Eu estava tentando colocar minhas sandálias, sentada na margem da minha cama, mas essa não era uma tarefa fácil uma vez que ele ficava tentando me puxar de volta para ele.
– Preciso ir mesmo – falei, enquanto ele me pegava friccionando os lábios na minha nuca, no pescoço, nos ombros... É claro que eu preferia passar a manhã toda com ele, mas devemos fazer alguns sacrifícios às vezes. – Não posso chegar atrasada, sabia?
Naquela mesma semana recebi uma carta do Ministério. Eu deveria começar o meu trabalho a partir da próxima semana, o que eu já esperava. Claro que, apesar de não estar entusiasmada, eu precisava voltar a fazer alguma coisa.
Mas se tudo dependesse de Draco, ele não me deixaria sair para trabalhar.
– Não... – ele reclamou num sussurro, enquanto eu tentava não rir. Era tão estranho... mas tão bom... saber o quanto ele parecia precisar disso. – Não saia daqui tão cedo. Dois minutos a menos não vai fazer diferença...
– Até parece que vou sumir pra sempre, Draco – eu disse jogando minha cabeça para trás para dar-lhe um último e rápido beijo. Por fim, ele cedeu e me deixou ir embora. Era estranho me despedir dele, já que ele quem deveria sair da minha cama, mas não me sentia incomodada. E não precisava. Ele sabia que também deveria ir embora.
Quando decidi trabalhar meu maior intuito foi me distrair das pessoas que eu já conhecia. Tudo bem, era difícil não esbarrar em quem já foi meu colega em Hogwarts. Sabia que podia lidar com isso, conversando normal e educadamente. As primeiras semanas não foram tão ruins, e posso dizer que não superaram minhas expectativas – porque eu tinha péssimas expectativas. Na verdade, eu consegui me distrair bastante e conheci pessoas realmente honestas e profissionais, que estavam dispostas a me ajudar. Mesmo que eu não ficasse por aí me socializando, essas pessoas vinham ao meu encontro e falavam sobre suas vidas. Eu não me interessava nada pela vida delas, mas se isso me permitia não contar sobre a minha vida, ouvi-los era o máximo que eu podia fazer, e com um certo gosto e inveja.
Eu sempre fui aplicada e aprendia as coisas com facilidade. Lembro-me que ouvia minha mãe tocando piano e assim decidi que gostaria de ter aquela habilidade. Posso dizer que consegui. Eu adorava ouvi-la, porque aqueles minutos me mostravam que minha mãe não era infeliz. Não quando o som do piano soava em seus ouvidos e as teclas se moviam em função de seus habilidosos dedos. Depois que ela morreu, eu prometi que nunca mais tocaria piano, e essa foi uma promessa quebrada quando entrei na Mansão dos Malfoy. Mas não me arrependo. Não me arrependo mesmo. Tocar piano para Draco era uma das minhas funções preferidas. Ele não prestava atenção na música, mas não tirava os olhos de mim. Claro que não aplaudia, mas pedia para que eu não parasse.
Para mim, trabalhar foi como tocar piano e eu ficava surpresa por fazer tal comparação. Piano é uma das coisas que mais gosto de fazer, além de pintar, e me proporciona um prazer enorme. Trabalhar não me proporcionava isso, mas quando comparo ao piano, é porque os esforços são quase os mesmos. Observava alguém fazer a sua parte e aprendia rapidamente como fazê-lo, sem muitas dificuldades. Não tive problemas com chefes, porque eles pareciam gostar do fato de que eu era uma autodidata ou coisa parecida. Eu tirava menos peso do trabalho deles. Saber disso fez com que eu não reclamasse todos os dias. Além disso, meu salário era bom o suficiente para que eu permanecesse com meu apartamento e ainda comprando algumas roupas novas, vestidos incríveis...
Meu tio passou a dizer que eu estava sorrindo mais do que nunca. Aquela época foi à melhor da minha vida, talvez, por motivos realmente bobos e inesquecíveis. Viajei para lugares que sempre quis, não apenas com Draco, mas por coisas de trabalho. Fiz amizades, mesmo que não tenha me aprofundado em nenhuma delas. Eu não conseguia confiar, por mais que essas pessoas pareçam tão boas e honestas. Claro que não ia com a cara de outros colegas e era fácil ignorá-los.
