No almoço do dia seguinte, Narcisa permaneceu calada até Draco parar de comer e pousar uma mão em seu braço, chamando-lhe a atenção.
– Mãe, lembra quando a senhora se queixou que não viajava há muito tempo? – perguntou.
– Sim, Draco.
– Eu comprei passagens para levar Astoria comigo ao Caribe, talvez possivelmente a Paris depois. Sei que a senhora sempre adorou Paris. Ela concordou e decidimos que você deveria ir primeiro... para passar um tempo e se distrair.
Ela olhou para mim, e depois voltou a olhar para o filho.
– Seu pai está em Azkaban e vocês pensam que eu vou me divertir? – perguntou.
– Não, mãe, não foi isso o que quis dizer.
– Eu agradeço, Draco – ela falou silenciosamente. – Mas acredito que vocês precisem mais dessa viagem do que eu. Além disso, é uma viagem a dois.
– Então a senhora não vai reclamar se eu deixá-la sozinha por alguns meses? – perguntou Draco. Narcisa negou.
– Não se preocupe comigo, querido. Você acha que eu me sentia sozinha quando Lucius viajava a negócios e você passava o ano em Hogwarts?
– Sim, realmente acho – ele respondeu, fazendo-me rir com sua sinceridade. Narcisa inclinou o canto dos lábios e pensei que era esse o maior sorriso que ela poderia dar.
Era como presenciar uma daquelas cenas raras. Havia uma certa ternura no modo como Narcisa agia com Draco que, vendo-os ali, entendendo-se, era impossível dizer que não se preocupavam um com o outro.
– Quando sairão daqui? – perguntou Narcisa, depois de um tempo, quando eu já estava acabando de comer. Draco quem respondeu:
– Se o pessoal no Ministério não resolver nos atrapalhar, garanto que no próximo fim de semana.
Eu abanei a cabeça, ainda com um sorriso estranho para mim no rosto. Eu sabia que não era motivo para estar feliz, sendo que o pai de Draco havia sido preso... mas eu não podia deixar de me sentir... bem, estando ali com eles.
– Então, Astoria – Narcisa voltou a olhar para mim como se fosse me exigir alguma coisa. – Você ainda se lembra da música que tocou no piano durante sua hospedagem aqui?
– Sim.
– Eu gostaria de ter a partitura. Assim terei com o que me ocupar enquanto vocês estiverem fora.
– Oh, claro, mas... vou escrever a partitura, pois não tenho a original.
– Memoriza todas as notas?
– Costumo memorizar das músicas que mais gosto.
– Entendo. – Eu não deixava de reparar que por alguns segundos ela desviava os olhos na direção de Draco, mas voltava a olhar para mim, sempre com aquele olhar analisador. Mas havia uma certa satisfação ao me dizer: – Isso é interessante, de qualquer modo. Tem um grande talento, Astoria.
Eu agradeci, sorrindo. Nunca me dei ao trabalho de impressionar alguém em minha vida, então estranhei por me pegar satisfeita com o elogio.
– Não vejo Draco praticando nada do que ele goste – comentou um tempo depois, com os olhos em Draco como se não estivesse muito satisfeita. – Costumava colecionar objetos insignificantes, mas nem isso o vejo fazendo.
– A senhora fala como se eu não tivesse parado de colecionar aos oito anos.
– Está pensando em encontrar algum emprego? – perguntou friamente.
Draco não a encarava. Ele colocou o último pedaço do frango na boca e depois respondeu:
– Não preciso disso.
– Sim, você precisa, Draco. Agora que seu pai foi preso, você não pode ficar agindo como se não tivesse responsabilidade.
– Ok. Então vamos lá. Pergunte se alguém quer um ex-comensal condenado trabalhando para ela. Além disso, temos dinheiro para mais cinco gerações. Eu não preciso trabalhar.
– O que vai fazer com suas notas no N.I.E.M's então?
