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espertei no outro dia com Hector me chamando. Abri os olhos com muito esforço e o vi andando de um lado para o outro no quarto, guardando as nossas coisas nas mochilas e parecendo estar com pressa. Olhei para a janela à minha direita e vi que o sol ainda nem estava muito forte, o que só podia significar...

- Que horas são? – perguntei.

- Cinco e meia. – Sam me respondeu.

- Ah, fala sério! – eu resmunguei e me escondi embaixo do travesseiro.

- Nico, anda logo! Não podemos perder tempo! – Hector disse, enquanto terminava de fazer as malas.

Era de se esperar que ele pelo menos me deixasse dormir mais um pouco, já que ele tinha plena consciência de que o dia anterior havia sido desastroso para mim. Acho que ele ultrapassou sua cota mensal de tolerância na noite passada.

- O que tem de tão importante para fazer hoje? – eu quis saber.

- Você está de brincadeira? Ontem nós descobrimos exatamente o que Maureen pretende e você acha que não temos mais nada para fazer?

- Eu sei que temos que fazer alguma coisa, mas eu acho mesmo que qualquer coisa a partir de agora vai necessitar de reforços.

- Provavelmente. E é por isso que vamos até o acampamento.

- VAMOS AONDE?! – eu gritei, porque essa idéia fez meu coração praticamente parar por alguns instantes. Hector ia começar a explicar, mas eu não deixei. – Não! A gente não pode voltar lá agora! Eu não posso voltar lá e...

- Nico, calma! – Hector olhou para mim como se eu fosse louco. Mas eu devia mesmo estar agindo como um maluco naquele instante. – Eu já conversei com Quíron, certo? E nós não vamos ficar por lá, só vamos resolver umas coisas. Não deu para contar tudo ao Quíron por mensagem de Íris, então ele pediu que fôssemos até lá para conversarmos e tentarmos montar uma estratégia porque, como você disse, nós vamos precisar de reforços daqui pra frente. E não se preocupe com a possibilidade de encontrar a... – é claro que ele ia dizer "Hannah", mas ao invés disso pigarreou e disse: - de encontrar o pessoal. Vai ser tudo muito discreto e Quíron vai dar um jeito de manter os campistas distraídos enquanto estivermos lá.

Eu nem consegui disfarçar que estava detestando a idéia. Hector repetiu a mesma coisa um milhão de vezes para tentar me convencer. Disse que, se eu achasse melhor, eu poderia conversar com Annabeth enquanto ele conversava com Quíron. A coisa toda não ia demorar mais que uma hora. Acabei concordando porque...bom. Eu não tinha escolha. Terminei de arrumar as minhas coisas e nós deixamos o hotel pouco tempo depois.

Também chegamos ao acampamento bem rápido, por causa da biga voadora. Quando eu avistei a entrada do acampamento ao longe, senti um frio na barriga. Eu não achava que voltaria tão cedo e a idéia de ter que encarar Hannah me deixava realmente apavorado. E, ao mesmo tempo, eu estava com uma vontade enorme de falar com ela; mesmo que ela só fosse dizer que me odiava. Mas eu não podia fazer isso de jeito nenhum, porque ia estragar todo o meu plano de mantê-la relativamente segura. Apesar de eu, cada dia mais, achar que ela estaria mais segura ao meu lado.

Nós aterrissamos perto do pinheiro de Thalia, e Argos e Quíron vieram nos receber. Não sei o que foi que Quíron fez para manter os campistas afastados, mas o negócio é que não tinha ninguém mesmo pelas redondezas.

- Como você está, Nico? – ele pôs a mão no meu ombro.

- Melhor, eu acho. Obrigado.

- É bom ouvir isso. Vamos para a Casa Grande, rapazes. – e nós seguimos Quíron. Argos nos acompanhou para garantir que nenhum campista nos visse.

Me deixaram na enfermaria para que eu pudesse conversar com Annabeth; Sam ficou encarregado de pegar mantimentos e armas para nós, e Hector foi contar as novidades ao Quíron.