Mas a pessoa que mais me deixava desconfortável era Pansy Parkinson. Juro que tentei durante os primeiros meses de trabalho no Ministério nunca me esbarrar com ela pela frente. Era complicado, mesmo assim, porque seu trabalho era o mesmo que o meu, exceto que eu estava três níveis abaixo que ela.
Quando fui promovida para o próximo nível, acho que passei a ser algum tipo de ameaça, porque durante um almoço tranqüilo no Caldeirão Furado, ela se sentou a minha frente sem ter sido convidada.
– Greengrass – ela disse, colocando a bolsa sobre a mesa. – Precisamos conversar.
– Sobre o quê? – Porque eu não achava que precisássemos conversar sobre nada.
– Você sabe exatamente sobre o quê.
Pensei que seria sobre minha irmã – e tive o breve pressentimento que Pansy estava abrigando ela em sua casa – mas o assunto era pior. Não era nem sobre meu trabalho e que eu podia roubar seu cargo se eu estivesse com pressa. Era sobre Draco.
– As coisas parecem bem sérias, não? – ela perguntou num tom estranhamente casual. Eu me recusava a conversar com ela. Principalmente sobre ele. – Vi você e ele na festa semana passada. Saber que Draco está dando as caras por aí... me deixa curiosa. E Dafne me disse que vocês estão tão grudados que provavelmente vão se casar.
– Não estamos grudados – eu disse. Pelo menos não em público.
– Sei o que quer dizer. Sei mesmo. E entendo. Não sei se você lembra, Draco me namorou em Hogwarts. Ele não curtia esse status, mas convivia com ele.
– Uhum. – Eu não sabia muito bem o que ela queria que eu dissesse. Então decidi ser um tanto imprevisível, meio sarcástica e irônica: – Por quê? Por acaso pretende voltar com ele? Sabe que não vai conseguir.
Pansy me encarou de outra forma. Havia um sorriso meio medíocre no rosto. Ela estava com cabelos cumpridos, diferente da época em Hogwarts. E ela era uma mulher muito bonita. Fiquei me perguntando se Draco pensava nela algumas vezes. A idéia me deixava enjoava. Ultimamente, pensar em Draco pensando em outra pessoa quando estava comigo, me deixava frustrada e com um leve temor. Nunca me atrevi a perguntar, mas às vezes ele ficava tão distraído e olhando para o nada quando eu contava sobre meu trabalho, que era impossível não se preocupar com o que ele poderia estar pensando, ou em quem.
– Eu não preciso mais dele, querida – disse Pansy, tranqüila. – Quero dizer, só alguém mesmo muito desesperada que precisaria dele. Draco virou um fracassado.
– Eu não creio que ele tenha sido o único.
Ela me alfinetou indiscretamente. Eu tinha o mesmo direito de fazê-la.
– Está falando de mim ou de você? Céus, Astoria, Dafne tinha total razão. Você nunca quer ouvir a verdade. Sabe que não tem futuro algum, com Draco. Não se você não quiser... bem, se casar.
– Aonde você quer chegar com tudo isso? Eu não tenho muito tempo.
– Você vai entender, querida. Acredite em mim. Ninguém passa a vida inteira com Draco Malfoy. Experiência própria. Seu conto de fadas vai terminar.
Eu senti tanto desprezo por ela que falei calmamente, surpreendendo-me:
– Bem, enquanto não acaba eu ainda continuarei deitando na mesma cama que ele.
– Ah – ela deu outra risada idiota. – Claro. Isso com certeza deve ser reconfortante para você, não é? Mas tente experimentar perguntar o que ele faz quando você não está na casa dele. Vai se surpreender com a resposta.
– Eu confio nele.
– Oh, isso é um erro gravíssimo. Sendo uma sonserina nata e ex-namorada do seu atual namorado, eu lhe digo: nunca confie em Draco Malfoy. Tchau, tchau.
– Já foi tarde – murmurei, cerrando os dentes, mas Pansy já tinha desaparecido.