– Que notas, mãe? – ele perguntou impaciente. – A senhora sabe perfeitamente que eu não tive tempo para estudar ou tirar alguma nota nesse exame idiota.
– Sim, sim – ela parecia um tanto ressentida. – Não quis lembrá-lo disso. Faça o que bem entender, filho, só lembre-se de que seu pai confia que você continue mantendo o puro sangue nessa família.
Ele assentiu, silenciosamente. A maioria dos bruxos não pareciam mais ligar para isso, mas para os Malfoy não seria tão fácil assim... deixar mais de um século de geração escapar entre os dedos. Era uma questão de honra manter a linhagem do sangue, mesmo que o motivo da guerra tenha sido esse. Eu os entendia. Minha família agira da mesma forma, embora meu tio nunca tenha tido um filho – por uma razão que eu ainda achava injustificável. Mas ainda havia Dafne. E eu. Éramos as últimas da família... talvez uma de nós fosse se casar, só que a ideia naquele momento me pareceu absurda. Do jeito que Dafne era, nunca arrumaria um marido. E eu...
Olhei para Draco enquanto ele terminava seu almoço.
– Algum problema, Astoria? – perguntou Narcisa, que reparou na minha expressão.
– Nenhum – falei depressa, tão supresa por me pegar imaginando-me dentro de um vestido de noiva que me senti um tanto enjoada. Mas sentia-me mais enjoada ainda por imaginar Draco tornando-se marido de uma mulher, que ele poderia vir a conhecer mais tarde.
Abanei a cabeça, para espantar esses pensamentos. Era cedo demais para me preocupar com isso. Era cedo demais para me preocupar com a possibilidade de nos separarmos. Ìamos viajar. Apenas eu e ele.
– Estou apenas um pouco ansiosa – eu acrescentei. – Vou tentar um emprego no Ministério.
– O quê? – Draco pareceu espantado. – Por que você vai fazer isso? Não há nada lá para você... o que aconteceu com seus quadros?
Hesitei.
– Dafne e eu tivemos uma... briga. Tanya nos expulsou da loja.
A voz de Narcisa parecia um pouco cética:
– Você brigou em público com sua própria irmã?
– Acredite, mãe, até a senhora brigaria se tivesse uma irmã como Dafne.
Ao falar isso, Draco se arrependeu completamente. Narcisa pegou os pratos com as mãos – sem usar magia – e saiu da mesa.
– Mãe, não quis dizer isso. Merda...
– O que houve? – perguntei quando sua mãe já havia saído.
– Ela teve uma irmã pior que a sua. Belatrix Lestrange era minha tia.
– Oh – murmurei. Estranhei por ter esquecido esse detalhe. – Sim, claro. Eu não devia ter tocado no assunto.
– Ela só está abalada com essa coisa toda do meu pai. Você vai mesmo tentar algum cargo no Ministério?
– Por que está surpreso? Acha que não vou conseguir?
– Isso não é para você.
– Eu sei o que é para mim melhor do que você, Draco – tentei dizer aquilo de um jeito pacífico, mas percebi que fui um pouco seca. Ele ergueu a sobrancelha.
– Tem razão. Faça o que quiser.
A verdade é que ele tinha mesmo razão. Cargos no Ministério, departamentos... apesar das minhas excelentes notas nos N.I.E.M's sempre considerei que aquilo não me serviria para nada, porque o que me faria feliz é a pintura, a arte. Apesar de clichê serem meus sonhos, eu nunca me imaginei sendo supervisionada por um chefe ou cuidando do mundo bruxo para que ele ficasse melhor. Haviam tantas pessoas para isso. Mas agora eu havia percebido que os sonhos nunca são o suficiente, uma vez que nós mesmos destruímos as chances de concretizá-los. Precisamos fazer aquilo que não gostamos. Talvez eu possa gostar. Não significava que eu ia parar de pintar, apenas não ganharia mais recompensa por isso.
