Um ano depois, quando terminei Hogwarts, fui embora de casa. Era esse o meu plano. Um tanto rebelde, mas era tudo o que eu podia fazer. Eu não tinha dinheiro o suficiente para viver por muito tempo sem um trabalho, então tratei de encontrar um a tempo para não ficar morando na rua. Minha família nunca foi rica, o que era um tanto vergonhoso porque parecíamos ricos, agíamos como rico, e meus pais só deixaram algumas coisas como herança, mas não muito dinheiro.
Felizmente, meu tio ainda se preocupava comigo, e, como minha tia havia falecido, ele me deixou ficar hospedada em sua pequena casa, ao lado do bar em que ele era o dono e que, logo mais tarde, passei a trabalhar.
Não era um trabalho nada digno – na verdade, era terrível – porque eu tinha que aturar bêbados tarados me olhando e tentando passar a mão em mim. Mas você se engana se acha que me acostumei. Eu me sentia cada vez mais infeliz, numa proporção que me fazia dormir com qualquer rapaz bonito que falava oi para mim e tinha um belo sorriso. Eu devia ter me arrependido por ter ido embora de casa, mas nenhuma vez isso aconteceu. Além disso, construiu-se um conceito em minha mente de que sexo era a única coisa que me fazia sentir viva.
– Astoria, chegou atrasada, onde esteve essa noite? – perguntou meu tio, enquanto eu entrava pela porta dos fundos do bar ajeitando minha blusa.
– Em nenhum lugar – menti. Ainda bem que ele nunca insistia em saber. Afinal, ele não era meu pai.
– De qualquer maneira, precisarei sair hoje. Você pode tomar conta do bar essa manhã?
– Claro – eu menti outra vez. – Mas se eu for estuprada por um bêbado tarado, a culpa será totalmente sua.
Consegui arrancar um sorrisinho dele. Meu tio era um homem gordo e sempre usava uma boina embora isso tivesse saído da moda há muito tempo. Ele não sorria muito desde que tia morreu de uma doença grave. Fiquei feliz por vê-lo animado hoje. Ele deu tapinhas nas minhas costas e disse:
– São apenas oito horas da manhã. Cedo demais para isso acontecer.
– Isso é um pensamento muito ingênuo, tio. Mas aonde o senhor vai?
Ele não respondeu. Falar comigo sobre seus negócios era algo que ele evitava.
– Preciso visitar um grande amigo meu – falou, e eu não podia saber se ele também mentia tão constantemente quanto eu. – Sabe como me chamar caso precisar de ajuda. Volto daqui algumas horas.
– Tá. Até mais.
Quando ele saiu, comecei a limpar o balcão sem muito entusiasmo. O lugar estava vazio, exceto por alguns bruxos desconhecidos de lugares bem distantes. Eu estava terminando de varrer o chão com uma vassoura, mesmo que eu pudesse usar magia, quando alguém entrou pela porta.
Era um homem misterioso de sobretudo preto. Não sorriu – o que era bem estranho porque todos sorriam para mim – e se dirigiu até uma mesa, com passos pesados. Não fiquei com medo, pois ao ver a cor dos cabelos – loiros quase brancos – eu soube quem era. Até parei de varrer o chão. Na verdade, eu quase derrubei a vassoura, tamanha surpresa por ver Draco Malfoy ali.
Hesitei. Será que ele queria ser atendido? Hesitei de novo. Pare de hesitar, Astoria, patético!
Dei um suspiro. Então fui até ele.
Mas antes que eu pudesse perguntar o que ele queria beber, Malfoy virou seus olhos para mim e disse:
– Duas garrafas de whisky de fogo.
– Claro – eu respondi.
– E não demore. Odeio esperar.
E eu odiava quando me apressavam, mas fiz o que ele pediu. Quando voltei com as garrafas, ele já parecia impaciente. Nem agradeceu, mas não era como se eu esperasse isso de alguém como ele.
– Se precisar de mais alguma coisa... – sugeri.
– Não, não preciso – sua voz era baixa e ríspida. – Vai ficar aí encarando até quando?
Dei de ombros e comecei a me afastar, mas quando caminhei dois passos, Malfoy disse:
– Espere.
– Se arrependeu por ter sido grosso? – soltei, sentindo-me estúpida depois que me virei para ele de um jeito ansioso, como se eu quisesse uma resposta.
Ele ergueu as sobrancelhas e ignorou minha pergunta para dizer:
– Você parece ter dezessete anos.
– Dezoito – corrigi. – Completei semana passada. Não que... isso te interesse.
– É, não me interessa. Você é dona desse bar?
Soltei uma risada alta, mas Malfoy continuou sério.
– Não, meu tio. Eu só trabalho, você sabe, como garçonete.
– Imaginei – ele me analisou. Eu nunca me incomodava com os olhares sobre mim, mas o dele parecia expelir fogo. Então, bebendo um gole de whisky, fez a pergunta: – Como está Dafne?