A enfermaria também estava deserta, com exceção de Annabeth ocupando um dos leitos. Ela estava dormindo, então eu entrei tentando não fazer barulho. Fiquei em pé ao lado dela e observei seus ferimentos: sua perna direita estava quebrada, havia um curativo gigantesco no seu abdome e seus dois olhos estavam roxos. Conhecendo Annabeth como eu conhecia, eu sabia que ela havia ficado daquele jeito porque tentou proteger Percy a todo custo e eu tinha bastante certeza de que ela também havia feito um belo estrago nos inimigos.

Bati sem querer em um copo de vidro na mesinha do lado e os olhos de Annabeth se abriram imediatamente, apesar de eu quase não ter feito barulho. Ela arregalou os olhos, assustada, e depois de alguns segundos relaxou.

- Meus deuses, Nico! – ela respirou aliviada. – Que idéia foi essa de chegar de fininho?

- Desculpa. Eu não quis acordar você. – eu puxei uma cadeira e me sentei.

- Eu não estava dormindo mesmo. – ela suspirou, triste.

- Annabeth...Eu sinto muito pelo que aconteceu.

- Eu sei. E como você está?

- Acho que era eu quem devia perguntar isso a você.

- Não precisa perguntar. A resposta já deve estar bem clara. – ela tocou o curativo em sua barriga de leve. Mas eu sabia que seus ferimentos eram o menor de seus problemas; eu sabia que a preocupação com Percy estava acabando com ela. – Você não estava em uma missão?

- Ainda estou. Mas chegamos a um ponto em que não podemos mais continuar sozinhos. Viemos pedir ajuda ao Quíron.

- Entendo. Quem está com você?

- Hector e o irmão mais novo dele: Sam.

- Eu soube do Tobey. Lamentável.

- É uma forma educada de se referir à situação.

Annabeth riu um pouco. Mas acho que era um grande feito diante do estado dela.

- Eve e Hannah estiveram aqui. – ela disse. – Eve é muito boa cuidando de ferimentos; melhor do que muitos filhos de Apolo, inclusive. E Hannah ficou aqui comigo o tempo todo; ela é muito gentil. Algum motivo para elas não terem ido na missão junto com vocês?

- Meus deuses...Eve nunca fica quieta! – murmurei.

- Ei, ela não me contou nada. Não precisa ficar bravo com ela.

Fiquei meio envergonhado com aquilo. Eu estava descontando tudo em Eve nos últimos tempos. Disfarcei e procurei manter o foco na missão:

- Olha, Annabeth, não sei se você tem condições de me ajudar, mas eu preciso mesmo que você me conte tudo que aconteceu ontem. Toda informação é importante.

- Eu vou fazer o possível. Mas aconteceu tudo tão rápido, sabe? Algumas coisas ainda estão muito confusas na minha cabeça.

- Tudo bem.

- Bom, Percy e eu estávamos saindo do cinema no final da tarde. O tempo estava ruim em Nova York, meio chuvoso, então não havia quase ninguém naquelas ruas. Estávamos andando de volta para o apartamento dele quando dez semideuses encapuzados nos atacaram por trás. Eles chegaram tão sorrateiros que fomos totalmente pegos de surpresa e não conseguimos reagir de imediato. Quero dizer, eu consegui reagir depois, mas apagaram Percy e dois deles o colocaram numa biga voadora e foram embora. Os outros me encurralaram perguntando pelo meu boné da invisibilidade, mas eu não disse nada e eles começaram a me torturar. Não sei se eu ainda estaria aqui se alguns amigos nossos não tivessem sido chamados pelos sátiros. De qualquer modo, eles não conseguiram capturar nenhum dos inimigos, só afugentá-los.

- Como eles conseguiram apagar Percy com tanta facilidade? Percy estava doente ou algo assim?

- Acho que tinha um filho de Hipnos com uma Dádiva junto com eles. Não pude observar direito, mas o que aconteceu com Percy não pareceu normal.

