Kiss and Control

Capítulo 9: Derretendo.

Havia algo de muito errado acontecendo debaixo do teto que Neji administrava. Não sendo uma pessoa que facilmente permite que qualquer detalhe fuja à sua percepção aguçada sem que uma atitude seja tomada, pela primeira vez ele estava relutando quanto a agir sobre os primeiros indícios de que algo fora do usual estava se desenrolando com o espalhafato de uma gralha.

Começando pela manhã, ele não havia dormido bem com a sua imatura prima fugindo na noite anterior pela floresta, uma dor de cabeça incômoda havia se grudado a ele como o mais eficiente piche e seu quadro álgico não suavizou ao descobrir um buquê de magnólias sobre sua cabeceira, o perfume o impediu de retornar para seus aposentos pelo resto do dia. O que por sua vez foi um suplício, pois para todo canto da casa que se deslocava Hinata parecia já estar lá, não importando a intensidade dos olhares intimidantes e energia gélida que ele enviava para a moça, ela permanecia lá. A partir daí desandou para valer, ele tentou ignorá-la e cometeu a sua maior falta, pois Hinata se ofereceu para lhe fazer um chá e lhe sorriu. Sorriu. Para ele.

Neji nunca foi um rapaz de fugir de qualquer situação.

Mas ele fugiu.

Exasperado e se vendo forçado a recorrer à medidas drásticas, se pegou desgrenhando o cabelo de seu penteado imutável, agora não mais tão imutável. Ele estava precisando se controlar.

Mais senhor de suas ações ele reiterou para si que haviam as lições pela parte da tarde e durante as mesmas poderia fazer uso de seus melhores comentários depreciativos e massacrantes para por essa Hinata borboletinha em seu devido lugar. O mundo não é um mar de rosas e Neji não é um dos seus amiguinhos. Ele a lembrará disso.

Dando-se conta que havia se entrincheirado no escritório, ele destranca a porta e retomando sua compostura retorna ao corredor.

Ele não deveria se surpreender, porém lá está Hinata, com uma bandeja em mãos que contém o almoço. Inacreditável.

Foi-se uma manhã inteira nessa brincadeira de gato e rato?

- Não estou com fome Hinata-sama - sua voz sai imparcial e ele espera que ela murche e perca esse maldito ar de felicidade que a rodeia, é enervante.

- Oh – os lábios dela formam um delicado "o" e apesar de ter se sentido satisfeito, uma parte de Neji o repreende, coisa que ele prontamente varre para fora de sua mente.

- E-eu fiz seu prato favorito – ela insiste, após segundos perante um Neji que discretamente dá sinais de não querer estar ali e dar a conversa por encerrada.

A ele jamais fora permitido ter um animal de estimação, o que com o passar dos anos reconheceu como uma vultosa inutilidade. Um bicho que gasta seu tempo e não resolve seus problemas é somente uma distração de seus reais objetivos, claramente não vale à pena, é uma espécie de luxo que alguém como Neji não tem permissão de usufruir. Apesar disso, ele consegue associar o olhar de Hinata ao do mais pedinte e carente cachorrinho de estimação que possa existir.

- Não tenho tempo para comer Hinata-sama – a frase desenrola de sua boca sem sua permissão.

- Você pode comer d-durante a nossa sessão de hoje à tarde.

E antes que ele possa cortá-la grosseiramente, ela se vira ao dizer que vai guardar e mais tarde lhe trará a refeição.

Pela primeira vez ele não anseia pela hora em que ficará sozinho com ela, entre quatro prisioneiras paredes, por longos e torturantes minutos.

BARRA SEPARADORA

Neji evidentemente evita se aproximar mais que dois metros de sua prima. Ela parece radiar como o mais abrasador dos sóis e encarar suas grandes orbes peroladas se prova mais árduo do que ele sequer poderia imaginar. O sorriso e a naturalidade com que ela estava lidando todo triscar no corpo dele, o repelia para uma zona de distanciamento segura. Hinata não era mais a mesma.

