Kiss and Control

Capítulo 3: Alaranjada.

Mal podia acreditar, havia obtido sucesso em fugir de Neji pelo segundo dia consecutivo. Era inevitável sentir alegria e até orgulho de seus feitos. Como se com esse insignificante resultado cerrasse as barras que a aprisionavam naquela abastada gaiola.

Era pouco, mas Hinata valorizava as pequenas coisas na vida.

No dia em que correra apavorada do primeiro treino com Neji, ela se trancou no quarto e impediu qualquer um de adentrar seu aposento, alegando necessitar alcançar um nível mais elevado com as suas habilidades de meditação. Como acreditaram ainda era um mistério.

De certo ângulo ela não esperava mentir, ou mais ainda manter a mentira mesmo tendo absoluta certeza que quando Neji resolvesse aparecer ali não emitiria mais um "ai" para sustentar aquela invenção deslavada e ridícula, uma criança criaria algo mais convincente. Logo, teria que buscar por uma desculpa razoável o bastante para se permitir encará-lo.

Ao anoitecer o vento zunia pelas frestas da sua janela e uma idéia se formou em sua cabeça. Ser uma boa mentirosa nunca fora uma qualidade sua, então se adoecesse de verdade não haveria motivo para fingir estar. Escolhendo a camisola mais fina e curta que havia em seu armário e colocando o travesseiro no chão, ela abriu sua janela para ser banhada por aquele congelante e cortante vento.

Como manejaria para dormir era uma incógnita, ignorando a atração que seu cobertor irradiava em ondas veludosamente quentes, ela se deitou sobre o piso de mármore, ignorando o choque e morbidez que se apoderou sobre a sua cútis, apossando-se da maciez e quentura da superfície de seu corpo para transformá-la em um bloco de gelo desprovido de captar qualquer sensação. Havia determinação suficiente em seu coração para não demover-se dali, aí residia algo que ninguém lhe poderia tolhir.

Ela acordava a cada uma hora esfregando as mãos sobre todo seu ser para prover uma fagulha de calor, ou espantar a anestesia que se apoderava de si incessantemente e assim, a madrugada invadiu seu quarto.

Resultado? Estava iniciando o terceiro dia com aquele poderoso resfriado, sem poder sair dos seus aposentos. Nunca uma doença fora tão bem vinda e abençoada em sua vida.

Todos seus compromissos foram cancelados e ela estava desfrutando de uma espécie de férias pela primeira vez em um longo tempo. Era uma pena não poder se divertir das besteiras faladas por Hanabi, ou rir com as discussões entre seus melhores amigos Kiba e Shino.

Não se pode ter tudo.

Ela passava as horas lendo, quando batiam em sua porta retomava a encenada leitura de livros que eram relevantes para o seu futuro posto no clã, quando a deixavam sozinha – o que era a maior parte do dia – continuava sua leitura ávida de livros de ficção, romance e etc.

Hinata até então vinha vencendo qualquer resquício de culpa que pudesse afundar seu peito por não estar cumprindo seus deveres, a imagem imponente e rígida do pai apagada devido à distância, tanto espacial quanto temporal, imposta entre eles. Entretanto, a de Neji estava bem vívida e despertava calafrios na sua espinha... Agasalhando-se como quem sente uma corrente fria lhe arrepiando a epiderme, a herdeira Hyuuga se concentrou em espantar esse mal pressentimento.

Seu plano era perfeito e ela estava doente, Neji não a obrigaria a treinar naquele estado... Mas ele não estava preocupado? Não com ela, claro – Hinata não era tão ingênua a esse ponto – e sim com os resultados. Pois ele era o encarregado pelos relatórios de seu progresso a Hiashi otou-san, se qualquer detalhe saísse dos trilhos postos por seu pai, o primeiro a sentir sua fúria seria seu primo, ela só se perguntava se seria maior do que a dirigida a ela própria...

