Às vezes queria que alguém aplicasse um feitiço de Obliviação na minha cabeça. Esquecer as coisas parecia o mais apropriado agora, mas eu sabia que não podia fazer isso. Já não achava justo em meu trabalho fazer uma pessoa perder parte da memória, mesmo que ela não tenha escolha na maioria das vezes. Além disso, seria mais covardia fugir dos problemas.
Todo mundo tem um jeito para fugir dos problemas. Quando eu tinha dezessete anos, gostava de fazer sexo com alguém de sorriso bonito. Algumas pessoas fumavam. Outras bebiam. Outras bebiam e fumavam. E outras, como Draco Malfoy, se humilham ainda mais, o que é uma pancada de ironia, porque os problemas só aumentavam assim.
Não era algo que dava para ser ignorado. Eu não ia viver minha vida normalmente, se apenas ignorasse. Nem mesmo perdendo a memória, eu ia ficar tranqüila. Aposto que ia ter um buraco na minha mente e eu ia ficar tendo aquela sensação de que algum pedaço estava faltando, e ia tentar buscar esse pedaço.
A voz de Narcisa ainda ecoava: Não desista dele, Astoria, por favor.
Ela pediu por favor. Imaginava como o orgulho dela devia ter se ferido.
Era sexta-feira quando fui ao bar do meu tio, cumprimentar uns velhos amigos. Tanya estava por lá, o que me fez sentir bem de alguma forma. Ela não estava mais zangada comigo por uma vez ter arranjado briga com a minha irmã no meio da sua exposição de arte. Na verdade, isso nem parecia mais passar pela cabeça dela, porque sempre que nos víamos ela me cumprimentava com entusiasmo. Fiquei feliz por ainda continuarmos tendo algum contato. Ela era simpática e legal, e ainda estava saindo com meu tio, o que a tornava uma mulher fofa e alguém que tinha minha consideração.
– Astoria! – sorriu meu tio atrás do balcão. Fazia tanto tempo que não o via que ao em vez de sorrir e falar oi entusiasmada, minha boca foi mais rápida que minha mente, quando afirmei:
– Tio, você emagreceu.
Ele apalpou a barriga, do jeito que fazia quando eu era criança para me fazer rir.
– E você também. – Mas ele parecia preocupado. – Quanto tempo, hein? Por que sumiu de repente?
– Trabalhando. Essas coisas – respondi, sentando-me numa cadeira, apoiando os braços no balcão.
– E Draco Malfoy? – perguntou Tanya, ao meu lado. Esforcei-me para entender que ela só estava curiosa.
– Não estamos mais saindo.
– Sabe, querida, você pode desabafar qualquer coisa para mim. Sei como é terrível ex-namorados. Xingue ele o quanto você quiser, vai te fazer bem.
– Mas eu não quero xingá-lo.
– Ele não te traiu?
– Acabamos antes disso – eu afirmei desconfortável com aquele assunto. Ela podia ser uma pessoa legal, mas não era como se eu quisesse revelar todos os meus sentimentos para ela. Então, virando-me para meu tio eu disse: – Quero beber um pouquinho.
Eu achei que ele não ia aprovar essa idéia, mas não demorou em trazer a garrafa para mim. Tanya também estava bebendo. Alguma coisa ruim devia ter acontecido e eu não estava sabendo, então perguntei:
– Não teve um bom dia também?
– Acho que as exposições vão terminar – respondeu Tanya.
– O quê? Mas por quê?
– Os quadros não estão vendendo.
Eu senti uma pontada de culpa nisso.
– Sinto muito, eu não queria ter perdido a minha cabeça aquele dia...
– Não é sua culpa, querida. Eu não devia ter tirado você da exposição, mas se Dafne soubesse que você foi poupada, ela iria causar mais problema.
– Então quer dizer... que ela está causando problemas mesmo assim.
– Não sei, mas o problema é que não a vejo há tanto tempo.