Dei um sorriso confiante a Draco e me levantei da mesa, beijando seu rosto, sentindo um pouco de sua barba mal-feita. Mesmo que ele não parecesse animado com a vaidade, eu ainda achava esse detalhe friamente sexy em sua beleza.
– Não quero que se preocupe comigo – esclareci.
Ele agarrou minha mão para me impedir de afastar completamente. Virei-me, curiosa, e ele perguntou:
– Você vai voltar?
– Sempre volto – mantive o sorriso de lado e ele sorriu também, soltando-me.
O bruxo, chefe do departamento do nível três, Graig Locke, observou o pergaminho por alguns minutos. Ele espreitou os olhos por trás dos seus óculos e, finalmente, voltou a olhar para mim, sentada a frente de sua espaçosa mesa. Eu nunca tive uma entrevista de emprego, de modo que eu estava um pouco nervosa, achando que ele ia me considerar incompetente para o trabalho. Intimamente, eu estava esperando por isso.
No entanto, um sorriso se formou no rosto velho e enrugado dele, quando disse:
– Currículo interessante. Excelentes notas em Hogwarts.
Em outras palavras, eu estava tentando me alistar ao Departamento de Reversão de Feitiços Acidentais, na central de Obliviação, trabalho que minha mãe tinha. Achei que seria o mais justo agora, mesmo que ela nunca fosse saber que eu faria uma de suas vontades.
– Obrigada – eu disse. – Mas suponho que não tenha mais cargo disponível.
– Não, muito pelo contrário. Sentimos falta de bruxos inteligentes, interessados nesse departamento. A senhorita sabe, depois da guerra nosso trabalho ficou exaustivo, e Obliviadores estão em extinção. O mundo bruxo ainda deve ser permanecido em sigilo, de modo que precisamos de bruxos competentes para o cargo, que possam alterar a memória e reverter feitiços ocorridos não apenas no nosso mundo, mas dos trouxas também. Você será bem-vinda ao cargo.
– Então por que tenho a impressão de que o senhor quer acrescentar uma oposição?
Será que coloquei uma saia curta demais?, pensei desconfortável.
– Pois ainda estou na dúvida – ele disse. – Vi que a senhorita saiu no Profeta Diário, estava acompanhada com um Malfoy.
– Isso lhe dá outra impressão de mim? – indaguei, cruzando as pernas.
– Não, não – apressou-se a dizer. – A senhorita parece admirável, tem uma boa postura. O que quero entender é se... você tem algum problema com nascidos-trouxas ou trouxas, em geral.
Eu pensei um pouco.
– Não me incomodo com eles – falei, receosa que essa fosse a resposta errada. No entato, era verdadeira, e prometi que não iria mentir só para trabalhar.
– É um pouco contraditório. Ao mesmo tempo que queremos mantê-los o mais longe de nossa sociedade, para o bem da magia, precisamos estar conectados a eles, revertendo suas memórias. Você não se incomodando com isso, será mais fácil. Se está mesmo interessada, poderá começar apartir do mês que vem. Manteremos contato com a senhorita.
– Oh, obrigada – falei, disposta. – Eu aceito, sim.
Ele apertou minha mão e, quando saí, pensei que foi fácil demais. Se eu soubesse que seria apenas isso, não teria partido para o bar do meu tio, tentando me adaptar ao amadurecimento; já teria feito essa entrevista e arranjado um emprego mais digno.
Mas talvez, naquela época, eu não estava amadurecida o bastante. A verdade é que sempre tentei evitar trabalho no Ministério. Eu não tinha uma boa impressão dele. Mas agora não era uma questão de escolha, mas sim de necessidade. Não estava disposta a voltar a ser garçonete, muito menos voltar a ver Dafne. Quanto mais longe eu estivesse dela agora, melhor. E eu sabia que eu estava longe.