- Você deve estar certa. Maureen já reuniu vários seguidores poderosos.

- Agora me responda você, Nico: você sabe o que fizeram com Percy? Sabe por que o levaram? – Annabeth me encarou suplicante.

- Nós temos uma teoria. Na verdade, é mais que uma teoria. – daí eu contei tudo a ela.

Quando eu terminei, ela estava estupefata:

- Destruir os deuses?! – ela meio que estava rindo. – Maureen perdeu completamente a noção das coisas! Você entende o que aconteceria se um bando de adolescentes assumisse o controle do planeta, Nico? Caos! Eles destruiriam tudo em menos de uma semana!

- É verdade... – eu ainda nem havia enxergado as coisas daquela maneira. Fiquei tão preocupado com a matança de semideuses que me esqueci de pensar nas conseqüências daquilo.

- Vocês já alertaram Thalia?

- Não sei se Quíron já fez isso. Hector está conversando com ele nesse momento.

- Você e Hannah também precisam ficar atentos. Tudo leva a crer que capturar os semideuses é a última etapa do plano de Maureen; e se já vieram buscar o Percy...vocês três estão correndo grande perigo. Por isso, seja lá qual for o plano, Nico, não se arrisque.

Não falamos muito depois disso. Annabeth já estava exausta e eu achei melhor deixá-la descansar. Mas ela me prometeu que estaria cem por cento curada em poucos dias e que iria se juntar a nós muito em breve.

Hector disse que só iríamos ficar lá durante uma hora, mas só havia se passado meia hora quando eu saí da enfermaria. Eu poderia simplesmente ir para a Casa Grande e ficar esperando por lá, mas eu estava muito incomodado com uma coisa desde a noite anterior e me senti na obrigação de pelo menos tentar dar um jeito nisso. Era arriscado, alguém podia me ver e isso ia trazer muitas complicações, mas eu realmente precisava tomar uma atitude.

Me esgueirei para os fundos da enfermaria, onde havia uma mangueira. Abri a torneira e joguei um dracma na água, dizendo "Ó, Íris, deusa do arco-íris, mostre-me Eve García.". Rezei para todos os deuses para que Eve não estivesse cercada de gente e alguém pudesse me ver através da mensagem. Acho que eles atenderam minhas preces, porque ela estava sozinha. Não precisei de muito tempo para descobrir onde ela estava e depois disso eu fiz com que a mensagem se encerrasse e me dirigi à floresta.

Viajar pelas sombras me pouparia de uma boa caminhada, mas, como eu ainda não confiava plenamente nos meus poderes, achei melhor não correr mais riscos do que os que eu já estava correndo. Eu conhecia perfeitamente o lugar onde Eve estava; foi através de mim que ela o descobriu, na verdade. Eu costumava ir até lá quando precisava dar um tempo, e um dia ela me seguiu. Era à beira de um desfiladeiro; não era muito seguro, mas era tranqüilo. Avistei Eve sentada ali e me aproximei devagar. Ela só escutou meus passos quando eu já estava bem perto.

- Nico?! – ela ficou bem surpresa.

Eu sorri levemente e me sentei ao lado dela.

- O que está fazendo aqui? Está tudo bem? – Eve ficou preocupada.

- Está tudo bem. Viemos falar com Annabeth, com Quíron e pegar mantimentos.

- Ah...Ninguém me avisou nada.

- Pedimos a Quíron para não deixar ninguém nos ver. E vamos embora logo. – consultei meu relógio. – Não tenho muito tempo, inclusive. Mas eu precisava vir falar com você porque...Eu quero te pedir desculpas.

Eve não parecia estar esperando por aquilo. Ficou sem saber o que dizer.

- Eu não devia ter dito o que disse a você ontem. Não devia ter falado daquele jeito.

- Você estava chateado, Nico. Às vezes a gente acaba descontando nos outros. Acontece. – ela deu de ombros.

- Mas eu fui injusto com você. Sei que você está fazendo o que pode para proteger Hannah.

