F

azia muito tempo desde que eu não dormia tão profundamente. E melhor ainda: um sono sem sonhos! Mas é claro que isso não aconteceu em condições normais: eu havia extrapolado no uso dos meus poderes. Fiquei irritado por estarem fazendo tanto barulho à minha volta e por causa disso terem me acordado daquele sono perfeito.

Abri os olhos relutantemente e visualizei duas coisas amarelas perto de mim; não dava para identificar o que eram porque a minha vista ainda estava meio turva. Pisquei algumas vezes e consegui distinguir um teto de madeira sobre mim. Consegui identificar a coisa amarela à minha esquerda: era Hector, com os seus cabelos loiros. Antes que eu pudesse identificar a outra pessoa, ela se jogou em cima de mim, dizendo:

- Graças aos deuses! Você está bem! Eu fiquei tão preocupada que você não fosse resistir! – percebi que era uma garota por causa da voz, mas não dava para olhar para ela porque ela continuava me sufocando com o abraço. – Os deuses o abençoarão eternamente pela sua atitude, Nico Di Angelo! – e aí ela me deu um beijo na testa e foi embora.

Foi quando eu pude descobrir quem ela era: a garota loira que estava chorando na prisão. Mas estava tão diferente! Sua dor devia ter passado e ela parecia muito bem. Eu tentei me sentar depois disso, mas ainda estava muito fraco.

- Ei, calma. – disse Hector. – Você ainda precisa passar algum tempo descansando. Aqui: tome um pouco de Néctar. – ele me entregou um cantil.

Tomei alguns goles de Néctar, que para mim parecia suco de hambúrguer, e depois, já mais forte, perguntei a ele:

- O que aconteceu?

- Até onde você se lembra?

- Eu me lembro que... – minha mente estava um borrão. – que o nosso tempo acabou e John disse que eu precisava levar todo mundo para fora através do transporte nas sombras.

- E você conseguiu! Foi por pouco, mas você tirou todos de lá em segurança.

- Incrível... – eu me surpreendi comigo mesmo.

- Incrível?! É só isso que você acha?! Nico, você foi um herói!

- É...Acho que sim. – eu estava feliz, mas ainda meio tonto. – Mas...E depois? Para onde eu levei todo mundo?

- Para os arredores da cidade. Sam e eu estávamos passando com a biga e descemos para ajudar vocês. John disse que havia alguns sátiros na cidade e nós os contatamos.

- Estamos na cidade? – olhei ao redor: eu estava deitado no chão de uma casinha aconchegante, com alguns sátiros andando de um lado para o outro levando comida e cobertores para os ex-prisioneiros de Maureen.

- Sim. Na casa de uns sátiros. Eles fizeram os primeiros socorros, mas eu precisei usar a minha Dádiva para livrar os prisioneiros do encanto da Dádiva de Julia Hawkins, e também usei um pouco de magia curativa de Apolo em você.

- E como eles estão? Os prisioneiros, quero dizer.

- Estão ótimos! Quíron disse que vai mandar uma equipe para levá-los até o acampamento o mais rápido possível.

- Aquela garota; a que acabou de sair daqui. Ela estava muito mal e...

- Eu sei. O nome dela é Izobel. É filha de Hermes, mas se juntou às caçadoras de Artemis há algum tempo. Ela foi enviada para tentar se infiltrar na organização de Maureen e recuperar algumas Dádivas, mas foi descoberta e presa. Estava sofrendo daquele jeito porque estava resistindo aos comandos da Dádiva. Chegamos bem a tempo de salvá-la; ela estava quase morrendo.

- E os semideuses que estavam no complexo? Eles...?

- O complexo foi completamente destruído, mas eles correram atrás de mim e de Sam quando fugimos, então eles não se feriram. Provavelmente ficaram congelando perto dos escombros até Maureen mandar alguém resgatá-los. Mas, agora que você perguntou, eu me lembrei de uma coisa: Maureen definitivamente sabia o que íamos fazer. John procurou alguma coisa importante no auditório, mas ela só deixou tralha; quase não havia guardas por lá; e ela também transferiu Daniel para outro lugar. Era para ter sido pelo menos uma missão de coleta de informações, mas só resgatamos os prisioneiros.

- E o que vamos fazer agora?

- John ainda não disse. Quer que todos nós descansemos um pouco por enquanto. Principalmente você.

- Ok... - aquela me parecia uma ótima idéia.

- E então? Os seus poderes retornaram mesmo?

- Ainda não sei. É possível que sim. Apesar de eu não achar que fosse acontecer tão cedo.

- Bom, eles funcionaram perfeitamente duas vezes. Talvez fosse só uma questão de prática mesmo.

- É...- eu não queria dizer ao Hector a verdade sobre a minha falta de poderes.- Hã... Hector?

- O quê?

- Você ainda está...com raiva de mim por causa daquele negócio? Porque eu pensei a respeito, e agora eu reconheço que agi muito mal. Você tinha o direito de dar sua opinião. Eu só não disse nada porque eu sabia que você não ia me deixar fazer o que eu fiz e, mesmo que tenha causado sofrimento, eu ainda acho que foi a melhor coisa que eu podia fazer por ela.

- Não estou chateado com você. Agi por impulso naquele dia; me desculpe. Eu acredito mesmo que você quis protegê-la, Nico, mas ainda acho que dava para ter feito isso de outra forma.

Seria perda de tempo discutir aquilo. Hector também sabia disso, então mudou logo de assunto:

- Eve mandou uma mensagem de Íris há uma hora atrás. Ficou muito preocupada com você. É bom você falar com ela mais tarde. Principalmente porque era você quem devia ter tido a iniciativa de mandar uma mensagem para ela hoje.

Levei uma eternidade para entender o que Hector quis dizer com a última frase. Aí eu me liguei: era o aniversário de Eve!