Senti a ponto da língua dele subindo, do meu glúteo, até minha nuca, numa calmaria e suavidade excitante. Seus dedos fortemente pressionado em minha pele, eu já esperava ele dentro de mim. Mas Draco mordiscou minha orelha e sussurrou:
– Deixe-me dar um presente para você.
Eu sorri, afetada, já imaginando que tipo de presente seria aquele. Mas se eu estava esperando que tivesse algo a ver com o seu corpo, eu fui decepcionada. Eu senti um vazio estranho, um choque térmico, quando notei que ele havia se afastado.
– Feche os olhos – ordenou, enquanto se levantava da cama e andava pelo quarto.
Eu não gostava muito dessa idéia de fechar os olhos quando ele estava sem roupa, mas obedeci, curiosa.
Draco demorou um pouco, então me permiti espiar para ver se ele não tinha ido embora. Claro que não. No momento em que abri os olhos, ele voltava para cama.
– Disse para fechar os olhos.
– Eu-
Mas ele não parecia atento às minhas desculpas, porque voltou a se postar contra minhas costas, penentrando-me daquele jeito irritantemente maravilhoso, fazendo com que gritar fosse minha única opção, enquanto ele movia o quadril contra mim. Oh, era gostoso, mas exigi por mais. Draco pousou o rosto ao lado do meu, apoiando o peito em minhas costas, beijando-me. Abafava assim os meus gemidos. Eu estava concentrada apenas em nossos corpos fundidos, não reparava em suas mãos. Parou de me beijar e balançou um colar a minha frente. Meus olhos ficaram presos na jóia, ofuscados pelo ouro puro que Draco me apresentava.
– Draco – gemi... ele se apertando mais contra mim.
– Aceite – pediu.
Eu reparei que o momento era uma contradição.
– Isso é golpe baixo – rosnei, certa de que estava chegando ao acme.
– Isso é dinheiro, querida...
– Eu... não preciso...
Ele pareceu surpreso com a minha resposta, mas nunca parou de me estocar com mais velocidade e força. Puxou meus cabelos e voltou a me beijar, sua língua roçando a minha no ar.
– Do que você precisa? Eu te dou qualquer coisa – ele disse, enlouquecido, mas eu só gritei em resposta quando ele me penetrou até o fundo, atingindo o meu ponto mais fraco. Eu sentia uma lágrima caindo pela minha bochecha até o travesseiro em que eu apoiava minha cabeça, mas era lágrima de prazer, dor e... de necessidade. Necessidade de ter aquilo, aquela sensação de intensidade, de estar completamente viva e forte o suficiente para sentir dor. Aquela sensação de êxtase quando ele gozava dentro de mim, disposto a fazer qualquer coisa... qualquer coisa por mim.
Quando abri os olhos depois do orgasmo, senti-me zonza, o coração disparando. Eu mal conseguia respirar, principalmente por ter o corpo forte de Draco prendendo-me contra o colchão macio, inerte, exausto, quente...
Eu estava sem forças para protestar, então o deixei enrolar o colar pelo meu pescoço, fechando-o, dando a mim aquele presente. Um gesto para mostrar que me amava? Talvez. Ele não disse nada depois, mas deitou ao meu lado e colocou os braços ao meu redor.
– Quero que você fique comigo – sussurrei com uma determinação inédita. – Talvez eu só precise disso agora...
– Não sou uma boa pessoa, Astoria. As pessoas me odeiam, e elas podem julgá-la...
– Não... não me importa o que as pessoas sentem por você. Eu me importo com o que eu sinto.
– Você me ama? – ele perguntou tão baixo que quase não o ouvi. Não foi uma pergunta, na verdade pareceu uma indagação, algo que ele tentava descobrir... mas não tinha tanta certeza. Levantei o rosto e olhei para ele. Passei um dedo pela sua barba pálida. Ele me conhecia, ele sabia que eu não estaria ali, se não o amasse. Ele sabia da resposta, mas pensei que fosse significativo eu dizer com minhas próprias palavras.
