Sacrifice
Uma vez o médico me aconselhara a não engravidar, as chances não eram apenas poucas, mas também eram perigosas. Eu estava arriscando todas essas chances, sem entender o que fiz para merecer tais riscos.
Acordei na cama de um hospital, sem entender, e uma enfermeira simpática sorriu quando me viu acordada.
– Olá, como está se sentindo?
Eu não respondi, com a lembrança da noite passada. Olhei automaticamente para minha barriga. Eu ainda me encontrava grávida, e em minha cabeça isso pareceu ser um alívio, depois de ter sangrado daquela forma.
– Vou chamar o sr. Weinberg, está bem? – a enfermeira simpática falou. – Tente não se mexer muito.
– Nem se eu quisesse – falei e notei que minha voz estava rouca.
A enfermeira saiu e fiquei sozinha por um tempo. Quando o sr. Weinberg apareceu, Dafne estava logo atrás dele.
– Não posso deixar que entre agora – teimava o médico.
– Mas se ela acordou, não vejo problema!
– Não é hora de visita.
– Eu quero saber o que está acontecendo. Eu sou irmã dela. Astoria, diga que eu sou sua irmã.
– Ela é minha irmã – eu disse.
O médico não discutiu depois disso e deixou Dafne ficar ali. Ele se aproximou de mim, sempre tranqüilizador e honesto. Mediu minha temperatura, enquanto dizia:
– O sangramento durante a gestação não é um bom sinal, Astoria.
Ele tinha uma voz que não fazia você se sentir assustada, apenas... confusa.
– O que está acontecendo com ela? – perguntou Dafne ao meu lado da cama. Ao mesmo tempo em que ela parecia enojava, havia um tom de curiosidade e preocupação na voz. – Por que ela sangrou tanto como ontem? Credo!
– A placenta deslocou. Astoria, você não andou bebendo, andou?
Eu me senti ofendida com aquela pergunta.
– O senhor acha que eu sou louca? – perguntei zangada. Ele fez que não e parecia concentrado em analisar mais sintomas.
– Você estava com a pressão muito alta. Mas melhorou, ainda bem.
– E o bebê? – a pergunta saiu de meus lábios tão naturalmente quanto a minha preocupação. – Ele não está se mexendo! Não estou sentindo... Isso é muito grave?
Foi Dafne quem disse, sem pensar:
– Até eu sei que deslocamento da placenta é grave. Você pode sangrar até a morte se parir.
Não podia ser ninguém melhor do que minha própria irmã para dizer isso.
Mas ela fez uma expressão estranha, como se tivesse notado tudo o que disse, e se arrependeu. Tentou concertar suas palavras, mas piorou ainda mais, afirmando que o bebê corria mais riscos do que eu, então eu não precisava me preocupar muito. Finalmente percebeu que ela não ia ajudar em nada, então saiu da sala rigidamente.
– Ela é tão sensível – eu ironizei olhando para o sr. Weinberg.
– Você está passando por uma complicação. Provavelmente irá perder mesmo muito sangue se fizer um parto normal na hora.
– Ok, então eu não faço um normal.
– Neste caso – sua voz estava baixa, dessa vez nada tranqüilizadora: – se deixarmos o bebê nascer, será muito arriscado para você. Mas se não quiser correr esse risco na sua saúde, a solução...
– Não ouse dizer a solução – eu disse, de repente, com muita firmeza. Aquilo tudo estava me afetando de tal forma que eu agarrei a camisa dele e falei meio que rosnando: – Não me diga que eu não vou ter um filho agora. Não aumentei o número das minhas roupas à toa!
– O bebê ainda está bem. Mas, por outro lado, seria um risco a você no parto. Astoria – ele disse como se eu fosse uma criança que precisava entender o que era certo ou errado. Não me senti feliz por isso. Eu tinha vinte e dois anos. Eu era uma adulta. Eu sabia o que era certo ou errado! Suas palavras me fizeram duvidar de tudo isso, no entanto: – Eu disse a você que caso engravidasse, seria perigoso. Temo em dizer que terá de escolher entre correr o risco ao ter o bebê, ou garantir sua vida agora, nesse momento.