– E o que aconteceu com ela? – perguntei, olhando distraidamente na direção do palco onde um bruxo citava um belo poema. – Dafne, quero dizer. Para onde ela foi?
Uma voz distante desejava "Azkaban", mas se calou antes que eu aprovasse o pensamento.
Meu tio fez uma careta, mas antes de responder, a porta do bar se abriu com um estrondo. O cara que tocava flauta para dar a trilha sonora do sofrimento do poeta lá na frente foi o último a fazer silêncio enquanto Draco entrava, cambaleante.
Bem, pensei amargamente, alguém ia se arrepender de alguma coisa hoje à noite.
Não era como se não entrassem bêbados assim toda hora. Mas o que fez as pessoas pararem o que estavam fazendo para olhar, foi o fato de que era Malfoy ali, quem estava chamando atenção. Ele começou a aplaudir na direção do palco.
– Lindo – exclamou Draco. – Muito lindo!
Eu voltei a encarar meu tio para não ter que continuar vendo aquilo. Coloquei a mão na testa e rezei para que Draco saísse dali. E não era porque eu não queria que ele me encontrasse... era porque eu não podia suportar aquela atitude. Ele se queixava tanto da humilhação e das pessoas que não percebiam que ele havia mudado... Olhe só para ele. Quis tirá-lo de lá, mas percebi que estava enrijecida na cadeira.
– Tio, tire ele dali, por favor – murmurei.
– Vai ser pior, acredite – ele abanou a cabeça. – Ele já apareceu aqui algumas vezes. Fez pior do que está fazendo agora.
Experimentei voltar a olhar, mas foi um erro porque Draco estava vindo nessa direção. Ele me viu e seus olhos se arregalaram.
– Meu Merlin, veja só isso... – deu uma risada seca. – E você acha que eu vim aqui só por sua causa? Sua egocêntrica! Gente, olha só... Olha só para ela! Asssssstoria. Gostosa como sempre. Não, sério, calma – ele pisou em falso, mas se agarrou no paletó de um homem sentado na mesa perto dele, para não cair. – Foi mal, cara. Então... gente, eu preciso confessar uma coisa. Olhando pra esse rostinho lindo... eu tenho vontade de fazer poesia...
Draco andou até o palco. Eu ia me arrepender aquela noite. Eu ia me arrepender de ter conhecido ele.
Comecei a duvidar das palavras de Narcisa. Ele faz isso para testar as pessoas que ama.
Eu não queria ser testada dessa forma. Ele agia como se eu fosse culpada... como se eu tivesse me livrado dele porque eu quis e não porque as circunstâncias exigiram.
Talvez se eu não tivesse sido tão medrosa... e altruísta. Talvez se eu não tivesse negado o seu pedido de casamento!
Draco chegou ao palco e arrancou o microfone da mão do outro bruxo e o empurrou.
– É a minha vez! Vocês querem que eu cante ou que eu dance? Ou os dois juntos! Ei, cara da flauta, solta um dó menor. Ela que me ensinou – apontou para mim. – Dó menor. Ainda lembro, querida!
O cara da flauta assentiu e começou a tocar uma música lenta. Uma vez Draco teve a curiosidade de aprender a tocar piano e eu citei a maioria das notas e das acordes para ele. Foi um desastre essa aula, porque, como sempre, ele já achava que sabia de tudo antes de eu demonstrar como eram as posições dos dedos. Mas tínhamos nos divertido tanto, rido um da cara do outro, e depois arrancado as roupas de nossos corpos, que eu nem ligava por ele ser um péssimo aluno.
Mas ele havia decorado a nota por algum motivo desconhecido.
Era melhor eu ir embora dali.
Quando me levantei em direção à porta, as pessoas começaram a vaiar. Certo. Achei que estavam vaiando a minha saída, mas quando fui tirar essa dúvida, na verdade começaram a vaiar Draco, que tinha começado a citar umas frases que o chapéu seletor cantava na cerimônia de começo de ano letivo em Hogwarts. Algo como as pessoas devem ficar "unidas" nos tempos das trevas.
