I Belong to you

Eu me desvencilhei de Draco.

– Espere um minuto, já volto.

Percebi que Dafne, mesmo com o belo vestido, não estava querendo descer as escadas. Eu andei em sua direção. Mas no momento que comecei a subir as escadas, ela me viu aproximando e deu as costas, saindo do salão.

Eu fui atrás dela e paramos no hall de entrada da Mansão. Estava silencioso. Perigosamente silencioso. Ela, ainda de costas para mim, pegou um carrinho onde havia um bebê deitado, e começou a ir embora.

– Dafne! – eu exclamei intrigada.

– Eu não devia ter vindo aqui. Eu não sei nem porque estou aqui. Não quero ver seu casamento com aquele cara. Eu vou embora.

– Você adora se arrumar para nada – eu comentei, vendo como ela estava linda, com lápis nos olhos e o cabelo, mesmo curto, praticamente brilhando de tão dourados. E o vestido também era incrível. – Ou ainda é só para causar inveja de cinco minutos?

Ela abanou a cabeça, sabendo que eu era a noiva e eu quem exalava algum tipo inevitável de inveja.

– Tchau.

– Espere. Quero conhecer meu sobrinho. – Apontei para o carrinho. Dafne fez um muxoxo, arrastou o cabelo dos olhos e, sem dizer alguma coisa, virou o carrinho na minha direção, mesmo com uma péssima vontade.

– Oh. – Deixei escapar a exclamação quando vi o bebê. Ele tinha olhos grandes e verdes. Mas não era loiro. Eu até duvidaria que fosse o filho de Dafne, se ela não estivesse carregando ele. Acho que Dafne nunca adotaria um bebê que não fosse seu. E acho que Dafne, pelo visto, nunca tentaria jogar fora um que saísse dela. Lá estava Dimitre, com poucos fios de cabelos castanhos, tinha cinco meses e era gordinho, saudável. Lembro que Dafne sempre gostou de brincar com bonecas quando criança, mas nunca pensei nela tendo um... filho de verdade. Não era uma boa combinação.

– Pronto, já viu? – perguntou, hostilmente.

– Dafne, ele é lindo – falei. Eu estava agachada na altura do bebê e ele olhava para mim, curioso. Fazia uns sons esquisitos com a boca e uns movimentos desajeitados com os braços, na minha direção.

– É que você não viu quando ele saiu da minha vagina – ela disse com uma voz enojada. – Parecia uma uva-passa.

– Hum, e você ainda ficou com ele? – eu disse muito impressionada. Desviei a atenção de Dimitre para olhar Dafne. – Sozinha?

Ela deu de ombros e não disse nada. Se eu não conhecesse minha irmã, eu diria que ela estava tentando esconder o máximo de informação que conseguia de mim, com medo da minha reprovação.

– Onde está o pai da criança, Dafne? – perguntei, meio que a pressionando.

Ela mordeu os lábios e seus olhos começaram a se encher de lágrimas.

– Você está perdendo a festa do seu casamento, Astoria – ela disse. A voz vacilou. – Não vai querer ficar lá com sua nova família? Vão achar que você desistiu de casar.

– Primeiro, eu me casei. Segundo, você ainda é minha família, Dafne – eu retruquei. – É minha irmã, e eu quero saber o que aconteceu. Você se casou?

– Não, não me casei – ela respondeu como se quisesse tirar alguma satisfação disso. – Eu transei com um cara e ele foi embora, só isso. Essa é a minha história. Romântica, não é mesmo?

– Pare de falar dessa maneira. Está na cara que não foi só isso o que aconteceu.

Ela enxugou os olhos com as costas da mão. Dimitre balbuciou alguma coisa. Acho que ele queria sair do carrinho. Acho que ele queria ficar no colo da mãe. Mas Dafne o ignorou e começou a dizer para mim:

