Kiss and Control
N/A: Uma semana antes da Hinata fugir pela floresta e se "acertar" com o Neji. Capítulo anterior foi um mês antes desse acontecimento.
Capítulo 8: Desconfiança.
Uma semana antes...
Difícil de imaginar ou acreditar, mas os treinos pareciam ter criado uma carapaça por sobre a pele frágil de Hinata. Não somente contra os golpes de Neji, como seu olhar. A dor física não usufruía dos nervos anestesiados dela e a tortura mental não alcançava as vias cerebrais da adolescente porque tudo estava em coma profundo. Levantar ao amanhecer metodicamente, a passos calculados rumar para o banheiro e com movimentos sem floreios realizar sua higiene pessoal, para depois seguir e ter o desjejum caloricamente adequado para as próximas atividades eram tarefas diárias feitas com o interesse de um robô pela sua ausência de emoções.
O restante do dia era uma repetição infindável, talvez infindável não fosse a palavra, já que sentimentos de desagrado ela não mais sentia. A luta contra Neji era a parte do dia que quebrava com a rotina. Impressionante como a criatividade dele para atingi-la era inesgotável. O que não se podia dizer das feições de leve desagrado dele ao presenciar a falta de vergonha, espírito de derrota por parte dela enquanto os hematomas se sobrepunham uns sobre os outros como um doente arco íris.
Ela havia melhorado nos golpes, algo lhe dizia que ele estava escondendo os resultados dos pesados acertos dela contra ele muito bem com as camisas de manga compridas, já impedia um razoável número de ataques do primo completarem seu trajeto contra a carne dolorida dela. Porém, o preço que pagou para aprender a se defender nesse método duro de treinamento era visível por sobre sua cútis algodoada.
Durante uma tarde misteriosamente abafada e quente, ela optou por um traje revelador de seus machucados e apesar de não ter sido proposital foi impossível não notar como Neji hesitou a iniciar o treino, inclusive na intensidade dos golpes ele estava se segurando. Mais tarde descobriu que a médica do período de sua gripe e rebeldia estava batendo a porta exigindo ver Hinata com uma insistência perturbadora.
Óbvio que a mulher ouviu alguma desculpa como: "A herdeira está descansando e assim que for devido os serviços médicos apropriados serão requisitados quando necessários". Ela poderia morrer ali que ninguém se importaria.
As imagens de Shino, Kiba e Hanabi pertenciam a outra pessoa, a um passado longínquo.
Naruto não a visitava mais, nestas três semanas que resvalaram sobre seu ser.
Kurenai também não, pelo menos sobre essa Neji assumiu a autoria do desaparecimento. Era o que Hinata podia inferir com o distante: "Kurenai-sensei foi liberada de seu dever para com esta casa".
Neji-nii-san sempre tinha uma carta na manga para adicionar às maravilhosas surpresas que reservava somente à sua prima. Hinata se perguntava se ele ia dormir maquinando como poderia tornar sua vida mais miserável, que partes do dia tinha as idéias mais estupendas e cruéis, o que atrapalhava a sua contra produtividade e o que ele dizia ao elaborar uma especialmente supimpa.
Depois da tentativa falha da médica em vê-la Hinata estava no escritório em vez da área de luta, os ensinamentos que anteriormente se resumiam a chutes e socos foram substituídos por tabelas e relatórios.
E essa era uma coisa nova que Neji-nii-san se deliciou em lhe ensinar.
Para isso os hematomas e assaltos, os quais a haviam feito aprender algo com tanto sofrimento neste isolamento retorcido, não a haviam preparado.
O cérebro de Hinata latejava contra sua caixa craniana, ela mal conseguia enxergar direito, todo seu corpo parecia travar a cada passo que tomava em direção ao escritório principal no segundo andar. Os dias em que começara a lutar contra Neji pareciam ter voltados imensamente piores. Ela não conseguia ver mais algoritmos perante a si, sem dúvidas que a única pessoa que tinha culpa era ela, péssima aluna, péssima herdeira.
Matemática não era sua matéria favorita, contudo, ela não era esse desastre monstruoso que se sentava no escritório todo santo dia.
Talvez ela devesse ter um tempo sozinha com os arquivos, ter Neji-nii-san por sobre seu ombro durante várias horas a desequilibrava que ela nem registrava suas palavras. Hoje a noite ela faria uma visita ao escritório sem companhia nenhuma e amanhã poderia se sair melhor com uma inocente cola no ante-braço direito.
Com esse pensamento esperançoso ela se anunciou no aposento que mais do que nunca se assemelhava a uma prisão no inferno.