Ouvi alguém gritar: – Sai daí, seu comensal da morte estúpido! Seu lugar é na cela com o papai!
E então um copo de vidro atingiu o rosto de Draco, cortando-o bem na testa. Eu corri na direção do palco e eu não tive nenhuma intenção disso. Mas simplesmente fui até o palco, não para socorrer Draco, mas para impedir o que eu sabia que Draco ia fazer. Eu pisei os pés na frente dele, segundo antes dele tirar a varinha do bolso, ameaçando seu agressor.
– Sai da frente – ele me empurrou, mas eu me mantive em pé. – Quem foi o idiota? Você vai pagar por isso! Sai, Astoria. Eu vou matar esse cara.
Eu segurei o corpo dele, tentando tirá-lo dali.
– Draco, por favor – implorei, mas ele não ligava mais para mim agora. Ele estava com raiva e sangrando. Ele não ia deixar isso barato.
Eu só sabia que não podia deixar ele fazer aquela besteira. Machucar a si mesmo tudo bem, mas às outras pessoas só pioraria tudo e eu não queria isso para nenhum de nós.
Ele me empurrou de novo e eu me desvencilhei, temendo que ele fosse realmente soltar algum feitiço. Mas engoli em seco quando metade dos bruxos ali presentes também estava com suas varinhas apontadas a ele.
– Você não vai machucar ninguém – disse um homem em tom de ameaça.
Até bêbado Draco sabia que eram todos contra ele e que ele não teria a menor chance. Chutando uma cadeira vazia, ele desceu do palco e com passos pesados direcionou-se a porta. Meu tio pediu para que todos mantivessem calmos e que abaixassem as varinhas, enquanto eu seguia Draco fora do bar.
Era noite e as ruas estavam escuras. Eu vivi o suficiente para que soubesse o quanto podia ser perigoso alguém bêbado andar por essas ruas vazias e miseráveis.
Draco ainda estava cambaleando em alguma direção e eu estava logo atrás dele. Não percebeu minha presença quando se apoiou num poste para vomitar. Eu não ousei me aproximar enquanto isso. Somente quando já havia acabado e estava quase desabando no chão, o que seria algo bem nojento de se ver, que eu o segurei.
– Sai – mandou rispidamente, a voz arrastada e lenta. Não havia nenhuma força nele quando ele tentou me empurrar pela terceira vez só naquela noite. – Eu não preciso de você.
Ele estava pálido, o sangue que escorria pela testa era a única cor viva nele. Eu o ignorei, colocando seus braços ao redor de meu ombro e o arrastando de volta ao bar. Ele relutou e gritou que não ia voltar para lá, mas eu só ouvia a voz de sua mãe em minha cabeça: Não dê essa satisfação a ele. Não desista dele. Eu dei a volta, entrando pelas portas dos fundos. O sr. Johnson estava preparando algumas bebidas.
– O que está fazendo com ele aqui? – perguntou surpreso.
– Ele pode travar a qualquer momento – eu apenas disse. Draco resmungava algumas coisas. – Posso levá-lo lá em cima?
– Bem, pode, mas cuidado com os tapetes, eles estão limpinhos! – Quando o sr. Johnson dissera aquilo, eu já estava subindo as escadas com o peso quase inerte de Draco ao meu lado.
Havia um quartinho espaçoso no porão, onde meu tio guardava coisas supérfluas e sem necessidades, como sofás rasgados e caixas de papelões nunca esvaziadas.
– Que lugar pobre – Draco rosnou ao chegarmos lá. Ele passou a mão na testa e percebeu que estava machucado. – Por que estou sangrando? Você me machucou.
– É, machuquei. Deite. – E mostrei o sofá rasgado e empoeirado no qual ele deveria encostar o corpo imune e vulnerável de álcool e cigarro.