Intrigada e inclusive usando de ousadia para os seus padrões, ela não desviou o olhar de seu livro de inglês e o mais desinteressada que podia, indagou a Mizuro.

- Mizuro-chan, Neji-nii-san não perguntou por mim? – depois que as palavras resvalaram de sua boca, ela se deu conta do quão pegajosa soara, o sangue lhe aflorou as faces diante da constatação e enfiou o nariz nas páginas do livro, morrendo de vergonha.

Agira como uma criança carente de atenção e mimada.

- Claro que sim Hinata-sama, todos os dias – Mizuro respondeu, usando seu melhor sorriso compreensivo e calmante, ao afofar as cobertas de Hinata e em seguida certificar-se que as janelas estavam bem vedadas.

Podia jurar que as havia trancado ontem ao se retirar, para que Hinata pudesse dormir... Bem, naquele casarão enorme não se poderia ter certeza, inúmeras eram as janelas e portas que deveria fechar.

- E-E-E-ele nunca veio me visi-ta-tar – retrucou a Hyuuga, abismada com a petulância da sua língua em não obedecê-la e calar-se por fim.

- Ele não deseja lhe interromper o descanso, não se preocupe com isso Hinata-sama – o sorriso no rosto da empregada duplicou de tamanho, não que Hinata pudesse ver, estava mais determinada a fazer um buraco nas páginas do livro para caber toda a sua face ali.

Certificou-se do aquecedor funcionando na temperatura ideal e da água da banheira também. Mizuro havia terminado, já na porta e em posição que demonstrava respeito, perguntou – Deseja mais alguma coisa Hinata-sama?

- Não, obrigada – disse num fio de voz.

Pode respirar normalmente com o livro distante de suas narinas quando a outra mulher se fora, não havendo encontrado a melhor forma para punir sua atrevida língua deslocou-se para o banheiro, pois precisava de um banho, a febre coagulava-lhe uma película preguenta sobre o corpo, causando no mínimo, desconforto. Com as preocupações divergindo de Neji e seu descaso para com ela e suas futuras ações, livrou-se da camisola com languidez e se concentrou em encontrar uma forma para segurar sua irresponsável língua.

Ela teria tempo, muito tempo.


Hyuuga Hiashi se excedia em muitas áreas, não era à toa que ocupava o posto mais alto no clã e conseqüentemente, em tudo que estivesse ligado a ele.

Era capaz de dobrar as pessoas à sua vontade, pulverizá-las a nada ou ascendê-las ao topo. Qualquer decisão que precisasse ser tomada, por menor que fosse, sempre acabava tomando conhecimento. Só existira um indivíduo o qual ele não exercera tamanha influência, seu próprio irmão. Contudo, Hiashi se reservava o direito de não trazer às margens de seu pensamento a história de Hizashi, pelo menos não agora...

Hanabi não desviava os olhos perolados e decididos do pai, esperando uma resposta e ele sabia que se levasse mais tempo para dizer-lhe o que esperava, ela começaria a bater o pé no chão, era fácil ler impaciência em todos os seus gestos e expressão, talvez Hiashi tivesse pego leve demais com esta filha...

- Otou-san... Onde está onee-chan? Por que não posso vê-la? Ela nem se despediu, por quê? E... – dito e certo, tendo se aproximado da mesa onde Hiashi lia relatórios da empresa, ela o crivou de mais perguntas, a inflexão frenética em sua voz aborrecendo seu genitor.

- Calma Hanabi, uma pergunta de cada vez – resistiu ao impulso de massagear as têmporas, essa menina o tirava do sério.

- Mas o senhor nem respondeu às minhas primeiras – contra argumentou e oh Kami-sama, começou a bater o pé de contra o piso numa cadência rápida e malditamente inquietante.

Onde estava seu chá?, Hiashi constatou mais irritado a ausência da xícara com o líquido morno sobre sua mesa e entre seus papéis, nem desenvolver um serviço que prestasse aquelas empregadas conseguiam – Não é da sua conta – falou, ríspido e encarando a filha pela primeira vez, ordenou – Traga-me chá.