- Eu faço o possível. Eu juro. Mas não tem sido nada fácil... – ela suspirou. E, quando eu olhei para ela, percebi o quanto ela estava diferente: desde que eu parti, Eve me pareceu bem triste; mas naquele momento ela estava parecendo arrasada.

- Eve, você está bem? – eu estava torcendo para que aquela depressão dela tivesse a ver apenas com o que eu disse a ela no dia anterior, mas eu já havia me desculpado e ela não parecia melhor.

- Não... – e aí ela começou a chorar.

E eu fiquei totalmente sem jeito, como sempre fico quando alguém começa a chorar.

- Eve, me diga qual é o problema. Você sabe que eu não entendo a linguagem do choro.

Fiquei esperando até que ela se acalmasse. Já estava quase na hora de eu me encontrar com os Madison, mas eu não podia deixá-la daquele jeito.

- Hannah está correndo perigo, Nico...E eu não sei como ajudá-la! – ela disse isso e voltou a chorar.

- Como assim Hannah está em perigo?! Eve, você tem que me contar tudo! – eu agarrei os ombros dela.

- O problema é que eu não sei o que está acontecendo com ela! Ela não me conta nada; ela está escondendo coisas de mim! Primeiro foi a doença dela, depois ela começou a acabar com todo mundo nos treinos e agora tem aquela bússola esquisita!

- Bússola? Que bússola? – me fiz de desentendido.

- Eu não sei. Peguei ela mexendo nisso durante a noite e depois ela começou a escapar dos treinos para ficar andando por aí com essa coisa. Isso não é algo bom, Nico; eu sei que estão tentando fazer alguma coisa com Hannah.

- Você tem razão. Como está a questão dos espiões do acampamento?

- Alguns foram descobertos e se mandaram. Na verdade, foram muitos. Mas Quíron acha que os mais perigosos ainda estão aqui.

- Eu não duvido disso. Quíron provavelmente vai contar a você o que descobrimos mais tarde, mas já vou adiantando que o seqüestro de Percy foi só o começo de uma série de seqüestros. Hannah e eu somos alvos também. Fiquei nervoso com isso ontem e por isso agi daquele jeito com você.

- Eu entendo como você deve estar se sentindo. Então, Nico...você não acha que seria melhor levar Hannah com você? Aqueles caras acabaram com Annabeth e Percy facilmente; eu confesso que não acho que vou poder proteger Hannah em um ataque como aquele.

- Não há só espiões dentro do acampamento, Eve. Se houver um ataque, vocês terão muita ajuda.

- Mas Maureen não vai mandar só dez semideuses para lutar contra o acampamento inteiro. É óbvio que ela vai mandar um verdadeiro exército para cá.

- Você não está errada, mas eu acho que é melhor que os alvos estejam separados. Nós precisamos ganhar tempo e a melhor forma de conseguir isso é dificultando as coisas para Maureen.

Eve assentiu e nós ficamos em silêncio só observando o desfiladeiro abaixo de nós. Depois de algum tempo eu perguntei:

- Eve, é só isso que está preocupando você ou tem mais alguma coisa que você queira me dizer? Porque você sabe que pode me dizer qualquer coisa, certo? Apesar de eu ser um idiota com você na maior parte do tempo, eu sou seu amigo.

Ela sorriu de leve.

- Hm...Não é nenhuma novidade.

- O que é?

- Você sabe. Eu me sinto inútil aqui. Eu queria poder fazer alguma coisa para ajudar.

- Nós já conversamos sobre isso...- tentei ser compreensivo, já que ela parecia tão triste por causa daquilo.

- Sim, mas será que não é a mesma situação da última vez? Lembra? Você não queria me deixar ir na missão para encontrar os semideuses da lista, mas eu fui mesmo assim e tenho certeza de que contribuí muito! Você nem imaginava do que eu era capaz, não era? E se você estiver cometendo o mesmo erro outra vez?

- Eve, eu já te expliquei que o fato de eu não ter deixado você ir com a gente não tem nada a ver com eu achar que você não está à altura.

