– É sua vez de tentar agora.
Caleb me entregou a flecha e o arco. Raramente eu tinha alguma atividade ao ar livre, mas estava gostando daquela. Arco e flecha, mais uma nova habilidade que eu havia adquirido naqueles últimos meses. Tirei a franja dos olhos, posicionei a flecha no arco, da maneira como Caleb havia feito, e então mirei o alvo.
Era frustrante quando errava, mas no momento em que a flecha atingia a garrafa de vidro, tudo o que fazia era relaxar.
– E você diz que nunca praticou! – reclamou Caleb numa mistura de exasperação e divertimento. – Agora não venha me dizer que não está mentindo.
– Juro, é a primeira vez – falei, contendo o riso.
– E a terceira que você acerta o alvo. Perfeito.
– Nunca fiz isso na vida. É incrível.
– Devíamos praticar mais vezes. Você sorriu bastante hoje.
Abri os cantos dos lábios lentamente. Talvez ele ainda achasse que havia alguma chance comigo, levando-me para praticar arco e flecha, conquistando alguns risos que eu não dava há meses desde que Draco me tirou da vida dele. É claro que eu não o culpava por isso. Eu não culpava nenhum de nós por estarmos separados. Eu culpava a vida e a minha insegurança.
Mas não sei o que me fizera encontrar Caleb na Gemialidade Weasley e me tornar amiga dele. Eu não estava procurando alguém para me apaixonar, mesmo porque isso nunca aconteceria outra vez, mas ele parecia o esquema certo de diversão. Ele era inteligente, atencioso e sabia contar histórias engraçadas. Talvez tudo o que eu estava precisando era de um amigo.
A experiência estava dando completamente certo, mas não gostava quando ele falava sobre meu sorriso. Eu não podia corresponder aos seus sentimentos, mas ele não parecia se incomodar.
– Você é a primeira pessoa que recusou ajuda para conseguir posicionar a flecha.
– Por quê? Você costuma cheirar o cangote das pessoas quando vai ensiná-las? Isso é irritante, sabia? – respondi, pronta para lançar outra flecha.
Ele deu uma risada alta e, para a minha surpresa, ele concordou. Acertei novamente o alvo. Dei de ombros.
– A primeira tentativa foi melhor – admiti.
– É o que eu chamo de sorte de iniciante. Você é sortuda.
– Nem tanto. Bem, vamos lá. Aumente o nível. Está ficando muito fácil.
Era inacreditável a maneira como eu o fazia rir, sem muito esforço. Ele foi até onde o alvo estava e o segurou. Posicionou-se a dois metros para o lado e disse:
– Tente acertar com esse em movimento.
– Fácil.
Mas é claro que eu errei. Quando a flecha passou raspando pelo alvo, Caleb assobiou e eu fiz uma expressão humilde.
– O que você esperava? Não sou assim perfeita.
– Você tem uma boa mira. Por que nunca entrou no time de quadribol durante a escola?
– Não sei voar de vassoura.
– Posso te ensinar algum dia. Você aprenderá muito fácil.
– Talvez sim, mas é que eu tenho medo de altura.
Caleb voltou a ficar a minha frente. Estava usando uma daquelas camisas que salientavam os músculos. Eu devia admitir que ele era bastante atraente, um sorriso que mostrava os dentes perfeitos e brancos. Era uma beleza típica.
– O que mais você sabe fazer? Além de pintar e atirar flecha como se fosse uma profissional? – perguntou, sempre elevando o interesse.
Sorri e pensei por um instante.
– Gosto de tocar piano.
– Sério? Adoraria ouvi-la tocar um dia. Na verdade, tem um piano lá dentro. Posso pedir para deixarem você tocar. Aposto que vai chamar atenção.
