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ui despertado por uma pequena pedra que caiu na minha cabeça. Achei que devia ser Sam com uma das suas brincadeiras, mas aí eu abri os olhos e eu não estava mais no mesmo lugar em que havia dormido. E não era como se eu tivesse sido levado para o interior da ilha de Lemnos; o lugar era completamente diferente e isso eu pude perceber só pela ausência do cheiro e do barulho do mar. Estávamos na encosta de um monte cheio de cavernas.

- John, acorda. Rápido. – eu o cutuquei.

- Hum...O que foi? – ele tateou a camisa em busca dos óculos.

- Aconteceu alguma coisa. – eu disse e fui acordar os Madison.

John ficou de pé lentamente e olhou ao redor parecendo ainda muito sonolento. Depois de algum tempo, ele disse:

- Como viemos parar aqui?

- É isso que é esquisito. Você acha que a "porta" funcionou enquanto estávamos dormindo?

- Talvez, mas...Eu não estou gostando nada disso.

- Do que você não está gostando, John? – Hector estava acordando e perguntou isso com um tom aborrecido, como se John tivesse começado a agir feito um imbecil outra vez. Daí ele olhou em volta e falou: - Que lugar é este? Não parece a ilha de Lemnos.

- Acho que nós fomos transportados, Hector. Sam, acorde. – eu disse.

- Que fome...Ainda tem biscoitos? – Sam ignorou completamente a situação e começou a revirar a mochila, provavelmente procurando mais biscoitos Oreo.

- Você conseguiu fazer a TV funcionar ontem à noite? – Hector perguntou a John.

- Não. Sam e eu ficamos tentando durante um tempão, mas depois desistimos e fomos dormir.

- Pelo menos não fomos parar à beira de um daqueles vulcões ou algo assim. Faz idéia de que lugar é esse?

- Pode ser qualquer lugar do planeta. Ou simplesmente um lugar que só existe dentro do lençol de Klaus. Eu estou torcendo para a primeira opção.

- Essa não! – Sam gritou apavorado.

Eu, John e Hector nos viramos para ele com as nossas espadas prontas, mas ele disse apenas:

- Os biscoitos desapareceram!

Hector bufou e foi até ele, pisando duro.

- Porque você comeu todos, Sam! Agora dá para você se concentrar? Estamos com problemas! – Hector o levantou puxando-o pela camisa.

- Eu sei que estamos! Roubaram a nossa comida! – Sam respondeu, todo sério.

Hector ignorou, e eu fui até onde estava a minha mochila, dizendo:

- Vamos andar por aí e tentar descobrir alguma coisa sobre esse lugar. Se foi o lençol de Klaus que nos trouxe aqui, então deve haver uma outra "porta", certo? – eu pus minha mochila em um ombro e estranhei o fato de ela estar tão leve. Eu a abri e constatei que minhas latas de Coca-cola não estavam mais lá. – Quem mexeu nas minhas coisas? – disse isso olhando diretamente para Sam.

- Não fui eu! – Sam ficou ofendido.

- Tinham sobrado pelo menos cinco latas de Coca-cola do jantar de ontem. E agora não tem mais nenhuma! – aquele era o tipo de coisa que me deixava louco porque eu sempre tinha que ter uma reserva de refrigerante comigo. Não só para beber, obviamente, mas também para falar com alguns mortos se fosse preciso.

- Você passou dos limites, Sam! – Hector esbravejou.

- EU NÃO ATAQUEI A COMIDA E MUITO MENOS A COCA-COLA DO NICO! – Sam estava praticamente soltando fumaça pelas orelhas de tanta raiva.

- Não foi o Sam, pessoal. – John declarou, observando o monte com os olhos estreitados. – Eu já sei o que está acontecendo aqui. Sigam-me.

Pegamos o que restou das nossas coisas e fomos atrás dele.

- Olhem, eu não sei exatamente que lugar é esse, mas conheço esse monte: é o Monte Aventino.

- Cara, você consegue diferenciar montes de pedra uns dos outros? – Sam estranhou.

- Bem. Sobre isso...é a minha Dádiva. Nunca tive a oportunidade de dizer para vocês como ela funciona, mas acontece que ela me mostra a verdade sobre as coisas e as pessoas.

- Como assim? – eu quis saber.

- Por exemplo, se eu estiver usando esses óculos eu posso saber se uma pessoa está mentindo ou não.

- Do jeito que você descobriu que Sam não roubou o meu refrigerante?

- Exatamente. E do jeito que eu descobri que não havia nada de bem intencionado nos planos de Maureen.

Olhamos para John, muito surpresos.