Meus dedos estavam dormentes, agarrados a camisa branca dele. Ao poucos, fui soltando-o. Aos poucos, fui entendendo. Mas eu jurava com todas as minhas forças que estava tudo bem comigo. Só que não era só comigo que eu também devia me preocupar.
Narcisa estava errada. Gravidez não depende do tempo. No meu caso, aparentemente, dependia de uma escolha.
Mas ela estava certa sobre o fato de que eu ia descobrir que há coisas mais importantes entrando em jogo. Não havia o que pensar para decidir o que ia acontecer.
– Que droga – Dafne suspirou pensativa. Quando o horário de visita começou, ela havia aparecido de novo. Estava sentada numa cadeira ao meu lado da cama e foi a primeira pessoa a descobrir as escolhas que eu tinha. Sendo ela a pessoa que me levou ao hospital st. Mungus quando desmaiei, tentava me consolar. – Eu estava até curtindo a idéia do Dimitre ter um primo, mas agora que você pode morrer por causa disso...
– Ele ainda vai ter um primo – falei baixinho. De algum modo, ela entendeu o que quis dizer.
Draco entrou naquele momento. Um silêncio terrível se espalhou entre nós dois. Não sei quando Dafne começou a ter tato, mas ela realmente se levantou da cadeira e saiu da sala, para nos deixar sozinhos.
Assim que se sentou na cadeira antes ocupada pela minha irmã, o olhar de Draco me disse tudo.
– O médico falou com você? – perguntei.
A voz dele estava desconfigurada, respondendo automaticamente minha pergunta.
– O que vamos fazer agora?
– E você tem ainda alguma dúvida? – rebati.
Ele encostou-se mais na cadeira.
– Eu sei que não... sei que não agi de uma forma boa quando descobri que você estava grávida, sei que fui medroso... mas... é estranho pensar que não vai mais acontecer e...
– Do que está falando?
– Você não pode pensar em ter o bebê ainda – a voz dele tremeu.
– Não estou pensando, eu vou ter o bebê. Nós vamos.
– Por acaso não entendeu o que o médico disse, Astoria? – ele pareceu bravo, indignado, e eu não estava surpresa com isso. Na verdade, eu estava até preparada para a discussão iminente.
– Eu entendi perfeitamente, Draco.
– Não... isso é... não, Astoria.
– Draco, eu tenho chances – falei calma. – Pode acontecer e pode não acontecer alguma coisa comigo. Eu não vou deixar ninguém tirar o meu filho vivo de dentro de mim só porque temos essa pequena dúvida.
– Quando tudo se resume a chances, eu não tenho sorte nenhuma – ele disse amargamente. – Eu não quero ter a chance de perder você. – Eu girei os olhos. Odiava conversas assim. E ele não terminou de falar: – E ainda ficar com um filho nesse mundo. Não vou conseguir. Não sem você. Isso já é exigir demais de alguém tão fraco! Eu não vou deixar você correr risco!
– Pode dizer o que quiser – minha voz era baixa e equilibrada. Eu sabia que estava fazendo a coisa certa. – Não vou... não posso mudar de idéia.
Ele voltou a retrucar e aquela foi a nossa pior briga. Mas não houve discussão. Pelo menos não da minha parte. Fiquei ali, escutando ele dizer coisas com as quais eu sabia que iria se arrepender de ter falado. Deu sugestões horrorosas, mas eu me controlava para entender seu ponto de vista. Não retruquei, não falei que ele estava errado, apenas... o escutei, mesmo que tenha berrado comigo, e praticamente quebrado um frasco de poção ali perto. Mas nada me fez mudar de idéia. Nada.
Lá estava eu de novo, sem dar garantia nenhuma do futuro, exceto, é claro, que eu ia lhe dar um herdeiro. Um menino. Como ele queria e como a família precisava.
