Alguns dias depois que comprei uma nova varinha, fui visitar meu tio na prisão em Londres. Não era um lugar como Azkaban. Na verdade, não era tão terrível assim, pois não era exatamente uma prisão de bruxos. E quando entrei no prédio e os policiais me levaram até sua cela, Frank Greengrass estava jogando xadrez animadamente com um colega de prisão, careca, gordo e forte.

– Essa foi uma bela jogada, Eugênio, mas... hum, cheque-mate – ele disse, rindo assim que derrubou o rei do adversário. Eugênio deu um soco na mesa.

– Tio? – estranhei. Quando ele me viu, ficou tão surpreso que nem ligou que Eugênio tivesse quebrado seu tabuleiro.

– Astoria, querida, o que faz aqui?

– Eu não sei o que eu estou fazendo aqui, na verdade. O senhor foi preso por apostar dinheiro? Isso não faz sentido.

– Era dinheiro roubado. Não que eu tenha roubado. Mas os caras me enganaram, eu fui bobo e ingênuo.

– Você não devia estar preso.

– Sim, devia. Além disso, eu não pagava as contas do bar no dia certo.

– Tio, isso é um desastre.

Claro, porque podia ser muito bem evitado.

– Mas não se preocupe comigo, Astoria, eu estou melhor do que você pensa. Fiz vários amigos. – Ele me apresentou a Eugênio, que havia sido preso por ter dormido enquanto estava dirigindo e atropelou um cara inocente no meio da rua. – Aqui não é tão ruim. Não há dementadores, pelo menos. É só algum tipo de castigo...

Eu estava achando aquilo bizarro, mas resolvi apenas assentir e concordar.

– Por quanto tempo ficará aqui? – perguntei.

– Por mais alguns dias. Você está cuidando bem da casa?

– É... – hesitei. – Sim.

Exceto que não entro nela há um bom tempo.

– Sinto muito deixá-la sozinha. Não encontrou nenhum emprego?

– Estou resolvendo isso. Tentei algumas lojas ou livrarias no Beco Diagonal, mas... não estão contratando ninguém.

– Escute, quando eu sair daqui, vou recuperar meu dinheiro e pagar todas as contas que não paguei. E voltarei a ter meu bar. Você sabe que será sempre bem-vinda a trabalhar.

– Obrigada – eu disse, embora não quisesse voltar a trabalhar por lá.

– Eu tenho um emprego muito bom para você, moça – disse Eugênio. – Lá fora, tenho um amigo, ele é cafetão e...

– Eugênio! – exclamou meu tio. – Esta é a minha sobrinha.

– Desculpa, coroa. Mas – ele olhou sinceramente para mim – você parece ter... jeito! Entende? Ganharia muito dinheiro com isso.

– Acho melhor eu já ir embora – falei, pestanejando. Meu tio girava os olhos. – Tchau, tio Frank.

– Desculpe por isso.

– Nah – dei de ombros. – Ele tem razão. Não é como se eu já não tivesse tentado.

Ele me olhou como se eu tivesse assassinado alguém.

– Brincadeira – esclareci, com medo que ele tivesse acreditado. Draco estava me infectando; fiquei meio preocupada. – Não se preocupe com isso. Estou ótima.

Ele abanou a cabeça.

– Mesmo se não estiver brincando, a vida é sua, você decide o que quiser, Astoria. Eu nunca fui um bom exemplo de tio. Desde que sua tia faleceu... Ando desastrado. Esqueço das coisas. E estou ficando velho...

– Você devia ter falado isso para os guardas. Assim você não seria preso.

– E eles iam me levar para um asilo! Nem pensar.

Eu ri. As prioridades do meu tio eram sempre estranhas. Não que ele fosse muito velho. Estava na faixa dos cinqüenta e nove. Mas ele preferir a prisão a um asilo? Ah, era estranho. Mas só me despedi dele, um pouco ressentida quando fui embora e não contei que eu estava me envolvendo com Draco Malfoy... e com sua família também. Não sei o que ele pensaria sobre isso. Eu estava me aproveitando porque eles tinham dinheiro e uma mansão incrível? Eu estava me vendendo? Eu estava pagando de prostituta particular? Não estava preparada para saber. Eu já havia entrado nisso; seria difícil me livrar.