– Não quero que me dê jóias para me ouvir dizer que sim. Eu o faria de qualquer maneira.
– Vou lhe dar jóias porque você fica perfeita em todas elas.
– Eu fico perfeita em você – garanti, erguendo o canto dos lábios num sorriso provocador. Eu o beijei e começamos tudo de novo.
Algumas horas antes de Draco e eu viajarmos para o Caribe, eu terminei de escrever a partitura da música que Narcisa estava interessada em tocar. Fui até a Mansão durante a tarde para entregar a ela. Os perímetros estavam silenciosos, como sempre, e o portão aberto. A última vez que o portão esteve aberto, não havia sido um bom sinal. Mas consegui entrar, subindo a escadaria de pedra até a porta do hall de entrada. Draco dizia que eu era permitida entrar quando quisesse.
Então o fiz, meus passos marcando o piso. Eco. Chamei por ele, mas não fui atendida. Ok. Não ia acontecer isso de novo! Mas antes que eu pudesse me desesperar, entrei na sala onde ficava o piano. Pelo menos Narcisa estava lá mesmo que...
O quê?
Meu susto foi grande que quase derrubei as partituras no chão. Narcisa estava debruçada no piano. A princípio, tive o pressentimento de que ela estava desmaiada. Mas a medida que fui me aproximando, desesperada, de seu corpo inerte, meu receio piorou.
– Sra. Malfoy? – minha voz saiu baixa. Pigarreei, apertando seu braço. – Narcisa?
Ela tinha a mão direita segurando um copo. Ela moveu os dedos, fracamente, e o copo se espatifou no chão.
– Meu Merlin... Draco! – gritei, mas a mesma mão agarrou minha blusa. Narcisa ainda estava acordada, mas parecia entorpecida, mesmo que tentasse me dizer coisas incoerentes:
– Não... eu tentei...
– Narcisa, o que houve?
– Eu tentei, eu juro...
Ela virou seu rosto para mim. Estava cheio de lágrimas. Fiquei desesperada, uma situação tão incomum...
– Onde está Draco? – perguntei, tentando manter a calma. Eu vi na parte do piano em que se apaiova a partitura, um frasco vazio de antidepressivo, e tive a impressão – não, tive a certeza – de que Narcisa andava tomando esses remédios.
– Não, não... não pode contar a ele... prometa que não conta a ele? Ele vai achar que sou fraca, que...
– A senhora não é fraca – eu me convenci disso. – Mas a senhora não está bem... eu preciso dizer ao Draco, nós não podemos viajar sabendo que...
– Não! – ela disse rispidamente e enxugou o rosto. – Não... não vou atrapalhar a viagem de vocês...
– Mas...
– Eu disse que não, Astoria. Se você contar ao Draco, se um dia ele souber que sua própria mãe... que ando tomando essas... coisas... ele vai... ele vai piorar! Não faça isso para ele!
Depois tentou se levantar da cadeira, mas teria caído se eu não tivesse tentado segurá-la. Estava tão entorpecida que fiquei surpresa por vê-la formulando muitas palavras. Eu a levei até o sofá, onde ela descansou a cabeça e fechou os olhos. Eu já passei por isso. Não que eu tomasse antidepressivos, mas minha mãe não foi uma mulher muito feliz. Já tive de acudí-la várias vezes, nada contente.
– Você é uma boa moça, Astoria. Boa até demais para essa família... Desculpe pelo que viu. Mas não conte ao meu filho, não conte...
Ela parecia tão desesperada e ao mesmo tempo arrependida que a única opção que eu tinha era prometer que Draco não ficaria sabendo. Ela tinha razão, Draco ficaria ainda mais infeliz se tivesse a consciência de que sua mãe sentia-se enfraquecida, sozinha, completamente necessitada de poções para se manter firme.