Ele não sabia que chamar atenção era a última coisa que eu gostava de fazer, mas eu sentia falta de tocar piano, então aceitei. Estávamos em um clube, no qual o pai de Caleb trabalhava como funcionário e, por isso, ele conseguia entrar sempre que queria. Chegamos a uma sala confortável. Os sofás estavam virados para o instrumento que eu tanto admirava. Meus dedos formigaram de ansiedade, quando vi as teclas chamando para serem tocadas. Caleb sentou-se no sofá e me assistia enquanto eu tocava o piano.
Certo. Ignorei as coisas ao meu redor e meus problemas, para apenas me concentrar nas notas. Eu estava indo muito bem, mas durante a metade da música, peguei-me lembrando de Narcisa, por alguma razão estranha. Não, não era tão estranha.
Um mês atrás ela bateu na porta de meu apartamento. Sim, Narcisa Malfoy foi até minha casa, exigindo explicações. Ela estava zangada comigo.
– O que você fez com meu filho?
– Nar...?
– Sim, você fez algo a ele. Está arrasado. E a culpa é totalmente sua. Posso entrar, obrigada.
Quando ela se sentou, começou a explicar sobre a família e que me queria nela. Admitiu que me visualizava como a esposa de Draco. Ela queria tanto isso, que o filho se casasse com alguém que, para ela, fosse o suficiente para manter a linhagem de sangue.
– Além disso, ele age como um monstro quando você não está por perto – disse. – Quero entender o motivo por recusá-lo.
– Descobri que não posso ter filho.
Talvez ela não esperasse essa resposta. Ela esperava que eu dissesse que amava outra pessoa, que queria independência e nada de compromisso sério. A notícia a pegou de surpresa, pois havia um leve tremor nos lábios quando ela tentou dizer:
– Não pode?
– Eu amo Draco, sra. Malfoy – falei. – Mais do que jamais amei alguém. Mas eu entendo que a família deve ter um herdeiro, e eu não posso proporcionar isso a ele no momento.
Ela não parecia capaz de me encarar.
– Tem certeza disso?
– Fiz exames. As chances são tão poucas que se eu me arriscar, poderá prejudicar minha saúde. É o que o médico disse.
– Então você tem medo das poucas chances que tem.
Não soube o que responder a isso, pois ela tinha razão.
– Sou muito jovem – falei numa voz baixa. – Não estou preparada.
– Então terei que arrumar a ele uma mulher que esteja preparada.
– O quê? – levantei meu olhar para encará-la. Narcisa olhava-me friamente e estava em pé, preparando-se para ir embora.
Ela se dirigiu a porta e antes de sair, falou:
– Estava enganada sobre você, Astoria. Não é tão corajosa como parece. Quando ficar completamente sozinha, vai querer ter arriscado as únicas chances que você tem de ter um filho. E caso tenha esquecido, nós somos bruxos. Não há nada que mágica não cure, exceto... você sabe... um homem completamente desesperado que você deixou para trás devido a sua covardia.
Depois que foi embora, apertei os dedos no sofá, nervosa comigo mesmo e com Narcisa. Ela não podia me acusar de covardia. Eu fazia minhas próprias escolhas!
"Um homem desesperado que você deixou para trás."
E eu também estava desesperada.
"Terei que arrumar a ele uma mulher que esteja preparada."
A visão de Draco com outra mulher era mais aterrorizante do que a idéia de ter um filho.
Percebi que ainda estava tocando piano. Caleb ainda me observava. Experimentei olhar para ele. Havia um sorriso meio bobo no rosto dele. Lágrimas insistiam em cair em meus olhos, mas recusei elas até o momento em que a música terminou.
O aplauso de Caleb me despertou. Eu sabia que ele estava sendo educado e puxando o meu saco. Draco nunca aplaudiria, por mais que perfeita as músicas estivessem.
– Astoria, aonde você vai? – Caleb exclamou quando me levantei e saí correndo do hall de entrada. Menti que estava atrasada para alguma coisa. Passei pelos campos e antes de aparatar, ouvi o som do trovão anunciando a iminente tempestade.