Passei o resto do dia repousando; mais por ordens do John do que por estar realmente cansado. Todos os ex-prisioneiros de Maureen ficaram cem por cento recuperados, e a equipe de resgate chegou para buscá-los antes do jantar. John passou o dia inteiro olhando mapas e anotações; Hector disse que ele estava tomando todo o cuidado possível para que nossa próxima ação não fosse em vão.

Eu fiquei esperando a casa esvaziar para que eu pudesse mandar uma mensagem de Íris para Eve. Depois do jantar, apenas John ficou acordado trabalhando e eu aproveitei para dar uma esticada nas pernas e procurar um cômodo mais afastado para mandar a mensagem. O único lugar vazio era a cozinha. Liguei a torneira e joguei um dracma de ouro na água corrente.

- Ó, Íris, deusa do arco íris, me mostre Eve García.

A água ondulou e as cores se formaram. Logo eu estava vendo Eve caminhando lentamente perto dos chalés do acampamento. Ela estava distraída, chutando pedras no chão, então eu tive que gritar:

- Eve!

Ela se virou para trás, sobressaltada.

- Nico! Ah, meus deuses, como você está?!

- Já estou bem melhor. Mas e você? – dei uma boa olhada em Eve: ela estava com cara de quem não havia dormido nada nos últimos dias, meio pálida, desarrumada e com os olhos inchados, provavelmente esteve chorando. – Aliás, parabéns! Catorze anos, certo?

- Hum...É. O pessoal fez uma festinha para mim. Mas...sei lá; ninguém está com muito ânimo para esse tipo de coisa aqui no acampamento.

- O que está acontecendo aí?

- Muitos ficaram furiosos por vocês terem partido. Estão atormentando Quíron porque acham que ele não está enxergando a gravidade da situação e não quer abrir espaço para eles ajudarem em alguma coisa. Tem gente dizendo que você e o Hector são aliados da Maureen. Outros estão planejando sair do acampamento e agir por conta própria. Em resumo, Nico...Está tudo péssimo por aqui!

- Essa não...Justo agora que precisamos tanto permanecer unidos... E as entrevistas e inspeções? Algum avanço?

- Não. Já ficou bem claro para todo mundo que não estamos lidando com amadores. Eles não vão deixar escapar nada.

- Eu já imaginava que não ia dar em nada...Mas, Eve, você precisa conversar com o pessoal. É sério. Talvez confiar em nós nesse momento seja pedir demais, mas diga a eles para confiarem no Quíron; ele nunca decepcionou nenhum herói.

- Eu vou tentar... – ela suspirou. Parecia totalmente indisposta a fazer qualquer coisa.

- Ei, você está assim por causa da situação do acampamento ou tem outra coisa te preocupando?

- Ah, Nico... – ela respirou bem fundo, como se estivesse se esforçando ao máximo para não chorar. Deu uma longa pausa enquanto apertava os lábios. Até que finalmente falou: - É a Hannah.

- O que houve com ela?! – minha voz subiu pelo menos uma oitava. Me contive para não acordar o resto da casa.

Eve ficou olhando para os lados como se não quisesse me contar.

- O que houve com Hannah, Eve? – eu exigi.

- Bom...Ela passou o dia inteiro chorando no chalé depois que você foi embora. Não quis comer e só deixou o Allan ficar ali. Tentei conversar com ela, mas Allan disse que ela não ia ouvir ninguém do jeito que estava. Quíron e eu não insistimos porque achamos que ela precisava de um tempo. No outro dia foi a mesma coisa. E aí hoje cedo o Allan veio falar com o Quíron porque...

- O quê?

- Porque ela parece doente.

- "Parece"?

- Quíron acha que é só um vírus que ela pegou por estar com a imunidade baixa devido aos últimos acontecimentos, mas eu não sei não, Nico...Não sou nenhuma especialista, mas isso não me parece uma gripe.

Eu fiquei mudo, então ela prosseguiu.

- Ela está queimando de febre, está agitada e meio confusa e agressiva também. Nós a levamos para a enfermaria, mas, como não sabíamos o que exatamente ela tinha, achamos melhor não dar nenhum remédio. Hannah está tão estranha...Chamamos um filho de Apolo para tentar uma magia curativa e ela o empurrou para o outro lado da enfermaria! Quero dizer, de onde ela tirou essa força?! O que você acha disso, Nico?

Demorei alguns segundos para tentar entender o que estava acontecendo e disse:

- Eu não sei o que pensar. Mas também acho que isso não é uma virose. E como ela está agora?

- Acabei de sair da enfermaria. Conseguiram sedá-la e ela finalmente dormiu.

- Vocês conversaram?

- Ela não quer conversar comigo, Nico. Allan acha que ela deve estar pensando que eu vou tentar convencê-la de que você não tem culpa. Eu até entendo, sabe? Ela deve achar que eu sou mais leal a você do que a ela porque somos amigos há mais tempo.

- Provavelmente. Mas não deixe ela se afastar de você, Eve. Insista com ela! Lembre-se de que você precisa ficar de olho nela.

- Ok. Eu vou até lá amanhã bem cedo. Eu vou manter você informado.

- Obrigado mesmo, Eve. Eu sei o quanto isso deve estar sendo difícil pra você, mas eu prometo que o seu esforço vai valer muito a pena no final.

- Espero que sim...

A mensagem começou a se dissolver e nós não pudemos nos despedir. Mas eu ainda tive tempo de ver uma única lágrima escorrer pelo rosto de Eve.

Eu saí da cozinha em direção à sala para ir dormir e acabei esbarrando com John no corredor.

- Ainda está acordado? – me surpreendi. – Sério, John, você também precisa descansar um pouco.