– Eu conheci um cara um tempo atrás. Ele era incrível, ok? Tinha uma casa maravilhosa e nós nos apaixonamos. Pode pensar o que quiser, mas eu cheguei a dizer que amava aquele cara. Cheguei a dizer que amava mais ele do que a pulseira que uma vez ele me deu. De ouro. Linda, maravilhosa. Eu cheguei a pensar que íamos nos casar. Oh, seria incrível. E ele não parecia o tipo de cara que se importava com o fato de eu ter matado um psicopata. Ele até achou aquilo excitante. Nós nos divertíamos tanto. Então aconteceu que eu engravidei. Sim, eu vomitei durante uma semana até descobrir que eu estava grávida. Markus me abraçou. Mas naquela noite a gente foi pra cama e ele não quis transar comigo. Doeu em mim. E quando acordei, ele não estava mais lá. Deixou um bilhete: "Acho que já deu, não posso continuar com você." Eu fui atrás dele, Astoria, desesperada, implorar para ele continuar comigo. Mas então eu descobri que ele era casado e que já tinha filhos. Dois filhos, um de três e outro de cinco anos. A casa em que ficávamos devia ser a décima casa dele, abandonada, numa ilha incrível. Ele apenas me queria como amante ou sei lá. Se eu não estivesse grávida, eu teria achado aquilo extremamente excitante. Mas eu fiquei tão puta. Eu fiquei tão puta que...

Eu estava com medo da história enquanto a escutava. Dafne parou de falar um instante. Viu que Dimitre chorava por atenção e o pegou no colo, antes de continuar a contar:

– Que Markus decidiu me ajudar. Claro, ele sabia que eu podia fazer alguma coisa drástica... – ela afastou rispidamente a mão de Dimitre que tentava agarrar seu cabelo e apertá-lo. – Disse que daria uma quantia necessária de galeões para eu conseguir cuidar dele, claro, mas sozinha. E ele deu. Tenho até uma conta em Gringotes. Não sou rica que nem você agora, mas consegui uma casa para mim em Long Island. Quer parar? – exclamou impaciente ao filho, que puxava o colar do seu pescoço. – Dimitre é terrível, ele não consegue ficar parado. Eu não durmo há meses. Tentei encontrar uma babá pra esse moleque, mas ninguém suporta os choros. Para com isso, porra!

Eu estava impressionada. Tudo bem, nunca é legal ver uma mãe se comportar com o filho daquela forma tão estúpida e hostil, mas aquela era Dafne. Estava com o garoto no colo, vivendo sozinha cuidando dele, ninguém podia culpá-la por não saber dar educação ao filho. Mas eu estava impressionada. Muito impressionada. Tanto que só consegui perguntar:

– E esse tal de Markus sabe que ele já nasceu?

– Bem, deve ser bom em contas. Deve ter deduzido que já se passou um ano desde que estive grávida. Será que ficou preocupado se eu ou o bebê estamos vivos, saudáveis e felizes? Não quero saber. Não quero ver aquele homem na minha frente nunca mais. Ele mentiu. Ah, se eu ver... – ela deu uma risada fria em meio ao choro. – Se eu o ver passando pela rua, eu vou... olha, eu nem faço idéia do que vou ser capaz de fazer. Eu só não vou lançar uma maldição nele porque ele me deu aquele dinheiro todo.

Eu não soube o que dizer, mas saber que Dafne não estava ali me pedindo ajuda e, sim, contando o que estava acontecendo com ela me fez ter coragem para perguntar:

– Você tem certeza que quer ir embora? A festa está incrível.

– Esse bebê não vai me deixar sossegada. Além disso... se ele passar da meia-noite sem dormir... amanhã eu vou ficar maluca. Mais do que já estou...

Ela parecia tão desesperada. Tão sinceramente desesperada que eu mal a reconheci. Dafne voltou com Dimitre no carrinho e mandou-o ficar quieto.

– Eu preciso ir – falou depois para mim. Eu podia insistir, mas não queria discutir com ela, muito menos implorar. Antes de sair, ela acabou confessando: – Eu sei quem Draco Malfoy foi antigamente, Astoria. E eu nunca acreditei que as pessoas fossem capazes de mudar. Se você fosse da Sonserina, também teria esse pensamento. Mas... elas mudam sim. Mas não porque elas querem... e sim porque alguma coisa obriga elas a mudarem. – Sendo assim, Dafne lançou um olhar diferente a Dimitre, como se suas palavras não se referissem somente a Draco. Ela enxugou os olhos, manchando um pouco da maquiagem. Pegou o carrinho e deu as costas, mas sem antes murmurar: – Adorei o vestido.

Enquanto a via indo embora, perguntei-me se ela assistiu a cerimônia.

– Astoria? – a voz de Rachel me fez voltar à tona. Eu estava chocada com aquela conversa e com o elogio, com a história, com aquele comportamento tão diferente de Dafne. Rachel olhava, admirada, para todos os cantos da Mansão quando perguntou: – Por que está aqui?