Afirmar que estava sendo difícil para ele, era eufemismo. Por outro lado, seu tio ficaria orgulhoso com o resultado. A intimidade e segurança que ela estava adquirindo com as regras e burocracia da empresa eram estupendas. A aula anterior fora lecionada para uma outra garota. Eles eram muito diferentes, sem dúvidas, ela funcionava perfeitamente quando envolta por atitudes tidas como compreensivas e positivas.

- V-você gostou do almoço que fiz? – ela o fita apreensiva, mas não há comparação entre a expressão e expectativa presentes com a emoção que manifestava muito mais intensamente no passado, ela se encontra relaxada na presença dele.

Inconcebível.

- Sim – sua voz sai estranhamente estrangulada e mais que depressa, Neji retorna seu olhar às páginas diante de seus olhos, que deveria estar lendo e não está.

Ele não gostava do que ela estava lhe infligindo. Neji não parecia mais o mesmo também.

- Lembro-me de quando éramos crianças e Neji-nii-san adorava o prato feito pela minha mãe – o saudosismo era palpável na frase dela e Neji se viu preocupado quanto a dar-lhe privacidade para um momento tão reservado, ao mesmo tempo que deveria tentar tornar mais leve o assunto entre ambos.

Ele não precisou, no fim ela desviou o rumo da conversa - P-P-Poderíamos convidar sua amiga p-para almoçar c-conosco um dia desses – era um pimentão que proferira a sugestão, não Hinata.

- Não tenho nenhuma amiga – apesar de ser humanamente impossível, Hinata entrara em combustão, sentada a frente do computador.

- N-namorada e-e-então? – foi a réplica sussurrada e tímida que ele mal conseguiu ouvir.

- Não tenho tempo para isso, o oposto de você Hinata-sama – ele disse cortante e repreensivo, em pensamentos a lembrança do rapaz loiro pululando como o mais estorvante grilo dentro da mansão o estava fazendo ver em vermelho.

A ausência de resposta dela se arrastou por minutos. Então agora ela se calava? Neji estava ficando mais irritado – Você tem sorte que eu não tenha reportado para o seu pai.

- P-Pois devia – ela não estava sustentando seu olhar ao passo que Neji estava lançando adagas afiadíssimas pelo próprio.

Estava sendo desafiado? Quanta ousadia.

- E por que não agora, não é mesmo Hinata-sama? – ele lhe sorriu sombriamente e num piscar havia desbloqueado o telefone, seus dedos discavam o número com uma precisão e agilidade admiráveis, o rosto denotava concentração e obviamente raiva.

Antes que a linha chamasse algo quente havia se infiltrado por sobre sua mão e para espanto de Neji eram os dedos de Hinata que estavam puxando o aparelho na direção contrária, ela fora silenciosa e habilidosa o suficiente que ele não percebeu sua abordagem. Até o ataque em si se abater sobre ele. Ou ele estava muito cego pelos sentimentos – pft!, sentimentos que patético - ou todo aquele treino prático estava mostrando sua finalidade fora da área de luta. Ou a combinação de ambos.

A fiação do dispositivo vibrava com a tensão e ameaçava romper quando Neji impetuosamente enrolou um dos braços em volta do trançado fio e querendo dar a contenda por encerrada o mais cedo que pudesse, prendeu o pulso imprudente de sua dona metida a atrevida.

Ela não desviava o olhar e sua respiração saía em lufadas entrecortadas, as bochechas coradas pelo esforço – N-Naruto-kun não tem nada a ver com isso – ela estava sendo corajosa e audaciosa por outra pessoa, indigna do sacrifício e da confiança dela, alguém desconhecido e dentro de Neji a ira se multiplicou.