- Eu sei. Acontece que eu já estava indo dormir quando escutei sem querer sua conversa com Eve.

- Ah.

- Você está muito cansado? Porque eu preciso mesmo conversar com você sobre algumas coisas.

- Não, estou bem. Pode falar.

Nós nos sentamos a mesa da cozinha. Ele começou.

- Você deve ter ficado muito preocupado com o que Eve falou sobre o que está acontecendo no acampamento. E eu imagino que você me culpe pelo menos um pouco por isso.

- Culpar você?

- É. Eu sei que deixar o acampamento às escondidas e de uma hora para outra deixou você incomodado. Mais ainda depois do que Eve falou.

Eu ainda não havia tido tempo de fazer aquela conexão, mas John estava certo. Toda aquela confusão no acampamento estava acontecendo porque ele não quis seguir a proposta inicial de montar um novo grupo com mais campistas; e o fato de termos praticamente fugido deu a impressão errada para todo mundo.

- Passei muito tempo pensando em qual seria a melhor maneira de pôr o meu plano em prática, mas não pensei que as coisas fossem ficar desse jeito por lá. – John continuou. – Foi uma falha imensa, mas eu quero que você saiba que, mesmo que eu tivesse considerado essa possibilidade, eu não poderia ter feito diferente.

- Tem certeza? – eu estava um tanto revoltado. – Porque eu não vejo que tipo de mal convidar alguns semideuses realmente poderosos para vir com a gente poderia causar.

- Poderíamos cair numa emboscada se algum desses "semideuses realmente poderosos" fosse um espião. – ele ergueu uma sobrancelha, com ar inteligente.

- Semideuses que estão sofrendo por saber que seus irmãos são traidores? Não acho que isso iria motivar algum deles a nos trair.

- Não? Ok, vou te dar um exemplo: há algum tempo atrás um semideus foi roubado e alguém com quem ele se importava muito quase foi assassinado. Ele era considerado um "semideus realmente poderoso" e partiu junto com um grupo para uma missão. No final das contas, ele se revelou um espião; o que contraria suas duas questões de confiança: ser poderoso e estar sofrendo. E sabe quem é esse semideus? Tobey Grant!

Uma onda de ódio percorreu meu corpo, como acontecia toda vez que eu me lembrava da traição de Tobey. Era péssimo admitir, mas John tinha razão.

- Desculpa, Nico. – disse ele, ao me ver desolado.

- Não, eu é que peço desculpa. Você tem toda a razão. Eu não queria brigar; acontece que a conversa com Eve me deixou cheio de preocupações. E falar de Tobey sempre é...

- Difícil. – ele completou. – Eu sei disso muito mais do que você. Maureen e outros chefes da organização eram os meus melhores amigos, ou seja, fui traído dezenas de vezes.

- Agora entendi porque você é tão cauteloso.

- Pois é. Mas o que eu queria dizer no começo é que você não precisa se preocupar com o que está acontecendo lá.

- Como não?

- Você acha que as entrevistas que Quíron fez não serviram para nada, mas isso não é verdade. Elas cumpriram o seu propósito.

- Que propósito?

- Espiões, Nico. – ele falou absurdamente baixo. – Dificilmente descobriríamos algum espião de Maureen nas entrevistas, mas pudemos escolher os nossos.

Isso era algo que eu realmente não estava esperando!

- Eu sei quem são alguns dos semideuses que você queria que tivessem vindo com a gente. E pode ter certeza de que eles não estão de braços cruzados. Estão nos ajudando, mesmo não estando por perto. É claro que nem todos os campistas foram chamados para isso e estão pensando besteira, mas eles são uma minoria e esse é o tipo de coisa que sempre acontece quando estamos em guerra.

- E isso não é perigoso? Quero dizer, e se eles se voltarem contra nós?

- Nico, uma pessoa não muda de lado por pirraça. Se alguém mudar de lado é porque realmente nunca esteve do nosso.

- Espero que você esteja certo.

- A única coisa com a qual você precisa se preocupar são os espiões de Maureen que ainda estão no acampamento; mas eu espero que eles fujam logo por causa das escavações. Mas...você está mais preocupado com uma certa pessoa, não é?

- Hannah não está bem. – eu disse, sem sentir a menor necessidade de esconder aquilo.

- Não, não está. E eu nem imagino o que isso possa ser.

- Eu tinha esperança de que você tivesse alguma idéia.

- Sinto muito. Mas eu prometo que vou pensar em alguma coisa. Agora vamos dormir. Não podemos perder tempo amanhã.

N

ós quatro paramos em frente ao Chicago Place.

- É aqui. – disse John.

- Um shopping center? – Sam estranhou, assim como o restante de nós.

- O que exatamente viemos fazer em Chicago? – perguntei porque eu sempre achei que a única coisa que se fazia em shoppings era compras.

- Vai ser mais fácil se eu mostrar a vocês. – John foi em frente e se misturou às pessoas que passavam pelas portas do Chicago Place. Nós o seguimos, meio atordoados.

Fiquei olhando para todos os lados, procurando atentamente qualquer sinal de semideuses inimigos ou simplesmente alguma coisa que não se encaixasse no cenário de um shopping center. Mas tudo que eu vi foram lojas abarrotadas de gente aproveitando as promoções, crianças chorando porque queriam um brinquedo ou sorvete, e casais aproveitando a tarde.

John não havia dado nem uma dica do que iríamos fazer. Na verdade, ele nem mesmo disse para onde íamos quando deixamos a casa dos sátiros em International Falls pela manhã. A conversa que eu havia tido com ele na noite anterior me ajudou a aceitar melhor o jeito reservado dele e também o fato de ele evitar fazer grandes comentários a respeito da missão, mas eu ainda sim sentia falta de algumas instruções de vez em quando.

