. E ainda mais, teriam momentos em que ele ficaria perto e talvez até a tocasse!

Pela primeira vez a realidade a impactou, e tão poderosa foi a pancada que os passos dela cessaram. Ela não poderia ir ao encontro de Neji! Ela ainda não era forte, decidida, talentosa o suficiente.

Ela daria uma desculpa qualquer, fingiria uma febre, um mal estar, não sairia do seu quarto. Ela daria um jeito. Ela conseguiria mentir, era só não olhar para aqueles olhos ao mesmo tempo tão parecidos e tão diferentes dos dela. Era fácil, era simples e qualquer um desempenharia tal missão com honrado êxito, Hinata Hyuuga não era uma exceção.

Enquanto travava essa batalha interna com enorme distração para o mundo ao seu redor, Neji a observava pender para frente e para trás, os olhos desfocados e um vinco de inquebrável meditação enrugar-lhe a pele branca e cremosa entre as sobrancelhas, para em seguida seus lábios serem comprimidos e perderem sua conformação arredondada, enriquecendo Hinata com um ar de determinação e que sem que ele soubesse apontar o motivo, parecia atraente.

Sem dúvidas que Neji não levou um segundo para explodir aquele pensamento incabível e inválido.

Ausente de total planejamento e segurança acompanhou Hinata se decidir e enfim, rumar para longe da área em que deveria encontrá-lo afim de cumprir com seu dever. Apesar da falta de firmeza naqueles pés tão delicados e de caminho tão incerto, ela estava andando bem rápido, ignorando mais uma vez as regras que lhe foram ensinadas desde pequena.

Ela nunca aprenderia mesmo.

Neji a deixaria ir, Hinata não poderia fugir para sempre do seu destino e nem dele. E assim, ele também teria algo para fazer amanhã e pelo qual poderia ansiar, afinal mencionar a ela o que acabara de presenciar e observá-la se debater para arranjar uma desculpa plausível o bastante era... Uma razoável distração.

É, por amanhã ele esperaria com boas expectativas.


N/A: Update difícil ºAº

Lady Yuura: Segui seu conselho tebayo ;) Sério? Pq? Vc acha q Naruto n devia ter aparecido? Uma coisa que gosto de escrever em fanfics desse gênero é que elas são mt mais fáceis de escrever do que comédia. Não sinto a necessidade de espirrar algo engraçado em vc a cada linha, pq eu não sou uma pessoa naturalmente engraçada, logo escrever algo engraçado para mim é um parto. Imagina parir uma coisa dessas a cada linha? o-O

É isso, 'té o próximo cap o/

R&R!