S

egundo Hector, Maureen morava com a tia em Hyde Park, próximo à Universidade de Chicago. Por mais que eu achasse que conversar com algum parente dela nos traria alguma informação importante, eu não conseguia deixar de pensar que a tia dela não ia simplesmente abrir a porta para nós e responder o nosso interrogatório. Hector já estava ficando irritado com o meu pessimismo, mas o otimismo dele também não estava fácil de agüentar.

Nós chegamos a uma casa simples, mas bonita, e tocamos a campainha.

- Não se esqueçam de que vamos falar com alguém que com certeza não tem idéia do que está acontecendo. Então tomem cuidado com o vão dizer. – Hector nos alertou.

E uma mulher magrinha, de cabelos cor de mel e olhos azuis abriu a porta com um olhar curioso.

- Posso ajudá-los?

- Hã...Bom dia, senhora. Eu sou Hector e esses são Nico e Sam. Nós freqüentamos o acampamento junto com Maureen.

- Ah! Olá! – ela sorriu de uma jeito totalmente doce. Minha primeira impressão: ela não se parecia nem um pouco com Maureen. – Aconteceu alguma coisa com ela?

- Não, senhora. Na verdade, nós viemos aqui para fazer algumas perguntas. Se não for muito incômodo, é claro.

Ela considerou a nossa proposta por alguns instantes e depois disse:

- Tudo bem. Entrem. – nós entramos nos sentindo mais desconfortáveis impossível. – Sentem-se. – ela nos apontou o sofá e se sentou na poltrona em frente.

Durante uns dois minutos ninguém disse nada. Nós três ficamos olhando para a casa enquanto ela nos encarava um tanto apreensiva.

- Então...O que vocês querem perguntar?

- Eu...sei que isso pode parecer muito estranho... – eu comecei, mesmo diante do olhar nervoso de Hector. – Mas é que nós estamos em uma missão; não sei se Maureen já falou a respeito disso com a senhora, mas...

- Já. Nunca me contou detalhes, mas ela já me disse algumas vezes que ia passar algum tempo sem dar notícias porque estaria ocupada com uma dessas missões.

- É algo assim. Mas então ela não costuma conversar muito com a senhora sobre o acampamento?

- Nem sobre o acampamento nem sobre outras coisas. Maureen sempre foi muito ocupada e também muito isolada. Por isso a visita de vocês me deixou um tanto surpresa, porque sempre me pareceu que ela não tinha muitos amigos. Quero dizer, havia dois garotos que apareciam aqui de vez em quando: um era o Tobey, que parecia ser o namorado dela; e o outro era o John, do mesmo chalé do acampamento.

- Hã... – eu tinha certeza de que Sam ia soltar alguma coisa do tipo "Nós não somos amigos dela", mas aí Hector deu uma cotovelada relativamente discreta nele.

- Ah, sim. John e Tobey. E ela não mantém contato com o restante da família? – perguntei.

- Nossa família é bem pequena. O meu irmão, pai da Maureen, vive com a mulher e duas filhas em uma fazenda no interior; e Maureen era muito menosprezada lá, então eu a convidei para vir morar comigo.

- Ele se casou depois que ela nasceu?

- Não, alguns anos antes. Mas a família dela se resume a mim desde sempre.

Depois eu não sabia o que mais eu podia perguntar sem que aquilo parecesse um interrogatório policial. A senhora Lewis perguntou se estávamos com fome e disse que ia trazer um lanche para nós. Aproveitamos que ela havia saído para tentar fazer aquela conversa ser produtiva.

- Não vamos chegar a lugar algum fazendo esse tipo de pergunta, Nico. – disse Hector.

- Já percebi. Mas o que você sugere?

- Vamos ter que ser sinceros com ela.

- Ficou maluco?!

- Não totalmente sinceros, mas precisamos dizer a ela que Maureen está envolvida em algo perigoso. Talvez ela possa nos dar alguma pista.

A tia de Maureen voltou com uma bandeja e anunciou:

- Sanduíches, biscoitos e chá. Podem se servir.