Ele só parou de andar quando chegamos a uma parte pouco freqüentada do shopping. Mais especificamente, ele se deteve em frente a um banco. Por perto só havia lojas fechadas para balanço. Eu não sabia explicar bem, mas eu realmente senti algo diferente naquele lugar.

- Nunca ouvi falar de "Banco Doróo". – Sam comentou.

- Provavelmente não. Este é o único. – John respondeu, sem tirar os olhos da fachada.

- O que é "Doróo"? É francês ou algo parecido? – ele perguntou.

- É grego. – Hector sorriu. Ele havia matado a charada.

Sam ficou completamente confuso. Hector estava se segurando para não dizer. Dei uma boa olhada na fachada e me liguei: "Doróo" era a junção dos sons que representam as letras gregas "δώρο", que significa "dádiva".

- O Banco das Dádivas. – conclui.

- É isso mesmo. Já tinha ouvido falar dele? – John me perguntou.

- Não, mas...Eu sinto uma energia diferente vindo daí. Algo que eu senti quando Hector recebeu a Dádiva dele.

- Os semideuses em geral conseguem sentir uma certa energia quando estão próximos a uma Dádiva. E quando há várias juntas essa energia se torna tão intensa que até mesmo alguns mortais sentem alguma coisa.

Hector estremeceu de repente.

- John, Maureen não é de Chicago? – ele quis saber.

- É.

- Então...Será que ela foi atraída pelas Dádivas do banco? Será que foi isso a inspirou a montar essa organização?

- Com certeza. Maureen morava nas redondezas e foi atraída até aqui. Foi dessa maneira que ela descobriu as Dádivas.

- Acha que é possível algum deus tê-la ajudado? – eu perguntei.

- Acho que não. Algumas coisas simplesmente estão predestinadas a acontecerem. Mas não foi só para mostrar como tudo começou que eu os trouxe aqui. Vocês têm idéia do que é o Banco das Dádivas?

Ninguém respondeu. John continuou.

- Como vocês devem saber, quando um semideus recebe uma Dádiva ele tem a missão de protegê-la e mantê-la em segredo por toda a sua vida. Mas é claro que ele não pode mais fazer isso após a morte. E foi justamente para evitar que as Dádivas dos semideuses mortos fossem encontradas que os deuses criaram esse banco. E não apenas em casos de morte, inclusive; algumas vezes os semideuses abusam do poder de suas Dádivas ou elas são poderosas demais para permanecerem nas mãos de mortais, e então os deuses as pegam de volta e as mandam para cá.

- E aqui elas ficam seguras para sempre? – Sam falou.

- Foi para descobrir isso que eu vim aqui.

- Como assim?

- O Banco das Dádivas é supostamente à prova de mortais; só os deuses têm acesso a ele. Mas eu me pergunto quão poderosa Maureen se tornou. Caras, se ela conseguir roubar esse lugar, nós não temos chance.

- Então nós viemos aqui para verificar se ela não roubou nada? – eu quis saber.

- Exato. Mas vou logo avisando que isso não vai ser tarefa fácil.

- Por que não? A gente não pode simplesmente entrar lá e perguntar?

- Nós não podemos entrar lá. Pelo menos não da forma convencional. Como eu disse, os semideuses nem mesmo devem saber a respeito desse lugar. Ou seja, nós vamos invadir. E não podemos fazer isso agora. Precisamos esperar o shopping fechar. Quando entrarmos precisamos checar o inventário. E isso vai ser mais difícil porque o banco é guardado por monstros e coisas piores. O problema vai ser maior ainda se Maureen tiver conseguido tomar conta do lugar. Por isso essa ação é extremamente necessária: precisamos impedir Maureen de conseguir isso.

Alguns minutos antes de irmos para o Chicago Place durante a noite, eu estava lavando as mãos no banheiro do hotel quando o ar começou a ondular ao meu lado e uma imagem se formou. Era como se eu estivesse do lado de fora do chalé de Hera, espiando pela janela. Fiquei confuso, mas aí eu vi Eve sentada na cama de Hannah. Eu estava prestes a chamá-la para perguntar o que estava acontecendo, quando a própria Hannah surgiu no meu campo de visão.

Ela devia ter acabado de sair do banho, pois estava de pijama e com uma toalha sobre os ombros.

- Como se sente? – Eve se virou para trás e perguntou.

- Bem melhor. Mas acho que ainda estou com um pouco de febre. – Hannah se sentou ao lado de Eve.

- Quer que eu traga mais alguma coisa para você comer?

- Não precisa, Eve. Você já me entupiu de comida o suficiente por hoje. – Hannah realmente parecia muito bem. Pelo que Eve havia me dito antes, eu havia imaginado algo terrível.

- Desculpa. Ordens de Quíron. E Allan me disse para cuidar muito bem de você já que ele não pode estar aqui.

- Sei. O que ele foi fazer mesmo?

- Ele não disse. Mas disse que volta logo.

- Ah. Olha, Eve, muito obrigada mesmo por tudo que você está fazendo. Mas você realmente não precisa dormir aqui hoje. Eu estou bem. Eu juro.

- Está mesmo ou você só não me quer por perto por causa do Nico?

- Eu... – ela hesitou por alguns instantes. – Isso não tem nada a ver.

- Pois eu acho que tem sim.

Hannah não respondeu.

- Não vamos falar sobre o que aconteceu, certo? Eu só quero que você saiba que eu não escolhi um lado e não vou escolher. O que ele fez com você foi muito errado, mas eu não vou mentir e dizer que eu cortei relações com ele, porque isso é estupidez. Continuo amiga dele como sempre fui, mas também continuo sua amiga. E eu estou tentando de verdade ajudar, mas você não me dá espaço!