Não foi de forma racional que aparatei no terreno da Mansão dos Malfoy. A chuva molhava meu corpo e eu ia pegar um resfriado, mas pouco importava agora. O que eu esperava de Draco? Que ele simplesmente me aceitasse de volta? Sim, era isso o que eu esperava.
O portão estava aberto, algumas janelas estavam acesas. Eu estava tão louca, tão decidida e arrependida, que corri pela chuva em direção a escadaria de mármore. Quando fui bater na grande porta, minha mão travou.
Pensei na possibilidade de que eu não seria mais bem-vinda.
Então o que está fazendo aí, Astoria?, perguntei-me. Vire-se e vai embora.
Espiei pela janela em que eu podia ter uma visão completa da sala. A cena me desconfigurou. Sentado na poltrona perto a lareira, estava Draco. Ele tomava vinho. Um impulso me fez gritar seu nome, mas a palavra morreu em minha garganta quando uma mulher loira e alta, incrivelmente linda, sentou em seu colo de pernas cruzadas. Ela tinha uma elegância pura e sensual. Assim que ela pegou a taça de vinho e serviu mais um pouco para Draco, havia um brilho no seu dedo. Um anel.
Engasguei. Aquilo parecia uma mensagem: "Você perdeu."
As gotas da chuva desfiguravam as imagens pela janela. Então eu também não podia dizer se Draco me viu, por isso fui embora. Queria fugir.
Surpreendi-me, desse modo, quando alguém puxou meu braço com força, impedindo que eu continuasse correndo, quando alcancei o portão do jardim. Draco me virou para ele e perguntou rispidamente:
– O que está fazendo aqui?
– Me solta.
– Você não devia estar aqui, eu suponho.
Soltei-me de suas mãos fortes. Estava chovendo muito e era meio difícil ouvir o que Draco dizia. Mesmo assim, eu perguntei baixo:
– Quem é ela?
– Isso importa pra você?
– É claro que importa! – gritei, socando o peito dele. – Você a pediu em casamento? Aposto que sim!
– Você me recusou, você disse que não me amava suficientemente.
– E ela te ama?
– Ela pode me dar um filho. Não é isso o que importa?
– É o que deveria importar, Draco, mas não importa! Eu estava enganada! Eu não posso viver a minha vida sozinha, independente dos riscos que vou tomar! Quero você de volta, eu quero usar aquele anel.
Podia ouvir a voz de Dafne em minha cabeça advertindo: "Saiba que Draco Malfoy nunca perdoa", quando ele disse friamente:
– Você perdeu a chance que teve.
– Eu não vou aceitar essa resposta.
– Eu também não aceitei a sua resposta! Eu também não aceitei a sua negação! Eu não preciso mais de você, Astoria! Você me humilhou! – ele rosnou aquelas palavras.
– A culpa não é minha, será que dá pra você entender isso, Draco? Mas agora eu é que me sinto humilhada por vir até aqui acreditando que você sentia alguma falta minha!
– Então por que ainda não foi embora? Por que ainda estou olhando pra você?
– Porque eu ainda amo você, desgraçado! E eu sei que você ama...
– Sinto muito, Greengrass – a chuva molhava seus cabelos, seus lábios, seus cílios invisíveis de tão brancos. Ele era tão gelo quanto o ar naquele final de tarde. – Mas isso não é o suficiente. Saia da minha vida.
– Por que está fazendo isso? Draco! – gritei, quando ele deu as costas. Ele era um mestre em dar as costas e não olhar para trás.
