Kiss and Control

Capítulo 5: Medo.

Dois meses depois...

Era uma noite sem estrelas. As nuvens carregavam o céu de violeta e arrastavam a copa das árvores com um vendaval que previa chuva. Os ramos pareciam chicotear o ar e assim espalhavam folhas pelo chão, com raiva. Raiva. Hinata conhecia muito bem tal palavra, era uma companhia constante e era o que neste exato momento motivava seu perseguidor. Ela sabia. Podia sentir aquela famosa sensação gelada se pregando à suas costas e nuca, rastejando como um réptil pegajoso e frio.

Era medo, medo do que aconteceria se fosse pega.

Atravessar a floresta que rodeava sua "residência" atual não estava sendo fácil, o nervosismo tornava a fuga mais árdua. O inverno tinha abandonado a região, cedendo espaço para o calor primaveril, porém ela não reconhecia esse bosque, não parecia o mesmo lugar em que ela e Naruto lancharam onigiri no meio de uma tarde ensolarada de sábado. Ou quando brincaram perto de um lago, com os pés imersos na água. Não, não era o mesmo bosque. Não acontecera nessa floresta.

E aquele período não pertencia à ela, mas sim à outra pessoa, à outra vida.

Mal contendo o choro ao lembrar do ocorrido, as lágrimas embaçaram sua visão e com os soluços dificultando sua respiração, não percebeu a ligeira depressão no solo. Suas pernas não pararam a tempo, perdendo o equilíbrio e inutilmente tentando se agarrar em algo para impedir a queda, proporcionou-lhe vários arranhões nos braços e mãos, adicionais ao hematomas adquiridos com o acidente ao rolar devido a inclinação. Ela parecia uma boneca sem controle algum sobre sua trajetória e quando seu corpo, vítima da gravidade e das incongruências geográficas, finalmente estagnou, foi porque batera de contra a uma grossa raiz de uma velha cipreste, produzindo um barulho bem humano e perigoso para a integridade da sua cabeça.

Ela estava confusa e dolorida, muito dolorida. Não planejara tudo isso! Só queria encontrar Naruto mais uma vez e gostaria de surpreendê-lo indo até ele, em vez do que usualmente acontece. Porém, antes de se embrenhar pela mata e desaparecer da vista de qualquer um, resolveu olhar para trás e se certificar para própria segurança. Neji a observava da janela do escritório, impassível e ilegível. Já Hinata sentiu seu sangue congelar dentro de suas veias e o coração cessar suas batidas, por longos segundos seu cérebro travou e não conseguia desgrudar suas orbes da figura do primo.

Até a adrenalina esquentar seu organismo e imprimir um choque em suas pernas para ela correr, correr dali o mais rápido que podia e nunca mais voltar.

Por que ela agira assim? Poderia ter retornado à mansão, ou simplesmente caminhar pelas redondezas e fingir que estava espairecendo... Ninguém estava em sua companhia, era um ponto a seu favor que não explorara. Entrara em pânico. E se quando saíra nas vezes anteriores com Naruto também tivesse sido vista? Ela precisava se controlar perto de Neji, não imaginar coisas sem certeza causando tortura sobre si mesma. Contudo, parecia impossível!

Agora estava perdida. Seu primo a alcançaria, se obtivera alguma vantagem por ter tomado a dianteira e atirado suas sapatilhas para o lado oposto que se embrenhara a havia aniquilado.

De onde viera aquele declive?

Desesperada olhou para cima. Começou a escalar a árvore próxima mais robusta como uma gata, seu vestido rasgando ao se contorcer e arrastar por entre os galhos ásperos. Ao atingir um ponto perto do topo, aguardou por um sinal que lhe indicasse que Neji estava se aproximando. Uma fagulha de esperança aqueceu seu peito.

Talvez ela não fosse encontrada. Talvez Naruto tivesse um lugar para ela ficar!

Da mata ouvia o cri-cri dos grilos. Um minuto havia se passado, parecia uma eternidade. Uma coruja cortou o céu piando agourenta, arrepiando-lhe todos os pêlos do corpo. Seu coração bombeava tão forte que temia que sua localização fosse denunciada. E então, ali estava ele, parcos metros abaixo dela, ele também havia parado, os fios cor de terra molhada ondulando furiosamente com o vento, a camisa branca abraçava seu torso e delatava sua posição na escuridão com clareza. Hinata prendeu a respiração, se pudesse teria interrompido suas batidas cardíacas, apertou os olhos e se segurou com mais afinco aos galhos grossos que a mantinham ali.