A voz de Eve já estava meio chorosa na última frase. E eu já havia percebido que ela não costumava expressar as emoções dela, e, quando ela era obrigada a fazer isso, ela chorava. Hannah mudou completamente a sua expressão; antes era perceptível que ela estava fria, mas, depois do que Eve falou, ela voltou ao seu comportamento habitual.

- Eve...Eu sinto muito! – ela a abraçou. – Eu não sabia que você se sentia assim...Também não fiz de propósito; acho que eu só não queria lembrar dele.

- Eu sei. Estamos bem agora?

- Claro que sim! E você pode dormir aqui se quiser. Preciso mesmo de companhia.

- Ok. Vou pegar minhas coisas no chalé. Mas antes...- ela tirou algo do bolso. – Quero te dar isso aqui.

Eve colocou algo no pulso de Hannah. Não pude ver os detalhes de onde eu estava, mas era uma pulseira cheia de coisas coloridas.

- Que gracinha! – Hannah olhou para o pulso, maravilhada.

- Fiz uma igual para mim. – ela mostrou a dela.

- Obrigada! Eu adorei!

- Que bom! Então eu vou...

Nesse momento, Hector bateu na porta do banheiro e gritou:

- Ei, vamos logo! John já está nos esperando!

Eu entrei em pânico absoluto porque as meninas ficaram de olhos arregalados e eu achei que haviam me visto ali.

- Você ouviu isso? – Hannah perguntou.

- Ouvi...Parecia a voz...do Hector! – as duas se encararam, assustadas.

- Mas...Ele não devia estar aqui. Será que eles voltaram?!

- Devem estar aqui perto. Vamos ver! – e aí elas se levantaram e Hannah veio em direção à janela em que a mensagem de Íris estava.

Não esperei nem um segundo e passei a mão pela mensagem, desesperado.

Eu não sabia se havia sido rápido o bastante, mas eu não podia perder tempo ali me preocupando com aquilo. Saí do banheiro, com o coração acelerado, e fui me encontrar com os outros.

- O que você tem? – cochichei para Hector. Desde que havíamos deixado o hotel, ele estava com uma cara esquisita; não era a cara que ele fazia quando estava se concentrando antes de uma ação. Já estávamos chegando perto do Chicago Place e ele ainda não havia melhorado.

- Estou preocupado, é claro.

- Com a invasão do Banco das Dádivas? Acho que você pode ficar relativamente tranqüilo; John tem tudo planejado. O pior que pode acontecer é a gente ter que combater um guarda mais forte.

- Não é essa parte que me preocupa, Nico. Você tem noção de que nós vamos invadir um shopping? Nunca precisei mexer com o mundo dos mortais em nenhuma missão. E não gosto de ter que fazer isso. É muito perigoso e pode trazer conseqüências catastróficas, você sabe.

Chegamos perto da entrada de serviço nos fundos do shopping. Ficava numa rua escura. Havia apenas dois seguranças sentados ali.

- Vai ser moleza. – Sam caçoou.

- Está pronto? – John perguntou a ele.

- Sim! – Sam já estava indo em direção aos seguranças, mas Hector o puxou de volta.

- O que você vai fazer?!

- Não se preocupe, Hector. Vamos só dar uma pancada na cabeça dos seguranças e fazer parecer que foi um assalto.- John explicou.

Hector soltou o casaco de Sam, relutantemente, e depois o advertiu:

- Pegue leve.

Sam esbanjou o seu sorriso travesso e acompanhou John. Primeiro, Sam seguiu sozinho pela direita e ficou espreitando ao lado do shopping; John subiu na escada de incêndio de um prédio em frente e sacou seu arco. Eu só entendi o plano dele quando as câmeras de segurança começaram a se destruir, chamando a atenção dos vigilantes. Eles se distraíram tentando identificar o que tinha acontecido e aí Sam chegou sorrateiramente e os apagou. Hector fez um gesto de reprovação com a cabeça enquanto Sam pulava em comemoração. John assoviou para nós dois enquanto descia a escada e se dirigia para porta. Nós fomos até lá.

- Vou precisar desativar a energia do shopping inteiro para não sermos pegos pelas câmeras. Espero que vocês tenham trazido lanternas. – e aí John atirou uma bombinha em um poste e as luzes da vizinhança se apagaram imediatamente.

- Nossa! Que sutil, John! – disse Hector, com sarcasmo. – Você acabou de chamar a companhia elétrica para cá!

- E é por isso mesmo que a gente tem que correr! – ele nos empurrou porta adentro.

Toda aquela correria foi uma grande perda de tempo porque a área de serviço do Chicago Place mais parecia um labirinto e nós nos perdemos várias vezes. Passada a afobação inicial, nós nos concentramos e finalmente encontramos a entrada para a parte pública do shopping. Era estranhíssimo estar em um shopping completamente vazio durante a noite; parecia um cenário de filme de terror. E mais horripilante ainda era o Banco Doróo: a única coisa aberta àquela hora, com uma luz azulada esquisita saindo de lá.

- E então? Vamos entrar pela ventilação outra vez? – perguntou Hector.

- Não. Uma invasão descarada não vai nos ajudar. Temos mais chances entrando pela entrada dos imortais. Venham comigo.

John nos levou até o banheiro masculino e parou na frente de um espelho grande. O espelho tinha uma fina borda da cor de bronze com alguns dizeres em grego:Μπορείτε μόνο ναγνωρίζουμετι κρύβεταιαπόέναν όρκο, να μηνπαράγουντο πάθοςμεταξύ των ανδρών, να διατηρηθεί μόνοη δύναμητων θεών ("Só é possível conhecer o oculto mediante um juramento; para que não gere cobiça entre os homens, apenas preserve o poder dos deuses."). Então ele disse, em alto e bom som:

- Eu juro que não usufruirei do poder dos deuses.