– Hum? Ah, eu estava conversando com minha irmã.

– Todo mundo achou que você fugiu.

Eu arregalei os olhos, mas ela começou a rir quando viu minha expressão.

– Brincadeira. Mas estão servindo as comidas, e pediram para que eu a encontrasse.

Eu voltei com ela para a festa. Pensei encontrar Draco, mas quando o vi conversando com Blaze Zabini, seu antigo amigo de Hogwarts, não quis interromper. Além disso, Rachel pegou uma bebida e quando deu o primeiro gole, começou a desabafar:

– Lucas e eu terminamos.

Eu fiquei sem saber o que dizer. Dafne me contou que engravidara de um homem casado que fugiu, e agora Rachel estava ali, dizendo que terminara com o amor de sua vida. Eu estava me sentindo tão incrivelmente feliz aquela noite que não sabia como reagir àquelas notícias. Mas Rachel não parecia querer ouvir lamentações ou compartilhar desgraça.

– Eu resolvi contar a ele o que sou, sabe. Que sou bruxa. Juro que achei que ele ia ser mais homem em relação a tudo isso, mas me acusou de mentira, que eu menti a ele o tempo todo. Mas veja só. A questão não foi nem porque eu sou bruxa, mas porque eu menti. Eu não menti, Astoria, eu apenas ocultei informações para o bem dele. Olha que diferença. Mas então brigamos e terminamos.

– E vocês vão voltar?

– Esse é o problema. Mesmo se eu aparecesse querendo me desculpar, ele nunca saberá quem eu sou ou o que fui para ele.

– Você apagou a memória dele?

– Esse é o nosso trabalho, não? – ela disse baixinho, intrigada. – Além disso, seis meses não é tempo suficiente para decidir se a gente se ama, nem para se casar.

– Vocês só se conhecem há seis meses e já iam se casar? – eu perguntei como se quisesse dar uma bronca nela.

– Eu sei, eu estava fazendo uma besteira tremenda.

Ela parecia mais revoltada do que machucada. Enquanto falava, o copo de whisky que ela segurava entre os dedos se movia de um lado para o outro, agitado. Ela tinha aquela mania de mover os braços enquanto falava, mas dessa vez fazia exageradamente. Tanto que quando Caleb se aproximou, Rachel bateu o braço no peito dele, derrubando o líquido no chão.

– Ei, cuidado – ele disse se afastando antes de ser atingido. – Meus sapatos são novos.

Rachel se virou para ele, depressa. Fez cara de quem ia começar a pedir desculpas, mas parou no ato. Deve ter visto o quanto ele era bonito. Mas então olhou para os sapatos de Caleb. E fez uma careta.

– Credo, seus sapatos são horrorosos. E você tem coragem de vir nesse casamento com eles? Credo.

Ela se afastou, indignada, com o copo de whisky chacoalhando. Caleb olhou para mim pedindo algum tipo de explicação sobre a garota que havia acabado de xingar seus sapatos.

– Ela é legal – eu avisei, antes de receber seu abraço. – Você veio.

– E perder essa festa? Acho que não. Além disso, tem muitas garotas bonitas aqui. Não estou falando da noiva – acrescentou. – Embora mereça muitos elogios. Não digo o mesmo daquela moça. Quem ela pensa que é para falar mal dos meus sapatos? Eles são mesmo horríveis assim?

Eu fiz uma careta e ele abanou a cabeça. No mesmo momento, Draco reapareceu e segurou minha cintura, cochichando no meu ouvido:

– O que Dafne estava fazendo aqui?

– Depois eu te explico. Draco, este é Caleb Foster.

Draco finalmente reparou que Caleb estava ali à frente. Ambos foram maduros. Eles apertaram as mãos, mas não disseram nada. Caleb se afastou para tirar satisfação com Rachel e nos deixou sozinhos.

Mas nossa solidão não durou mais do que cinco segundos, porque Narcisa se aproximou de nós, a mão ocupada por uma taça de firewhisky. Ela olhava na direção dos casais dançando, quando falou:

– Devo dizer que vocês parecem muito felizes. Toda a correria valeu a pena, ou vocês ainda não gostariam que eu tivesse feito toda aquela lista de convidados?

– Sinceramente, mãe – disse Draco –, eu achava que a maioria não estava viva.