Mais uma vez notava a ironia da situação. Engraçado como Dafne virou a única companhia que não me fazia sentir ruim naqueles últimos meses de gravidez. Ela não estava triste, ela não estava pessimista, ela nem parecia preocupada comigo quando decidi que ia ter um filho, mesmo que isso significasse arriscar a minha vida. Eu não queria olhares drásticos e melancólicos na minha direção. Dafne não tinha nada disso.
Consegui alta do hospital para poder ficar na Mansão até o mês que o bebê estava marcado para nascer: Dezembro. Natal. Caso acontecesse outra hemorragia na gestação, era bom eu correr para o hospital. Mas não aconteceu porque eu estava tomando poções e ficava a maior parte do tempo deitada na cama, o que eu já considerava isso uma grande ajuda para as dores; um motivo para não ficar me preocupando.
Mesmo que Dafne tenha encontrado um emprego, não pedi para ela sair da Mansão. Não sei, realmente achei que Narcisa ia expulsá-la, mas não reclamou. Talvez ela achasse bom eu ter alguma companhia mais familiar, como uma irmã, que já havia engravidado. A companhia dela não era totalmente familiar, mas ela falava sobre os livros que tinha lido durante a sua gravidez e dizia para eu nunca colocar hambúrguer no estômago, se eu não quisesse ficar vomitando toda hora. E contava, orgulhosamente, de como havia adquirido experiência própria. Então, tecnicamente, ela não estava sendo toda inútil. E uma vez me deixou colocar roupa em Dimitre, só para garantir que eu não era um verdadeiro desastre em fazer isso com crianças.
– Você é um desastre, Astoria. Nunca brincou de boneca? É praticamente a mesma coisa. – Mas nem ela mesma conseguia colocar roupa direito no garoto, porque ele chorava e esperneava, e Dafne acabava berrando junto com ele, sem paciência. Ver cena como essa me fazia prometer que nunca iria levantar a voz ao filho que eu estava esperando dentro de mim.
Vendo como eu tinha tanta certeza eu iria fazer um parto, mesmo que cesariana, Narcisa começou a discutir comigo sobre o nome do bebê. Ela dizia que Scorpiusera um nome muito bom para um Malfoy, um que ela pensava desde sempre ter colocado em Draco, mas eu não gostava do nome. Podia ser bonito na minha constelação favorita, mas não numa criança.
– Então que nome você quer dar a ele? – perguntou Dafne. Estávamos nós três na sala, conversando. Aquele dia foi tão estranho, porque Dafne e Narcisa estavam juntas no mesmo lugar. As duas não se davam exatamente bem, mas se suportavam, mesmo que uma ficasse se queixando da outra para mim. O conceito de que Narcisa era velha nunca abandonou Dafne, mas eu sabia que quando ela fosse alcançar a idade de Narcisa, queria ter a mesma elegância. Narcisa, por outro lado, julgava Dafne por agir como se não tivesse responsabilidade nenhuma. Era cômico. E agora as duas ficavam falando nomes cada vez mais estranhos para o meu filho, querendo convencer-me de que Scorpius, principalmente, era um nome bonito, bom para um Malfoy sangue-puro.
Eu não sabia que nome dar a ele, mas não queria Scorpius. Simplesmente não gostava daquele nome para um filho meu.
Narcisa iria discutir mais se eu não estivesse em uma situação delicada. Agradeci por ela não ficar insistindo toda hora. Além disso, não conversamos sobre a minha complicação, mesmo assim eu sentia que ela queria me dizer muitas coisas. Mas eu não queria me preocupar; eu não estava preocupada. Narcisa, então, começou a providenciar roupas e brinquedos, e me encorajava como nunca. Diferente de Draco, ela dizia que tudo ia ficar bem e que logo eu estaria chorando de sono por não conseguir dormir com um bebê berrando toda hora por colo, comida e carinho.