Eu estava desejando uma refeição reforçada há bastante tempo e não chá com biscoitos. Mas, do jeito que eu estava, qualquer coisa comestível estava servindo. Nós três atacamos a comida de modo que a bandeja ficou limpa em um minuto.

- Senhora Lewis? Tem algo que a senhora precisa saber. – Hector falou assim que terminou de engolir.

Ela suspirou e nos olhou parecendo desapontada.

- Eu sabia que havia algo errado. Por favor, me digam logo o que é. E não me escondam nada.

- Nós acreditamos que Maureen seja a líder de uma espécie de organização.

- Organização? Como assim? – ela parecia achar aquilo engraçado.

- Ela reuniu vários semideuses e está roubando itens mágicos.

- Itens mágicos?

- São como armas. Muito poderosas e não devem ser usadas levianamente.

- Isso não pode ser verdade... – ela se levantou e começou a andar pela sala, desconcertada. – Vocês são crianças! Crianças não montam organizações!

- Senhora Lewis, acredite: essa não é a primeira vez que um semideus se envolve com coisas assim. – eu disse. – Ser um de nós implica em passar por coisas bem diferentes das que as outras pessoas da nossa idade passam.

Ela não disse nada por algum tempo. Nós não insistimos porque sabíamos que aquilo era muito para se absorver de uma vez só.

- Mas...O que ela pretende com isso? – ela perguntou.

- Não sabemos. É por isso que estamos aqui. Para tentar entender.- eu disse.

- Bem... – ela voltou a se sentar, já mais calma. – Maureen não aparece aqui há pelo menos um ano e meio. Ela partiu para as férias no acampamento e ela me ligou de lá dizendo que estaria ocupada numa missão e não sabia quando poderia voltar a dar notícias. Desde então não nos falamos mais.

- E antes disso? Como ela era?

- Como eu disse, era muito isolada. Quando voltava da escola ficava no quarto, e na maioria das vezes levava o jantar para lá. Eu sempre interpretei isso como timidez; achei que ela se sentia pouco a vontade na minha casa e não queria incomodar. E às vezes o Tobey ou o John vinham aqui e eles ficavam conversando durante muito tempo na varanda. Outras pessoas vieram aqui, mas foram poucas vezes e eu não cheguei a conhecê-las direito. Depois Maureen começou a sair mais de casa para se encontrar com eles. Tinha vezes em que ela voltava muito animada; outras vezes voltava muito aborrecida.

- E você sabe para onde ela ia?

- Chicago Place, provavelmente. Ou então para a Biblioteca Central.

Nós já sabíamos o motivo de ela ir ao Chicago Place: o Banco das Dádivas. Mas a Biblioteca Central era novidade. Hector e eu nos olhamos; já sabíamos qual seria o nosso próximo destino.

- Espero que eu tenha ajudado em alguma coisa. Infelizmente isso é tudo que eu sei sobre a minha sobrinha.

- Ajudou sim, senhora Lewis. Muito obrigado por tudo. – agradeceu Hector.

- Eu só gostaria de pedir um favor a vocês...

- O quê?

- Se vocês tiverem notícias da Maureen, eu gostaria que me avisassem. Ou alguém do acampamento. Apesar de tudo, eu me preocupo muito com ela. - aquilo era revoltante! Uma pessoa tão cruel como Maureen não merecia uma tia tão legal!

- Claro, senhora. Vamos falar com o pessoal do acampamento.

Ela nos acompanhou até a porta e disse:

- Boa sorte, meninos. Eu espero que dê tudo certo. Para todo mundo.

Por mais que eu torcesse para isso, eu sabia que não tinha como todo mundo ficar bem no final.

- Odeio bibliotecas. – disse Sam enquanto entrávamos na Biblioteca Central de Chicago.

- Por que? – eu quis saber.

- Os filhos de Ares tem uma dislexia mais grave do que os outros semideuses; ou seja, ver um monte de letras que não conseguimos entender é muito mais assustador para ele do que para nós. – explicou Hector.

- Entendi. O que exatamente vamos procurar aqui?