Narcisa olhou para ele como se não aprovasse aquela piadinha, mas Draco não estava fazendo piada. Era realmente impressionante a quantidade de pessoas que estavam ali. Ela apenas deu um suspiro.

– Não via a família de seu pai há tanto tempo que...

– Narcisa! – Uma voz fina e trêmula soou atrás de nós. Narcisa até estremeceu.

Draco e eu olhamos no mesmo segundo, quando uma senhora de setenta anos se aproximou. Apoiava a bengala com firmeza, mas parecia estar fazendo muito esforço para chegar até Narcisa. Mesmo assim, sua expressão era tão decidida e fria que tive a reação de ficar mais perto de Draco e o mais longe dela.

– Olá, Morgana – disse Narcisa, demonstrando absolutamente nada. Era como se ela já tivesse se acostumado a ouvir tal voz e receber tal expressão.

Morgana finalmente viu Draco e, de repente, sua expressão mudou. Ela sorriu tão abertamente que parecia ter ficado mais jovem. Por trás das poucas rugas, Morgana era atraente, como todos da família. Chegou mais perto de Draco e uma de suas mãos pousaram em seu rosto.

– Meu neto – havia orgulho em sua voz. – Tão parecido com Lucius.

– Oi – Draco disse sem encará-la. Ele não parecia tímido, mas sim um tanto intimidado.

– Bela festa! – Morgana olhou ao redor. – Mas não melhor do que o casamento de Lucius. Onde está meu filho, afinal de contas?

Lucius estava servindo-se de whisky quando reparou que sua mãe olhava para ele. Com passos lentos, ele se aproximou de nós.

– Estou orgulhosa de você, Lucius – disse Morgana com a voz baixa, segurando um pedaço do paletó que ele usava. – Criou seu filho e ele está se casando. Achei que depois de tudo, não teria motivos bons para voltar a esta Mansão.

Ele olhou para Draco e depois para Narcisa.

– Está elogiando... a pessoa errada, mãe – disse Lucius silenciosamente.

Morgana lançou um olhar a Narcisa, indicando que as duas deveriam ter alguma história a ser concertada no passado. Como se elas nunca tivessem se dado bem, desde o dia em que Morgana obrigou ela a usar um vestido tão horroroso no próprio casamento. Como se estivessem se obrigando a suportarem a presença uma da outra desde muito tempo.

De repente, Morgana se virou para mim.

– Vejo que não está com aquele vestido.

– Eu não obrigaria ela a usá-lo – a voz de Narcisa estava firme e em tom de defesa.

– Mas é uma bela moça – elogiou, ainda olhando para mim. Era difícil sustentar aquele olhar antigo, mas... eu tentei. – Conheci seus pais. Os Greengrass. Sinto muito pela perda. Foram bons sangue puros. E você me lembra muito sua mãe.

Eu ia agradecer, mas para mim isso não era um elogio.

– Espero que esteja se referindo a aparência – falei. Eu não queria ser lembrada como a minha mãe, uma mulher que deixou se levar pelos princípios familiares e simplesmente esqueceu a própria vida, ignorando o fato de que fora traída pelo meu pai durante tantos anos. Uma mulher fraca e infeliz. Mesmo assim, minha mãe era a mulher que eu mais sentia falta naquele mundo, naquele momento, no meu casamento.

Eu ainda continuei sustentando o olhar da avó de Draco, mesmo com a imensa vontade de chorar. Meus olhos estavam aguados, mesmo assim esperei pelas próximas palavras delas. Morgana me observava com atenção. Sua expressão ficou curiosa e, então, ela assentiu.

– Sim, estou falando da aparência, é claro.

Finalmente ela desviou a sua atenção de mim e se ocupou em criticar a festa. Eu me afastei um pouco.

– Vou pegar alguma coisa para beber – anunciei a Draco, notando como minha garganta estava seca. Eu fui em direção ao balcão das bebidas, mas Draco me impediu de dar outro passo.

– Ei, você está bem?

– Estou, estou – falei depressa. De repente eu lembrei que agora ele era meu marido e que não adiantava nada reprimir meus sentimentos na frente dele. Mas aquilo era uma festa. Não queria que aquelas pessoas reparassem nas minhas lágrimas. Se fosse para extravagar minhas emoções, apenas quando estivéssemos sozinhos. Era muito mais fácil e muito mais confortável.