Depois disso uma espécie de campainha soou e o vidro do espelho simplesmente desapareceu, revelando uma cabine de elevador. Não sei quanto tempo teríamos ficado ali parados se John não tivesse resmungado "Andem logo."

Entramos e eu perguntei a ele:

- Como você sabia disso? Quero dizer, essa não é a entrada dos deuses?

- Bom...Eu sempre conversei com todo tipo de pessoa. E, mesmo que não pareça, todos sabem de algo que pode ser muito útil para você.

Nem tive tempo de pensar a respeito disso porque nós já havíamos chegado. Foi rápido demais; eu achei que nem mesmo havíamos saído do lugar. A porta do elevador abriu ao som de uma campainha e revelou o que parecia ser o cofre de um banco qualquer: um longo corredor com várias portas de titânio protegidas por senha.

- Ok. Instruções: - disse John quando saímos do elevador. – não se aproximem muito dos cofres dos seus pais, porque eles absorvem seus poderes; e, acima de tudo, não toquem em nada.

- Só por curiosidade...O que acontece se tocarmos? – Sam perguntou.

- Só sei que é algo bastante ruim. Prefiro não descobrir.

- Certo. Então o que vamos fazer? – falei.

- Precisamos ser rápidos. Temos que encontrar o arquivo ou algo parecido. Se alguma Dádiva foi roubada, vai constar lá.

- E onde fica isso?

- Vamos ter que procurar.

Saímos do cofre em direção a uma porta ao lado do elevador. A abrimos bem devagar, tentando não chamar a atenção dos guardas, mas isso foi desnecessário; o lugar estava completamente vazio.

- Será possível que eles não saibam que estamos aqui? – Hector estranhou.

- Eles sabem. Estão nos observando agora; querem saber o que viemos fazer antes de tomar alguma providência. – John respondeu. – Acho que é ali. – ele apontou para o balcão da recepção.

Nos aproximamos e logo vimos um monte de caixas arquivo nos fundos do balcão. Abri uma e havia toneladas de papel dentro. Peguei uma folha e analisei: era quase igual a uma página do livro das Dádivas: tinha a foto da Dádiva, a descrição, o herói presenteado, a data do recebimento e a data em que a Dádiva chegou ao banco.

- Como vamos saber se tem alguma faltando? – perguntei.

- Deve haver algo diferente na página. Vocês três olhem nas caixas. Eu vou ver se encontro alguma coisa no computador. – disse John.

Fiz o que ele disse e peguei algumas caixas para olhar, inclusive a de Hades. Não havia tempo para observar com calma cada folha, mas eu não estava encontrando nada que parecesse muito interessante: só havia armas comuns como espadas e lanças; nada que eu achasse que Maureen fosse se dar ao trabalho de roubar.

- Hum, John? Você tem alguma idéia de que tipo de Dádiva Maureen ia querer?

- Pra falar a verdade, eu não sei o que mais ela poderia precisar...Ela já tem soldados, um general, Dádivas que podem controlar os sonhos e o comportamento das pessoas, o lençol negro que pode transportá-la para qualquer lugar e armas letais aos montes.

- Exatamente. Ela não viria aqui só para roubar uma lança que congela o oponente, por exemplo. Nós precisamos pensar em algo realmente absurdo e, ao mesmo tempo, extremamente necessário para...Seja lá o que ela estiver planejando.

- Esse é o problema: não sabemos o que exatamente ela pretende. Achei que você soubesse, John, já que passou tanto tempo espionando. – disse Hector. Não pude deixar de notar que ele parecia ainda mais chateado do que quando nós chegamos.

- Maureen tem mais de um objetivo. No início era apenas um, mas quando ela se deu conta de que podia fazer muito mais, ela não hesitou em investir nisso.

- Bom. E quais são esses objetivos? – Hector exigiu.

- Eu só sei o que ela pretende; não sei bem como ela vai alcançá-los. Só isso não vai nos servir de nada agora.

- Pois eu acho que ajudaria pelo menos um pouco. Diga. – ele não estava mais pedindo; estava mandando.

- Sério? Aqui e agora? – John já não estava mais tão calmo. – Acho que a gente tem coisa mais urgente para resolver no momento.

- Você não pode fazer isso com a gente! – Hector jogou a caixa furiosamente e se levantou bruscamente.

- Fazer o quê?!

- Achei que você tinha nos chamado para essa missão para sermos seus parceiros e não seus subordinados! Você tem a obrigação de nos contar tudo que sabe!

- Caramba, Hector! Eu vou contar! Na hora certa, é claro.

- Você vai contar agora porque senão...- mas Hector não concluiu sua ameaça, porque uma outra voz surgiu naquele lugar.

- Boa noite, rapazes. – era um homem alto e magro, usando um sobretudo preto e botas também pretas.

Ficamos todos mudos por causa da surpresa que, aliás, não fazíamos idéia se era boa ou má.

- Confesso que fiquei muito decepcionado com vocês. Fui avisado de que receberíamos a visita de vocês esta noite e fiquei esperando ansiosamente por uma...como posso dizer? Uma entrada triunfal? Mas, não. Vocês têm mais recursos do que imaginamos. Usar a entrada dos imortais foi realmente inesperado.

Ele ficou nos encarando com um meio sorriso falso e assustador. Depois de algum tempo, eu perguntei:

- Quem é você?

- Um amigo do seu pai.

Não precisei nem olhar melhor para ele para deduzir:

- Você é um demônio.

- Correto. E chefe da segurança do Banco das Dádivas.

"Beleza.", eu pensei, "Mais um combate à vista.".

- Eu estava tentando descobrir o que vocês pretendiam com essa "sutil" visita noturna, até que ouvi vocês falando sobre Maureen.

- O que sabe sobre ela?