Draco era a parte mais sensível dos meus dias. Era por ele que eu tinha medo. Sempre antes de dormir eu me encostava o mais perto dele, abraçando-o, acariciando seu peito, beijando-o. Tudo bem que sexo era complicado sendo que minha barriga estava enorme e eu podia ter uma hemorragia subitamente, o que isso vetava qualquer ato sexual agora, mas tudo era tão bom perto dele, tão seguro, tão certo... que pela primeira vez não precisávamos disso.
Naquela noite, eu tinha apenas um desejo.
– Queria fazer uma decoração no quarto do bebê.
– Cobras combinariam bastante – ele disse e eu dei risada.
– De fato. Mas estava falando apenas em pintar o quarto. Não acha que é meio escuro por lá?
– Qual é a sua cor preferida?
Eu ri de novo. Quero dizer, estávamos casados e íamos ter um filho, mas ele nem ao menos sabia minha cor preferida.
– Azul escuro, do mar. E a cor do céu às sete horas da noite.
– Interessante – admitiu.
– Deixe-me adivinhar a sua. Verde, como todo Sonserino típico.
– Fui meio forçado a gostar dessa cor – contou pensativo. Era raro termos uma conversa assim, por isso era tão incrível quando acontecia. – Mas depois da guerra, ver essa cor meio que não me ajuda em nada. Fico me lembrando daquelas maldições e... não é legal.
Eu estava encostada com a cabeça em seu peito enquanto ele tinha seus braços ao meu redor; gostava de ficar perto de seu pescoço, sentindo o cheiro dele, numa mistura de sabonete porque ele sempre gostava de tomar banho antes de dormir. Nós nos encaramos quando perguntei:
– Então qual é a sua cor favorita hoje?
Ele pensou por um instante.
– Não tenho cor favorita, mas... eu amo seu rosto, sabe? – Draco roçou um dedo pela minha bochecha. – Minha partefavorita do seu corpo.
– Achei que gostasse das minhas coxas – parecemos mudar para um assunto melhor.
– São lindas – ele confirmou. – Gosto dos seus tornozelos também. Seu pescoço... – ele abriu um pequeno sorriso, enquanto fazia cócegas com a ponta do dedo na extensão do meu pescoço. – Agora o seu cabelo é o que acho perfeito... e o jeito que você passa a mão neles, assim – ele tirou uma mecha dos meus olhos, numa réplica calma de como eu fazia. – Principalmente quando transamos... nunca fica no lugar. Sabe? Você seria minha cor preferida, se fosse uma e...
Ele olhou para o sorriso em meus lábios e não terminou de dizer. Sua voz estava quase sumindo. Passou os dedos nos olhos, me deu um beijo e me desejou boa noite, terminando a conversa abruptamente. Coloquei sua mão na minha barriga. Ele não tinha iniciativa alguma de fazer isso, mas não se afastava quando a tocava. Eu dormia uma noite muito boa quando nós três ficávamos assim, mesmo que minhas lágrimas manchassem sua camisa do pijama.
Quando começou a nevar, a ficha caiu. Eu ia ser mãe. O garoto que eu esperava ia nascer naquele mês, previsto para o Natal. Na verdade, o parto estava marcado para o dia vinte e cinco, o que era interessante. Nunca dei muita atenção ao Natal, embora o comemorasse como todo mundo, sorrindo animada com os presentes. Porém, não achava que algum fosse realmente ser tão marcante em minha vida.
No começo do mês Dafne, que conseguira um trabalho desesperado no bar do meu tio – sim, irônico agora –, havia comprado um apartamento e não estava mais na Mansão, muito embora ela não tenha realmente sumido de novo na minha vida. Dimitre estava ficando cada vez mais criança e toda vez que eles apareciam na Mansão, eu via o garoto tropeçando pela casa e derrubando sempre as coleções de pratos de Narcisa, deixando Lucius nervoso a ponto de proibi-los a nunca mais entrarem lá.
– O senhor não tem nenhuma paciência com crianças, não? – eu indaguei para ele.