- Não sei bem. Talvez isso seja pura perda de tempo, mas eu acho que Maureen pode ter tirado algumas das suas idéias daqui. Livros de História, por exemplo. Vamos nos separar e dar uma circulada. Nos encontramos mais tarde.

E então cada um foi para um lado. Confesso que eu nem estava muito esperançoso de encontrar alguma coisa. Não que a teoria de Hector me parecesse completamente errada, mas acontece que eu também não era muito fã de leitura. Até os títulos dos livros me deixavam sem paciência. Mas nós estávamos numa missão, então eu tinha que tentar.

Fiquei perambulando pelos vários corredores da enorme biblioteca. Uma prova de que aquele não era o ambiente certo para alguém como eu? Eu não conseguia encontrar as seções úteis como as de História, Geografia e Direito Civil, por exemplo. Eu só me deparava com livros de nomes para bebês, jardinagem, treinamento de cães e planejamento de casamentos. Tenho bastante certeza que Maureen não começou a ter idéias malignas a partir desse tipo de coisa.

Eu já estava de saco cheio daquilo tudo e havia decidido desperdiçar só mais dez minutos do meu tempo naquela busca impossível. Afastei dois livros de uma prateleira com a intenção de ver o que havia por trás da "culinária saudável" e me deparei com uma mensagem de Íris bem no meio dos livros.

Primeiro eu só estava vendo árvores. Logo depois Hannah surgiu arrastando Allan pelo braço.

- Que idéia é essa?! – Allan estava completamente atordoado. – Hannah! Pode me dizer para onde estamos indo?!

Ela o ignorou enquanto dava mais alguns passos na floresta. Quando ela parou, se virou para ele e disse em tom urgente:

- Aconteceu uma coisa ontem.

- O quê?

- Eu não contei isso a você antes, mas, quando estavam vasculhando o cofre de Tobey no chalé dele, encontraram uma caixa com o meu nome escrito.

- Sério? E o que tinha nela?

- Me disseram que eram só objetos pessoais. Eu não abri para conferir quando me entregaram. Na verdade, eu não tinha a menor intenção de ver o que tinha lá; mas ontem, pouco antes de eu ir dormir, algumas coisas caíram no meu quarto, inclusive a caixa. E...bem, eu acabei abrindo.

- Ok. E aí? Achou alguma coisa interessante?

- Não tive tempo de ver tudo porque Eve acordou e começou a me fazer um monte de perguntas. Ela tem me vigiado feito louca nos últimos tempos! – Hannah revirou os olhos.

- Ah, então foi por isso que você saiu de fininho no meio do treino e me arrastou até aqui?

- Foi. Mas voltando ao que interessa: havia fotos e outras lembranças minhas e do Tobey na caixa; mas eu encontrei uma coisa que não me lembra absolutamente nada. – então Hannah tirou a bússola roxa do bolso e mostrou ao Allan.

Allan a pegou e a analisou por alguns instantes.

- Então você nunca viu isso antes? – ele perguntou.

- Não. Passei a noite inteira tentando trazer à tona alguma lembrança disso aí e não consegui. Dei uma olhada melhor hoje de manhã e percebi que ela está com defeito; não aponta para o norte.

- Hum... – Allan continuava estudando a bússola. – Talvez isso não tenha significado nenhum. Talvez Tobey só tenha guardado isso no primeiro lugar que encontrou. Não precisa ficar pirando por causa disso. – ele a tranqüilizou e devolveu para ela. – Além do mais, esse troço está quebrado. – de fato, a seta não se mexia mais.

- Acho que você tem razão. – Hannah encarou a bússola, parecendo muito pouco convencida.

- Esse negócio da caixa é bem interessante. Posso dar uma olhada depois?

- Não sei se vou querer continuar olhando aquelas coisas. Acho melhor eu simplesmente tocar fogo em tudo.

- Não seja tão revolucionária! Eu acho mesmo que você devia ver o resto.

Eu havia me esquecido de que ainda estava com a cara enfiada numa estante de livros, por isso levei o maior susto quando uma voz atrás de mim perguntou:

- Está falando com quem?

Imediatamente, cobri a mensagem de Íris com uns livros e me deparei com Sam.