- Ela é muito famosa aqui no Banco. Eu me lembro perfeitamente de quando ela ficava tentando enxergar o que havia aqui dentro através do vidro. E me lembro principalmente do primeiro e único roubo na história desse banco; que, naturalmente, foi a amiga de vocês que realizou.

- Ela não é nossa amiga! - Hector se apressou em dizer. – Viemos aqui porque queremos descobrir o que ela roubou e tentar impedi-la de usar a Dádiva.

- Isso aí! Você com certeza sabe o que foi e pode nos ajudar, não é? – Sam se empolgou.

Escutei John murmurar um "Essa não". Só entendi o motivo quando o demônio respondeu:

- Não cabe a mim julgar quem são os bons ou maus. Eu estou aqui apenas para cumprir ordens; e as que me passaram foram bem claras: destruir qualquer invasor, principalmente se for um semideus.

John não esperou o demônio cumprir sua obrigação. Ele saltou até o monstro e rapidamente o atravessou com sua espada. Saímos de cena tão rápido que eu nem vi se aquele ataque havia sido o suficiente para acabar com ele. A única saída era pelo corredor onde estavam os cofres. Mas não chegamos nem perto de lá porque dezenas de demônios começaram a se materializar por todo o lugar. Ficamos temporariamente encurralados, até John destruir a fechadura e nos empurrar para dentro de um dos cofres.

- Ficou maluco?! – eu falei, enquanto ele segurava a porta para que os demônios não entrassem.

- O que você queria?! Eu não achei que fossem aparecer tão cedo; não tinha plano nenhum. Ainda não tenho, inclusive. – era a primeira vez desde que o conheci que John parecia desesperado.

- Não podemos ficar aqui para sempre. Vamos sair e lutar. É o único jeito. – disse Hector.

- Não vamos conseguir. Mais demônios vão aparecer se os matarmos. E não temos recursos nem para acabar com os que já estão lá fora. – John respondeu.

- Alô! Estamos num cofre cheio de Dádivas! Temos armas de sobra para dizimar aqueles monstros! – Sam apontou para as prateleiras a nossa volta.

- Sam...Nós não podemos... – John ficou com a voz trêmula ao ver Sam escolhendo uma Dádiva.

- Quem disse? – Sam arremessou uma Dádiva para John.

No mesmo instante, os demônios conseguiram empurrar a porta e a reação de John foi praticamente instintiva: ele calçou a luva de boxe verde que Sam havia entregado a ele e deu um soco na porta. Uma espécie de tora atravessou a porta e derrubou a porta e os demônios que estavam na frente.

Sam aproveitou a deixa e pegou dois braceletes de couro. Ele com certeza não tinha idéia do que eles faziam; ele simplesmente sacudiu o braço e uma chuva de espinhos destruiu alguns demônios e por pouco não nos acertou. Foi o suficiente para ele se entusiasmar e correr para o meio dos monstros e começar a atacá-los sem hesitar. John não teve escolha e também começou a lutar.

Pelo tipo de Dádivas, concluí que nós estávamos no cofre de Deméter. Eu e Hector não pegamos nenhuma Dádiva e fomos para o corredor apenas com as nossas espadas. Não era difícil lutar contra os demônios, mas, como John havia dito, mais surgiam conforme acabávamos com os outros.

- E então, John? Alguma idéia de como saímos daqui? – ficamos lado a lado enquanto combatíamos pelo menos uma dúzia de demônios ao mesmo tempo.

- Na verdade...Abaixa! – ele me empurrou para o chão porque um demônio passou voando por cima das nossas cabeças. Logo em seguida eu tive que esticar o braço para afastar os demônios em volta com a minha espada. Conseguimos nos levantar e ele continuou: - Eu tenho sim, Nico. Só que...Vai ser meio que um roubo! – ele usou a luva de boxe e derrubou uma fileira de monstros. Eu aproveitei e os atravessei com a espada, deixando um rastro de poeira para trás.

- Como assim?! – eu detestei aquela idéia de imediato.

- Preciso da minha Dádiva de volta. Precisei mandá-la para cá para convencer Maureen de que eu estava morto, mas não adiantou nada. Não posso me aproximar do cofre de Atena. Você precisa ir lá pegá-la.

- Você falou sério quando disse para não tocarmos em nada!

- Nico, a minha Dádiva vai não só nos mostrar como saímos daqui como também o que foi que Maureen roubou! Vai dar tudo certo! Confie em mim! – ele me encarou suplicante por alguns instantes.

- Tudo bem... – apesar de muito contrariado, aceitei. – O que eu vou procurar?

- Óculos.

- Hã...Ok.

- Hector! – ele chamou. – Dê cobertura ao Nico!

Abri caminho entre os monstros para chegar até o cofre de Atena. Era impressão minha ou o corredor havia ficado apertado demais por causa da quantidade de monstros? Hector matou dezenas só para conseguir chegar até mim.

- O que vai fazer? – ele perguntou, sem parar de dizimar os monstros.

- Recuperar a Dádiva do John. – eu respondi enquanto tentava arrombar a fechadura da porta.

- Nós não viemos aqui para isso.

- Os planos mudaram diante da nossa situação. – consegui abrir a porta. – Não vou demorar. – e entrei.

Não deu para observar muito bem, mas eu acho que as Dádivas estavam relativamente organizadas no cofre de Deméter. Achei que fosse levar no máximo cinco segundos para encontrar os óculos de John. Mas não: o cofre de Atena era uma bagunça total! Tipo, muito pior do que o meu quarto! Para começar, havia pelo menos vinte vezes mais Dádivas de Atena do que de Deméter; e não estavam todas arrumadas nas prateleiras, estavam espalhadas pelo chão ou empilhadas em um canto.