Ao mesmo tempo que fiquei preocupada, eu tive uma súbta decepção. A postura dela era tão forte em público... será que foi ingenuidade minha acreditar que uma mulher como ela pudesse ser forte até para si mesma, sabendo de tudo o que passou e estava passando?
Narcisa dormiu imediatamente no sofá. Limpei os cacos de vidros e guardei as poções na prateleira, com a varinha. Por último, pousei a partitura sobre o piano. Quando Draco chegou na Mansão e viu que sua mãe estava dormindo, ele fez um muxoxo.
– Já acha que só por que você é de casa, deve abandonar a pose de anfitriã. Ei, mãe – ele chamou, apertando o ombro dela. – Acorde, já vamos viajar...
– Draco, é melhor deixá-la descansar – comentei, segurando o braço dele. Não consegui negar a vontade de Narcisa. Draco estava tão genuinamente animado e isso era muito raro de se ver.
Ele não insistiu muito.
– Bem, podemos mandar carta quando chegarmos – ele sugeriu, segurando a minha cintura. – Vamos, o trêm não vai nos esperar. E estou curioso para ver você com biquini.
Eu sorri. Draco se adiantou primeiro para sair, mas dei uma última olhada em Narcisa. Sempre fui boa em esconder as coisas, mas não me senti tão bem sabendo que esconderia isso do próprio filho dela. No entanto, não podia quebrar uma promessa e sabia que ela se preocupava verdadeiramente com Draco. Ele estava até se queixando das notícias do Profeta Diário, enquanto pegávamos o trêm. Quando ele se queixava de alguma coisa, era porque já não parecia se importar com as opiniões, e que estava mesmo com um bom humor.
Eu nunca viajei para muito longe. Sempre quis sair do país e conhecer novos lugares, novas paisagens, quando eu era pequena. Ter feito isso foi uma das melhores coisas da minha vida e fiquei grata por Draco me proporcionar uma viagem exótica e tão imprevisível.
Ficamos hospedados em vários lugares e não viajamos somente a Caribe ou Paris. Ele aproveitava e toda vez que eu mencionava o nome de um país ou um lugar, ele nos levava para lá. Nós íamos a festa, sempre em regiões onde bruxos estavam. Mas mesmo que não entrássemos em contato com os trouxas, Draco não poupava seus comentários ácidos relacionados aos bruxos, o que às vezes, confesso, me deixava desconfortável. Mas contanto que ele apenas dirigisse aqueles comentários só para mim, pelo menos ninguém estava sendo diretamente ofendido.
Nós gostávamos de observar as pessoas. Não conversávamos com ninguém. Durante as festas, alugávamos um canto apenas nosso, em que ele me puxava para o seu colo. Com um braço em seu ombro, eu me sentava na sua perna direita, observando as pessoas dançando e bebendo. A mão de Draco nunca abandonava minha coxa.
Lembro que durante uma música, um rapaz latino se aproximou de nós dois e olhou para mim com um sorriso muito elegante. Ele fez uma mesura exagerada e perguntou se eu faria a honra de dançar com ele. Foi naquele momento que me senti verdadeiramente comprometida com Draco Malfoy.
Como o idioma do rapaz era espanhol, antes que eu pudesse dizer alguma coisa em resposta, Draco pousou os lábios em meu pescoço de um jeito casual, só para que o cara entendesse quem é que me tinha de verdade.
– Conhece ele? – perguntou Draco a mim.
– Não. – Mas sorri educadamente na direção do rapaz e respondi: – Obrigada, mas... estou com ele.
O rapaz assentiu decepcionado, e foi embora. Não era uma festa para casais, pelo visto, mas não ligávamos. Eu não gostava de chamar atenção; Draco havia se acostumado com a discrição. Nós? Anti-sociais? Talvez. Éramos discretos, desejosos por sossego. Não importava; gostávamos de ficar sozinhos juntos.