Neji estava folheando um grosso e amarelado livro, cujo conteúdo era desconhecido à Hinata, alguns fios sedosos escapavam do cerco baixo sobre seu cabelo bronzeado, uma xícara de chá esquecida jazia próxima ao seu cotovelo direito e Hinata já podia se ver derrubando o teor da mesma sobre o teclado, estava próximo demais do local em que ela se sentaria e tentaria, sem nenhuma chance, obter sucesso nas tarefas ditadas por Neji.
- Bom dia Hinata-sama – ele a cumprimentou e movendo a fronte num gesto circunspecto, ela sabia que esse era o sinal para se sentar e suportar o martírio que mais um dia seria.
O que ela esperava? Para governar a empresa e tomar a frente da família não bastava bloquear alguns golpes de Neji, o futuro era mais que isso, muito mais.
Neji voltou calmamente a folhear o livro enquanto que Hinata o checava inseguramente pelo canto dos olhos, remexia-se desconfortável por sobre a poltrona e encarava depressiva a tela do computador.
- Precisa iniciar a máquina Hinata-sama – a observação dele a fez corar instantaneamente e afundando no assento, esticou o dedo indicador tremeluzente em direção ao botão on-off.
- Espero que tenhamos algum progresso hoje – ele continuou e se possível, ela se enterraria mais ainda.
- S-Sim Neji-nii-san – ela concordou, num fio de voz.
- Fez o dever de ontem?
Que dever?!, foi o alarme que gritou dentro da cabeça de Hinata, as lições a lançavam em tal estado de nervos que nem registrar o famigerado dever ela registrou?! Com um desespero tão conhecido seu ela tentava buscar pela memória algum resquício da ordem que lhe foi dada, quanto mais ela se esforçava mais seus neurônios pareciam se insubordinar e não lhe revelavam nada. Se não estivesse extremamente ocupada em reaver o encontro do dia anterior teria ouvido um não usual suspiro pela parte de Neji.
- Hinata-sama.
Será que as pancadas estavam lhe afetando a mente? Talvez esse treinamento espartano funcionasse no passado e não mais no presente, pois a alimentação não era a mesma, muitos hormônios são usados no gado para abater, pesticidas nas hortaliças e etc. Ou talvez o problema fosse ela, não o método. Talvez devesse ter fugido com Kurenai-sensei e Neji-nii-san poderia ter tomado as rédeas, não é isso que ele vem fazendo de qualquer maneira?
- Hinata-sama.
- H-Hai – ela o encarou constrangida, contorcendo as falanges por debaixo da mesa e uma gota de suor escorrendo lenta e agonizantemente por sua nuca, como se antevendo alguma ação de repreensão fria e maldosa por parte de seu tutor.
- Isso não importa. Relatórios e tabelas servem para lhe auxiliar na tomada de decisões, a liderança durante as reuniões e a decisão sobre onde investir, o que modificar e afins no término cabe a você Hinata-sama – não tinha motivo para se surpreender, Neji sempre foi o tipo que fez uso de uma censura bem mais sutil e letal que seu pai, era lacônico e quando fazia uso de sentenças mais elaboradas era para provocar a mais letal ânsia de suicídio em seu interlocutor.
- Isso não se ensina – arrematou usando de uma intensidade no olhar que não restava dúvidas, era para perfurar o crânio dela, Hinata possuía o palpite de que a intensidade do seu olhar era mais potente, só que dirigida para criar um buraco no chão e ela assim poder desaparecer por ali.
- E-Então talvez isso signifique que e-eu não mereça a p-posição – ela balbuciou, não possuindo energia o bastante para observar a reação dele.
- Não questionamos nossos deveres – ele replicou friamente ao se afastar e dar-lhe as costas.
Se Hinata acreditava que as lições não poderiam ficar piores, ela acabou de ser provada errada. O clima ficou pesado e com um Neji mais distante e gélido, ela nunca sabia onde estava pisando e como verdadeiramente estava se saindo. E como se não fosse o suficiente um pequeno pedaço da sua consciência estava preocupada com ele. Com ele! Que absurdo, era por isso que ela se metia em encrenca, precisava ser mais egoísta e menos enxerida, saber o próprio lugar.
Afinal suas feridas estavam aí para isso. Lembrar-lhe a cada segundo que ela precisava lutar por si mesma, para ser forte.
E cá está Hinata, na porta do escritório, cogitando adentrar ou retornar para o seu dormitório. Os barulhos das teclas sendo pressionadas rapidamente é a prova de que seu primo ainda está lá dentro, quando as lições terminaram há horas, quando o jantar terminou há horas e praticamente todos os empregados estão no sétimo céu de seus bem vindos sonhos. Ela deveria estar lhes copiando.