Rezou para que as trevas a arrebatassem dali, para longe de tudo. Neji não a perdoaria e ela nem sabia identificar o que a fazia temer tanto. Uma surra? Uma bronca? Mais indiferença mórbida? Que ele contasse para seu pai?

... Talvez ela devesse se entregar e implorar por perdão. Que loucura estava fazendo. Ela não calculava envergonhar sua família mais ainda.

Nunca se arrependera tão profundamente por dar margem aos seus impulsos. Quando aquela assombração branca lhe avistou, algo dentro dela lhe comandou correr. E ela o fez, com terror, com pressa, sem precisão, sem lógica. Apenas com o sentimento mais primitivo lhe impulsionando as pernas e comendo seus calcanhares.

A lua cheia emergiu por entre as nuvens e iluminou o que podia alcançar, minando o esconderijo de Hinata. Ela rezava, implorava mentalmente para que ele fosse embora. Três minutos, três longos e rastejantes minutos e em menos de um segundo, ele se fora, retomando sua corrida silenciosa e predatória contra ela.

Com câimbras e seu queixo tremendo de frio, após vários minutos, lenta e cuidadosamente a Hyuuga desceu da árvore, ganhando mais machucados, não que ela se importasse, no momento.

Quem diria, havia despistado Neji-nii-san.

E se retornasse e fingisse que nada houvesse acontecido? Pouco provável que pudesse vê-lo manifestar surpresa, mais pouco provável conseguir mentir-lhe cara-a-cara.

Seus pés doíam, não devia ter tirado suas sapatilhas, que idéia desprezível. Estava indecisa, retornar ou não retornar. Caso não, nem tinha para onde ir e poderia ser pega. Caso sim, ela podia agüentar as conseqüências.

Antes que pudesse dar um passo de volta para casa, deram-lhe um puxão no ante braço direito a fazendo titubear para trás, colidiu contra Neji e o encarou abismada. Não esperava e não percebera sua aproximação, ele não reverberara um ruído sequer.

Suor escorria por suas têmporas e pescoço, marcava sua camisa podendo ver melhor o contorno de seu tórax e abdômen, ela teria corado se a situação fossa outra. Oh, ela estava morta, tão morta.

- N-N-Neji-nii-san... – balbuciou, se ele não a estivesse segurando não se manteria em pé, tremia numa mistura de horror e ansiedade, o local que ele a apertava começando a anestesiar tamanha a força com que ele a comprimia.

- Você acha isso divertido? Me obrigar a persegui-la como um cão? Você acha? – ele aumentava o volume com cada frase proferida e Hinata estava em choque, pela primeira vez presenciando ele libertar uma emoção, por mais que fosse ódio e fosse extremamente perigoso.

- O que pretendia com isso? Já não basta o que tem? O que mais você quer? – ele ventilava sobre ela, as linhas ao redor de seus olhos se enrugavam toda vez que ele gritava, seu peito arfava e ele estava tão perto que ela sentia o calor radiando dele, e que absurdo, ela não estava assustada, assombrada sim, mas não com o costumeiro pavor – Ia fugir com aquela coisa amarela, não ia? – ele lhe agarrou o outro braço e seus joelhos roçavam os delas, a encarava com fervor como se tentasse lhe arrancar a verdade.

- N-Não – respondeu timidamente, e desviou seu olhar do dele – Entrei em pânico quando percebi que você me via Neji-nii-san – disse, sem gaguejar e feliz por ter conseguido articular a verdade em palavras.

Ele a avaliava e inesperadamente, bufou.

- Não acredito, você volta comigo – trovejou e a passos largos difíceis de serem acompanhados por ela, tomou a frente em direção à mansão, não lhe dando opção ao arrastá-la com um aperto doloroso e inquebrável sobre um de seus punhos.

- Desculpe... – murmurou, às suas costas, ainda se contorcendo para sair da garra sobre seu pulso e Neji a puxava e apertava mais a cada tentativa dela de se livrar.

- Pelo que? – ele não estava propenso a tornar as coisas fáceis para ela, tomava cada caminho, ela colidira com arbustos inúmeras vezes, pelo menos seus pés não se feriram mais, ele lhe devolvera seus sapatos – Por me fazer de idiota correndo atrás de você? – o sarcasmo a fez se encolher e corar, involuntariamente.