- Eu ainda não tinha uma Dádiva quando me juntei à Maureen. Mas, com o passar do tempo, eu comecei a ficar cheio de dúvidas com relação à organização. Eu não sabia se devia largá-los e denunciar o que estavam tentando fazer ou se eu devia continuar com eles porque Maureen me fez acreditar que era certo. Então um dia eu estava sozinho pensando sobre isso e minha mãe, Atena, veio me entregar esses óculos.

- Você conversou com a sua mãe?! – Sam perguntou, maravilhado e, ao mesmo tempo, com um tanto de inveja. Eu sabia disso porque Hector havia me contado que Ares nunca apareceu para Sam, e falar com o pai era o grande sonho da vida dele.

- Não. Ela só disse que a minha astúcia ia precisar de um aliado e me entregou os óculos.

- Então você descobriu que esse é o Monte Aventino por causa dos óculos? – Hector ainda estava absorvendo aquela idéia.

- E não apenas isso. Eu também descobri que...

Foi aí que todos nós ficamos pendurados de cabeça para baixo através de cordas em galhos de umas árvores esquisitas.

- O que está acontecendo?! – eu perguntei, ainda balançado de um lado para o outro na corda.

- Peguem suas espadas! Rápido! – disse John.

Mas foi tarde demais, porque perdemos tempo tentando nos recuperar do susto, e nossas espadas e todo o conteúdo das nossas mochilas caíram no chão.

- Hum...Parece que hoje é o meu dia de sorte! – um homem usando roupas esfarrapadas surgiu diante de nós e exclamou com um sorriso sinistro no rosto.

Ele avaliou nossos pertences abaixo de nós e disse:

- Já faz algum tempo que não recebemos visitantes tão ilustres neste lugar. Caco vai ficar tão satisfeito com vocês quatro que eu vou poder até tirar algumas férias!

- Caco?! Eu sabia! – John falou enquanto o homem amarrava as mãos dele com a extremidade de uma corda e amarrava a outra extremidade em outra árvore. – Mas, você?! O que está fazendo aqui?

- Ah! Uma infeliz coincidência do destino: Caco e eu retornamos do Tártaro e fomos mandados para o mesmo lugar. Creio que foi uma punição divina. Ficamos lutando um com o outro, morrendo e retornando para cá durante séculos! Até que ficamos cansados de nos matarmos e fizemos um acordo.

- Que acordo? – a voz de John ficou tensa.

- Caco não me devoraria se eu fornecesse os pedaços das minhas vítimas para ele quando eu terminasse de me divertir. – ele terminou de amarrar Sam e estava se dirigindo para Hector. – O que é bom para todo mundo, sabe? Ele pode roubar, eu posso despedaçar e, no final, ele pode se alimentar.

Nós quatro ficamos olhando para ele, totalmente pasmos. Por acaso ele havia dito...despedaçar?

O homem terminou de amarrar os braços de Hector à árvore da frente e chegou até mim. Assim que juntou as minhas mãos, ele tremeu da cabeça aos pés e se afastou.

- Você é um...Eu não posso matar você! – daí ele me soltou, parecendo aflito.

Fiquei tentado a perguntar "Por que não?", mas me contive porque aquilo poderia soar como um desafio para ele e eu não queria que ele mudasse de idéia a respeito de não me matar.

- O quê? – Hector falou, aparentemente expressando um pensamento em voz alta.

- Isso é algum tipo de armadilha? Eu não posso matar um filho de Hades! Minha punição seria duplamente pior se eu fizesse algo assim! – o homem ficava me encarando como se eu fosse um crocodilo gigante que podia arrancar o braço dele a qualquer momento.

- Tenho certeza de que sua punição vai piorar se você matar os amigos de um filho de Hades! – eu fiz uma tentativa.

- Não me venha com esses joguinhos, sua Fúria sem asas! Já matei centenas de semideuses e tenho bastante certeza de que alguns deles eram amigos de pessoas como você. Agora suma daqui!

- Eu não vou embora sem eles!

- E eu não vou abrir mão das minhas vítimas do dia!

- Vamos ver! – eu saquei Stygian rapidamente e o encurralei em uma árvore, com a espada em sua garganta.

E, ao invés de implorar por sua vida, ele começou a rir. Isso mesmo: ele ficou dando risadas malucas diante da sensação de ter uma lâmina no seu pescoço. Eu tentei não parecer tão estupefato e procurei manter a situação sobre controle, pressionando mais a lâmina. Ele parou de rir um pouco e olhou para mim como se estivesse com pena:

- Garoto...Você sabe quem eu sou? Eu sou Sínis, tá legal? Sou um torturador profissional! – ele gargalhou. – Só Teseu conseguiu me derrotar e garanto a você que não foi tarefa fácil. Então você acha mesmo que apontar uma espada para mim vai conseguir resolver o seu problema? – e aí Hector começou a gritar de dor.