– Não com as dos outros.
E Draco estava por perto quando ele disse aquilo.
Eu imaginava que Draco ia ficar mais silencioso do que nunca durante o fim da gravidez, mas fui, mais uma vez, surpreendida por suas atitudes. Não brigávamos ou discutíamos desde que mostrei que nada faria mudar a minha cabeça sobre ter um filho a qualquer situação. Foi difícil para ele superar essa minha escolha no começo, mas notei como agora seria impossível para ele se desfazer dela também. Uma vez o vi pintando a parede do quarto que Narcisa escolhera para o bebê.
– O que está fazendo? – eu perguntei impressionada. Ele usava pincel e tudo o mais. A varinha estava jogada no chão, o que indicava que não estava usando magia para nada daquilo. Fazia tudo à mão. Só não suava porque estava frio para isso.
– Decorando – respondeu, sem tirar os olhos da parede que se tornavam azul marinho, quando tirava o excesso de verde escuro do seu antigo quarto.
– Não precisava fazer isso agora – eu disse.
– É, então – ele fungou, coçando o nariz. Parecia estar pintando com raiva quando disse: – Achei melhor começar antes, para ter chance de você ver o que estou fazendo.
– Draco, pare de pensar que...
– Não consigo, Astoria! – Jogou o pincel no chão, rendido. – Não consigo. Cada dia que se aproxima do Natal, eu não sei o que vai acontecer com você, nem comigo, nem com...
– Eu vou ficar bem, querido – falei com tanta firmeza que seria imprudente ele não acreditar naquelas palavras.
– Eu sei, eu tento acreditar, eu tento...
– Então consiga – ralhei. – Porque eu não vou deixar ninguém me dizer quais chances eu tenho, muito menos um médico. Eu conheço minhas próprias chances, ninguém precisa me dizer. E eu sei, como nunca soube de nada antes, que minhas chances são enormes. Que eu vou ter um filho com você, não sei que nome ele vai ter ainda, mas vou trocar a frauda dele e vou ver você colocando-o para dormir como um pai maravilhoso que eu sei que você será. E não discuta com uma mulher grávida! – acrescentei, zangada, quando ele fez menção de dizer uma sílaba.
No entanto, deu passos em minha direção e me abraçou com força.
Embora quisesse ajudá-lo na "decoração", eu não consegui pintar nem dois metros porque minhas costas começavam a doer e eu ficava cansada, exausta. Além disso, Draco me mandou parar porque eu fui auxiliada a fazer nenhum esforço. Ele terminou de pintar o quarto sozinho. Mas eu não acreditava muito nisso, já que quando passei pelo corredor na semana seguinte, vi Lucius saindo do quarto e em sua camisa tinha algumas manchas de tinta também.
Reclamei de dor a semana toda, tendo contrações insuportáveis. Fomos ao St. Mungus três dias antes do parto. Tomei poções, mais porque aqueles curandeiros acreditavam que eu estava nervosa. Recebia visitas acolhedoras do meu tio, de Tanya, de Dafne, de Dimitre, Rachel, Caleb, Narcisa, Lucius, e alguns colegas do Ministério, até meu chefe. Draco ficou ao meu lado da cama na sala o tempo todo. Não conversamos muito, mas ele mexia o pé, mordia o maxilar e arrastava os cabelos dos olhos, bufando, como faz quando está nervoso, tenso, aflito e impaciente.
– Ei – eu chamei, mais nervosa por vê-lo assim do que pelo fato de que eu ia ter um filho em algumas horas. – Relaxe, não é você que está grávida.
Consegui arrancar um sorriso no meio daquela sua preocupação toda. Era difícil decifrar se Draco estava assim por mim, pelo bebê, por nós dois ou por ele mesmo.
– Já disse que casei com a mulher certa? – indagou, cutucando a aliança de meu dedo.
– E essa mulher é mais bonita do que eu? – sorri de lado. Eu me sentia melhor sendo irônica, principalmente porque eu sempre conseguia fazê-lo rir assim.