Minha parte favorita da festa foi o buquê. Todas aquelas mulheres solteiras estavam louquinhas para que eu o jogasse. Rachel pulava animada e se esbarrava com as outras primas de Draco, mas eu acho que ela realmente estava um pouco bêbada. Eu me virei de costas a elas e joguei o buquê para trás. Era tão tradicional e ridículo, que não tinha como não dar risada. Quando Rachel agarrou o buquê, ela comemorou e as primas de Draco olhavam feio para ela, soltando muitas pragas em sua direção.

– Dizem que quem pega o buquê, vai realmente se casar – eu disse a ela.

– Não com o Lucas, pelo visto! – ela riu. Eu franzi a testa em direção ao copo que ela segurava.

– Não acha que já bebeu demais?

– Sim! Mas eu consegui pegar o buquê. Agora é só descobrir quem vai ser o meu marido.

– Eu estou solteiro – Caleb, na mesa ao lado, indicou a si mesmo.

– Se você prometer que não vai usar esses sapatos no nosso casamento, quem sabe – retrucou Rachel, sentando-se na mesa com ele, tão perto que quase ficou em seu colo.

– Qual é o seu problema com meus sapatos? – ele perguntou, estressado.

– São muito feios para um homem tão bonito. Então você se chama Caleb? Meu nome é Rachel... mas pode me chamar de Raquel. Dá no mesmo.

Eu resolvi deixá-los a sós quando eles apertaram às mãos. Mesmo que Rachel estivesse um pouco alterada, eu não achava que ela ia dar muito problema. Além disso, no final da festa quando a maioria dos convidados já havia se despedido de nós, eu a encontrei com a cabeça encostada na mesa, e não tentando extravagar suas emoções na pista de dança, ou na boca de algum primo do Draco.

– Acho que ela dormiu – disse Caleb quando fui verificar o que havia acontecido. – Ei.

Ele chacoalhou o seu braço.

– Você não pode voltar para casa nesse estado – ele disse quando Rachel o encarou.

– Quem se importa? – resmungou.

– Eu te levo, já estou indo embora também.

Ela não reclamou quando Caleb tirou o paletó e colocou sobre seus ombros.

– Parabéns de novo, Astoria – ele desejou, enquanto ajudava Rachel a se levantar da cadeira. Assim que ela me encarou, abraçou-me com força.

– Seja muito feliz!

– Sinto muito pelo seu namoro – eu disse.

– Não seja por isso – respondeu, ainda rindo. – A fila anda. Vamos, Caleb, me leve para a casa.

Assim que eles foram embora, não sobraram muitas pessoas para conversar. E talvez Draco estivesse na mesma situação que a minha quando os seus últimos amigos de Hogwarts foram embora, porque ele me segurou e me beijou quando voltamos a nos encontrar.

– Vamos sair desse salão – ele sussurrou.

– Mas é a nossa festa de... AH!

Eu abafei meu gritinho de susto por ter sido tão bruscamente levantada pelos seus braços. Draco havia me tirado do chão e me carregava para fora do salão, subindo as escadas comigo.

– Meus pais cuidam dos últimos convidados – ele disse, despreocupado. – Você não me deu muita atenção essa noite.

– Que falta de paciência – girei os olhos, mas não impedi de deixá-lo me levar até o corredor principal da Mansão. Eu estava com dor nos pés e as sandálias não estavam mais confortáveis. Ele caminhava comigo, subindo mais e mais escadas. – Avise se eu estiver começando a ficar pesada.

– Você não é nenhum peso para mim. Já estamos chegando. Ou você quer que eu voe até o quarto?

– Seria mais fácil se você aparatasse.

– Que falta de paciência.

Finalmente ele chegou. Fechou a porta com os pés. Andava calmamente até a cama, e, delicadamente, me jogou ali. Eu olhei para ele que se aproximava de mim ajoelhado. Havia um sorriso inclinado ali no seu rosto e seus olhos passavam por todo o meu corpo. Eu sabia que sua intenção era arrancar o vestido, mas eu pedi:

– Não rasgue.

– Entendo – sussurrou, segurando minha perna esquerda, apoiando-a sobre seu ombro.

A primeira coisa que fez foi tirar minhas sandálias. Roçou os lábios no meu tornozelo e aquele gesto, de algum modo, foi alucinante. Ele deslizou com a boca, levantando a base do vestido, para beijar a extensão de minha perna e coxa, acariciando a outra com aquela sua mão quente e forte.