– Hã?
– Você é a irmã dela, não é? – disse com impaciência.
Como ele podia se lembrar de mim?
– Sou – respondi lentamente. – Ela está bem, eu acho.
– Ela trabalha aqui também?
– Não, só eu.
– Ótimo – ele realmente parecia aliviado.
– Está com medo de que seus antigos amigos o vejam bebendo? – perguntei com a sobrancelha erguida, mudando o peso de um pé para o outro. – Eles não estão melhores do que você, acredite.
Draco voltou a me encarar, perigosamente.
– Eu estou bem – sibilou. – E o fato de que eu poderia não estar bem não é da sua conta, Greengrass.
Depois disso, eu preferi dar as costas e voltar a varrer o chão a modo trouxa. Draco Malfoy virou um derrotado, entrando em decadência com sua família de sangue puríssimo. As pessoas não se importavam mais com eles. A paz reinava pelos arredores do mundo bruxo, mas para nós? Bem, nós estávamos em conflito com as cinzas da guerra. Em nós, não havia paz alguma. Apenas um monte de vazio que só podia ser preenchido com a adrenalina. Ou bebida, no caso de Draco.
Era quase meio-dia quando ele se levantou para ir embora. Não estava bêbado, mas parecia mais solto. Arrancou da parede um panfleto.
– Tem festa aqui? – ele perguntou em voz alta. Eu estava desenhando em um guardanapo e levantei meu rosto para responder.
– Sim, toda sexta-feira.
– Vem mulheres, suponho.
– Sim.
Sem dizer mais nada, então, ele guardou o panfleto da festa no bolso como se já tivesse confirmado sua presença.
Presa contra a parede sentia o corpo dele se movimentar contra o meu. Gemi, fechando os olhos com força, enquanto ele encaixava nossos sexos com mais força. Sebastian era seis anos mais velho do que eu, tinha cabelos cheirosos e beijava tão bem que era sufocante. Estávamos atrás de uma rua vazia e escura. Eu não via seu rosto, apenas ouvia seus gemidos em meu ouvido, enquanto eu estava com as minhas pernas envolvidas na sua cintura.
Eu sentia que isso era tão errado e sujo que parecia uma ótima idéia fazê-lo.
– Você não tem medo? – perguntou Sebastian com uma voz hipnotizante, aumentando as estocadas, fazendo minhas costas bater contra a parede. Tentei me segurar em alguma coisa. – Eu sou praticamente um estranho.
Eu não respondi. Não conseguia olhar seu rosto.
– Acha que é o primeiro com quem eu faço isso? – Era a única maneira de ocultar meu verdadeiro nervosismo. Sendo sarcástica.
– Não... realmente não.
Eu não atingi o orgasmo, mas ele sim. Gozou instantes depois e eu tive de me apertar contra ele para não bambear.
– Eu gostei de você – ele sussurrou no meu ouvido, ofegante.
– Uhum – pousei uma mão em seu peito para afastá-lo. Minha saia estava praticamente saindo pela minha cabeça. – Mas isso não significou nada, então-
– Todas as garotas falam isso – ele disse, fechando o zíper da calça. – Mas eu não acredito quando você diz. Você não é como as outras... você não gozou.
Ele se aproximou de mim de novo e foi a minha vez de se afastar.
– Pare. Nós não somos nada. Isso foi apenas diversão.
– Diversão? Parece tão desesperada. Eu acho que você quer dinheiro por isso.
– Não! – eu exclamei. – Não, eu não preciso. Eu tenho trabalho.
– Mas pelo visto não é o suficiente.
Então ele colocou algumas moedas na minha mão e eu nunca me senti tão intolerantemente suja como naquele momento. Meus olhos se encheram de lágrimas.
– Quer um conselho, Astoria? – perguntou. – Você é linda demais para fazer isso com quem você não ama. O dinheiro não é pelo sexo, mas porque eu quero te ver outra vez.
– Você está me comprando?
– Não. Eu estou te conquistando.
– Eu não preciso de dinheiro! – gritei. – Saia da minha vida agora.
– Não é num passe de mágica que vai fazer isso acontecer agora, querida.
Eu não gostei da maneira como ele disse aquilo. Quando ele tentou me agarrar – com força – para mais uma rodada, eu soquei sua barriga para me livrar de seus braços. Joguei as moedas nele e corri o mais rápido possível até desaparecer. Felizmente, quando cheguei em casa, eu não havia sido seguida.
Corri até o quarto em que eu dormia, torcendo para que meu tio não perguntasse porque eu estava chorando. Eu nem estava mais me reconhecendo. Eu me sentia fria, vazia, como se o significado da minha vida tivesse desaparecido. Envergonhada, tirei minhas roupas para tomar banho. Fiquei na banheira mais de meia hora, tentando tirar toda a sujeira que existia em mim.