- Por fugir – pensou em como melhorar seu pedido de desculpas tão fajuto, todavia, algo lhe dizia que conseguir o perdão dele era muito improvável.

- Só? E quanto a não me obedecer? A se encontrar às escondidas com seu namoradinho? Adoecer para não comparecer aos treinos comigo? E por isso, vai pedir desculpas também? – ele interrompera a trilha e de novo, cerrara suas orbes sobre ela, seu braço esticado devido a distância em que a pusera.

Hinata, com cada frase estourada contra ela, estremecia como se algo físico lhe açoitasse, não sabendo de onde encontrou forças para responder, talvez do mesmo lugar que Neji, a sinceridade para com as próprias emoções dele era uma benção para a futura herdeira – N-Naruto-kun é um amigo... E desculpe por tudo que fiz também – emendou, envergonhada.

- Sei... – ele bufou mais uma vez, em descrença e antes de a puxar para retomar a trilha a fitou entre desconfiado e questionador, as sobrancelhas ondulando uma ruga entre as mesmas, no meio de sua testa.

- É verdade! – apressou-se em afirmar e mais baixo, explicou, sem nenhum orgulho sobre o que acrescentou - E você me dava medo por isso adoeci para n-n-não treinar...

- Pois deve mesmo me temer! – ele replicou com um quê de arrogância, esperando pela reação amedrontada dela, que não veio.

Ela o fitava de volta, mas não com receio, como ele estava acostumado e desejava. Seus olhos grandes pareciam querer medi-lo, e transbordavam algo diferente, estava lhe perturbando aquela atitude diferente da parte dela.

- Não mais – e para espanto de Neji Hyuuga ela não só lhe respondeu, como lhe deu um singelo sorriso e o abraçou – Me perdoa Neji-nii-san?

Algo morno se disseminou a partir do centro seu tórax, subindo pelo seu pescoço e esquentando-lhe a face, era incômodo e vergonhoso demais permanecer olhando para aquela garota.

- Vamos sair daqui – sua voz saiu roca e não parecia sua.

Deixando-se ser levada, Hinata o seguiu, não entendendo o motivo de seu primo ter corado. Contudo, feliz por voltar e tê-lo perto como há muito não o tinha.


Dois meses antes...

Hinata acordou indisposta e ela sabia a razão. Era uma forma encontrada por seu corpo para somatizar a vontade de não retomar a rotina, principalmente a rotina de treinos com Neji-nii-san.

Porém, entre isso e tê-lo vigiando seu quarto enquanto dormia não lhe dava muitas opções para escolher, ela ainda não se tornara suicida.

Espreguiçando-se, puxou as cobertas para longe de seu corpo e atirou as pernas para fora da cama. Como estava frio, que inverno impiedoso. Escolheu uma roupa qualquer que lhe permitisse se mover livremente e rumou para o banheiro para realizar sua higiene. Não se permitiria demorar e dar chance para Neji lhe chamar a atenção. Era importante cumprir seus compromissos no horário marcado.

Mizuiro demonstrava contentamento em vê-la saudável, andando pela casa com as próprias pernas em menos de uma semana. Não que Hinata estivesse incapacitada anteriormente, ela somente optara por evitar e bem, isso não a levou muito longe analisando sua atual circunstância. O que a lembrava, tudo que Neji se dedicava a fazer, ele obtinha sucesso, isso a fazia se sentir mal. Mal por tê-lo preso a essa tarefa inútil e chata que era prepará-la. Ele poderia estar realizando tantas outras coisas maravilhosas...

- Neji-sama a aguarda na área de treino – avisou Hikoto, um dos empregados que mais realizava tarefas para seu primo.

A um aceno ela indicou que ouvira e resoluta, foi na direção indicada. Para que prolongar essa tortura?

Ele estava sentado, suas costas voltadas para ela, usava uma calça comprida preta e uma blusa esporte cinza, os fios achocolatados presos perto das pontas como usualmente. Ele bebia chá e olhava o jardim pela imensa varanda. O sol radiava lá fora, como se tentasse derreter toda aquela neve.

- Não vai se anunciar Hinata-sama? – foi mais o que a sentença dele deixou implícito, a indelicadeza e falta de cortesia da parte dela, que a fez se sobressaltar.

- B-Bom dia Neji-nii-san – cumprimentou e o acompanhou repousar seu chá sobre a bandeja à sua direita, em seguida ele se levantou e encaminhou-se para o centro da área de treinamento, para isso não precisou chamá-la, ela havia entendido a mensagem.