Coloquei o pé em seu peito, empurrando-o. Draco agiu como se eu estivesse atrapalhando seus planos. Eu me sentei na cama e me virei de costas para ele. Não foi preciso dizer nada, Draco já estava abrindo meu vestido, e os beijos em meus ombros eram apenas detalhes. À medida que ele passava a língua na pele que era revelada em minhas costas, eu soltei meu cabelo, pois sabia que era dessa forma que Draco mais gostava dele. Solto.

O vestido deslizou fora de meu corpo. Draco segurou minha nuca e afogou os dedos em meu cabelo, expondo meu pescoço para que lambesse. Foi sensual, prático e gostoso. Eu fechei os olhos, apenas apreciando. Depois voltei a encará-lo e deitei no colchão novamente, esperando enquanto o vestido era tirado do meu corpo de forma suave e cautelosa. Eu sorri quando ele dobrou o vestido e se levantou para guardar sobre a mesa ao lado. Estava mesmo tendo cuidado com aquilo, um cuidado irônico e irritante, sendo que o que eu mais queria era ser possuída logo de uma vez, sem dar importância a mais nada.

Mas eu estava gostando daquela calmaria. Era excitante. Ele voltou para a cama e retomou fácil o que estava fazendo antes de ter se interrompido. Explorou minha barriga nua, deslizando a língua ao redor do meu umbigo. Segurei seu cabelo, despenteando-os, e ele subiu até um de meus seios. Ele o lambeu, sem pudor. Havia uma certa fome na maneira como chupava meu mamilo. E depois o outro. Eu deixei escapar um suspiro prazeroso, passando os dedos em seu cabelo macio e loiro. Enquanto isso, enquanto ele me estimulava ali, seus dedos abaixavam o elástico da minha calcinha. Reclamei quando afastou-se dos meus seios para ele tirar a última peça que me faltava. Ele ainda estava completamente vestido, e eu estava completamente nua.

Eu podia sentir a respiração dele em minha virilha, e eu gemi antes mesmo de receber sua língua em meu clitóris.

– Oh, eu odeio quando você faz isso... – murmurei, contorcendo-me.

Eu tinha tanta raiva. Eu sentia ele me invadindo daquela forma, e eu queria morder alguma coisa, prensar minha unha na pele dele, mas isso ia exigir muito esforço, então a única coisa que me restava era o lençol ao meu redor e isso não era o suficiente. E meus gemidos saíam estrangulados, ele sabia exatamente como me deixar maluca só com aquela língua que serpenteava dentro de mim.

Ah... Draco...!

Eu não tinha a menor idéia do que eu queria dizer, mas eu gemia coisas para ele. E ele não parava e ele me torturava e ele arrancava meu fôlego e me fazia sorrir, satisfeita, mas ao mesmo tempo cerrar os dentes e apertar meus dedos contra seus cabelos, puxando-os até machucá-lo. Quando comecei a implorar para ele parar, fui desobedecida. Eu não queria gozar naquele instante, mas nossos planos estavam muito distintos aquela noite. Ele insistiu, chupando-me, com força e desejo. Fez menção de parar, mas voltou, com mais intensidade ainda.

Eu gritei, estressada. Mesmo tendo atingido o orgasmo e gozado, Draco não se afastou. Eu respirava tão ofegante que minha audição estava abafada, e ele ainda continuava usando a língua dele, lambendo-me como se eu fosse à coisa mais deliciosa do mundo. O pensamento me fez sorrir de novo, mas eu ainda puxava seus cabelos.

– Está bem, Draco, eu não sou... a única aqui...

– Achei que ia me agradecer. – Ele lambeu os lábios, com um sorrisinho, enquanto voltava a ficar sobre mim.

– Você sabe que eu nunca... agradeço... – Puxei a gravata dele, para sussurrar: – Eu recompenso.

– Eu não casei com a mulher errada – ele percebeu, pouco antes de eu beijá-lo com força, arrancando a gravata do seu pescoço e abrindo sem um pingo de paciência aqueles botões da camisa social. Eu acabei quebrando os dois últimos, mas nada que fosse muito grave. Eu precisava dele. Tirei a camisa junto com o paletó e os joguei em algum lugar do quarto. Ele ria do meu desespero, quando subi em cima dele.

Beijei seu peito e desci até seu abdômen, fazendo-o se arrepiar. Ele sorriu ao ver o que eu ia fazer quando tirei sua calça juntamente com a cueca e alcancei a ponta de seu membro com os lábios.