– Não. Esse lugar é nojento.
– Deite – pedi, tentando manter a calma.
– Você não manda em mim, ok, sua...
– Deite! – gritei assustada com a dor e a raiva da minha própria voz. Ele olhou para mim, também assustado, e finalmente se deitou.
– Deve saber que não recebo ordens de pessoas como você – ele disse, fechando os olhos. – Não sei nem porque me trouxe aqui. Não preciso da sua ajuda. Não preciso...
Ele tentou se levantar, teimosamente, mas eu o puxei de volta para o encosto. Ficou repetindo o quanto não precisava de mim e eu tinha que ignorá-lo, para passar um pano úmido no corte de sua testa. Eu fazia isso agachada ao lado do sofá, na altura de seu rosto, mas sem olhar para ele. De repente ele levantou o braço e pousou a mão na minha bochecha de forma gentil e carinhosa, o que não condizia nada com as coisas que ele estava falando. E eu estava tão concentrada em não pensar o quanto sentia a falta dele, mesmo que ele estivesse fora de si, que assustei com o toque.
– Por que você tem que ser bonita pra cacete? – ele perguntou. – Você não devia ter me deixado.
– Eu não... – eu ia começar a discutir que eunão tinha deixado ele, mas discutir com alguém bêbado era tão útil quanto a bicicleta era para um peixe.
– Você tirou o colar que eu te dei? – seu dedo longo roçou minha pele até parar no meu pescoço, percebendo a falta da jóia. Ele soou subitamente alegre. – Aposto que ficou morrendo de ciúmes quando me viu com a Katherine.
– Então sua nova namorada se chama Katherine? – perguntei em um tom casual. Ele assentiu, como uma criança feliz que se gaba sobre seus brinquedos novos.
– Exceto que ela é uma prostituta.
– Oh – falei, como se achasse essa conversa muito interessante. Mas, por uma razão estúpida, eu ainda passava o pano pela testa dele mesmo que não estivesse mais sangrando. – Que fofos. Então ela deve ser melhor do que eu na cama, suponho.
Ele fez uma careta e o sorriso desapareceu. Ele afastou os dedos de mim e passou a mão no rosto, como se estivesse tentando acordar de algum sonho esquisito.
– Ela é muito melhor – Draco respondeu. – Não é exigente que nem você. E também não faz questão de brigar comigo só para ter algum controle. Ela tem umas idéias extravagantes e ela é muito boa mesmo... É um pouco cara, mas é de qualidade. Ou seja, vale a pena, sabe?
– Uau – eu disse. Ele não podia dormir naquelas condições, por isso precisava mantê-lo acordado e conversar pareceu uma opção favorável, mesmo que isso me ferisse um pouco. – Mas ela deve ter algum defeito, não?
– Ela só não consegue me fazer esquecer você. Mas só isso.
Eu deixei o pano de lado e com as costas da mão tirei a lágrima que insistia em cair.
– Quando você vai voltar pra Mansão? – ele perguntou de um jeito débil, de um jeito que me fez parecer estúpida, como se ele estivesse me esperando desde o dia em que eu neguei seu pedido de casamento.
– Bêbados adoram achar que as coisas são bem simples – comentei.
– Quem disse que estou bêbado? Olha, eu estou machucado aqui também... – ele levantou a camisa, mostrando a barriga, mas tudo estava intacto. – Você não vai cuidar dessa parte também?
Entreguei o pano para ele.
– É a sua vez de tomar conta de si mesmo – murmurei. Ele me olhou incrédulo.
– Do que está falando?
– Talvez... talvez... Eu não tenho como te ajudar... e não quero passar a minha vida inteira dessa forma, cuidando de você, te tirando da humilhação. Eu não quero essa tarefa para o resto da minha vida. Você me salvou uma vez, Draco, e me deu um lugar para ficar quando precisei. Eu não sabia qual era a recompensa, mas agora sei. E aqui está ela. Mas isso não vai se repetir.