Cheguei às oito horas da noite em casa, frustrada e com raiva. Eu só queria tomar um banho e esquecer a conversa desnecessária que tive com Pansy. Eu não me importava com as palavras dela. Ou, ao menos, eu não deveria me importar. Mas será que eu estava sendo precipitada confiando tanto em Draco? Aquilo me fez pensar sobre isso. Tanto a ponto de encontrá-lo sentado no meu sofá, antes mesmo de eu abrir a porta por completo?
– O que está fazendo aqui? – perguntei encarando seus olhos cinzentos, depois do susto de vê-lo ali.
– Esperando você. Você não chegava logo na Mansão então decidi encontrá-la. Não sabia que você voltaria tarde hoje.
– Invadindo meu apartamento?
– Não é bem isso o que estou fazendo.
– É claro que está fazendo isso. Como entrou aqui?
– Sinceramente, querida, você devia trancar melhor sua casa. Não me admira que Sebastian um dia conseguiu invadi-la.
– Você não tem que ficar entrando aqui. Essa casa é minha! Não posso deixar você entrar nela quando você quiser!
– Eu entrei sem querer – ele disse com uma calma irritante. – Mas se quer que eu vá embora, não vou discutir.
– Ótimo.
– Ok, qual é o seu problema? Estou te esperando há um tempo e eu odeio esperar, você sabe disso.
– Não peço para você esperar.
– Exatamente. Faço isso porque quero ver você logo, por vontade própria. E olha só o que eu recebo em troca. Sua hostilidade.
– Você está me chamando de hostil?
– Você está sendo agora. Discutindo comigo sem nenhum motivo aparente. Sei que mulheres são assim, mas achava que você era diferente.
– Me deixa sozinha, Draco, por favor. Eu preciso... pensar.
– Eu odeio quando você diz isso. Pensar no quê?
– Pensar! Se eu quisesse que você soubesse, eu diria a você.
– Você está com outra pessoa? – perguntou ele, de repente. Viu minha expressão exasperada. A pergunta era ridícula. – Quero dizer, é claro, você tem seus novos amigos do trabalho. Vai ver não encontrou um cara que não tenha uma tatuagem no pulso. Não acho impossível.
– Não, Draco, não estou, eu só...
– Mas gostaria de estar. Você sabe que eu não sou bom pra você. Você sabe que você também é meio que condenada quando as pessoas vêem quem é o seu par nas festas. É melhor dizer logo que se cansou, do que ficar usando enigmas no sentido que você precisa "pensar". Saiba que comigo não existe entrelinhas. Diga logo na cara. Eu faria a mesma coisa se concordasse com você.
Ele não me encarava enquanto dizia isso. Mas eu não tirei meus olhos dele um segundo sequer. Que bobagem ele estava falando? Por que de repente ele pareceu tão inseguro?
– Eu já estou descobrindo como as coisas são com você, Draco, ninguém precisa me dizer.
Nem mesmo Pansy.
– Pelo visto, estou decepcionando.
Ele não me deixou dizer mais nada. Deu as costas e quando foi embora, fiquei arrependida por ter deixado aquela discussão acontecer. Eu pretendia contar depois que eu não tivera um dia bom, por isso meu humor ruim. Não quis ter sido hostil. Mas eu realmente queria ficar sozinha, eu não queria ele essa noite. Eu estava muito preocupada, não por causa de Pansy e das coisas que ela disse. Ela só foi uma faísca. O verdadeiro motivo era que eu estava escondendo segredos dele. Sobre sua mãe e os remédios. Mas principalmente o fato que eu escondia, em minha bolsa naquele momento, um teste de gravidez.
E eu estava morrendo de medo do resultado.
Eu tinha vinte anos e estava para completar vinte e um. Então, um tanto infantilizada, eu disse a mim mesma enquanto observava a poção borbulhar na minha frente: "Prometo que nunca mais vou transar na minha vida, se der negativo. Por favor, por favor, por favor... prometo, prometo que nunca mais vou ver um homem pelado na minha frente." O que só mostrava que eu não estava nenhum pouco preparada para sentir uma outra vida crescendo dentro da minha barriga. A idéia era aterrorizante demais e nem todo amor que eu poderia estar sentindo por Draco me confortava. Na verdade, só piorava ainda mais o meu medo. Só de pensar nele sendo pai... bem, era impossível imaginar. Impossível imaginar como ele reagiria.