– Finalmente – ele provocou, jogando os braços atrás da nuca, um ato relaxado e arrogante. Eu me demonstrei irritada quando movi a língua pela glande, e a risada que ele deu se fundiu a um gemido forte.

Diferente de mim, quando eu o consumia daquela forma, ele implorava para eu nunca parar. Não tinha motivos para acabar rápido. Ele gemia meu nome, a cada chupada, a cada provocação. Quando eu fazia aquilo irritada, ele adorava mais ainda, mas, conseqüentemente, gozava mais rápido.

Quando aconteceu, fiz com que nada sobrasse para ser saboreado devidamente. Ele se recompunha aos poucos, com os olhos fechados, quando voltei a me deitar ao seu lado. Eu coloquei meu cabelo para trás e sorri da sua expressão.

– É... não abandonou o profissionalismo só porque nos casamos – ele disse.

– Tonto – eu empurrei seu braço, rindo.

– Já disse que você é maravilhosa? – indagou e eu me movi para ficar sobre ele novamente. Beijei seus lábios e sussurrei:

– Na nossa primeira noite.

– Você ainda lembra?

– Alguns detalhes.

Ele fez aquela expressão de alguém que teve uma idéia. De repente ele agarrou minha cintura e me girou para que se deitasse em cima de mim. Antes que eu protestasse, ele acariciou meu rosto.

– Por que não imaginamos que essa é nossa primeira vez, então? – perguntou com uma voz hipnotizante. – Você sabe...

– Como se eu fosse virgem? – entortei a boca. – Eu me lembro da minha primeira vez. Foi horrível.

– Não assim – ele disse como se me achasse divertida.

– Você vai fingir que me ama também?

– Não, Astoria...

– Vai prometer não me machucar e depois transar como se eu fosse uma almofada embaixo de você?

– Astoria – ele contornou meus lábios com a ponta do dedo, fazendo-me parar de dizer tanta asneira. – Quero dizer como casados.

– Oh. Vai fazer alguma diferença?

– Vamos descobrir agora.

Ele disse isso antes de me beijar. Nossas línguas se tocavam com amor e delicadeza. Ele mordeu meus lábios e o apertei ainda mais em meus braços. Parando de me beijar, acomodou-se entre minhas pernas, e tirou o cabelo dos meus olhos. A voz dele nunca desafinava quando era num sussurro inaudível:

– Tem certeza que quer fazer isso?

Eu ri, porque sempre tem essa pergunta.

Mas ele perguntou tão sério que eu até considerei a pergunta. Não como sendo irônica, mas verdadeira, como se ele realmente estivesse querendo saber das minhas certezas. Certeza se eu queria viver com ele assim todos os dias.

– Tenho – respondi, puxando-o para um outro beijo, calmo, lento. – Mas não me machuque.

– Não – concordou e então guiou seu sexo para dentro de mim, fazendo-me gemer fraquinho. – Eu te amo. – Ele moveu-se outra vez com o quadril, os lábios pousados no meu pescoço, enquanto ele cheirava meu perfume e mordiscava minha orelha.

Eu fiquei admirada com a forma como ele agiu como se fosse uma primeira vez, muita mais romântica e calma do que a nossa primeira vez de verdade, há praticamente três anos, quando estávamos apenas querendo preencher o vazio do nosso peito com luxuria. Mas essas duas vezes foram maravilhosas e tornaram-se, de algum modo, inesquecíveis para mim. Apesar de distintas, as reações foram praticamente às mesmas.

Nós nos movíamos em sincronia. Tiramos o fôlego um do outro. Ele sorria de lado, gemendo com aquela voz naturalmente rítmica e afinada. Meus dedos passeavam pelas suas costas, enquanto a outra mão acariciava seu peito rígido. Procuramos atingir o orgasmo juntos. Foi intenso, pois Draco fechou os olhos com força enquanto gozava dentro de mim e gemeu até liberar a última gota. Eu o abracei, tendo um pressentimento estranho, mas não era um pressentimento ruim. Eu não soube explicar a sensação que tive quando ele desabou em mim, transpirando e ofegando.

Acho que foi porque eu olhei nossas mãos. As alianças. Depois daquela transa, eu tive a verdadeira sensação de que minha vida ia mudar. Eu apenas não sabia de que jeito.

Draco deitou-se ao meu lado e nos encaramos.

