Capítulo nove
This is not your life
Desabei com a cabeça em seu peito nu, ofegante e exausta. Era difícil terminar o dia lidando contra isso. Tomava conta, uma vez que o sexo se postava vagarosamente dentro de mim, e nossos corpos suados bombardeavam um contra o outro numa explosão viciante de êxtase até o orgasmo mais intenso.
– Oh, devíamos parar com isso... – falei quando, sem sair de cima dele, encostei a cabeça em seu peito, sentindo-o transpirar e gozar. Comecei a gostar mais da sensação de fazê-lo perder o fôlego. Era como alcançar algo impossível e eu estava conseguindo todas às vezes.
– Ficou maluca? – enquanto se recompunha, ele enrolava uma mexa do meu cabelo no dedo indicador, sem reparar que fazia isso. Estávamos deitados no chão do quarto, pois a cama já não parecia ter mais espaço para nós dois. – Como é que se faz parar algo fodidamente delicioso?
– Eu não sei, mas isso... é muito bom para ser saudável...
Voltei a olhar para ele, e quando recuperássemos um pouco do nosso fôlego, já estaríamos pronto para perdê-lo novamente. Mas já estávamos no limite. Eu não conseguia mais mexer nenhum músculo. Estavam entorpecidos. Doloridos. Eu queria ficar ali, só descansando, em silêncio.
– Não é fácil te manter satisfeita – comentou Draco um instante depois, como se lesse meus pensamentos.
– Você consegue isso todas as noites – eu garanti.
Ele olhou para o relógio prensado na parede a nossa frente.
– E ainda são apenas seis horas. O que vamos fazer até o sol se pôr completamente? – perguntou inocentemente.
– Não sei... eu estava pensando... aquela exposição... me deu vontade de voltar a pintar.
– Sério? Você está mesmo tão cansada assim? – ele riu pelo nariz mas realmente não reclamou quando saí de seus braços e me levantei. Seus olhos me acompanhavam enquanto eu ia até o banheiro. Não me incomodei. Eu gostava do modo como ele reparava em meu corpo. Fazia com que eu ficasse me olhando no espelho por vários minutos, querendo saber qual parte dali ele mais apreciava. Pelo sexo que fazíamos, ele dava bastante atenção aos meus seios. Eu os detestava. Mas, por outro lado, mesmo quando não estávamos no quarto, sem roupas, ele tinha um interesse curioso pelas minhas coxas.
Por que eu pensava essas coisas? Por que me preocupava tanto com o que ele pensava sobre mim? Encarei-me novamente no espelho. Meus olhos azuis refletidos pelo vidro.
O que você está fazendo aqui?, perguntei-me. Você não queria ficar nessa mansão, com ele, mas agora... você está se aproveitando. E se você se acostumar a isso? Vivendo na luxuria agora enquanto Dafne pelo menos se esforçou um pouquinho para expor seu dom as pessoas. E o que você fez até agora?
E o que eu havia feito até agora? Nem mesmo morando na minha própria casa eu estava.
Draco tinha razão ao dizer que, quando você olhava pela janela do último andar da mansão, a vista era incrível. As montanhas, o céu... tudo. Mas não apenas o horizonte, como também o jardim, o portão de sua própria mansão.
Enquanto escurecia, eu estava na sacada, encarando o pincel entre meus dedos. Eu não sabia o que pintar, mas sabia que queria isso. Mas por onde começar? Olhei a tela branca, depois voltei a olhar para aquela paisagem. Mas como o sol havia se posto, os perímetros ficavam silenciosos e me medonhos.
Passei a trabalhar na pintura durante duas noites, sem Draco perceber. Ele sabia que eu ficava na sacada durante a noite. Uma vez, ele entrou e viu o que eu estava pintando. Sentou-se atrás de mim e envolveu seus braços no meu corpo, de um jeito que nunca fizera antes. Sua mão sempre pousada na minha coxa – ah, merda, eu me acostumei a isso. Ele me observou pintando durante meia hora, sem dizer nada.
– Você não está entediado? – perguntei baixinho.
– Estou muito entediado – ele afirmou, mesmo assim continuou ali.
– Hum... – Olhei para a tela. Eu não estava nada satisfeita com aquela pintura, mas não sei porque continuei pintando.
– Está ficando bom – Draco milagrosamente elogiou. – Mas não estou gostando. Você está fazendo detalhes. Vai ficar diferente das outras que você já pintou.
Eu não pensava que ele fizesse esses comentários para me ajudar. Era mais porque ele tinha opinião e queria se expressar. Raspei a ponta do pincel na borda, fazendo um sombreamento, mas de repente apertei o objeto com mais força na tela, magoada comigo mesma, e se aquilo fosse um papel eu o amassaria, no entanto, apenas rabisquei a tela, misturando as cores, rindo. Ele tinha razão. Por que eu iria fazer algo perfeito? Não fazia sentido!