Indecisão não é uma característica que fale a seu favor para assumir o posto que lhe é reservado. Entretanto, ela não pode combatê-la e derrotá-la. Principalmente quando o assunto é Neji. Ultimamente Hinata tem estado dubiamente dividida entre temê-lo e ajudá-lo. O que é antagônico, como alguém invencível como ele lhe transmite a sensação de necessitar angustiadamente de auxílio? O que prova que seu genitor está mais do que correto, tem algo errado com Hinata.
Seu coração está em queda livre dentro do peito, o estômago se contrai e o seu mais que conhecido sentimento de pavor corre por suas veias congelando as extremidades, inesperadamente para si própria os nós de seus dedos se chocam contra a madeira da porta. O barulho das teclas sendo tocadas desaparece.
- Hinata-sama?
- V-Vim pedir desculpas pela minha colocação errada de tarde. Gomennasai Neji-nii-san – ela se curvou, não permitindo que a hesitação refletisse na sua expressão facial e Neji apreendesse dela, e ao retornar à posição ereta, pois a estática parecia ter durado minutos sem uma resposta qualquer que fosse dele, teve a impressão que as feições dele estavam mais sombrias do que jamais estiveram.
- Não há razão para ter feito isso, sou um mero empregado – péssima escolha vir atormentá-lo, péssima escolha.
Ele parecia querer esganá-la, crescia para cima de Hinata como se ela o tivesse insultado com os xingamentos mais vis existentes, como se o tivesse humilhado e pisado sobre suas costelas, esfregando seu rosto na lama mais asquerosa e fedorenta. Ele poderia empurrá-la por sobre o corrimão com o ritmo que estava levando, com a queda ela quebraria o pescoço sem que ele precisasse enroscar suas mãos ao redor da traquéia dela para desfazê-la.
E inesperadamente ele não fez nada, com um suspiro ele ordenou – Vá dormir, está tarde.
Por Kami-sama o que aconteceu? A coisa era mais séria do que aparentava ser. Se Hinata estava confusa mais cedo, ela acabara de presenciar uma manada de elefantes galopando diante de suas incrédulas orbes. A única justificativa plausível era doença, ou ele fora abduzido e colocaram um clone alienígena em seu lugar! Agora era ela que não estava soando sã.
- Amanhã conversaremos Hinata-sama – e como último aviso e ponto final, retornou para o interior do escritório, vedando a porta atrás de si.
Com um turbilhão de idéias e emoções borbulhando no seu interior ela rolava inquieta por cima do colchão, cada conclusão dispensada após minutos de densa consideração. Será que ele percebeu que não teria como se sair dessa? Seja por um assassinato levantar muitas suspeitas contra sua pessoa, seja por temer que acabasse morrendo junto com ela? Ela havia sido responsável pela sua claudicação que durou dias, afinal. Se houvesse um manual à venda para lidar com alguém como ele não haveria preço pelo qual ela não pagaria.
Estava com uma dor latejante e chata nas têmporas de tanto se esforçar para encontrar uma razão. Era árduo convencer-se de que poderia esperar sinceridade advindos de um Neji frio e imparcial.
Ele provavelmente queria atrapalhar-lhe o raciocínio, impedi-la das poucas horas de descanso para assim humilhá-la mais ainda durante as aulas. Era isso.
Tudo não passava de mais um episódio de sadismo dele.
A quilômetros dali...
- Quem é você menino-bizarro?! – guardar seus pensamentos para si nunca foi uma qualidade de Hanabi.
Olha sua língua baixinha!, era o que Kiba gostaria de ter falado, mas a garota soltou a pérola e encolheu-se de volta dentro da cabine telefônica, ela estava gritando com um pobre coitado do outro lado da linha. Kiba nunca teve tamanha pena de um desconhecido.
Shino colocou a mão sobre o ombro do amigo e balançou a cabeça em negativa, como quem diz para esquecer, deixar a raiva para lá, que ele, alvo da grande indelicadeza não se importava.
Kiba estava soltando fumaça pelas orelhas.
- Já sei onde ela está! – Hanabi sacudia serelepe um pedaço de papel entre os dedos da mão esquerda, abanando-o com o entusiasmo de um jogador que presencia seu time ganhando uma partida decisiva, ela saltitava entre os dois acompanhantes com um entusiasmo incômodo, as letras eram apertadas e disformes para que Kiba sugerisse ao parceiro que procurassem Hinata-chan sozinhos, longe da companhia dessa criatura indiscreta e maléfica.