Talvez esse fosse o momento de ser racional, explicar para sua estimada prima que pessoas como ela precisam se ater aos seus deveres, que existe um foco a partir do qual ela não pode zigue zaguear para longe. Neji inspirou e expirou custosamente, buscando paz, ele estava indo muito bem, afrouxando o aperto e voltando a ver as cores como realmente eram no ambiente que o rodeava até Hinata largar a próxima bomba sobre sua mortal cabeça.

– Não nos vemos mais – a tristeza com que proferiu a sentença despertou algo em Neji por anos esquecido.

Nem com calma ele conseguiria entender o que o levou a fazer o que fez. Não havia sentido algo assim antes e se chegou a sentir, estava muito ocupado com suas prioridades para valorizar ou sequer notar essa espécie de desejo. Hinata estava tão próxima, seu cheiro, o calor do seu corpo, da sua respiração e não menos importante a amargura em seu semblante, que ela não teve sucesso em camuflar. Ela estava perto não só fisicamente, porque por mais que ele persistisse em se isolar perante qualquer emoção advinda dela era inevitável não absorver ao menos os nuances e pequenos detalhes de como ela pensava e funcionava, com os dois tendo exclusiva e praticamente um ao outro dentro desse castelo branco.

E assim todo o conjunto nunca estivera tão irresistível, a determinação dela prévia ao discreto desânimo estava impulsionando o sangue de Neji para lugares negligenciados, como que por força da gravidade ele se via caindo perdido na direção dela e como um vicio, que fora desperto na primeira vez que dedilhara centímetros de sua pele e se exacerbara com cada contato adicional posterior.

- Não procure por ele – Neji se ouviu implorando roucamente e quando os lábios dela tentaram articular uma resposta, mas não pronunciaram palavra nenhuma e inocente e confusamente permaneceram descerrados, o convite mudo mais tentador e hipnótico que presenciara – Esqueça-o.

Ele a queria rindo como no dia em que a encontrou ao pé da escada, observando o hall de entrada, rindo e lhe oferecendo essa boca para beijar, cada canto, cada milímetro tão macio quanto veludo, assim como cada pedacinho do seu corpo. A queria tendo igual determinação em querer o que ele estava ansiando por ter, com a audácia de interferir em prol desse namoradinho amarelo canário berrante.

- M-Mas ele é meu a-amigo – ela estava confusa, as orbes dilatadas e fixas nele como se não o conhecesse.

Cansado do tema da conversa, ele desconsiderou o argumento dela, ocupado com algo mais formidável.

- Peça para eu beijá-la – se uma das mãos dele não tivesse rodeado sua cintura, Hinata teria ido ao chão, ou talvez a proximidade dele fosse a culpada, ela quase podia relatar o sabor de sua boca quanto ele lhe sussurrava asperamente, suas pernas sem forças para sustentá-la e um arrepio elétrico dançava por sobre sua cútis ao ritmo das sílabas que ele lhe proferia.

- Peça – repetiu ao sugar-lhe a ponta do indicador vagarosa e ardentemente, espalhando um calor pelo rosto e virilha dela.

Em transe ela o observava com as pálpebras semi cerradas e os lábios mais espaçados entre si, sorvendo o ar em gordas porções com sofreguidão – Hinata-sama – o tom de advertência a sacudiu delicadamente da bruma de luxúria que havia lhe enevoado os sentidos.

- Me b-bei... – e rapidamente ele a colara ao próprio tronco, degustando-lhe a boca com uma paciência e morosidade excitante, prensando-lhe um lábio por vez e seduzindo sua língua para fora da cavidade umedecida, a incitando a convidá-lo a provar-lhe mais profundamente.

A parte racional dela foi calada pela urgência da sensorial, o impulso era irresistível e ela estava se permitindo perder nele, o que era deliciosamente libertador... Interessante escolha de palavras.

Ao provar e explorar as arestas de sua boca com uma sede e perspicácia arrebatadoras, as quais ele nunca imaginou ter dentro de si, e cingir seu músculo ao redor do dela, o mundo pareceu parar de girar e o tempo de correr. Não havia mais importância em cumprir um papel e ordem ditados pela sociedade e sistema. Algo que era imprescindível deixou de ser e Neji estava se sentindo completo e em paz como não se sentia há muito tempo.