Primeiro ela pareceu levemente surpresa, os olhos se alongando e perdendo a firmeza de antes, contudo, não passou de dois segundos, ela os cerrou assim como os lábios e a passos pesados, rumou para fora do aposento e quando Hiashi começou a se congratular por ter manejado tão bem a situação a ouviu berrar do outro lado da porta – Vou achar onee-chan sozinha!

Impressionante como ele não conseguia intimidar ou controlar Hanabi.

Que dor de cabeça.


O ar saía quente por sua boca e entrava dolorosamente, queimando sua garganta. O suor pingava de sua testa, muitas vezes não contido por suas sobrancelhas, a água salgada ardendo em seus olhos e dificultando sua visão. Seus pés pareciam asas de um beija-flor, tão velozes percorriam as ruas do vilarejo ao alternar seus passos num borrão de movimentos, desviando; pulando; correndo e assim; alcançando a área rural, livre da cidade.

Ele obtivera sucesso em despistar seus perseguidores.

- Essa foi por pouco 'tebayo – comprimiu as pálpebras e protuberou os lábios, como se estivesse queixando-se para alguém, ao passar uma das mãos na parte posterior do seu pescoço.

Estava banhado de suor para seu total desagrado. Esticou a blusa espalhafatosamente laranjada para frente, podendo fazer uma análise mais realista e seu rosto se contorceu com uma emoção diferente da anterior.

- Sakura-chan vai me matar! – exclamou, sua voz dominada pelo mais puro dos desesperos.

As manchas em suas vestes não eram de transpiração (quem dera!), na correria ele esbarrara em muitas tralhas, tropeçara e rolara pelo chão, escalara paredes impregnadas de musgo e uma meleca amarela gosmenta que ele preferia ignorar o que era. Sua roupa estava... Nojenta e como se a aparência não bastasse, também cheirava estranho, até ele tinha que admitir. Porém, admitir não significa aceitar a surra que Sakura lhe daria! Se ela fosse gentil e educada para lhe escutar primeiro, dar-lhe a chance de explicar sobre o ataque... No segundo que ela o avistasse, Naruto sabia, estava condenado.

Perdido em suas conjecturas sobre como impedir a amiga de estourar seus miolos, Uzumaki se viu nas redondezas da mansão mais bela do local.

A tempestade que todas as noites não cedia sobre a região, havia causado o acúmulo de neve sobre o solo fazendo-a atingir os joelhos, na cidade ele ganhara uns bons trocados limpando as entradas das casas e se não estivesse tomado por essas dores nas costas e pernas, ofereceria para fazer o mesmo serviço ali, quem sabe poderia ganhar uma caneca de chocolate quente...

Ele não devia, não devia. Tinha um compromisso com Sakura-chan e sua roupa não poderia ficar em pior estado se quisesse ver o sol nascer mais uma vez.

Subiu na mureta que cercava a habitação luxuosa, sentou-se e seus olhos tão azuis quanto o céu, gastaram minutos simplesmente contemplando o imóvel.

O casarão não mudara um milímetro, erguendo-se imponentemente alvo sobre aquele mar gélido feito de neve, apesar de se considerar uma pessoa simplória, não podia evitar de admirar a mansão menos e num recôndito escondido de seu cérebro, desejar tê-la para si.

Talvez ele pudesse ver Hinata... Será? Existia a remota possibilidade dos moradores saberem de sua fama, incluindo Hinata... Além do que, uma garota como ela provavelmente seria proíbida de encontrar-se com um garoto como ele... Talvez se ele trouxesse Sakura-chan para aprender bons modos com Hinata, ele teria menos hematomas pelo corpo...

- Vou tentar 'tebayo! – cortou seus pensamentos divagadores, congelar até os ossos aqui fora não era uma opção e não custava arriscar.