- Eu? – tentei fingir normalidade. – Sei lá. Acho que estava falando sozinho. Essa tarde na biblioteca está me deixando maluco! – dei uma risada. – Mas, e você? Encontrou alguma coisa?

- Não. Mas Hector disse que sim e está nos esperando na entrada para nos contar tudo durante o jantar.

Encontramos uma lanchonete bacana no caminho e decidimos jantar por lá mesmo. Hector havia alugado alguns livros na biblioteca, mas não nos disse nada até que tivéssemos terminado de comer. Ou quase, porque eu fiquei perguntando a cada dois minutos "E então? O que foi que você descobriu?". Até que ele terminou de mastigar o seu sanduíche e finalmente disse:

- Ok. Prestem atenção, vocês dois: - ele olhou para as mesas em volta para ter certeza de que ninguém estava nos observando. – lembram como o nosso mundo surgiu? Urano e Gaia foram os pais dos titãs; Cronos matou Urano e teve filhos: os deuses; e Zeus matou Cronos.

- Lembro. E daí? – disse eu.

- Daí que, depois de matar Urano, Cronos ouviu uma voz lhe dizer que, por ter sujado as mãos com o sangue do próprio pai e assim ter tomado para si o poder supremo, um dia ele ia perdê-lo da mesma maneira. E foi o que aconteceu: Zeus tomou o poder; e foi igualmente amaldiçoado.

- Ei, eu não sabia disso! Quer dizer que Zeus um dia vai ser morto por um filho e esse filho vai ser o novo rei do universo? – Sam ficou perplexo.

- Teoricamente, sim.

- Achei que esse perigo tinha passado quando Zeus engoliu a mãe de Atena e impossibilitou que o outro filho dela nascesse. Não seria esse filho que iria destronar Zeus? – falei.

- Seria. Mas nós estamos trabalhando com as possibilidades mais absurdas aqui, não estamos? – disse Hector, com ar de mistério.

- Onde está querendo chegar? – eu já estava impaciente com aquela enrolação toda.

- Eu consegui descobrir quais foram os livros que Maureen alugou na biblioteca desde que fez o cadastro. A grande maioria era de livros escolares, mas alguns eram bem interessantes. – ele tirou um livro da mochila e colocou sobre mesa. Era um livro de mitologia grega. – Ela o alugou várias vezes. A bibliotecária me disse que nunca conheceu alguém tão apaixonada por mitologia grega como Maureen; ela leu quase todos os livros do assunto que haviam por lá.

- Pode ser, Hector. Mas mesmo que o plano de Maureen seja esse, apenas um outro ser muito poderoso poderia destronar Zeus. Ela é só uma semideusa.

- Uma semideusa que está de posse de algumas dezenas de Dádivas poderosas. – Hector me lembrou com um meio sorriso. É claro que ele não estava sorrindo por estar contente, mas sim por ter matado a charada.

Eu fiquei apenas encarando Hector por um minuto inteiro. Porque aquilo era simplesmente...!

- Mas os deuses sabem o que está acontecendo, não sabem? – Sam perguntou, alarmado. – Eles não vão deixar ela chegar muito longe.

- Sam, você ainda não entendeu? É função de nós, semideuses, resolver esses problemas. Eles não vão interferir; nós é que precisamos começar a agir. – disse Hector.

- E se um dos deuses estiver usando Maureen para tomar o poder? – sugeri.

- Na verdade, Nico, eu acho que... – mas Hector não pôde concluir porque uma mensagem de Íris começou a se formar perto da janela e nós ficamos desesperados para escondê-la dos mortais e nos agrupamos na frente dela.

Quíron surgiu diante de nós e a primeira coisa em que reparei foram os seus olhos: eu nunca havia visto Quíron com um olhar tão assustado. Além disso, ele estava meio ofegante e pálido.

- Rapazes... – ele engoliu em seco. Apesar de ele ter se dirigido a nós três, seu olhar estava voltado apenas para mim. E foi por causa disso que um único pensamento preencheu minha mente: "Hannah!".

Eu queria perguntar o que tinha acontecido, mas minha língua era um peso morto; eu estava congelado. Então me limitei a encará-lo de volta.