Nunca senti tanto ódio e amor ao mesmo tempo. Claro que havia a dor e isso era tão estranho. Nunca sofri dessa forma. Voltei para casa, mas não peguei nenhuma bebida. Não adiantaria nada me embebedar. Eu não queria transar com ninguém, eu não queria mais ser inconseqüente, ou aliviar minha dor e esquecer tudo o que eu sentia. Sempre fui uma pessoa fria. Mesmo com todas as mortes que ocorreram em Hogwarts, durante a batalha, eu não derramei uma lágrima, nem mesmo nas homenagens. Às vezes achava que eu era uma pessoa ruim, mas percebi que eu apenas não sabia extravagar minhas emoções.
Mas agora eu sentia tanto que as emoções queimavam minha pele, e eu não queria impedir que isso acontecesse. Revoltada comigo mesma, fiz uma bagunça imensa em meu quarto e em minha sala. Eu apertei meus cabelos, pensando em como prometi várias vezes que nunca choraria por amor, porque achava isso uma grande idiotice. Mais uma promessa quebrada.
No dia seguinte acordei segurando o travesseiro com força, cerrando os dentes, trêmula com o frio. O som da chuva lá fora só me fez lembrar a discussão e que eu vira Draco com outra mulher. Olhei para o relógio. Três horas da tarde. Pouco importava, eu só queria ficar em casa descansando.
Quando ouvi as batidas nas portas, nem mesmo me dei o trabalho de trocar de roupa. Atendi a porta com pijama. Caleb franziu a testa quando me viu.
– São três horas da tarde – ele disse, como se eu não soubesse. – E você está de pijama.
Eu abanei a cabeça, permitindo que ele entrasse.
– Hoje vai ter a festa da Batalha, queria que você fosse comigo. Mas parece que você não está muito bem.
– Não é nada – eu disse, passando a mão no rosto. – Desculpe ter ido embora tão de repente ontem, é que...
– Você não precisa se explicar. Sei que tem bons motivos. Na verdade fiquei um pouco preocupado, então queria ver se eu podia ajudar em alguma coisa. Levando você para sair, por exemplo.
– Você se incomodaria de ter uma acompanhante mal-humorada? – perguntei, coçando a nuca. – Não tive um dia bom ontem depois que fui embora do clube.
– Desde que você vá comigo.
– Só deixe-me trocar de roupa.
Ele se sentou no sofá, educadamente. Da mesma forma, esperou que eu me trocasse. Mas ele não era muito paciente.
– Você foi comprar a sua roupa? – ele perguntou, brincando, quando voltei para a sala, prendendo o cabelo. Senti a aproximação dele. Com um toque, ele tirou o laço, soltando meus cabelos negros que ondularam em minhas costas, e disse. – Fica mais bonita assim.
Nossos olhos se encontraram. Ele ficou um tanto sério e era estranho ver essa seriedade num rosto tão brilhante de alegria. Os dedos que estavam no meu cabelo foram parar na minha bochecha. Ele tinha uma mão quente, forte, rígida. Eu estremeci, estranhando o toque. Meu corpo reagiu como se estivesse sendo invadido por um desconhecido. Meu corpo queria repeli-lo, mas eu não fui capaz.
Ele tinha olhos azuis escuros e sinceros. Eram bonitos, mas não eram tão profundos. Eu podia ler cada intenção em seus olhos. Seu dedo roçou a maçã de meu rosto, onde caía uma lágrima imperceptível. Eu nem reparei naquilo, apenas no gesto dele.
– Não importa o que a faz se sentir ruim, eu quero tentar fazer você sorrir.
– Você me faz sorrir, de alguma forma.
– Queria poder acreditar em você. É tão misteriosa, desde quando nos conhecemos, em Hogwarts. Sempre evitando chamar atenção...
Quando ele se aproximou mais, eu senti o cheiro do perfume que ele usava e perguntei-me: "Será que valeria a pena dar a ele uma chance?" O que eu podia perder com isso? Impulsivamente, ele levou os lábios para perto dos meus, mas eu virei meu rosto no último segundo, para que ele desse apenas um beijo leve em minha bochecha.
Não foi como se eu o desconcertasse com essa ação. Ele agiu normalmente.