– Astoria... – ele resmungou quando me viu dando as costas. Ele não tinha prestado atenção em nada do que eu disse, só no fato que eu estava saindo de lá. – Astoria, não me deixa aqui sozinho... Por favor... Katherine é só uma prostituta... é você que eu amo... não... Astoria! – Ele começou a choramingar como uma criança perdida. E se toda vez que caíssemos, ele agisse assim? E se toda vez que brigássemos, ele agisse assim?
Não era só eu que tinha que provar alguma coisa e ser testada nessa relação. Definitivamente recusar o pedido de casamento não fora um erro. Isso era só um resumo do que poderia ter acontecido. Talvez não fossemos durar nem duas semanas como marido e mulher. Não sei nem porque me preocupei em negar só porque tinha poucas chances de ter um filho.
– Tchau, Draco, vou deixar a porta aberta. Mas se eu fosse você, tentaria descansar um pouco antes de ir embora.
Ele começou a me xingar de todos os nomes horríveis, mas ao mesmo tempo dizer o quanto me queria. Saí do quarto, mas não fui embora. Fechei a porta atrás de mim e encostei a cabeça na madeira, ouvindo Draco reclamar e chorar lá dentro. Era tão ridículo que chegava a doer. Apenas fui embora quando tive certeza de que Draco havia dormido finalmente. A essa altura, eu já não estava compreendendo mais o que se passava pela minha cabeça e no meu coração. Eu só sabia de uma coisa: essas duas coisas não estavam conectadas na mesma sintonia.
Talvez ele não fosse se lembrar das coisas que disse, mas eu nunca esqueci. Como Narcisa esperava que eu fizesse alguma coisa se a vez que nos reencontramos ele estava caindo de embriaguez e me xingando? Tudo bem, estava bêbado, não teve medidas nas palavras. Mas só o fato dele ter ficado dessa forma e ainda me provocado... Como eu podia ter segurança ao lado de alguém como ele?
Eu não queria ter deixado tudo aquilo acontecer, mas os acontecimentos partiram para um rumo completamente irônico. Lembro-me de quando eu estava com problemas com dinheiro, eu encontrei a substância certa para me sentir feliz, que é o que todo mundo chama de amor e desejo. Mas agora… no momento em que me encontrava completamente perdida nessas coisas, eu recebi uma proposta que poderia mudar um pouco a minha vida financeira. E não era casamento.
Acho que me esforcei bastante no trabalho, porque na semana seguinte Liz, uma mulher que trabalhava na mesma equipe que a minha, me chamou enquanto eu estava entrando no elevador.
– Bom dia, Astoria – ela disse toda feliz e alegre.
– Bom dia – respondi com um entusiasmo menos exagerado.
– Trabalhando muito?
– O máximo que posso agüentar.
– Eu te admiro, sabia? Você faz o trabalho soar como uma distração. Eu sou obrigada a fazer isso. Mas não que eu odeie. A propósito, o sr. Locke está chamando você no gabinete dele.
– Isso não pode ser bom, pode? Minha saia está muito curta?
– Você está ótima. E não acho que ele irá demitir você, se é o que te preocupa. Bem – o elevador parou e antes dela sair pediu com uma voz sincera: – Boa sorte.
Eu tive de ficar no elevador, já que eu deveria atender ao chefe. Eu não tinha a menor idéia do que esperar, mas segui o caminho até seu gabinete da forma mais confiante que fui capaz. Cumprimentei alguns colegas, que me olhavam de forma entusiasmada, parecia que eles já sabiam o que ia acontecer comigo. Quando bati em sua porta, ela se abriu revelando o rosto do meu chefe. Ele sorria e eu fiquei admirada com a forma como todos estavam sorrindo para mim, como se eles soubessem o que estava se passando comigo e quisessem fazer alguma coisa para alegrar meu mês.