- Uma tragédia está prestes a acontecer. – disse ele, finalmente.

- Quíron. O que foi? – Hector estava com a mesma expressão de Quíron.

- Agora há pouco nós... – ele passou a mão na cabeça e respirou fundo. – Annabeth foi trazida ao acampamento agora há pouco por alguns semideuses que estavam em Nova York. Ela está muito ferida.

- Por que?! Quem deixou ela desse jeito? – recuperei minha fala.

- Nico, nós...

- E o Percy? Ele está aí também? Como ele está? – não esperei ele responder às primeiras perguntas.

- Nico... – ele me olhou como se o que ele tivesse para me dizer o estivesse matando. Infelizmente, eu já estava meio que familiarizado com aquele tipo de olhar. – Annabeth e Percy estavam juntos quando um grupo de semideuses os atacou. Aliados de Maureen, com certeza. Eles eram muitos e os reforços demoraram a chegar e...- não...Não podia ser o que eu estava pensando. Percy era como um irmão para mim e se alguma coisa acontecesse com ele eu não...Como a vida podia ser tão injusta comigo? Chegava a ser patético o fato de eu perder todos aqueles que eram importantes para mim! Aquilo era algum tipo de sina para os filhos de Hades?

- O quê, Quíron?! O que aconteceu com o Percy?! – eu estava gritando e Sam olhou para trás, preocupado com o pessoal da lanchonete, e me deu um cutucão para eu me conter.

- Eles o levaram, Nico. Percy foi seqüestrado.

Não foi por decepção ou por achar que Quíron não tinha motivos para estar daquele jeito; eu estava com ódio; com muito ódio. Simplesmente. E a maneira mais discreta que eu encontrei de extravasar isso foi dar um soco enorme na mesa e ir para o banheiro.

Eu tinha plena consciência de que os outros clientes ficaram com medo do adolescente vestido de preto que estava gritando e esmurrando a mesa, e que em breve algum funcionário iria pedir para eu me retirar do estabelecimento ou iria logo chamar a polícia. Mas, antes que alguma dessas coisas acontecesse, eu precisava fazer algo para deixar a minha consciência levemente mais tranqü a porta do banheiro, abri a torneira e joguei um dracma de ouro ali.

- "Ó, Íris, deusa do arco-íris, mostre-me Eve García."

A água logo começou a ganhar cores e eu avistei Eve sentada em sua cama, sozinha no chalé de Deméter.

- Nico. – pela cara dela, dava para perceber que ela já sabia do ocorrido. – Que bom te ver! – ela conseguiu sorrir de leve. – Quíron está querendo falar com vocês. Acho que ele vai mandar uma mensagem de Íris em breve...

- Eu acabei de falar com ele.

- Ah...Eu sinto muito pelo que aconteceu, Nico. Sei o quanto você gosta do Percy. Mas ele é incrível, vai dar um jeito de sair dessa.

Não respondi. A tranqüilidade de Eve estava me irritando. Acho que ela percebeu isso porque perguntou:

- O que foi, Nico? Aconteceu mais alguma coisa?

- Eve, onde está Hannah?

- Bem... – ela consultou o seu relógio. – Deve estar se arrumando para o jantar. Por que?

- Achei que tinha dito que ia ficar de olho nela.

- Eu estou de olho nela. Mas tenho bastante certeza de que ela não precisa ser vigiada enquanto toma banho.

- Você acha que tudo é uma brincadeira, não é, Eve? – estreitei os olhos, fervendo de raiva.

- O quê? – ela estranhou o meu tom.

- Não pedi a você para ficar de olho em Hannah para o caso de o Owen dar em cima dela; foi para que os espiões do acampamento ou até a própria Maureen não façam com ela o mesmo que fizeram com Percy!

- Eu sei, mas...

- Não sabe não! Tem coisas sobre ela que eu descobri mesmo estando longe; coisas que você nem desconfia porque não está cumprindo a sua promessa!

- Isso é ridículo, Nico! Eu...

- Só vou dizer mais uma coisa: se alguma coisa acontecer a ela, Eve...a culpa vai ser toda sua!