Fomos interrompidos quando a enfermeira e o médico chegaram. Os bruxos fizeram alguns testes, mediram minha temperatura, a pressão do bebê no meu útero, e me fizeram perguntas. Finalmente tiraram a conclusão de que estava na hora, pois o bebê já não agüentaria mais aquele espaço dentro do mim. Eu ainda não tinha tanta certeza, mas com aquelas contrações, eu desejava muito que eles estivessem certos.
– Daqui a pouco vamos levá-la até a sala do parto, na qual ocorrerá a cirurgia, está bem? – perguntou o médico, e eu assenti. Não ia ser mesmo parto normal. Quando saíram, Draco e eu voltamos a nos encarar. Não voltamos ao assunto porque Narcisa entrou no mesmo segundo, aproximando-se da minha cama.
– Você está bem? – Ela não perguntou para mim, mas para Draco, que olhava para nossas mãos entrelaçadas sobre a margem da cama.
– Estou – mentiu.
A mãe lhe acariciou o rosto, tranqüilizando-o, mas levantou o queixo dele de um modo rígido.
– Erga a cabeça, filho. Não quero que os Potter o vejam fraco dessa forma.
– Os... o quê?
– É, acreditem. O outro filho do Potter vai nascer também. A família toda está na sala de espera, imagine a cara do Lucius em meio a todos aqueles Weasley? Acabei de ver a esposa de Potter na outra sala. Estava gritando como uma maluca. – De repente encarou-me orgulhosa e disse em voz alta: – Você está sendo admirável, Astoria, e muito calma. Tem certeza de que também está bem? De que ainda sente Scorpius bem aí dentro?
– As contrações não mentem, Narcisa – falei, passando a mão na minha barriga. – Não sei se isso é um bom agradecimento por eu... – parei de falar, fechando a cara. – Não, ele não vai se chamar Scorpius!
Eu realmente não entendia meu problema com aquele nome.
– Ok, então fale um nome agora! Fale como você quer chamá-lo? Não temos... você sabe, muito tempo.
Era tão difícil escolher nome. Tinham alguns na minha cabeça, mas nenhum parecia certo, nenhum combinava exatamente com o que eu imaginava em meu filho. Não deu tempo de responder a pergunta, porque a enfermeira voltou novamente para me levar a sala de parto, enquanto eu sentia as contrações insuportáveis, sufocantes. O que não me agradava era ter de ficar sozinha lá, mas tentei ser forte e soltar a mão de Draco.
Era uma sala escura e tinha alguns enfeites de crianças, para dar ar ao ambiente. A enfermeira me deu uma poção e dessa vez não era tranqüilizante. Na verdade, era um tipo de anestesiante.
– Melhora imediatamente as contrações, e você não irá sentir nada durante a cesariana. Vai te dar sono também, então irá dormir – avisou. – Tudo vai correr bem.
– Diga isso ao meu marido, ele ainda não parece muito confiante. E diga a ele para... para não deixar a mãe dele dar o nome de Scorpius.
– Pode ficar tranqüila, vou dizer. Mas, acredite – a enfermeira parecia fazer de tudo para me acalmar, ela sabia que eu estava mesmo nervosa. – Nada supera Albus Severus Potter.
– O filho dos Potter vai chamar Albus...? Bem, é uma óbvia homenagem.
– Está tendo uma discussão maluca entre a família agora. Acho que eles não concordam muito. Mas nada vai fazer Harry Potter mudar de idéia. E então talvez você mude de idéia sobre o nome que quer dar ao seu filho. Poderá se acostumar.
– Oh, não acho – falei certa disso.