Fazíamos loucuras. Sexo na praia, na sacada. Mas não tiveram mais loucuras do que quando visitamos París. Mesmo que Draco debochasse o fato de ser uma cidade tão romântica, ele fazia questão de terminar a noite da maneira perfeita.
Foi como uma férias para mim. Eu me distraí, eu me diverti. Mas não que em nenhum momento eu tenha ignorado os problemas. Mas talvez merecessemos algum tipo de sossego, de paz, por alguns dias, então prometi a mim mesma que ia aproveitar o que podia. Foi o que fiz. Eu acordava ao lado de Draco, sempre, e às vezes eu me pegava olhando para ele, que era o último a despertar do sono. Nunca acordava antes de mim. Exceto uma única vez, no último dia do mês, em que na mesma manhã voltaríamos para Londres, que eu o vi no outro lado do quarto, olhando para a janela da sacada do prédio que ele nos hospedara em Sydney, na Austrália.
– Bonita vista – comentou, quando notou que eu estava acordada. – Podemos vir aqui todos os anos. Você nunca pintou tantos quadros em apenas um mês...
Era verdade. Aquelas viagens davam-me inspiração, tanto por causa das paisagens quanto por causa dos momentos.
– Uma pena que terá de perder sua vida trabalhando no Ministério, para aqueles bruxos superiores. Eles não merecem você.
– Não vou perder minha vida – girei os olhos.
Ele se virou para mim, a calça estava aberta como se ele tivesse preguiça de abotoá-la, sabendo que eu a tiraria em algum momento. Dei um sorriso, notando que ele estava me dando um trabalho a menos. Draco se aproximou de mim, de joelhos, na cama e me beijou.
– Você pode ficar comigo – disse num sussurro.
– Eu estou com você.
– Sim, claro, mas você não precisa ficar acordando cedo, se preocupando em impressionar um chefe... faremos sexo a noite toda, de novo e de novo... não precisamos ir embora...
Eu segurei seu rosto, beijando-o fortemente.
– Sua perspectiva de vida é tentadora. Mas é fácil demais.
– E daí? Não é isso o que você quer?
– Coisas fáceis nunca duram muito tempo, sabia?
– É fácil... querer você... a noite toda, te fazer gemer, gritar... é muito fácil... E eu o faço há um tempo necessariamente longo para confessar que... sua teoria falhou comigo.
Fiz que sim lentamente e correspondi ao beijo, colocando a mão em lugares do seu corpo que me fazia estremecer, mas ele interrompeu e se afastou, fingindo que não havia se estabelecido um clima quente naquele momento. Eu me sentia nervosa quando ele ignorava suas próprias necessidades de manhã, e não me deixava satisfazê-las por ele.
– Mas precisamos realmente ir embora – ele disse. – Tempo de visita em Azkaban. Tenho que aproveitar. Minha mãe vai querer que eu a leve, obviamente. Não suportaria o lugar sozinha, não outra vez.
– Entendo – eu assenti silenciosamente. – Tudo bem, vou ao banheiro então.
Eu me levantei e sempre quando eu dizia que ia ao banheiro, esperava que ele me acompanhasse. Mas dessa vez Draco estava concentrado demais, preocupado demais, em outras coisas, então fui tomar banho sozinha.
Encarei-me no espelho antes. O colar ao redor de meu pescoço nunca foi abandonado. Eu o adorava, era lindo. Um pequeno pingente de diamante... Draco nunca pareceu arrependido por me dar aquele colar tão maravilhoso. Às vezes eu sentia que fazia um favor a ele, aceitando tudo o que ele estava disposto a me dar.
Eu nunca fui gananciosa. Esse perfil era de minha irmã. Mas... não podia deixar de me sentir satisfeita. Viajei pelo mundo. Transava todas as noites, sem me arrepender na manhã seguinte. Ganhava presentes... Era isso o que toda mulher gostaria de ter? Sim, sim. Mal sabia eu, naquele momento que observava o reflexo do meu rosto de vinte anos, que mais tarde eu estaria submetida... a essa vida para... sempre.