- Pois eu acho que tem sim, Nico! Você pode justificar a presença de todos nas duas missões, mas se fosse para justificar a minha presença você não saberia o que dizer!

- Que absurdo! – fiquei indignado com aquela acusação.

- Ah, é? Então justifique a minha presença!

Nos primeiros momentos eu a encarei confiante de que ia responder algo inteligente, mas depois de pensar um bocado eu me dei conta de que ela tinha razão. Quero dizer, não que eu achasse que ela não contribuía, mas eu realmente não tinha uma justificativa. Meu silêncio me entregou.

- Viu só o que eu disse? – falando daquele jeito, ela já estava muito mais parecida com a Eve de sempre.

- Que criancice, Eve! E olha só a hora! – eu me levantei rápido. – Eu preciso ir. Não acredito que você me fez perder tempo com essa discussão ridícula!

Eu voltei para a floresta andando bem depressa por causa da hora. Eve me seguiu.

- Não podem saber que eu vim me encontrar com você. – eu disse a ela.

- E por que não? Eu faço parte desse grupo, não sou nenhuma estranha!

Eu até discuti um pouco com ela no caminho, mas a minha paciência já estava esgotada, então eu desisti e acabei deixando ela vir comigo para se encontrar com os caras.

Hector, Sam e Quíron estavam parados na varanda da Casa Grande. Hector me olhou com cara de "Finalmente!" quando me viu chegando. Primeiro ele parecia apenas impaciente pelo meu atraso, mas depois, acho que quando ele viu que Eve estava comigo, ele ficou todo nervoso e esquisito.

- Não dá para acreditar, Nico! Não era para ninguém saber que estávamos aqui!

- É que eu... – comecei a explicar, mas Eve me interrompeu.

- E desde quando eu sou "ninguém", Hector? – Eve ficou ofendida.

- Só não diga a mais ninguém que estivemos aqui. E isso inclui Hannah. Vocês dois: vamos logo. – ele disse e saiu empurrando Sam e eu.

- Você vai me ignorar?! – ela ficou pasma.

Hector parou de nos empurrar, olhou para trás com o rosto todo vermelho e falou:

- Eve...Oi. Não leva a mal, não. É só que a gente tem muita coisa para fazer. Quíron vai contar tudo a você. A gente se vê.

Foi a vez de Eve olhar para ele, toda vermelha e com raiva.

- Você é tão...! – ela não completou a frase.

Hector foi na frente em disparada. Eu fiquei sem saber o que dizer a Eve. Olhei para Quíron e ele estava rindo. Eu não entendi o motivo. Eu e Sam nos despedimos deles e seguimos Hector.

- E aí? O que foi que você e o Quíron decidiram? – perguntei ao Hector assim que decolamos.

- Hum...Quíron disse que nós já temos reforços. – Hector parecia meio decepcionado com aquela resposta.

- A gente vai se encontrar com eles ou algo parecido? – Sam perguntou.

- Sei lá. Quíron estava todo misterioso. Eu contei tudo que fizemos a ele, mas ele falou pouca coisa. Só disse para prosseguirmos.

- Prosseguirmos fazendo o quê? – eu estranhei porque tinha quase certeza de que não havia mais nada que nós três pudéssemos fazer.

- Eu perguntei isso a ele, mas ele meio que mudou de assunto.

- Será que Maureen descolou uma Dádiva que faz com que ela fique com a aparência de outra pessoa? Ou centauro, nesse caso? – Sam levantou a hipótese.

Hector e eu nos olhamos um tanto preocupados com aquela possibilidade, mas daí ele a descartou logo:

- Não. De jeito nenhum. Era mesmo o Quíron. Só que ele parecia estar com a cabeça em outro lugar.

- A conversa que eu tive com Eve... – eu raciocinei um pouco. – Bom. Isso meio que me deu uma idéia: acho que Quíron só quer me manter longe do acampamento, de Hannah, mais especificamente; porque aí Maureen demoraria mais um pouco para concretizar o plano dela, já que ia ter que organizar dois grupos para nos capturar.