Eu não esperei pela resposta dela; passei a mão pela mensagem antes que eu perdesse o controle de vez.

Esperei mais alguns minutos até me recompor. Eu precisava de mais tempo, mas começaram a bater na porta do banheiro insistentemente. Eu a abri e era um dos funcionários da lanchonete.

- Hã... – acho que eu devia estar com uma cara péssima. O homem pareceu meio intimidado com o meu olhar. – Você está bem? Está...precisando de alguma coisa?

Eu não costumo ficar distribuindo grosseria sem motivo por aí, mas eu ainda estava com tanta raiva que, se Hector não tivesse interferido, ia mesmo mandar o cara para o mundo inferior.

- Está tudo bem. Obrigado. – Hector garantiu. – Ele acabou de receber uma má notícia. Mas vai se sentir melhor depois de um milk-shake de chocolate, certo? – ele deu uns tapinhas no meu ombro e me levou de volta para a mesa.

Vi quando o funcionário se dirigiu para a cozinha, ainda parecendo ter medo de mim, e também vi alguns clientes me encarando não tão discretamente. Hector e Sam ficaram me olhando apreensivos, mas eu não estava a fim de conversa naquele momento. Esperamos em silêncio até trazerem o meu milk-shake e confesso que me senti menos mal depois de alguns goles. Hector deve ter percebido a minha mudança de expressão porque começou:

- Está mais calmo?

Eu assenti.

- Eu sei que você não quer conversar, mas me deixe pelo menos terminar de contar o que eu descobri na biblioteca. Talvez se você entender, você se sinta menos arrasado.

- Tudo bem. – Hector não estava com cara de quem ia me deixar escapar, então eu tive que concordar.

- Você me perguntou se não era possível que Maureen estivesse sendo guiada por algum deus e, no começo, essa foi a minha hipótese, mas aí eu encontrei outro livro na ficha dela. – ele pôs sobre a mesa um livro sobre rituais e sacrifícios. – Não vou dizer que é uma fonte confiável, mas eu encontrei uma idéia que se encaixaria nos objetivos de Maureen. Isso descartou a minha primeira teoria e me fez pensar no seguinte: se todos os deuses se oporem à Maureen, ela iria precisar derrubar não apenas Zeus, mas todos os outros deuses; e, de acordo com a maldição, os pais serão destronados pelos próprios filhos. E isso significa que...

-...que Maureen precisa de um filho de cada deus. – acompanhei o raciocínio.

- Exatamente. E isso inclui você, Percy e Thalia: os filhos dos Três Grandes. Mas vocês jamais irão cooperar com Maureen, mesmo que ela use a Dádiva de Julia Hawkins em vocês, certo?

- É claro.

- E isso poderia arruinar o plano todo se não fosse por um certo ritual desse livro. – ele nos mostrou uma página. – Não se sabe a origem dessa prática, mas há relatos de que uma pessoa pode se tornar representante legítima de outra se retirar dela três coisas: a liberdade, a dignidade e, por fim, a própria vida.

- Como assim?

- Eu também não entendi o que exatamente isso significava e fui pesquisar mais. A liberdade é algo óbvio, não tem o que discutir; "tirar a dignidade" pode ser algo do tipo submeter uma pessoa a trabalhos humilhantes e degradantes; e depois que a pessoa já estivesse presa e já tivesse sofrido um monte de humilhações, quem quer se tornar o representante dela a mataria.

- E você acha mesmo que é isso que Maureen pretende? – aquilo era meio demais até para Maureen.

- O seqüestro de Percy confirmou todas as minhas suspeitas. – ele lamentou.

Bebi o resto do meu milk-shake em um gole só, de tão nervoso que eu estava.

- O que vamos fazer agora? – perguntei a Hector.

- Nesse exato momento nós vamos encontrar um lugar para dormir. E amanhã nós vamos a Nova York falar com um dos semideuses que tentou ajudar Percy e Annabeth.