– Vamos para a festa – e abriu aquele sorriso conhecido, fácil e simples.
A festa de comemoração da queda de Lord Voldemort, anunciando que mais um ano passara desde aquele tempo, acontecia numa praça extensa e vasta. Havia banda tocando ao vivo – As Esquisitonas – e barracas de comidas em todos os lugares. As pessoas se divertiam, faziam discursos, até o momento que apresentavam Harry Potter e seus amigos e todos aplaudiam, felizes e animados. Caleb comprou vários chocolates para mim e me convidou para uma dança no meio da pista. Não recusei, mas eu estava distraída. Em nenhum momento deixei de me lembrar de Draco. Eu podia até adivinhar que tipo de comentário ele faria se estivesse naquela festa. Em nenhum momento esqueci ele, nem mesmo quando Caleb conseguiu um jeito de segurar minha cintura, quando a música passou a ser lenta. Nem mesmo quando ele tentou me beijar de novo – ele havia tentado várias vezes desde que começamos a nos ver quase diariamente – e nem mesmo quando eu cedi.
Eu não beijava alguém além de Draco há muito tempo, e a sensação foi estranha no começo. Caleb não insistiu em aprofundar, o contato de nossas línguas foi breve e lento. Ele se afastou um pouquinho.
– Obrigado.
E voltou a dançar comigo num ritmo lento. Eu que estava agradecida por ele ser tão gentil e compreensivo. E o mais curioso era que ele nem sabia o que se passava comigo. Eu não contei. Ele apenas fazia o que achava melhor e o admirei por isso.
Talvez não fosse tão ruim dar uma chance. Eu não queria ficar presa ao que já havia terminado. Uma parte de mim queria arriscar tudo por Draco, mas a outra não estava querendo reunir motivos, não depois dele me desprezar daquela forma.
Tempos mais tarde, estava deixando Caleb me beijar e eu correspondia, aproveitando a nova sensação. Mesmo que fosse estranho para o meu corpo acostumado com o calor de outro homem, eu notei o quanto ele se divertia. Parecia que não havia muito compromisso, fazíamos para saciar algum tipo de fome. Eu não me incomodava, porque eu estava testando a mim mesma quando ficava com ele. Testando meus limites, meus sentimentos, minhas saudades de Draco.
Caleb já me levou para sua casa e me mostrou filmes, coisas que trouxas assistiam. Eu nunca havia assistido a um filme. Gostei da experiência. Estávamos sentados no sofá, juntos, e eu ia comentar alguma coisa quando reparei que ele ficava olhando para mim.
– Por que você me olha desse jeito? – eu perguntei, franzindo a testa. – Até parece que...
Ele me interrompeu, colando nossas bocas em um beijo. Ele tinha sabor de uvas. Nossas línguas estavam entrelaçadas. Foi um beijo gostoso e há muito que não me sentia entusiasmado com esse tipo de contato, mesmo tendo feito isso várias vezes ao longo daqueles últimos tempos com ele. Mas dessa vez Caleb estava tentando alcançar um nível diferente, que resultava em suas hesitantes tentativas de me tocar em lugares não expostos.
Percebi que suas mãos roçavam meu seio várias vezes, mas ele não parecia muito seguro. Até que eu segurei sua mão e o prendi contra meu peito.
– Pode me tocar – permiti.
Ele pareceu animado e me deitou no sofá, beijando-me com força e vontade. Era difícil entender porque eu estava deixando ele conhecer meu corpo, mas tinha algo a ver com comparação. Quando ele tirou a blusa, rocei os dedos pelo seu peito forte; uma textura diferente. Não era isso a que eu estava acostumada. Mas ele continuou me beijando e me tocando em vários lugares, enquanto tirávamos nossas roupas. De alguma forma, ele fez todo o trabalho, até o de vestir uma camisinha. Fechei os olhos com força, quando fiquei exposta e nossos sexos se encaixaram.