- Faz sentido. – Hector concordou.

- Supondo que o Nico esteja certo, o que nós vamos ficar fazendo até...sabe-se lá até quando?

- A gente pode pensar nisso depois de comer um churrasco. – Hector disse, olhando para baixo. Foi aí que eu percebi que estávamos parados acima de uma churrascaria na estrada.

Não sei se foi só o meu estômago que praticamente ganhou vida própria ao ouvir a palavra "churrasco", mas eu acho que estava mesmo sentindo o cheiro da carne lá do alto. Nós descemos e entramos no restaurante, já babando em cima da comida dos outros clientes. O lugar era meio rústico e parecia mesmo uma casa de fazenda, com uma grande varanda cheia de cadeiras confortáveis para os clientes descansarem um pouco depois do almoço. E, bem, depois de nós três comermos o equivalente a uma vaca inteira e talvez até um porco, ninguém tinha forças para voltar para a biga, então nos ficamos por ali mesmo. Se nós tivéssemos alguma coisa para fazer, Hector teria dito "Dez minutos de descanso e depois partimos". Mas, como não tínhamos, ele simplesmente desmaiou num sofá. Sam e eu fizemos a mesma coisa. Era muito bom poder dormir sem ficar pensando no que ia ter que fazer depois. Eu nem me lembrava quando foi a última vez em que eu pude fazer isso. Nem tinha idéia do quanto eu estava cansado. O sono veio imediatamente. E acho que o sonho também.

A primeira coisa que vi foi uma revista em quadrinhos. Isso mesmo: alguém estava com uma revista em quadrinhos na frente do rosto. Mas aí outra pessoa veio e arrancou a revista das mãos da primeira, que revelou ser Tobey Grant.

- O que foi, Maureen?! – Tobey perguntou, irritado.

- Então é isso que você chama de trabalho? – Maureen sacudiu a revista.

- Eu só estava dando um tempo. Todo mundo aqui tem direito a uma folga de vez em quando!

- E você escolhe um momento como esse para tirar uma folga?! Tobey! Nós estamos tão perto!

- Eu sei que o momento é importante. Mas eu já disse a você um milhão de vezes que eu já estou fazendo a minha parte.

- Por que eu não consigo confiar em você para fazer isso, Tobey? Por que eu simplesmente acho que você vai estragar tudo?

- Bom, não era eu que estava destinado a isso desde o começo. De repente você me disse que queria que eu fizesse, e eu tive que improvisar.

- Não gosto do jeito como você está fazendo isso.

- E eu não gosto do jeito como, de repente, você não confia mais em mim! Sempre usamos as minhas idéias e sempre deu certo. Por que você acha que agora não vai funcionar?

- Porque eu não levo fé em ataques sutis.

- Pois devia.

Maureen esbravejou e começou a andar pelo que parecia ser o quarto de Tobey. Era espaçoso, com a cama em que ele estava sentado e o outro lado era como se fosse uma oficina, cheia de ferramentas e peças.

- Também não entendo porque você está com tanta pressa. – Tobey continuou. – A etapa dois ainda nem foi concluída.

Nesse momento, um grito ecoou pelo lugar.

- Ah, foi sim! – Maureen sorriu com satisfação. – Eu vou receber a nossa convidada.

Ela saiu do quarto e Tobey correu para alcançá-la. Os dois atravessaram um amplo corredor com paredes de pedra, com alguns semideuses passando também; e lá na frente havia uma concentração de pessoas. Eles se aproximaram mais e eu pude ver quem estava gritando: Thalia!

Thalia estava sendo contida por alguns semideuses enquanto esperneava e chutava e gritava coisas como "Vocês vão pagar muito caro pelo que fizeram! Lady Ártemis vai destruir todos vocês por terem mexido com As Caçadoras!". Maureen falou com ela com um sorriso cínico:

- Eu duvido muito, filha de Zeus. Ela vai ser destruída sem ao menos saber o que a atingiu.