– Bom dia, srta. Greengrass! – exclamou o sr. Locke. – Sente-se, sente-se. Vamos conversar.
– O senhor sabe que eu não sou muito boa de papo – falei e ele estendeu uma xícara de chá de hortelã para mim, dando uma gargalhada.
– Ah, Greengrass, inteligente e engraçada – ele revelou, bastante animado. – Mas não, não vamos ter outra entrevista. E aí, o que está achando do trabalho? Boas experiências?
– Sim, o pessoal é muito receptivo. Gosto de trabalhar com eles. Mas o senhor acabou de dizer que não ia me entrevistar.
– Não vou, não vou – apressou-se a dizer. Até ele sabia o quanto eu odiava ser aniquilada com perguntas e perguntas. Ele se sentou na minha frente, atrás de sua mesa. – Quero apenas lhe fazer uma proposta.
Eu fiz uma careta.
– Não sou muito sortuda com propostas – falei dando uma risada casual.
– Mas aposto que dessa vez você vai ter sorte.
– Sério? O que está acontecendo? Por acaso o senhor vai sair de férias e me deixar no cargo de chefe por cinco meses? Sabe, eu não considero isso muita sorte.
Eu gostava de pessoas que tinham bom humor. Eu podia ser sincera e ele ainda dar risada, achando-me a coisa mais fofa e engraçada do mundo!
– Não, é claro que não. Eu não seria maluco de deixar você entrar no meu cargo – ele disse e eu entendi que ele também estava sendo muito sincero. Eu dei uma leve risada genuína dessa vez. – A questão é que eu quero promovê-la.
Promoção!
– Me promover? Para onde?
– Para País de Gales. Semana que vem. Durante um ano. Aumento no salário. – Ele bateu a mão na mesa, como se gritasse "TRUCO". – E você tem muita sorte!
Se ele achou que eu ia dar risada, então se decepcionou. Eu coloquei a xícara em cima de sua mesa, cautelosamente.
– Por favor, querida, diga que essa sua cara é a sua cara de felicidade e surpresa. Não quero fazer pressão, mas é muito importante ter um Obliviador naquelas redondezas, é mais perto das cidades trouxas. E você se mostrou capaz em se postar de frente a situações tensas.
– Espere, eu não... eu não posso sair de Londres. Esse é o meu lugar.
– Está preocupada com a família? Eu entendo. Mas você ainda pode manter contato através das lareiras. Eu realmente queria ter você trabalhando naquela sede, Astoria. E eu citei que vou aumentar o seu salário? E que o hotel que você ficará hospedada é por conta do Ministério?
A princípio, fiquei apreensiva com tanta sorte que não confiei muito que fosse dar certo. Mas as pessoas sempre falam que as oportunidades não vêm até elas em vão. E eu podia aumentar o meu salário. Ia ter um hotel, sem ter de pagar contas de luz ou comida.
– Senhor, isso é... incrível – eu disse, mal acreditando.
– Você vai aceitar?
– Quanto tempo eu tenho até me decidir?
– Eu gostaria que você desse a resposta amanhã ou depois de amanhã.
– Assim tão cedo?
– São as regras.
Eu não esperava mudar o rumo da minha história tão abruptamente, e não sei se foi à emoção do momento ou das coisas que tinham acontecido que me fez estender a mão naquele momento ao meu chefe, e dizer:
– Pode garantir a minha estadia. Um ano? Perfeito.
Será que isso era uma válvula de escape? Será que eu estava fugindo de tudo? Não, eu estava tentando encontrar algum significado em minha vida.
Ele apertou a minha mão, sempre satisfeito com a velocidade que eu tinha de decidir as coisas. Devo ter ganhado vários pontos devido a isso.
Parece que ser promovido para outra sede do departamento era motivo de comemoração no trabalho. Quando saí do gabinete, havia um grupo de colegas que me cumprimentaram com entusiasmo. Liz até me abraçou e começou a contar enquanto servia whisky para a equipe, mesmo que fossem só dez horas da manhã.