Vencendo a resistência pegajosa e molhada do bloco de neve, rumou para uma das entradas da casa, ignorante quanto ao par de olhos perolados que lhe observavam, friamente, de uma das várias janelas envidraçadas do andar superior.


Nas dependências da cozinha, os empregados tentavam suprimir suas risadas. Toda vez que Jiraya-sensei aparecia para vender suas bugigangas, dentre elas livros de tema impróprio para menores de dezoito anos e de sua própria autoria, não existia uma viva alma que não largava o que podia para ouvi-lo contar qualquer fato do dia. Fofoqueiro de primeira, era um perigo para reputação do infeliz que caísse nas graças mal faladeiras de Jiraya.

De um lado, o comportamento do residentes da mansão Hyuuga poderia ser instantaneamente execrado, o de Jiraya não entra no mérito, essa alma já nasceu perdida. Por outro, vivendo naquele ambiente pesado e sufocante, agarrar-se a um desprezível traço de normalidade era uma reação exasperada deles a tudo isso.

Mizuro estava rubra de tanto reprimir sua gargalhada e ocasionalmente, pedia para os companheiros fazerem silêncio ou rirem mais baixo. Inutilmente, lógico.

Mesmo tendo Hinata-sama enfurnada no quarto com uma gripe deprimente e Neji-sama se restringindo a área de treinos e escritório, num ritual de monge, não podia arriscar. Se fossem pegos, ela não conseguia imaginar o que aconteceria, Neji-sama era... Nunca dava para descobrir o que ele pensava e se sentia alguma coisa... Como Hinata-sama convivia com o primo e ainda o chamava de irmão, sempre seria um dos mistérios do mundo para Mizuro.

Uma garota tão gentil e bondosa como Hinata não deveria estar nesse meio, de homens frios, calculistas, onde as tradições estão acima das pessoas e seus sentimentos. Não gostando de dar asas às suas opiniões, Mizuro voltou a se focar nas piadas de Jiraya-sensei. Tendo perdido o início, não achou graça ao fim da estória, podendo perceber o que os outros, muito entretidos não. A campainha havia tocado.

Estava ela imaginando? Aguardou mais uns minutos e ouviu o ruído com maior nitidez. Sim, a campainha havia ressoado pela segunda vez. Intrigada por não estarem esperando ninguém, tentou chamar a atenção dos colegas e foi abertamente ignorada. Almejando impedir que Neji percebesse a comoção nas imediações da área de serviço, ela se levantou e foi atender a porta principal.

Um rapaz nada asiático, de um sorriso muito grande que a fazia se perguntar o motivo para enorme alegria, apresentou-se – Uzumaki Naruto, posso ver Hinata-chan?

Como se somente sua imagem (que cor de roupa era aquela?) e gestos não fossem chocantes o bastante, suas palavras continham uma intimidade com a herdeira Hyuuga que assustava.

Bem, eles estavam em um fim de mundo e bem, Hinata-sama estava isolada, propositalmente, ali e bem, ela não era o tipo de fazer amizades facilmente e logo com alguém bizarro desse jeito?

Mizuro estava seriamente se questionando se não estava alucinando.

- Posso entrar 'tebayo? – a indagação dele a tragou de volta para a terra, com exceção de sua mente que ainda orbitava ao redor da lua, e ela não conseguiu impedir seu queixo de cair.

Quem era essa coisa alaranjada?


N/A: Parei de ler o mangá, há séculos não acompanho o anime, por causa dos fillers e etc. O mangá me desmotivou há um razoável tempinho também, apesar de ter me agradado muito saber da estória do Nagato, Konan e Pein e, claro, dos pais do Naruto. Mas isso foi a... Uns 10 capítulos atrás?

Lady Yuura: visitei seu profile, fiquei contente em saber q se vc deixa uma review, vc curte msm a estória, obg. O Naruto é importante, mas n se preocupe, Hina-chan é do Neji e de ninguém mais ;)