Thalia ficou ainda mais furiosa e tentou avançar para Maureen, mas foi contida.

- O que vocês querem de mim?!

- Vamos precisar dos seus serviços, filha de Zeus. Digamos que...a equipe de faxina está precisando de um novo integrante.

Thalia olhou para Maureen, totalmente confusa. Maureen ordenou que a acompanhassem. O grupo caminhou por alguns corredores até que pararam onde dois caras estavam de pé observando um terceiro que estava esfregando o chão. Ele levantou a cabeça e eu vi que era Percy.

- Percy?! – Thalia arfou e a jogaram no chão ao lado dele.

Ele estava péssimo: suas roupas estavam esfarrapadas e sujas, ele tinha arranhões gigantes por todo o corpo, estava magro e abatido.

- O que está fazendo aqui? E por que você...AH! – um dos caras que estava vigiando Percy chicoteou Thalia no braço. E foi aí que eu descobri que aquelas coisas em Percy não eram arranhões, eram chicotadas!

- Você está bem?! – Percy largou o seu serviço para ajudar Thalia e foi chicoteado também, de modo que foi obrigado a recuar.

Os dois ficaram tremendo de dor ali no chão. Percy já parecia conformado com aquela situação, mas Thalia ficou encarando Maureen, abismada. Maureen, por sua vez, só os olhou com desdém.

- Vocês vão trabalhar juntos a partir de agora, mas isso não significa que vão poder ficar de conversinha. Quero mais dois voluntários para vigiar a filha de Zeus. – um cara e uma garota se ofereceram. – E não hesitem em castigá-los. Vocês sabem o que têm que fazer. – depois disso, ela foi embora e o restante do pessoal começou a se dispersar.

Alguém levou um balde com água e uma escova para Thalia. Ela se juntou a Percy no trabalho. No final, apenas uma pessoa permaneceu ali: Tobey.

Percy ergueu a cabeça e olhou para ele com raiva.

- Feliz? – Percy rosnou.

Tobey sustentou o olhar por alguns instantes e depois deu as costas e saiu.

E eu acordei sobressaltado com o barulho de risadas. Quando minha visão finalmente entrou em foco eu percebi que já era quase noite, Hector continuava dormindo pesadamente no sofá e Sam estava jogando sinuca com um homem vestido de cowboy e alguns garçons do restaurante. Ele ficou todo empolgado quando viu que eu estava acordado:

- Nico! Vem jogar! O Sr. Campbell disse que se ganharmos dele podemos jantar aqui de graça!

O Sr. Campbell, que era o cowboy e provavelmente o dono do restaurante, acenou para mim. Mas comida era a última coisa em que eu estava pensando naquele momento, por causa de tudo que eu tinha visto no meu sonho. Ignorei Sam e comecei a tentar acordar Hector.

- Hector, eu acabei de ter mais um daqueles sonhos! – falei antes mesmo de ele despertar por completo. – Nós precisamos fazer alguma coisa agora! Acorda logo!

- Hum...O que você quer, Nico? – ele perguntou de maneira nada simpática e se virou no sofá.

- Quero que você me escute: Maureen conseguiu capturar Thalia!

- Espera...O quê?! – ele se sentou abruptamente. – Maureen capturou Thalia? Como você sabe?

- Eu tive um sonho. – repeti. – Maureen, Tobey, Percy e Thalia estavam lá.

- Ah, meus deuses! Sam, venha aqui! – Sam deixou o jogo e veio até onde estávamos. – Nico, pode contar tudo que você viu.

E aí eu contei aos dois o que tinha acabado de sonhar.

- Isso é muito... – Hector esfregou os olhos, estressado. – Nico, você tem noção de que, se eles pegaram Thalia...

- Eu sou provavelmente o próximo. É, eu sei disso.

- Precisamos ir embora daqui agora mesmo. – Hector se levantou e começou a procurar sua mochila.

- Mas para onde, Hector?

- Qualquer lugar. Nós só não podemos ficar esperando Maureen vir te buscar.