Já fiz aquela promessa nas duas vezes que precisei fazer testes de gravidez, muito antes de começar a ficar com Draco. Claro que foram promessa quebradas, ao ver a poção ficar azul, de negativo. Eu me sentia tão aliviada. Eu queria poder sentir aquele alívio de novo, mas meus pressentimentos eram fortes e meu coração disparava.
Eu não estava preparada. Eu não podia engravidar aquela altura. Comecei a implorar tanto que Merlin deve ter me escutado. Então, com uma descarga de alívio percorrendo meu corpo, vi a poção ficar azul outra vez. Estava até trêmula, de tão nervosa. Talvez a comida do Caldeirão Furado devesse estar estragada mesmo, explicando meus constantes enjôos.
Claro que, como esperado, eu renovei a poção anticoncepcional, o que em si fez minha promessa de nunca mais fazer sexo se quebrar.
Mesmo assim, senti-me um tanto cautelosa quando Draco começou a abaixar minha calcinha. Foi preciso apenas um dia para deixar o orgulho de lado e esquecer a discussão idiota que tivemos. Já estávamos na cama, excitados, mas não o suficiente, pelo visto, para que eu não parasse e pedisse para ele vestir a camisinha. Então ele disse que não tinha e eu puxei seu rosto para encará-lo.
– Como assim você não tem?
– Eu não estou transando com ninguém além de você há muito tempo, Astoria. Não acho que seja realmente necessário.
Eu não confiava mais em poção anticoncepcional. E não queria entrar com ele nesse assunto de gravidez. Eu o espantaria dali. Só que ele deduziu de forma diferente a minha preocupação:
– A não ser que você tenha feito isso com outra pessoa, aí vou entender.
Eu que deveria desconfiar dele, certo? Eu que deveria desconfiar que ele me amasse. Eu que deveria desconfiar que ele estava me traindo, não ele. Não ele!
Mas eu não queria que ele continuasse pensando isso. Era legal vê-lo meio enciumado, eu gostava. Mas não daquela forma, não daquela forma insegura.
Envolvi meus braços ao redor do seu pescoço e sussurrei:
– Você não tem motivos para se preocupar com isso. Continue.
Ele nunca questiona. Ela apenas obedece. Sabia que estava correndo outro risco e que eu deveria evitar esses riscos, mas quando ele estava assim comigo, eu realmente não me importava com mais nada. Eu anseio pelo prazer que ele proporciona. É uma noite perdida uma noite sem transar com ele. Será que isso era saudável?
Durante um dia no trabalho, escutei duas colegas minhas comentando sobre gravidez. Por que aquilo estava me perseguindo tanto?
– Não adianta nada fazer os testes – a loira dizia. – Eu fiz cinco vezes, todos deram negativo, mas no fim eu vi que estou grávida. Foi preciso ir ao médico para ter certeza.
– E você acha que vai ser menina ou menino?
E depois elas voltaram à discussão animada. Bem, aquela mulher tinha uns trinta e cinco anos. Talvez até eu tenha um filho aos trinta e cinco. Mas não aos vinte. Não tão jovem e despreparada.
Estava tão angustiada que decidi ir ao médico. Odeio médicos e odeio hospital, mas aquilo seria rápido. Melhor descobrir a coisa cedo do que ficar intrigada até a barriga começar a crescer.
Quando fui atendida, fiz alguns exames e algumas perguntas. Até que o doutor não era um idiota, ele foi simpático e tranqüilizante. Mesmo assim, não gostei. Será que ele seria capaz de me enganar? Dizer que eu não estava grávida, afinal, e que aqueles enjôos eram normais com o calor que estava fazendo, só para que eu ficasse tranqüila porque ainda só estou saindo da adolescência? Claro que não. Nem mesmo os mais bonzinho dos médicos oculta a verdade.
Ele disse que eu não estava mesmo grávida.
Mas não deu tempo de suspirar.
Ele acrescentou que, segundo os exames e o resultado das poções, era improvável eu algum dia ter filho. Que as chances eram tão poucas e tão vulneráveis que, se acontecesse, isso poderia dar muito problema para mim e para o bebê que cresceria. Tentei entender o que ele quis dizer sobre algum problema que eu tinha no ovário, que afetaria a concepção, mas eu estava meio ofuscada com a conseqüência. Entendi que eu não estava grávida. Mas por que não consegui encontrar um lugar na minha mente para me sentir aliviada?