Então como eu não desconfiava do futuro, eu não me sentia completamente segura. Havia coisas a serem resolvidas, medos a serem superados. Toda vez que encarava Draco eu via, além da constante frieza, tristeza e incerteza em seus olhos cinzas. Eu adorava vê-lo sorrir, mas ele só o fazia para mim. Ria dos meus comentárias e não eram risos irônicos. Bem, não na maioria das vezes. Mas eu ficava preocupada... não sabia como e nem por quê... preocupava-me o modo como ele lidava com as outras pessoas.
Como se tivesse desistido delas. Como se estivesse se rendendo: "Chega, esse lugar não é meu, nunca vou ser perdoado." Ele mal contava sobre seus antigos amigos. Ora ou outra fazia referências a Crebbe, numa voz irritada como se não perdoasse o ex-amigo por ter morrido. Sem contar que todas às vezes que via uma notícia sobre o Herói Harry Potter e seus amigos, ele meio que apertava os dedos nos jornais e fazia comentários como: "Eu teria feito um favor a eles se tivesse morrido. Mas os idiotas resolveram me salvar."
Eu observava, através disso, que Draco se sentia grato, mas ao mesmo tempo nervoso porque não queria dever a vida a ninguém.
Depois que saí do banheiro, já trocada de roupa mas ainda secando o cabelo com a toalha, Draco me olhou de um jeito intrigado.
– Que foi? – perguntei, com a testa franzida. – Nunca viu uma mulher penteando o cabelo?
– Não – ele respondeu. – Nunca vi. Só acho estranho... você não usa magia.
– Não para coisas supérfluas – respondi. – Posso fazer isso sozinha, quero dizer.
– Hum. É, tem razão. Você não é como os outros sangue puros que conheço.
– Contando pelo tempo que passamos juntos, você não parece se incomodar com essa diferença.
Ele deu um sorriso, um daqueles sorrisos raros e sinceros.
– É, acho que não me incomodo.
Nós fomos embora no mesmo dia. Voltamos a Londres com uma sensação de que não era realmente a hora de voltar. Queríamos ficar mais tempo em lugares que ninguém indesejável pudesse nos encontrar. Ele me deixou na porta do meu apartamento, o que achei um gesto diferente, mas que me deixou genuinamente satisfeita.
– Obrigada pelas viagens – eu o abracei.
Era difícil entender nosso relacionamento. Conhecíamos cada parte de nossos corpos, mas quando eu o abraçava, era como se carregássemos outro nível, um nível perigosamente sério entre nós. Na verdade, era isso o que estávamos fazendo.
Nós nos afastamos. Droga. Tínhamos ficado tanto tempo juntos que não parecia certo deixá-lo ir assim, sozinho. Eu puxei o braço dele e o beijei. Ele soltou uma risada contra meus lábios. Parecia que quanto mais eu o beijava, mais eu o queria.
– Certo, desculpe – eu me afastei, meio zonza. Eu me sentia patética. Eu me sentia como se não quisesse ficar longe de Draco. Não era apenas pelo amor que eu sentia, não. Era preocupação. Como se eu tivesse medo de deixá-lo sozinho. E mesmo que tívessemos passado tanto tempo juntos naquelas viagens, ainda ansiava em fazê-lo sorrir todos os dias. – Você precisa ir, preciso deixar você ir. É que... – olhei para o zíper do seu casaco – eu não costumo... me apaixonar. Não acontece toda hora.
Na verdade, não acontece nunca.
– Espero que não – ele disse baixinho, impregnando mais um sorriso no rosto. Depois ele foi embora, sem muita pressa, sem muita vontade.
Coloquei a mão sobre o peito quando entrei em casa. Meu coração ainda ficava descontrolado. E, pela primeira vez, senti que eu não precisava apenas do sexo para me sentir viva.