Ninguém conseguiria ler aquilo, só a monstrinho mesmo. Estavam fadados a morte. Todos eles, oh mundo cruel.
- Não vão me agradecer não? – ela parou com o ar petulante que provocava em Kiba ganas de arrancar os próprios olhos e dá-los de comer para lesmas.
- Obrigado Hanabi-chan – Shino impensadamente soou e seguiu na direção da parada de ônibus.
Kiba não parou de azucrinar o pobre ouvido de Shino durante todo o percurso até o próximo vilarejo.
Ela precisava conversar com alguém. Os empregados fugiam dela como se houvesse o perigo de se contaminarem com uma peste funesta. E nada de Naruto. Algo estava errado. Ele estava vivo?
Hinata ouviu quando seu antigo professor de artes marciais foi administrado com maestria para longe da mansão, de manhã cedo. Sobre Kurenai-sensei à Hinata restava sentir alívio, pois segura sua professora deveria estar, distante desse suplício.
E o que sobrava? Nada, nenhuma palavra de seu pai, de sua família, de seus amigos. E se ela tivesse sido ludibriada? Foi levada a acreditar que estava aqui para uma preparação quando o objetivo fora fazê-la ser esquecida? Ela precisava pedir socorro. Precisava respirar. Neji voltara a agir com a familiar indiferença como se nada tivesse acontecido na noite anterior, impelindo Hinata a questionar a veracidade do que seu cérebro lhe afirmava ter sido real. Os parcos contatos que tinha com o mundo exterior estavam lhe sendo tomados, sem cerimônia, sem explicação!
O afastamento era isso, um teste?
Não havia se diagnosticado como claustrofóbica, mas estava se sentindo desse jeito. O indescritível medo de morte eminente, a sensação de não sentir o chão sob os pés enquanto as paredes se fecham, a escuridão engole a luz com uma voracidade aterradora, o ar se rarefaz e um peixe fora da água tem mais chances de morrer com menos agonia que ela, e Hinata sabia, com mais afinco do que a gravidade puxa a todos para baixo que não viveria mais um dia.
Ela precisava pedir socorro, precisava ter alguém em quem confiar, nem que morresse tentando. O único telefone da residência repousava sobre uma mesinha do escritório e havia senha para desbloqueá-lo e assim, usá-lo. Ela não era um ás da tecnologia. Os serviçais da casa pareciam estar em outro plano, como se uma parede espessa e invisível os separasse de escutá-la, enchergá-la.
Não diferente do nadador que mergulhou mais fundo do que sua reserva de oxigênio é capaz de mantê-lo vivo debaixo da piscina e ele empurra o líquido com todos os músculos funcionantes para despontar pela superfície, Hinata enfim se vê fora da sua prisão branca como o vestido de noiva mais virgem.
Ela devora o ar como se nunca o houvesse respirado, e ao mesmo tempo que expele o gás carbônico de seus pulmões, todas as sensações desesperadoras são carregadas para fora de seu ventre. Andar volta a ser uma ação leve, prazerosa inclusive, se sentindo dona de suas vontades e com controle sobre seus pensamentos ela cogita procurar por Naruto e descobrir o que aconteceu com ele.
Num ato involuntário sua visão repousa sobre um ponto acima da linha de seu pescoço.
E de repente, o medo volta outra vez.
N/A: Peço desculpas por parecer tê-las enrolado até aqui, o que não foi proposital, juro. Agora vamos para os acontecimentos depois da cena da floresta – vide capítulo 6.
.Kah Aluada - você é uma exceção, a grande maioria das mulheres que sofre abuso permanece na convivência com marido/namorado/parceiro, muitas são mortas. No Japão não tenho idéia de como anda essa estatística, no Brasil 1 em cada 3 mulheres que procuram atendimento foram abusadas fisicamente, nós temos a lei Maria da Penha e delegacia da mulher, já lá, não pesquisei afundo mas algo me diz que nem isso tem.
.Nanda Magnail - claro que entendo, somos duas, adoro cenas hot. Não vai demorar, lhe garanto.
.Uchimaki Juvia - Então você adorará o próximo capítulo, apesar dele resistir Hinata estará mais determinada em derreter de vez essa estátua de gelo teimosa.
.Ni-Hyuuga-chan – obrigada pelos elogios. É NejiHina sim. No próximo capítulo terá beijo. Não tem problema em ser pervertida, cenas calientes fazem muito bem para nossa saúde mental, eu particularmente sou fã ;)
R&R.