– Eu quero viver aqui – antes de pensar em dizer já havia confessado, mudado de assunto completamente. – Nessa Mansão. Não podem deixar o Ministério tomá-la, eles não têm o direito...

– Nós não temos escolhas...

– Temos sim, Draco – eu impliquei. – Não é assim que o passado é desfeito. Não é tirando a Mansão que vai fazer a gente esquecer. Vocês têm que mostrar que não foram culpados. Podemos usar outro recurso, o que você falou sobre doar dinheiro, isso pode ser muito melhor...

– Astoria – ele me interrompeu e passou um dedo pela minha sobrancelha. – Nunca vão nos escutar.

– Então vamos fazer com que eles escutem. Se não querem dar ouvidos aos ex-seguidores de Voldemort, podem me ouvir. Eu não fui uma seguidora. É uma ótima oportunidade para mostrar que eu mudei meu sobrenome.

– Você faria isso?

– Sim.

– Como?

– Não faço a menor idéia, mas temos que tentar, está bem?

Draco estava rindo. Mas não era um riso sarcástico muito menos debochado.

– Nunca vi você tão determinada.

– Eu também não, estou apenas revoltada demais para deixar isso barato.

– Só porque agora você tem um pouco de direito sobre essa propriedade – ele comentou.

– E se for? A gente tem que lutar pelo que é nosso. E... creio que o que é seu... é meu também.

– Tudo – ele concordou, aproximando-se para me beijar de novo. Seu calor era tão confortável que eu não precisava de fogo para me manter aquecida. – Tudo o que tenho recebe valor com você. Sei que no começo nós estávamos apenas nos divertindo... eu estava apenas querendo transar com você, tentando arrancar um elogio de você para aumentar meu ego... mas agora eu quero você para o resto da minha vida. Pelo menos... numa boa parte dela... nesses tempos em que eu mais preciso. Mas talvez eu precise disso até morrer, porque você me torna alguém melhor, não para os outros, mas pra mim mesmo... Se um dia eu disser para me deixar sozinho, eu quero que me ignore e que me desobedeça, Astoria.

Aquela declaração foi uma surpresa para mim. Nunca pensei em ouvir tais palavras dele. Mas talvez fosse esse o ponto do casamento. Surpreender.

– Não vou desistir – eu disse baixinho. – Se você não desistir de mim.

– Por que eu seria tão... idiota?

– Fazemos idiotices às vezes.

– Isso não é idiotice. Desistir... é suicídio.

Coloquei a mão em sua testa, como se estivesse medindo sua temperatura. Eu dei um sorrisinho.

– Bem, agora só falta você pedir para eu fazer amor com você. E a minha noite estará completa.

– Completa? Você chama isso de completa. Quando perder o fôlego aí sim a sua noite vai ficar completa. E a minha também. Não estou nem suando.

– Vai começar a me dar trabalho pra dormir – eu resmunguei. Já estava sentada em seu colo, pronta para ser preenchida novamente. Pronta e ansiosa. Joguei meu cabelo para trás e sorri, puxando-o para um beijo nos seus lábios manchado de batom. Nunca pensei que acharia aquele detalhe tão sexy em um homem. – Mas não que eu esteja reclamando. Faça-me sua, querido.

Um movimento de nossos quadris, e gemidos embaralhados no ar de todo aquele sexo entre nós. Tudo indicava o que era mais do que óbvio. Mas, mesmo assim, Draco não deixou de afirmar, o sorriso conhecido, arrogante, malicioso e bonito no rosto pálido dele:

– Você já é minha.

Eu podia indicar aquilo como um rótulo ou um status? Nenhum dos dois. Aquilo era só um fato, que nunca tive tanto prazer em deixar alguém admitir. Eu não me sentia presa com Draco Malfoy. Na verdade, eu era toda a minha liberdade com ele.

Mas aquela foi a nossa primeira noite de casados. O que eu teria afirmado nas próximas que aconteceriam? Podia minha idéia continuar a mesma? Como descobrir se minha vida mudaria tanto depois daquela noite? Bastou apenas seguir em frente e descobrir o que estava por vir. Uma mudança é naturalmente evidente. Mas eu não estava reclamando disso também. Há uma razão para querer se casar com alguém. Eu tive a minha; eu estava buscando mudar minha vida.

Se for para melhor ou para pior... essa é uma conclusão para o final. E estamos muito longe disso.