Isso não está certo.
Tudo bem. Apenas respire fundo. Ele gemeu em meu ouvido. Apertei os dedos nas suas costas largas. Eu não me sentia completamente preenchida, mesmo que seu membro estivesse completo dentro de mim e ele fazia movimentos constantes com o quadril. Não era certo transar com ele, pensando em Draco toda hora. Não era certo.
Você não está com Draco, pare de pensar nele!
Caleb beijava meus ombros e descia os lábios até minha barriga, saindo e entrando com cuidado, como se eu fosse virgem. Houve um momento, talvez numa das estocada fortes, que senti alguma coisa.
Mas não teve tempo de aproveitá-la e seguir adiante, pois Caleb já havia gozado muito antes de mim e desabara seu corpo em cima do meu. Eu não fiquei frustrada.
– Isso foi bom – ele comentou ofegante.
Eu tentei concordar, mas a voz não saiu. Eu não queria mentir a ele, mesmo que o problema fosse completamente meu, e não dele. Eu sabia que ele poderia me dar prazer, se eu não ficasse tentando recusar daquela forma.
Ah, merda.
Parecia tão exausto que ele não estava disposto a continuar. Melhor assim. Deitou-se ao meu lado e envolveu os braços no meu corpo, prendendo-me em um abraço quente. Olhei para a tela da televisão, tentei fechar os olhos e dormir mas não consegui. Quando tive certeza que Caleb estava dormindo, eu me desvencilhei dele e coloquei minhas roupas de volta no corpo. Antes de ir embora, depositei um beijo em sua testa e sussurrei:
– Desculpe.
Estou usando você para desafiar meus sentimentos. Eu sei que não presto, mas não escolhi a quem amar.
O sol e o dia maravilhoso não condiziam com meus pensamentos, muito menos com o caminho que eu estava seguindo. Comprara um par de rosas e andei até o cemitério onde estavam as lápides de meus pais. Eu não fazia uma visita há muito tempo, e decidi que aquela era a hora certa e que não podia ser adiada.
– Sinto falta de vocês dois – sussurrei. Abaixei-me para depositar as rosas nas lápides. Quando me levantei, fiquei sobressaltada com uma figura alta postada ao meu lado. Narcisa Malfoy estava elegante, como o usual, mas eu podia ver em sua expressão o esgotamento de tentar manter-se firme, para estar ali, olhando para mim.
O que ela estava fazendo ali? Será que havia me seguido? De qualquer forma, nos encaramos. Não nos cumprimentamos. E Narcisa apenas perguntou:
– Gostaria de tomar um drink, Astoria? Para podermos conversar.
Pensei em negar, mas talvez precisássemos mesmo conversar. Ainda não me esqueci da nossa última conversa, então deixei que ela me levasse até um luxuoso restaurante que atendia nosso pedido com rapidez. Pedimos whiskys. Quieta, eu esperei ela começar a falar.
Mas, para a minha surpresa, ela não disse nada. Parecia estar encontrando um jeito de começar a dizer o que pensava. Não agüentei o silêncio e ia perguntar friamente se Draco já havia marcado a data do casamento, mas ela finalmente decidiu dizer primeiro:
– Meu filho precisa amar, Astoria. Eu nunca vi nos olhos dele o que vejo todos os dias agora. Se for preciso sacrificar a linhagem histórica dos Malfoy, que sacrifique. Não estou pedindo herdeiros. Só quero ver Draco feliz.
Mal acreditei no que ouvi. Não estou pedindo herdeiros. O que significou toda aquela conversa de que tentaria arranjar uma mulher preparada para Draco? Então quem era aquela mulher loira no colo dele? A resposta ficou na ponta da língua: mentira. Mesmo assim, ainda estava intrigada quando eu disse:
– Tentei reatar as coisas, mas eu me surpreendi quando o vi com outra mulher. Ele disse claramente que não me queria em sua vida.