– Sabe, eu lembro quando fui promovida. Foi à melhor época da minha vida. Apesar da tensão do trabalho... a gente acaba se divertindo. Foi lá que eu conheci meu noivo, o Bradley, mas não que isso interesse para você e...
– E nós vamos sentir a sua falta aqui, queridinha – Jake Murrey segurou meus ombros e eu girei os olhos com o apelido.
– Eu não sou sua queridinha, queridinho – eu rebati, tirando a mão dele dos meus ombros. Mas eu sorria, por algum motivo.
– Você vai aceitar, certo? O hotel é incrível – disse Jake. – Eu iria com você, mas nunca que iriam me deixar entrar no seu quarto. E eu ia lá só pra isso.
– Quer parar de cantar a menina, Jake? – Liz girou os olhos. – Ela não está afim de você, quantas vezes tenho que lhe dizer?
– Acho que todo mundo sabe que eu não estou afim de você, Jake – falei como se tivesse pena dele. Mas nós apenas nos divertíamos.
– Não posso nem ter uma chance agora que você vai embora? Vamos, me dá um abraço.
Eu sempre recusava os abraços dele. Parecia até uma tradição e eu fiquei surpresa com a forma como, na verdade, eu tinha alguns amigos. Por que a gente só repara nisso quando temos um prazo para ficar com eles?
– Eu só vou viajar semana que vem – expliquei, desviando dos braços de Jake, fazendo o pessoal rir. – Vamos deixar as despedidas na hora certa.
– Ai, eu adoro mulher difícil – comentou Jake fingindo que estava enlouquecido.
– Uau, nunca me disseram que eu sou difícil. – E isso era verdade.
– Não ligue para o Jake, Astoria – pediu Liz abanando a cabeça e me afastando do rapaz de um jeito cauteloso. – Ele é apenas tonto, eu não pediria para você se sentir única, porque ele fica dando em cima de todo mundo.
– Certo, obrigada pela dica – e pisquei para Jake, provocando-o.
Nos próximos dias, eu conheci minha nova equipe de trabalho. Eles não eram tão calorosos como Liz, Jake, Bradley, mas pareciam dispostos a me colocar na equipe, devido aos elogios que eles ouviram sobre mim. Estavam confiantes da minha postura. Fizeram alguns testes e perguntas para mim e, quando chegou sexta-feira, disseram que eu estava preparada.
Meu tio ficou ansioso e triste, quando eu lhe contei sobre sair de Londres. Ele me abraçou e me desejou boa sorte. Não tiveram lágrimas nem nada, pois ele sabia que eu voltaria para o Natal ou a qualquer momento, se ele precisasse de mim. Eu podia aparatar, mas fui auxiliada para que não fizesse isso toda hora, então, quando eu já estava na estação de trem, eu comecei a exigir dele:
– Me chame se a coisa for urgente, eu venho correndo para cá. E não se atreva a voltar a jogar Poker ou qualquer coisa assim, não quero o senhor preso de novo.
– Por que você está brava comigo?
Eu notei que meu tom de voz era ríspido. Mas porque eu estava nervosa e não queria me despedir dele. Agora que o momento estava me encarando, era meio difícil acreditar que eu sairia de um país que vivi a minha vida toda. Como iria visitar as lápides de meus pais? Sem contar o buraco imenso do meu coração.
Mas era tarde demais para me desfazer disso.
– Não estou, desculpe. Eu… – A fumaça do trem ficou mais forte e as pessoas que iam viajar estavam entrando, o que fez meu coração se apertar ainda mais. – Eu preciso ir, tio. Mande um abraço a Tanya, e...
– Astoria, eu ainda preciso te falar uma coisa...
Estavam apressando os viajantes agora. Era melhor eu ir logo. Dei um abraço no meu tio e o agradeci por tudo.