Antes que pudesse questionar, coisa que ela muito provavelmente não faria, Neji a ergueu a fim de deixá-la sentada sobre a bancada desse abençoado telefone, encaixando-se entre as pernas dela ao oferecer-lhe especial atenção à pele macia do pescoço, enquanto que Hinata respondia atraindo-o mais para perto, como se fosse possível, ao cruzar os tornozelos ao redor do torso de Neji.

- Devemos ir mais devagar – dentre o amontoado de hormônios libidinosos um grupo de neurônios sãos obrigou Neji a falar.

- Ahm? – ela estava muito ocupada desabotoando-lhe a blusa para dar valor ao que a língua idiota de Neji proferia.

- Não acho que... – ele estava dividido entre ajudá-la ou despi-la primeiro - ... Isso seja certo – acabou optando por se afastar e poder observá-la melhor, ao passo que Hinata cedeu a pressão que o mantinha rente à ela.

Então foi como se um peso tivesse se instalado repentinamente sobre o estômago dele, a boca amargou e tocar sua prima despertava culpa. O que ele estava fazendo?

Como ele chegara aqui? E suas responsabilidades? Deveres? O que ele fizera? Tudo que pareceu tão certo mais cedo, já não parecia mais.

E foi aí que ele pronunciou uma frase da qual não se orgulharia – Perdoe-me Hinata-sama – afastou-se por definitivo, como se um simples toque fosse o mais grave dos pecados, aquela espécie que não lhe dá chances de evitar.

Talvez este fosse o segundo momento de fugir em um único dia. Contudo eles tinham uma platéia saída Kami-sama de onde.

Hanabi-peste, menino-cão e menino-mosquito encaravam ora Neji, ora Hinata surpresos, ou melhor o moleque-mosca parecia o mais composto. Facilmente Neji enrijeceu-se de imparcialidade, o conhecido ódio por ter minutos determinantes da sua vida privada expostos a terceiros o fortaleceu por poder lidar com uma situação sobre a qual tinha controle.

- Seu pai a proibiu de realizar qualquer espécie de contato com a futura herdeira do clã – a voz de Neji ribombou pelo aposento e Hinata inconscientemente se encolheu, almejando do âmago do seu ser poder sumir dali ou enterrar-se por completo.

Hanabi piscou abobalhadamente, como se não acreditasse no que seus sagazes olhos acabaram de presenciar – Você estava se aproveitando da minha nee-chan! – okay, agora ela havia se recuperado.

- Poisé, seu cabeludo hentai! – Kiba não se delongou para entrar na onda da mais nova dos Hyuugas.

- H-H-H-Hanabi-chan o que faz aqui? – Hinata parecia estar pegando fogo, uma parte dela estava em prantos de tanta vergonha, porém ela estava se segurando muito bem, pelo menos por enquanto.

- Você deixou esse pervertido te tocar onee-chan?! – Hanabi voltou-se enfaticamente para a irmã, ignorando Neji como se ele fosse papel de parede com uma facilidade estupenda – O que foi que ele lhe deu para beber? Drogas? Ele enfiou alguma coisa nojenta e hentai em você? – a cada indagação todos os ouvintes e espectadores da cena ficavam mais embaraçados, o espírito de Hinata havia abandonado seu corpo definitivamente.

- Acho que ela vai desmaiar – Shino laconicamente acrescentou e sem demoras, seu comentário se tornou fato.

Somente assim para Hinata ser poupada de mais vergonha.


N/A: O capítulo estava pronto faz tempo mas eu empaquei na cena caliente e eu desanimei porque (SPOILER ALERT!) Neji morreu no mangá. Como assim?!

O importante é que ele está vivinho aqui e esbanjando saúde e sedução, okay? Deixemos desse jeito que está perfeito!

R&R!