– Nunca terei filho? Nem se eu quiser, nem se eu precisar?
– Nunca é uma palavra forte. Mas sugiro que não tente, se quiser preservar sua saúde, srta. Greengrass.
Agradeci pela dica, meio secamente, ele me deu uma forte poção anticoncepcional e, depois, fui embora. Draco nunca mais apareceu em casa antes que eu o convidasse, de modo que toda vez que eu chegava, estava sozinha. E eu percebi que estaria sozinha pelo resto da minha vida, com a descoberta que eu era tecnicamente estéril.
Bem, pelo menos você não vai ter que ficar se preocupando. Chances nulas de gravidez.
Por que eu estava tão desanimada? Tudo bem, eu achava ótimo agora. Mas comecei a pensar no depois. Eu não era uma pessoa que pensava no depois, mas assim que o médico disse "preservar sua saúde" eu tive essa visão de que, daqui uns dez anos, eu estarei sozinha, cuidando de gatos. Hoje em dia, numa época de paz e renovação, as pessoas estão se reproduzindo como peixes. As pessoas procuram aumentar a família. A primeira página do Profeta foi a notícia de que Ginny Potter estava grávida. Primeiro filho. E parece que agora isso virou algum tipo de moda.
Mas não era por isso que eu estava preocupada.
Eu não me sentiria tão estranha e sozinha, se eu não amasse alguém de uma família aristocrata.
Sabia naquele momento que, quando Draco cansar de meu corpo, eu não terei mais nenhuma utilidade. Sou perfeita para Draco. Tenho sangue-puro e Narcisa me considera uma pessoa atraente, e imagino que ela adoraria ter netos lindos, caso nos casássemos. Sei disso porque semanas anteriores, quando Draco e ela voltaram de Azkaban ao visitar o sr. Malfoy, eles tiveram uma grande discussão. Eu não pretendia ouvi-los, mas eles falavam tão alto que era impossível entrar na sala e apartar a conversa. Principalmente quando ouvi meu nome.
– ... você tem que fazer isso, filho.
– Mãe, não estou preparado.
– Aproveite a chance. Sei que se preocupa com ela... isso significa alguma coisa. Então será mais fácil...
– Sim, mas casamento é uma outra história. Não servimos para esse tipo de coisa.
– Draco – a voz de Narcisa estava firme. – Ela tem sangue-puro. E você a ama. Não vejo outra pessoa em nossa família agora, a não ser ela.
– É cedo demais! – ele disse com a voz alta. – Ela é nova demais. Ela não vai aceitar. Eu a assustarei fazendo um pedido desses.
– Quando você espera continuar essa família? Tenho certeza de que você não sobreviveu a guerra para você disperdiçar o resto da sua vida trancado nessa mansão, mantendo relações sexuais com uma mulher que você não quer ter como sua esposa!
– Eu não disse que não quero! – ele exclamou impaciente. – Não me force a fazer isso. Odeio ser pressionado, a senhora sabe perfeitamente. Eu sei o que é importante para a família, mas eu não conheço Astoria perfeitamente... na verdade, nunca conheci uma mulher como ela.
– Então não acha que é uma oportunidade? Casando-se e...
– Chega, mãe. Estou cansado dessa família ditando o que eu devo fazer. Já basta essa marca negra no meu braço todos os dias!
– Ela pode te manter feliz, Draco, e você quer isso – disse Narcisa num tom mais alto. Notei, com o coração martelando, que Draco estava andando na direção da porta. Eu me afastei, bruscamente, quando ele saiu da sala.
Assustou-se comigo, mas eu era dissimulada. Sorri para ele casualmente, como se nunca tivesse escutado a conversa, e ele me perguntou:
– Acabou de chegar?
E ele também fingiu como se nunca tivesse pensado naquele assunto.
Éramos novos demais. Inconsequentes demais. Ele até havia me comparado com a sua marca negra. Como se eu fosse me impregnar em sua pele e passar a ser indesejável a todo o momento.
E agora, nem se não fossemos inconsequentes, não haveria chances de satisfazer a vontade de Narcisa, da família.