- Vamos treinar seus ataques, seu mestre me passou que é o que você precisa Hinata-sama – ele disse se pôs em posição de ataque – Me ataque – ordenou.

Por um segundo ela hesitou e copiando seus gestos, avançou, suas mãos como tábuas mirando os ombros, um por vez, em seguida seu tórax. Ele bloqueou seus movimentos com facilidade, dando esporadicamente alguns passos para trás. Ela esticou sua perna esquerda e a desceu com ímpeto sobre o flanco esquerdo de seu oponente, encontrando somente ar, ele se desviara mais uma vez e em contra ataque, desfilara um golpe forte sobre seu estômago a atirando para longe. Antes que perdesse o controle sobre o curso de seu corpo, Hinata se atirou para frente, lançando a perna direita rente ao chão, em direção as pernas do adversário. Ele se esquivou mais uma vez e repetiu o que ela tentara lhe acertar mais cedo.

O ataque de Neji encontrou o solo e produziu um estalido grave, ele estava levando o treinamento mais do que a sério, se ela não tivesse antecipado o movimento ele teria partido sua perna em dois. Alarmada com a constatação, impôs uma distância segura entre eles.

- Se você não me atacar Hinata-sama não poderemos melhorar suas habilidades – sua voz atingiu seus ouvidos com uma conotação fria.

Ele estava se divertindo em mostrar quão fraca ela era. Disso ela já sabia, não precisava de ninguém expondo tal fato.

A passos rápidos ela zerou os centímetros que os separavam e concentrou seu golpe no pescoço, não se esquivando mais ele a bloqueou e conseguiu o que ela não obtivera antes, sucesso em acertar-lhe um dos flancos e mais, a mantinha imobilizada. Ele respirava um pouco arfante sobre sua orelha, o ar quente resvalando na curva do pescoço alvo feminino.

- Você precisa ficar mais atenta e trabalhar seus passos – observou e enfim a soltou, fitando o suor escorrer da testa dela, onde a franja grudara, e percorrer a lateral do pescoço alojando-se no colo curvilíneo – Desse jeito você nunca vai me acertar – continuou, obrigando-se a focar em outro lugar.

- Uhum – ela anuiu e avançou, os lábios comprimidos e a aura de concentração dominando seu olhar, com uma combinação de chutes e mãos espalmadas todos alvejando seu tronco ela atacou, até ele a imobilizar de novo.

- Não me ouviu Hinata-sama? – ele a apertara mais ainda e apesar do tom gélido, suas mãos queimavam os pulsos dela – O que eu falei sobre atenção?

- D-Desculpe... – ela se ouviu pedindo perdão, submissa à imposição, tentar se livrar dele lhe causaria mais dor.

- De novo – mandou, livrando-a do aperto.

Hinata perdeu a conta de quantas vezes tentou acertá-lo. Não que tivesse imaginado que o treino seria diferente. Quando ele a tocava era somente para causar-lhe dor, excruciante dor. Os golpes eram para machucar, para imprimir nela o quão forte ele era e ela não. Não se admiraria se não conseguisse comparecer ao treino no dia seguinte. Se estivesse viva até lá. O sol que outrora resplandecia no céu, para ela se arrastava, prolongando esse sofrimento. Quantas vezes mais Neji diria: "de novo"? Em cada último assalto bem sucedido dele, ela estava mais acabada não somente física como mentalmente.

- Hinata-sama – ela jazia sobre o piso, tendo mal sucedido em manter Neji sob seu campo visual ao ser acertada no fêmur, ele a atingiu entre as espáduas e não suportando a pancada, ela caíra de bruços – Aguardo-a amanhã nesse mesmo horário.

E a deixou.


N/A: Queria sacudir as coisas, mas agora 'tô confusa, admito.

Tenho um sério problema com o tempo, espero não me perder, tem pelo menos 2 grandes acontecimentos antes dos 2 meses avançarem, concluindo eles (se minha mente não se rebelar e acrescentar algo mais ¬¬) evoluo para o que acontece depois da brincadeira de caçador-caça na floresta muwahahaha!

Eu juro que não era para terminar assim essa cena, mas acabou fofinha então que fofinha seja. É impressionante como eu planejo uma coisa e sai outra...

Vc caro(a) leitor(a) me daria o prazer de saber o que vc acha? Ficaria mt feliz e motivada com uma review, tentarei me esforçar para atender suas expectativas para essa fic ;)

Bjin'