– Há uma coisa que você deve saber sobre Draco. – Ela falava num tom baixo com medo de que outras pessoas escutassem. – Ele foi desapontado pelo pai durante tanto tempo... as coisas que diz nem sempre são verdadeiras, Astoria, entenda. A maneira como ele age, querendo esconder os sentimentos mais óbvios... Ele faz isso, diz coisas que podem magoá-la, porque ele espera que você desista dele também. É uma forma de desafiar a quem ele ama, uma forma de testá-la. Sei disso porque essa característica é genética.
Entendi o que ela quis dizer e fiquei uns segundos em silêncio, absorvendo suas palavras. Comecei a notar que tudo o que eu sabia sobre Draco era só uma parte mínima de toda sua característica complicada. A cada momento, aprendia algo valioso sobre ele e toda a raiva que me consumia era absorvida por compreensão.
– Então eu apenas peço que você não dê a ele essa satisfação – disse Narcisa, despertando-me dos meus pensamentos. – Ele não vai se casar com ninguém. Não desista dele, Astoria, por favor.
Olhei para o líquido do whisky.
– Meu maior medo é de falhar, Narcisa. Sei que vou falhar, porque eu não tenho muita sorte.
– É normal ter essa insegurança quando se trata de algo que irá definir o resto de sua vida. Eu tenho medo de falhar até hoje, mas eu me arrisco.
Pensei nos remédios que ela tomava até ficar entorpecida. Mas será que isso significava que ela estava falhando em alguma coisa? Não. Ela apenas deixou que as infâmias da vida tomassem conta dela. Narcisa era uma mulher forte. Ela lutava mais pela felicidade do seu próprio filho do que pela sua própria. Do que pelos princípios familiares e aristocratas. Ela estava ali a minha frente, mostrando as chances que eu tinha de poder passar o resto da minha vida com alguém quem eu amava. Quantas vezes ela já fizera isso?
Quando ela percebeu que eu não estava tentando dizer alguma coisa, devido a minha surpresa e emoção, ela apenas suspirou e se levantou.
– Espero que pense nesse assunto e que faça algo sobre isso. A bebida é por minha conta. – Ela deixou algumas moedas sobre a mesa e depois deu meia-volta para sair, sem olhar para os lados ou para trás. Não havia dúvidas de que ela era mesmo a mãe de Draco.
O garçom perguntou se já podia guardar os copos, e notei que eu ainda estava ali, sem encostar os lábios na bebida. Paguei com o dinheiro de Narcisa e fui embora. Não fui até Draco. Fui até a casa de Caleb. Ele me atendeu a sua porta e não sorriu como de costume. Devia ter sentido minha falta naquela manhã. Então eu disse que não podíamos ficar juntos porque isso não era certo para ele, nem para mim. Eu não podia deixá-lo se aprofundar no sentimento que ele tinha por mim, sendo que eu queria outra pessoa e era insensato me desfazer disso agora.
Achei que eu o magoaria. Achei que ele ia me perguntar "Por que transou comigo então?" mas ele não fez essa pergunta. Ele não queria a resposta, talvez já soubesse. E talvez ele estivesse magoado, mas eu estava fazendo a coisa certa dessa vez. Desejei que ele encontrasse uma mulher que pudesse corresponder a seus sentimentos, ele merecia. Era um bom rapaz. Tive essa certeza quando ele encolheu os ombros, rendido, e disse: "Podemos continuar sendo amigos então", e estendeu os braços para me abraçar, prometendo que guardaria um arco e flecha para quando eu quisesse visitá-lo no clube.
Ele era tão fácil de se apaixonar e querer. Mas eu era Astoria Greengrass. Eu nunca ficava com a parte mais fácil da vida. Acho que a essa altura já deu para perceber isso.
Muito obrigada pelos comentários, gente! Vou continuar postando os capítulos que já escrevi, continuem seguindo :)