Draco me levou para almoçar naquela tarde. Ele veio me dizendo que estava cansado da comida de sua mãe. E que ele queria fazer algo diferente. Por isso, estávamos caminhando no Beco Diagonal naquele momento. Era fácil para mim; revia alguns ex-colegas que falavam oi com sorrisos animados. No entanto, ao ver quem estava ao meu lado, o sorriso meio que desaparecia e eles continuavam seus caminhos, sem parar para conversar ou saber como as coisas estavam. Em parte, eu gostava disso porque eu estava em uma época que contar as novidades exigiria muita mentira e dissimulação. Isso esgotava. Mas, por outra, eu sentia a rigidez de Draco enquanto ele passava por alguém, e era intrigante.

Quatro anos. Fazia quatro anos desde a batalha em Hogwarts, desde o ano em que Harry Potter derrotara Lord Voldemort. Quatro anos... quando eu tinha quinze anos, achava que quando chegasse esse momento – a paz –, as pessoas teriam voltado a rotina dizendo que tudo estava bem. Mas não chegava nem perto disso. Algumas construções no Beco Diagonal ainda estavam destruídas. As lembranças ainda eram nítidas demais na mente delas. Elas agiam como se agora quisessem se vingar de tudo e haveria aquela marca na pele de cada um de nós até o fim dos tempos.

– Talvez da próxima vez eu deva pintar o meu cabelo antes de sair por essas ruas – ele disse, cutucando o prato delicioso de bife e macarrão que pedimos no restaurante. Aquele lugar pelo visto não tinha problema com Comensais.

– Se você quiser parecer um covarde a si mesmo... – falei, descontraída, mas queria que o comentário o afetasse.

De que adiantaria Draco ter sobrevivido a tudo... só para ficar se escondendo?

Talvez ele também pensasse isso, porque ele nunca chegou mesmo a pintar o cabelo. No máximo, apenas um corte.

Quando acabamos de almoçar, quis comprar um sorvete e mesmo que Draco insistisse em pagar tudo, eu não aceitei. Eu ainda tinha galeões e níqueis suficientes para me alimentar, é claro, eu não estava necessitada ou passando fome. Aos poucos, comecei a notar que ele achava que, pagando as coisas para mim, o fizesse se sentir uma pessoa melhor.

– Você já pensou em doar dinheiro a uma caridade ou um orfanato? – perguntei e ele ergueu uma sobrancelha. Achei que ele ia responder algo do tipo "Eles não transam comigo", mas Draco apenas disse:

– Estava apenas tentando ser cavalheiro nesse encontro.

Ele não entendeu porque comecei a rir.

– Não acho isso engraçado – ele disse muito sério.

– Então... – me recompus – estamos saindo juntos? Como namorados? Se sim, devíamos ficar de mãos dadas.

– Eu posso namorar do jeito que quiser.

E deixou isso bem claro, continuando a andar com as mãos no bolso da calça. Não me importei. Nem mesmo eu sabia como era namorar. Já tive alguns garotos que ficavam no meu pé durante o quarto e quinto ano de Hogwarts, mas não era como se eu realmente gostasse disso. Então não reclamei.

Draco parou de andar subitamente. Eu estava a uns cinco passos a frente dele quando notei isso. Me virei, curiosa para saber o que aconteceu.

– Veja – ele disse olhando para uma loja movimentada ali ao lado. – Isso parece ser do seu interesse.

Chegamos mais perto. Estava havendo uma exposição de artes na loja. Várias pessoas andavam com seus filhos, olhando os quadros pintados. Fiquei encantada e me aproximei mais, para entrar na loja. Estava um pouco amontoada. Enquanto andava, alguém reclamou que não podia entrar com sorvetes. Eu ignorei. Queria ver as pinturas. Sempre fora um passatempo para mim e eu nunca realmente havia estado numa exposição antes. Não como aquela. Eram pinturas diferentes, estilos diferentes, e cada vez que passava por um quadro, havia sempre uma sensação passando por mim.

– Assustador – comentou Draco quando ficamos olhando para um quadro em que havia a gravura de um menino agarrado a um bicho de pelúcia na sua cama e embaixo dela as mãos de um dementador se revelavam assustadoramente. – E você gosta de ver essas coisas?

Ele parecia o mais entediado dali, embora expressasse opiniões, como se os quadros também o fizesse sentir coisas.