Ah, a vida é uma coisa engraçada. Irônica. Num momento você só quer aproveitá-la, mas no outro... parece que nada mais tem algum significado para você aproveitá-la.
Eu não queria que tudo terminasse entre a gente devido a isso. Não pensávamos em nos casar, não pensávamos em ter filhos, então era cedo demais para me preocupar com o nosso destino. Sabia que queria ficar junto a Draco e era isso o que eu ia fazer. Foi isso o que fiz. Até não poder mais, até não achar mais motivo.
Quando começou a nevar em novembro, levei ele para o jardim da sua mansão e deitei ao seu lado. Estava tudo coberto de neve. Estiquei os braços e as pernas com os olhos fechados para o luar.
– O que está fazendo? – perguntou Draco naquela sua habitual voz arrastada e eu não precisava enxergar para saber que ele estava com as sobrancelhas erguidas.
– Você nunca fez um anjo de neve? – Então olhei para ele e a resposta era tão óbvia que não deixei de rir. – Claro que não fez. Isso deve ser uma perca de tempo para você – adivinhei.
– Não estava fazendo nada de interessante antes de você chegar – ele comentou, dando de ombros, e se deitando ao meu lado. – Não acho uma perca de tempo estar com você.
– Eu fazia muito isso com meu pai – falei, aquecida com suas palavras. – Ele adorava anjo de neve. Mas eu era que nem você, não via nenhuma graça nisso.
– Então porque está fazendo isso? – Dava para ver o quanto ele se intrigava comigo.
– Ora, porque sinto falta dele – respondi de forma óbvia. – Você também não sente falta de alguma coisa?
– Vamos ter essa conversa sentimental, mesmo? – ele deu uma breve risada e experimentei olhar para ele. Não estava como eu, esticando os braços, mas sim olhando para o céu, meio nostálgico. – Bem, se pergunta, eu sinto falta de algumas coisas sim. No Natal em Hogwarts, eu roubava doces das crianças do primeiro ano para o Crabbe. Bem, a maioria dos doces ficavam para mim, mas ele não sabia contar muito bem então não fazia muita diferença para ele.
– Você sente falta dele? Do seu amigo?
– Às vezes – admitiu, e não disse mais nada.
Ele era pior do que eu. Recusava-se a falar sobre seus sentimentos. Eu não ia insistir. Resolvi que era melhor deixar aquele assunto de lado, então amassei uma bola de neve em minha mão e taquei na direção do seu rosto, o que o sobressaltou.
– Ei! Eu não estava prestando atenção.
– Hm, desculpe, mas...
Ele me atingiu com outra bola e, quando dei por mim, estávamos correndo de um lado para o outro no jardim, tacando neve como duas crianças idiotas. Dávamos risadas e ele gargalhou quando conseguiu praticamente me fazer engolir neve. Eu pulei em cima dele, derrubando-o na neve gélida. Nos beijamos, aquecendo nossos corpos e lábios. Em nenhum momento me lamentei que não teria isso para o resto da minha vida. Mas eu queria, eu queria e muito.
Foi apenas pensar nisso, que Draco me afastou um pouquinho.
– Espere, tem alguma coisa no meu bolso que está atrapalhando...
Ele tirou um anel do bolso, segurando-o com o dedão e o dedo indicador bem na minha frente. O ouro, a textura, o brilho. Bom, talvez fosse impressão que estavam brilhando porque meus olhos estavam cheios de lágrimas. E eu fiquei ansiosa, mas temerosa, pelas próximas palavras dele.
Mas ele não conseguiu dizer nada. Parecia mais assustado do que eu como se não acreditasse que havia chegado a esse ponto. Encarei seus olhos cinzas. Ele viu que eu estava lacrimejando. E acho que foi isso que o fez ficar calado, e não prosseguir com o pedido tradicional.
Nenhum disse nada durante os próximos três minutos. Eu fiquei ali, em cima dele, que tinha as costas pressionada na neve. Parecia tão surreal. O silêncio foi cortante. Eu nunca disse a ele a coisa sobre não conseguir engravidar. Isso mudaria o rumo dos acontecimentos. Se ele soubesse, ele não me pediria em casamento.