- Está sugerindo que eu me esconda?! – fiquei indignado com aquilo.

- E o que mais nós podemos fazer nessa situação?

- Eu tenho uma idéia melhor: vamos tentar descobrir onde fica o esconderijo da Maureen.

- Nico. Se você está pensando em ir lá libertar Percy e Thalia, fique sabendo que essa é uma péssima idéia! Só vai facilitar tudo para Maureen se você for até a base dela.

- Eu não preciso necessariamente ir até lá. Mas nós podemos descobrir onde fica e mandar uma equipe até lá. Na verdade, se descobrirmos onde fica a base de Maureen, nós vencemos.

- Não é tão simples assim. Se fosse, Maureen já teria atacado o acampamento há muito tempo.

- Quer saber? Sei lá! Você é o inteligente aqui, Hector; então trate de ter alguma idéia porque eu me recuso a ficar de braços cruzados enquanto Maureen se prepara para me seqüestrar, ou pior: seqüestrar Hannah!

Hector respirou bem fundo como se estivesse tentando não me assassinar. Daí ele disse:

- Tudo bem. Vamos embora.

Nos despedimos do Sr. Campbell e caminhamos em direção à floresta onde havíamos deixado a biga voadora. Hector não havia me dito para onde íamos, mas estava com cara de quem tinha um plano, então eu estava relativamente tranqüilo. Nos aproximamos de clareira onde a biga foi deixada e eu reparei que não havia apenas uma biga ali. Nós três paramos e buscamos nossas espadas, certos de que eram os asseclas de Maureen que haviam vindo me levar. Olhei todo o perímetro e não vi ninguém. Me lembrei de que Annabeth tinha me contado que ela e Percy foram atacados por trás e por causa disso eu me virei e comecei a andar para trás. Já estávamos bem perto da clareira e ainda não havia sinal de vida por ali.

- Aquela biga parece... – Sam falou e eu escutei um som de galhos e folhas se mexendo. – Caramba! É ele mesmo!

Me virei imediatamente e dei de cara com o John Nelson.

Sam, Hector e eu ficamos tão surpresos que não avançamos mais; foi John quem caminhou até onde nós estávamos.

- Me desculpem pelo susto. – foi a primeira coisa que ele disse.

Eu sempre achei que quando nos reencontrássemos ele ia admitir que estava errado naquela época, mas ele nem mesmo tocou no assunto.

- Quíron entrou em contato comigo mais cedo e eu vim atrás de vocês assim que soube...bom, de tudo que aconteceu.

- Por quê? – aparentemente Hector ainda estava ressentido com John. Às vezes eu queria que ele pegasse mais leve com as pessoas, tipo com Eve e com John.

- Porque agora vocês já sabem qual é o plano da Maureen; e nós precisamos agir.

- É mesmo? Vamos, de fato, fazer alguma coisa ou você vai continuar escondendo as coisas de nós durante uma jornada que não nos leva a lugar algum?

- Escuta aqui, Hector, você não... – John também não era a pessoa mais tolerante do mundo e por causa disso eu interferi antes que os dois começassem a brigar ali mesmo.

- Hã, John, eu estava justamente dizendo ao Hector que acho que nós deveríamos tentar descobrir onde fica a base da Maureen.

John desviou os olhos furiosos de Hector para mim e disse:

- Nós vamos precisar fazer isso, Nico, mas...É sério, caras: não podemos conversar aqui. Será que vocês podem me seguir para um lugar seguro?

Nós concordamos meio relutantes e seguimos John até as bigas.

Sam ficou fazendo um monte de perguntas ao John sobre o que ele ficou fazendo enquanto estávamos separados. Ele começou a responder e eu meio que parei para prestar atenção e eu só me dei conta de uma escuridão nos envolvendo quando Hector gritou: "Corram!"

Eu até tentei correr, mas já era tarde demais: quando eu dei um passo, já não havia mais chão. Eu, Hector, Sam e John estávamos flutuando na escuridão.