– Eu gostei mais desse – apontou para um quadro lindo. Era perfeito. Os detalhes magníficos. Era uma paisagem. Os galhos das árvores pareciam se mover; o vento demonstrado na figura dava a sensação que batia contra o meu rosto. Era um dos melhores quadros daquela exposição, decididamente.

Desde criança, eu pintava quadros, claro, mas sempre quis alcançar o nível da perfeição, e nunca consegui. Talvez não fosse meu estilo. No entanto, quem tinha o talento fenomenal para chamar atenção com seus quadros lindos e perfeitos era Dafne, minha irmã. Eu passei minha infância vendo-a pintar e eu saberia reconhecer de longe um de seus quadros.

Eu apenas não acreditei que aquele estivesse em exposição.

Olhei para Draco e quis ir embora. A pior parte disso era não conseguir detestar a pintura.

– Acho que já vi o suficiente – falei. – Vamos embora.

Era tarde demais para não ser vista. Dafne estava ao lado, conversando com um rapaz, e quando me viu, era como se nunca tivéssemos nos separado. Tudo continuava a mesma coisa entre nós.

– Orgulhosa de mim? – sorriu. Eu quase deixei o sorvete cair ali. – Ah, a propósito, você nunca chegou a conhecer a meu noivo... Astoria, este – ela virou o rapaz moreno e forte, para apresentar: – é o meu noivo, Edgar Mars. Nós vamos nos casar ano que vem. Acho que você já deve ter ouvido falar dele. Edgar é um dos melhores jogadores de Quadribol atualmente.

– Sério? Achei que fosse Ginny Weasley – falei, apertando a mão dele como se não tivesse outra escolha.

Jogadores. Entre os homens. – Ela girou os olhos. – Ah, céus. E é Ginny Potter, agora. Onde andou por esse tempo? Se drogando? – Ela deu um sorrisinho falso a Draco. – O que achou do quadro, Draco?

Ele olhou para mim antes de dizer:

– É bonito, mas nunca o teria em minha sala.

– Astoria, você veio expor um de seus quadros também? – ela decidiu ignorar Draco e fazer aquela pergunta. – Sabe, você devia. Não sabe a quantidade de galeões estou ganhando só por colocar este quadro e receber incríveis elogios. Até Harry Potter olhou para o meu quadro. Você devia ver... eles quase cogitaram em comprar. Eu poderia ser milionária!

– É, isso é definitivamente incrível, Dafne. Mas prefiro continuar me drogando.

O sorriso dela desapareceu e sua expressão ficou um pouco obscura.

– Continua sendo a mesma engraçadinha de sempre. Imaginei que viveria para esse lado depois que simplesmente sumiu. Então isso explica a companhia? – e apontou para Draco. – A propósito, Draco, a Pensy também vai se casar.

– Estão doando maridos por aí? – ele indagou, franzindo a testa.

– É uma pena que esteja assim, Astoria, você poderia estar famosa, como eu. – Ela juntou as sobrancelhas, enquanto eu tossi forçadamente. – Lembro de suas pinturas. Até que não são ruins. E você poderia colocar na sua biografia que eu lhe ensinei a fazer pinturas a óleo.

– Sim, claro – menti. – Nossa, isso seria incrível para você! Bem, nós já estamos indo. Vamos voltar para o mundo das drogas.

Quando saí da exposição, comecei a devorar os últimos pedaços do meu sorvete de chocolate enquanto passávamos pelas pessoas na calçada.

– Ei, vá com calma. Você nem me ofereceu um pedaço.

– Quer? – perguntei, mas só havia sobrado o palito. Eu o joguei fora. – Merda, desculpe.

– Ela tem um ponto, sabe – comentou Draco um tempo depois. – Você devia mesmo expor um de seus quadros ali.

– Dafne não ia gostar da concorrência – ri.

– Seus estilos são completamente diferentes.

– O dela é perfeito.

– Certo, sim. Mas não é melhor que o seu.

– Você só diz isso para tentar me fazer sentir melhor – eu disse. Estava tentando conter as lágrimas por um tempo. Ver como Dafne estava radiante, com um noivo, e ganhava dinheiro fazendo o que ela mais gostava... não achei justo. E se eu tivesse continuado a viver ao lado dela... será que eu estaria naquela situação em que estou agora? Então reparei que Draco estava tentando me fazer sentir melhor. E parei de andar para puxá-lo para um beijo. – Obrigada.