Parecia que estávamos pensando nessa palavra ao mesmo tempo, porque no segundo seguinte começamos a atropelar as palavras um do outro:
– Draco, eu não...
– Tudo bem, não precisa...
– É que...
– Acho que tomei muito vinho e...
– Eu te amo.
– Então case comigo.
Não havia ironia na sua voz dessa vez.
– Não posso... – Eu estava me esforçando para não chorar.
– Eu também achava que não podia, mas aí você apareceu na minha vida.
– Draco – chorei, agora, as lágrimas caindo. – Você não entende, não posso proporcionar um futuro com você, não dessa forma.
– Eu não entendo por quê.
Eu disse tão baixo quanto o som de um alfinete caindo na neve.
– Não posso ter filhos.
– Mas não é isso o que eu...
– Você está me pedindo em casamento, Draco, e uma hora você deverá ter um herdeiro, alguém do seu sangue. É assim que nossas famílias funcionam. Eu sei pois sua mãe vive dizendo isso.
– Então – ele falou friamente – está dizendo que você não vai se casar comigo só porque você não pode ter filhos? Eu não perguntei se quer ter filhos. Eu perguntei se você quer passar o resto da sua vida comigo.
Escorreguei para o outro lado. Será que ele não enxergava a semelhança? Será que ele estava ignorando tudo o que sua mãe e seu pai lhe ensinou? Ele era um Malfoy nato. Ele não devia agir pelo amor que tinha por mim. Mas eu me transformaria numa Malfoy, se aceitasse. Eu conhecia, desde aqueles tempos, o peso que seria carregar o sobrenome.
É claro que eu estaria disposta a carregá-lo, mas primeiro eu teria que ser capaz.
E eu, pelo visto, não era. Não naquelas condições. Não se eu não desse um herdeiro aquela família. As chances eram tão poucas e tão perigosas... que eu não tinha coragem o suficiente para arriscá-las. Então eu, aos meus vinte anos, recusei o pedido de casamento de Draco Malfoy. Simplesmente recusei. Disse, além das circunstâncias, que eu não estava preparada, era muito jovem. Discutimos naquele jardim. E chegou um momento que ele não queria entender minha recusa, ele só queria que eu dissesse sim. Ele gritou, parecia desesperado. Mas eu não podia aceitar, não podia. Acusou-me por tê-lo feito se apaixonar daquela forma, dizendo que agora eu era obrigada a aceitar. Não chegou a ficar de joelhos, claro, mas eu fiquei estupefata pelo modo como ele parecia ser capaz de, a qualquer momento, me chantagear, prometendo viagem e jóias e ouro. Ou até de me ameaçar.
Mas ambos sabiamos que não era isso que estava em jogo. Eu não podia fazer isso comigo... nem com ele. Vivi o suficiente para perceber que o amor acaba em algum momento. Minha mãe e meu pai eram provas disso. Eles poderiam ter se amado sim, mas minha mãe só continuou com ele por causa das filhas e da família. Era isso o que estava em jogo.
Então eu tive de mentir, agindo de uma forma confusa, mas imperdoável, quando afirmei que não o amava o suficientemente para me casar com ele, e ponto.
Para famílias como a nossa, amor nunca é o suficiente se você não pode dar filhos, herdeiros, alguém de puro-sangue para a próxima geração. Crescemos com essa consciência.
Ele não questionou dessa vez. Calou-se. Na verdade, pediu friamente para que eu simplesmente fosse embora. Eu só não sabia dizer se era da sua mansão ou da sua vida. Antes que eu pudesse me arrepender e tentar concertar as coisas, ele já havia me expulsado das duas.
Vi em seus olhos sombrios que eu havia magoado ele e sabia que nunca seria perdoada. Mas eu esperava que, se um dia ele se casar com uma mulher que puder lhe proporcionar uma família, ele entendesse o quanto isso era mais importante do que amor. Os pais dele iriam lhe mostrar isso.
Quando lembro desse momento, desejo mudar o passado. Pois será que valeu mesmo a pena sofrer aquilo que sofremos, quando nos separamos?
Mas quando decidi me arriscar, quando decidi que não conseguiria viver sem ele e voltar para ele... foi tarde demais.
Futuro não é algo que devemos deixar para depois.