Ela deu um último sorriso calmo para mim e apertou meu braço. O sono estava chegando. Vi quando ela se afastou e quis pedir para que ela não fosse embora. Era acolhedora, uma boa pessoa. Quando saiu, no entanto, Draco havia entrado. Seus passos eram pesados até mim, a enfermeira brigava com ele para ele sair dali, pois não podia entrar. Eu ouvia tudo abafado, entorpecida, mas notei que Draco gritou com ela, convencendo-a a deixá-lo apenas me dizer uma coisa antes de tudo. Então se aproximou da minha cama e ficou com o rosto perto do meu. Havia lágrimas em seus olhos. Quis ter força para levantar o braço e poder enxugá-las.
– Confio em você, está bem? – falei antes que ele dissesse alguma coisa. – Mas você não pode entrar aqui... eu já vou ter o bebê.
– Astoria... – ele engoliu em seco. – Não vejo... não vejo o que há de errado com o nome que minha mãe escolheu... ela quer tanto. Eu sei que você não quer, mas...
– Você também quer que ele se chame Scorpius?
Senti-me mal, insensível, por nunca ter perguntado isso ao próprio pai do meu filho.
– Sim. Pela minha mãe... ela fez tanto por mim, por nós, por essa família... E, além disso, esse será o nome que só meu filho vai ter...
Draco desejar aquilo fez Scorpius soar o nome mais lindo que eu já ouvira.
– Scorpius é perfeito então – murmurei, sabendo que nunca mudei de idéia tão rápido. Minha voz estava lenta e minhas pálpebras se fechando. – Você realmente precisa sair daqui, Draco...
– Eu te amo.
– Eu também. Só não seja teimoso, e não grite com os enfermeiros... por favor.
– Eu te amo tanto, querida – ele disse de novo, e eu fiquei feliz pelos meus lábios não estarem anestesiados que nem a barriga, quando ele me beijou. Gostei de sentir seu gosto, seu calor, sua boca. Tinha certeza de que nada daquilo ia acabar entre nós.
Observei-o sair dali, alternando entre olhar para mim e para minha barriga, com uma postura ereta, o queixo erguido, como sua mãe o aconselhara a fazer. Mas não fazia porque os Weasley estavam naquele hospital; ele o fazia por si mesmo.
Alguns minutos depois o médico apareceu para começar a cirurgia, e me falou:
– Quero que saiba que faremos o possível para que tudo ocorra bem, tanto para você quanto para o bebê.
– Eu sei, doutor. Obrigada.
– Pode descansar, fechar os olhos. Vai ficar tudo bem... você fez um bom trabalho na gravidez. As poções ajudaram muito, não? Algumas complicações acontecem, mas você parece forte demais para deixá-las te afetarem. Será uma excelente mãe, Astoria. Bem... parece que o pequeno Scorpius precisa sair urgentemente.
– Ele não tem mais o que fazer aqui dentro – não deixei de comentar, tentando dar um último sorrisinho. – Deve estar entediado mesmo.
– Então vamos colocá-lo nesse mundo.
Fechei meus olhos, involuntariamente, quando o médico começou a cesárea. Como quando você está com medo você pensa em todas as coisas boas que aconteceram com você. Só pensei em Draco, e em quando ele disse que eu era divina, e em como ele me fez sentir amada todo aquele tempo. E em como, principalmente, aturou minha oscilação emocional todo aquele tempo na gravidez, assustado e frio, mas nunca longe de mim.
Segundos depois apaguei completamente, não senti mais nada. Essa era o ponto da anestesia, acho. Não tive uma sensação aterrorizante. Apenas o desejo de abrir os olhos de novo para ver meu filho.
Olá pessoal. Mais capítulos para vocês. Espero que tenham gostado, e que não tenham se decepcionado com as atitudes um tanto frias do Draco no começo. Bem, sabendo da situação da Astoria, do preconceito da família que o filho vai ter, tudo isso meio que torna as coisas um pouco mais difíceis para ele. Mas prometo, então, que nos próximos capítulos tudo irá mudar. Obviamente irá. Só realmente quando ele encarar aquilo, que a idéia de que é pai vai se concretizar.
Mal acredito que agora posso dizer que a fic está recebendo nos próximos capítulos mais um personagem: Scorpius Malfoy
Comentem! :)