Demorei um tempão para perceber o que estava acontecendo e me dei conta do seguinte: Sínis curvava duas árvores paralelas e amarrava os membros de suas vítimas em cada uma delas; daí ele soltava as árvores, elas voltavam a posição normal e...a vítima era esticada até ficar em pedaços. E era o que estava acontecendo com Hector. Sínis havia se encostado na árvore e estava cortando um pouco da corda que prendia uma das árvores.

- Pare com isso! – eu gritei.

Sínis puxou a corda e isso deixou Hector mais confortável. Ele estava todo vermelho e suado e ficou arfando por um bom tempo. Sínis deu uma risadinha quando viu que eu havia abaixado a minha espada.

- Sempre é mais divertido fazer isso com pessoas altas. Daí você tem aquela sensação plena de que a vítima está em pedaços.

Não sei quanto aos outros, mas aquela afirmação me deixou enjoado. Precisei caminhar um pouco para pensar no que fazer. Não ia ter como usar a força bruta para salvar os caras; mesmo que eu fosse rápido o bastante para libertar um deles, Sínis já teria acabado com Hector. De repente eu tive uma luz:

- Eu quero fazer um acordo com você. – eu disse.

- Um acordo, hein? Não consigo imaginar como é que eu vou sair ganhando nisso aí. Mas me diga, garoto, em que você pensou?

- O que você quer em troca da liberdade deles?

- Já vou avisando que não vai ser nada modesto.

- Eu sou cheio de recursos. – tentei soar confiante, mas aquilo era uma mentira tremenda.

- Bom, eu quero sair deste lugar; não quero mais dividir território com nenhum outro assassino. Mas também vou querer ir para algum lugar onde eu possa me divertir; não vale me mandar para um deserto ou algo parecido.

- Hã...Acho que dá para providenciar isso com o meu pai... – menti tão mal que John me olhou como se estivesse dizendo "Péssima estratégia!".

- E tem mais uma coisa: Caco roubou algo muito valioso de mim e eu quero ter isso de volta.

- E daí?

- E daí que eu quero o Caco morto para que eu possa entrar na caverna dele e recuperar o que perdi.

- Mas isso já são duas coisas! Eu só pedi uma! – protestei.

- Na verdade, foram três.

- Não é justo! O seu primeiro pedido já foi grande coisa e vale por um milhão!

- É pegar ou largar, garoto Fúria.

Eu podia dar um jeito no segundo pedido, mas no primeiro...Ia ser complicado. Meu pai não estava lá muito satisfeito comigo da última vez que nos falamos e eu tinha bastante certeza de que ele não ia acabar com a punição de Sínis só para que eu pudesse salvar os meus amigos. Até porque eu acho que esse tipo de decisão não depende só dele. Mas que outra opção eu tinha? Eu já estava prestes a aceitar a proposta quando John falou:

- Ei! Acho que tem uma alternativa que vai fazer todo mundo sair ganhando!

- É mesmo? – Sínis e eu nos empolgamos.

- Sim. Mas eu preciso saber de uma coisa, Sínis: existe algum objeto estranho nesse lugar? Algo que não pareça pertencer a esse lugar?

Sínis ficou bastante confuso com a pergunta e passou um tempão pensando, até que respondeu:

- Tem uma coisa esquisita na caverna do Caco. Ela brilha e é cheia de cores.

- É a nossa "porta"! – John se animou. – Olha só, Sínis, essa coisa esquisita pode levar você para outro lugar.

- Hum, tem certeza? – ele parecia desconfiado.

- Claro! Foi através disso que nós chegamos aqui!

- Então como é que vai ser? O garoto Fúria vai até lá e acaba com o Caco para nós podermos ter acesso à coisa esquisita?

- Isso mesmo. – disse John.

- Hum...Eu topo.

John, Sam e Hector comemoraram, mas eu ainda estava focado na parte de "o garoto Fúria vai até lá e acaba com o Caco". Não consegui celebrar junto porque o tal de Caco comia pessoas; ele era um canibal.

- Qual o problema, Fúria? Você vai amarelar? – Sínis caçoou de mim.

- É óbvio que não. Já estou indo. – peguei meu escudo e embainhei minha espada.

- Nico, tome muito cuidado porque... – John começou a falar, mas Sínis o interrompeu.

- Nico, tome muito cuidado porque eu não vou ficar esperando por você o resto da eternidade. Você tem duas horas antes de o seu amigo mais alto ficar em pedaços.

- O quê?! Vai ter um tempo?! – como se aquela tarefa já não fosse complicada o suficiente.

- Já comecei a contar, garoto Fúria! É melhor correr!

Eu saí correndo. Sínis ainda gritou:

- É bom que você saiba que Caco não tem medo das punições divinas! Ele vai matar você! – e explodiu em risadas.