– Não posso perder o trem, tio. – Eu odiava despedida, e se eu continuasse ali olhando para meu velho tio, eu ia me desabar em lágrimas e isso ia mostrar o quanto eu não sabia o que diabos eu estava fazendo entrando naquele trem para País de Gales! – Fale por cartas, ok? Preciso ir. Tchau!
Um homem me ajudou a carregar as malas dentro do trem. Dei uma última olhada na estação. Meu tio estava ali, acenando tristemente. Será que ele ia ficar bem? Claro que sim.
– Vai demorar muito? – perguntou uma mulher velha e carrancuda para mim, esperando que eu saísse de sua frente. Eu encarava a estação como se estivesse esperando algum milagre acontecer. Eu não sabia definir que milagre era esse.
Dei uma risada seca e finalmente entrei no trem.
– Boa tarde – cumprimentou uma mulher sorridente e que usava um crachá pregado no peito do uniforme da estação. – As passagens, por favor?
Eu entreguei minha passagem e ela analisou o pedacinho de papel com a testa franzida. Reparei que ela estava demorando mais do que o usual para verificar o negócio.
– Algum problema? – perguntei, com medo de que ela descobrisse que eu era uma bruxa ou sei lá.
– Espere só um minutinho.
Havia uma caixa organizada ao seu lado. Ela pegou outra passagem e a comparou com a minha. Depois sorriu para mim de novo e disse:
– Não, está tudo perfeito. Tenham uma boa viagem. O compartimento vinte e seis se encontra no fundo.
Eu estava meio distraída para reparar no plural do verbo quando ela me desejou boa viagem. Arrastei as malas, sentindo-me como se estivesse indo a Hogwarts por algum motivo estranho. Observei os números dos compartimentos. Os vazios estavam abertos, mas quando cheguei ao número vinte e seis, estava aberto também, mas não vazio.
Não vazio.
– Deve saber, Astoria – ele disse com a voz baixa, olhando para as unhas da mão. – Eu também não gosto de despedidas. Mas isso não é desculpa. – Ele olhou para mim. Estava usando uma camisa de manga cumprida preta e um jeans azul, os cabelos estavam penteados e o rosto limpo em seriedade. Ele estava sóbrio. – Nós precisamos conversar.
E ele queria conversar. Essas palavras vindas de alguém que não acreditava em conversas, de alguém que preferia ficar bêbado a ter de falar sobre os sentimentos, de alguém que não queria ser contrariado, de alguém que não perdia o tempo discutindo coisas sem sentido, como o amor, era um milagre.
Eu entrei no compartimento e me sentei no banco paralelo ao dele, mas não fiquei a sua frente. Não podíamos ficar próximos. Sabíamos que não agiríamos de forma racional se ficássemos próximos. Nosso contato físico era perigoso, mas limitado. Só que a razão não.
– Talvez – eu disse, equilibrada, cruzando as pernas.
Um homem nos interrompeu, servindo duas taças de vinho. Uma para mim e uma para Malfoy. Ele desejou boa viagem e o trem começou a andar.
Eu ia colocar o vinho no meu organismo quando ficamos sozinhos de novo, mas Draco me impediu.
– Sóbrios – acrescentou. E derramou o vinho no chão do trem.
Eu ergui as sobrancelhas.
– Você tem noção que esse vinho é mais caro da Grã-Bretanha? – indaguei. – É pecado desperdiçar dessa forma.
Ele se levantou e fiquei rígida, achando que ele ia se aproximar de mim. Mas tudo o que fez foi fechar o compartimento. Voltou ao seu lugar, na minha diagonal, e disse:
– Isso não é sobre dinheiro, querida.
E vendo pela sua expressão, a viagem ia ser longa.
Assim como a nossa conversa.
Mais uma vez agradeço a todos que estão lendo e principalmente aqueles que estão comentando! Quem ainda não comentou, por favor *-* Até os próximos!