– Ah, assim ficou melhor – disse Draco, mas não sabia dizer se ele estava sendo sarcástico.
– Draco, acho que vou voltar para minha casa – falei, jogando o pincel ao meu lado.
– Quê? Por quê?
– Já estou aqui há três meses. Estou me aproveitando de você.
Ele ficou calado. Tirou os braços ao meu redor. Não queria ter falado o que vinha me consumindo há algum tempo, dessa maneira... tão direta. Mas me senti melhor confessando aquilo.
– Você não está-
– Estou sim. Eu já devia estar trabalhando.
– Você só tem dezoito anos ainda, pare de ficar se preocupando com isso.
– Como posso parar? Eu estou sozinha, meu tio foi preso e eu tenho que me sustentar. Além disso, tenho dezenove – corrigi. – Eu completei ontem.
– Por que você não me falou? Eu poderia lher dar um presente...
– Pare, Draco, não posso continuar deixando você fazer isso por mim.
– Astoria, não me incomodo.
– Mas eu sim – falei, baixinho, virando minha cabeça para encará-lo.
Draco passou um dedo pelo meu cabelo, tirando-o do pescoço para beijar minha pele, arrepiando-me. Ele falou perto do meu ouvido:
– Achei que tivesse gostado das transas.
– Eu não estou reclamando disso. – Afinal, era a melhor parte do meu dia. – Só quero procurar algo que seja apenas meu. Depois que vi Dafne hoje, sinto que preciso buscar alguma coisa. Nada do que está aqui é meu.
– Bem, eu estou aqui.
Querendo ou não, foi meu coração que reagiu a isso. Ele tinha razão. Passamos tanto tempo juntos naqueles últimos dias que não tinha como não negar. Draco era a única coisa que eu podia dizer que era... hum, minha.
– Mas está dizendo que isso não é o suficiente, não é? – ele disse secamente e se levantou. Encostou-se no mural da sacada olhando para o céu daquela noite. – Não entendo, pois... parece que para mim está sendo o suficiente. Não estou insistindo que fique por aqui, mas sua presença reanimou essa casa. Precisávamos um pouco disso. Você nunca conversa sobre a guerra e não é porque a ignora. Sentia falta de poder ter outro assunto com alguém do lado de fora. De poder, você sabe, rir ou algo assim, sem me sentir sujo.
Eu fiquei ao seu lado e, hesitante, pousei minha mão na dele.
– Draco... – franzi a testa. – Só vou sair daqui. Entre nós, nada vai mudar a não ser que queira que alguma coisa mude.
Ele olhou para nossas mãos. Depois disso fiquei meio receosa de que fosse me mostrar que só fez sexo comigo porque eu estava vulnerável e estava alcançável e fácil demais no momento. Fiquei meio receosa de que eu tivesse me exposto a tanto para ele, que a rejeição fosse me machucar.
Mas corri muitos riscos na minha vida. Não ia deixar aquilo me afetar, se ele decidisse deixar tudo de lado só porque eu iria voltar a viver na umilde casa do meu tio.
– Você não sabe o quanto eu odeio ser desprezado. – explicou, parecendo frustado consigo mesmo. – Até outras mulheres, com quem transei antes, elas me desprezavam... Estou cansado de parecer sujo e... culpado. E estava cansado de dormir sozinho.
– As pessoas não te conhecem agora, Draco – eu disse silenciosamente.
– É – ele concordou, apertando meus dedos. – Você está tendo o previlégio de conhecer a parte boa de mim, Astoria. Pelo menos a que estou tentando melhorar. Você acha que estou me saindo bem?
– Depois que aquele cara no Beco Diagonal cuspiu nos seus pés? Não, acho que você não está se saindo bem com as pessoas.
– E com você?
– Bem, pra mim... você foi o homem mais gentil com quem eu dormi – falei, querendo que ele não fizesse o "gentil" soar como algo pejorativo. – Você me salvou de um maníaco, e me deu um lugar para ficar enquanto eu estava ruim, não importa quais os seus motivos. E você me deu uma idéia incrível.
– Que idéia? Sexo na sacada?
Girei os olhos.
– Pensei seriamente e decidi que vou expor meus quadros naquela exposição – falei pacientemente.
– Tenho certeza de que vai fazer isso para calar a boca da sua irmã.
Eu sorri de lado. Pelo menos um pouco até dizer:
– Talvez. – Totalmente. – E mesmo que as pessoas odeiem todos esses quadros... pelo menos terei algo para mostrar a elas.
– Hum. Pessoas decididas me atraem – ele reparou nisso, enquanto me puxava para ele. – Mulheres decididas me atraem.
Gostei da maneira como ele enfatizou isso, antes de me puxar para um beijo, mais quente, mais intencional. Mesmo que às vezes houvesse frieza em seus atos, sempre notei que seus beijos eram o contraste de suas ações.