Muitas vezes eu me sentia mal por ficar pensando em Hector como um cara mandão e paternalista. Não que ele não fosse, mas acontece que ele era sim um cara legal demais. Tipo naquela noite, depois que saímos da lanchonete e encontramos um hotel para passar a noite, só havia duas camas e um sofá no quarto e ele deixou que Sam e eu ficássemos com as camas e ele foi dormir no sofazinho pouco confortável. Mesmo que eu fosse mais baixo e o sofá não fosse ser tão desconfortável para mim quanto para ele, Hector fez isso porque sabia que eu estava péssimo e foi a maneira que ele encontrou de fazer com que eu me sentisse menos mal.

Apesar de tudo, eu não estava conseguindo pregar o olho. Ainda estava muito chateado e muito preocupado para relaxar. No meio da noite, Hector não agüentou mais eu ficar me revirando na cama e disse:

- Nico, eu sei que é difícil, mas você precisa mesmo fazer algum esforço para descansar. Você vai precisar ficar mais alerta do que nunca de agora em diante.

- Eu sei. – suspirei.

Alguns minutos se passaram sem nenhum de nós dizer mais nada. Eu sabia que ele já estava quase adormecendo, mas eu precisava saber a opinião dele.

- Hector? Tem uma coisa que eu ainda não tive a oportunidade de te contar, mas é importante.

- O quê? – ele se virou para mim, com cara de sono.

- Eu venho recebendo umas mensagens de Íris. Elas me mostram Hannah. No começo eu pensei que era Eve quem as estava mandando, mas depois elas começaram a surgir em lugares e em momentos que simplesmente não poderiam ser coisa de Eve. Nem de ninguém que eu possa imaginar, na verdade.

Hector me encarou com atenção.

- E o que as mensagens mostram?

- Hannah conversando com Eve ou com Allan. O mais esquisito foi quando a mensagem foi enviada durante a noite enquanto Eve estava dormindo no chalé de Hera e Hannah estava acordada, mas parecia totalmente certa de que estavam só as duas ali dentro. E eu já estive no chalé de Hera e sei que não há como uma pessoa ficar escondida ali dentro. Estou muito preocupado com isso, Hector. Tem alguém observando Hannah o tempo inteiro!

- Acho que sei o que está acontecendo: algum deus está mandando as mensagens.

- Por que?

- Com certeza para ajudar você. Eles fazem essas coisas de vez em quando; não é nada fora do comum. Talvez eles queiram que você saiba de algumas coisas. Não precisa ficar preocupado com isso.

- Sei lá...Não parece o tipo de coisa que o meu pai faria.

- Não tem que ser necessariamente o seu pai. Pode ser qualquer deus que tenha se sensibilizado com a causa.

- Eles querem que eu alerte Hannah ou algo assim?

- Não. Pelo que você me contou, acho que eles querem apenas que você observe, pelo menos por enquanto.

- Só espero que eles me dêem algum sinal quando eu tiver que interferir. – disse, imerso em pensamentos.

- Hannah está fazendo alguma coisa perigosa? – ele ficou apreensivo.

- Ainda não dá para saber.

Passamos mais algum tempo em silêncio e depois eu voltei a falar.

- Eu também tive um sonho com Maureen. Tobey também estava nele.

- Outro daqueles sonhos que mostram o futuro?

- Não. E não acho que tenha sido algo subjetivo; era real. Acho que era o esconderijo de Maureen. Ela estava conversando com Tobey sobre a nossa invasão ao Banco das Dádivas. E... – eu hesitei.

- O que mais?

- Essa era a parte que eu gostaria que fosse só um sonho...

- Nico, você precisa me contar.

- Maureen ordenou que Tobey trouxesse Hannah até ela.

Uma grande ruga de preocupação surgiu na testa de Hector.

- Por favor, me diga que isso não é necessariamente verdade. – eu implorei, porém com pouca esperança.

- Isso deve ser mais uma cortesia dos deuses. Provavelmente você viu mesmo Maureen e Tobey ao vivo e a cores.

Era por temer essa resposta que eu havia hesitado em conversar com Hector antes.

- Por pior que tudo pareça, Nico... – disse Hector. – Tem pelo menos uma coisa muito boa nessa história.

- O quê?

- Os deuses estão totalmente do seu lado.