Ou seja: aquilo ia sim demorar mais que cinco segundos! Comecei a vasculhar tudo imediatamente. E era de se esperar que eu fosse um pouco mais delicado ao tocar em artefatos mágicos, mas eu estava revirando as pilhas como se estivesse cavando terra. Em um certo ponto, vi os pés de Hector ao meu lado; ele e mais alguns demônios já estavam dentro do cofre! Por causa disso eu tive que parar de procurar a Dádiva de John para afastar alguns monstros.

- Era para você manter essas coisas longe daqui! – reclamei com Hector.

- Eles não param de aparecer! Já nem estão cabendo no corredor! Estou fazendo o possível; o problema é que você está demorando muito!

Não respondi e voltei à busca. Encontrar um par de óculos entre objetos grandes como escudos era como uma agulha no palheiro! E isso ficava ainda mais complicado com algum demônio tentando me matar.

Eu já não sabia mais onde procurar a Dádiva quando Hector caiu no chão. Ele tinha um grande corte na cabeça. Os demônios o haviam desarmado e estavam nos encurralando. Fiquei desconcertado por causa do machucado dele e a minha distração me impediu de reagir a tempo quando os demônios me atacaram e eu também caí. Minha espada deslizou até o outro lado e, quando eu estiquei o braço para pegá-la, vi dois reflexos meus bem pequenos: eram os óculos!

Assim que as pontas dos meus dedos os tocaram, eu vi pelo menos quatro monstros voando para cima de mim. Hector e eu teríamos morrido se Sam não tivesse aparecido e colocado a Dádiva de Deméter em ação. John também estava por perto na tentativa de afastar as Fúrias. Eu gritei "John!" e arremessei os óculos para ele. Eu vi quando ele os pegou, mas logo depois eu o perdi de vista no meio do combate.

- Nico! – Sam me chamou. – Hector não está legal. A gente tem que ir embora agora mesmo!

Olhei para Hector: estava banhado em sangue e pálido. Não ia agüentar mais muito tempo. Deixei Sam cuidando dele e fui até John.

- Você já tem seus óculos! Agora dê um jeito de nos tirar daqui antes que o Hector morra! – exigi.

- Preciso de cobertura. Pode manter os demônios afastados por alguns instantes?

- Ok. Mas seja rápido!

John ficou parado, olhando em volta atentamente. Depois correu em direção ao cofre de Zeus. Não pude fazer nada quando alguns demônios o atacaram enquanto ele tentava arrombar a porta porque eu também estava sendo atacado.

Assim como não pude fazer nada quando o primeiro demônio que encontramos, o que era chefe da segurança, apareceu caminhado calmamente no meio do confronto e foi até o cofre de Atena. Ele pegou Sam pela camisa e pôs uma garra afiada no pescoço dele.

- Eu não sei se vocês são muito ousados ou muito burros a ponto de ignorarem a proibição feita aos semideuses com relação a este lugar. – disse ele.

Nós e os demônios paramos de lutar. O lugar ficou em silêncio total.

- Apenas o fato de invadir este lugar já traz a vocês a pena de morte. Mas vocês não só invadiram como também quebraram a promessa que fizeram para entrar: vocês usufruíram do poder dos deuses! E este aqui – ele apertou sua garra contra o pescoço de Sam. – vai ser o primeiro a ser punido.

Naquele instante, senti um frio percorrer a minha espinha e eu estava com tanto medo que não consegui reagir de maneira alguma. O demônio afastou um pouco sua garra para dar o golpe mortal. Tinha certeza que era o fim, mas aí escutei:

-NÃO!

Hector havia arranjado forças para sacar uma arma qualquer no chão do cofre e feriu a perna do demônio, que largou Sam logo em seguida. A reação do monstro foi imediata: ele tirou Hector do chão e o empurrou contra a porta do cofre de Apolo. E foi como se a porta fosse um ímã, porque Hector ficou preso ali. Ele estava tão fraco que só conseguiu fazer força uma vez para tentar se soltar e aí apagou. Eu ainda estava em choque, mas John reagiu imediatamente e conseguiu abrir a porta do cofre de Zeus. Os demônios o seguiram cofre adentro. E então a porta em que Hector estava preso começou a brilhar e parecia estar puxando-o para dentro. Ele começou a tremer e parecia ficar cada vez mais pálido. Nesse momento, John pulou para fora do cofre carregando alguma coisa em uma das mãos e com uma multidão de demônios atrás dele. Ele se voltou para elas e a coisa na sua mão deu um grande choque elétrico em todas elas. O chefe da segurança e o restante dos monstros no corredor foram pegos de surpresa e também foram eletrocutados. Tudo aquilo aconteceu tão rápido que eu não estava conseguindo absorver nada a ponto de tomar um atitude. Foi John quem me despertou quando se abaixou ao lado de Hector e gritou para mim e para Sam:

- Rápido! Temos que tirá-lo daqui!

Nos juntamos a ele e começamos a puxá-lo, e faltava apenas o seu braço direito quando uma coisa pequena e brilhante atravessou a porta muito rapidamente.

- Ah, não... – John ficou sem ar.

- O quê?! O que foi?! – eu perguntei, pensando em mil coisas terríveis.

Os demônios que não haviam sido dizimados pelo choque estavam começando a se recuperar e logo iam acordar.

- Vamos sair daqui. Agora mesmo! – ele disse, e nós puxamos Hector e corremos.

Chegamos até a entrada de serviço em dois tempos, tamanha foi a nossa velocidade. John começou a assoviar quando estávamos nos aproximando, e quando saímos as duas bigas voadoras estavam à nossa espera.

Assim como alguns funcionários da companhia elétrica de Chicago e a polícia.

- Quem são vocês?! – um policial perguntou.

- Não parem! – John nos disse e nós continuamos correndo até as bigas.

Saímos de lá antes que pudessem apontar alguma arma para nós.