O monte Aventino era cheio de cavernas. O tempo estava passando e eu não podia perder tempo olhando uma por uma. Experimentei ficar parado por alguns instantes, tentando ouvir algum barulho que me levasse até uma das cavernas, mas não captei nada. Na verdade, estava difícil me concentrar porque eu só pensava que Sínis poderia ficar cansado de segurar aquela corda e Hector poderia ser despedaçado antes de eu sequer encontrar Caco.

Daí eu fiquei andando ao redor do monte, devagar e tentando não fazer barulho para que eu pudesse pegar Caco de surpresa. Na entrada de uma grande caverna havia marcas no chão, como se algo tivesse sido arrastado para fora dali. Bom, o lugar só podia ser aquele. Eu me colei nas pedras e tomei cuidado com os meus passos até chegar na entrada. Fui pondo os olhos sorrateiramente na caverna, mas toda essa cautela não adiantou nada porque eu dei de cara com os olhos de um gigante!

- Procurando alguma coisa, rapaz? – ele não parecia se sentir ameaçado com a minha presença. Tudo bem, eu sei que ele era um gigante, mas ele nem ao menos se pôs em posição de ataque ou algo assim.

- Eu, hã... – e olhando bem, ele nem parecia um canibal; parecia completamente inocente. Baixei um pouco a minha guarda e saí de trás das pedras. – Estou procurando algumas coisas.

O gigante estava sentado na porta da caverna, com suas pernas praticamente bloqueando toda a entrada. Ele me olhou de cima a baixo e não disse nada. Eu continuei:

- Você não encontrou algo esquisito em alguma dessas cavernas? Tipo algo brilhante e colorido?

- Talvez. Eu tenho muitas coisas interessantes na minha caverna. Você pode entrar e procurar, se quiser.

Eu já tinha reparado total na caixa de biscoitos Oreo que ele estava devorando antes de eu chegar. E já tinha reparado, principalmente, nos ossos ensangüentados por toda parte no interior da caverna. Ele era o Caco. Mas parecia achar que eu não estava desconfiando de nada, então eu entrei no jogo dele e disse:

- É sério? Isso seria ótimo.

- Então pode entrar. Só me dê licença um segundo. – ele se levantou e eu tive que ir para trás para que ele não me pisoteasse. E ele se aproveitou disso para puxar uma rocha imensa que estava na lateral da caverna para a entrada, bloqueando completamente a passagem.

- EI! – eu gritei de raiva e comecei a esmurrar a rocha que nem um idiota.

Pude ouvir a risada de deboche dele do lado de dentro da caverna. E isso me deixou desesperado. O que eu ia fazer? Olhei para o relógio e eu tinha uma hora e vinte minutos para voltar para Sínis.

Contornei parte do monte e entrei em uma outra caverna. Talvez houvesse comunicação entre ela e a caverna do Caco. O lugar era um verdadeiro labirinto e eu estava perdendo muito tempo escolhendo caminhos errados e indo parar em becos sem saída. Não tive escolha: bati a lâmina da espada no escudo, provocando o maior barulho para que Caco se mexesse e me desse uma dica. Deu certo e eu ouvi uma espécie de ronco à minha direita. Logo eu podia ouvir os passos dele sob as rochas. E estava vindo bem rápido. Eu recuei um pouco e fiquei escondido até que ele passasse por mim. Caco passou ligeiro, farejando o ar em volta. Esperei ele se distanciar e segui os rastros dele pelas cavernas até chegar à sua.

O lugar parecia um depósito de lixo! Havia um monte de carcaças de vacas, galinhas e...pessoas. Também havia espadas, arcos, flechas, lanças, escudos, latas de sardinha, garrafas de água, latas de Coca-cola e pacotes de biscoitos Oreo. Bom, naquele momento eu tive a certeza absoluta de que foi ele quem roubou a nossa comida. Era muito difícil encontrar a tal coisa brilhante e colorida no meio de todo aquele lixo e eu precisava ser rápido não só porque o prazo de Sínis estava quase acabando, mas também porque Caco ia voltar para a caverna a qualquer minuto.

Quando me restava apenas meia hora para completar a tarefa, eu afastei uma pele de animal que havia por ali e encontrei uma TV de plasma embaixo.

- Valeu, deuses! – eu suspirei de alívio.

Acontece que minha alegria durou pouco. A TV mostrava um lago durante a noite e aquilo fazia a TV ficar parecendo um espelho e esse espelho mostrou que Caco estava logo atrás de mim! Consegui passar por baixo das pernas dele antes que ele me agarrasse. Mas aí ele começou a tentar me acertar com aquele monte de lixo e eu disse:

- Cara, vamos fazer um acordo! Que tal?

Ele gritou de fúria e fez algo que me fez entender sobre o que John tentou me alertar antes de eu partir: Caco vomitava fogo! Aquilo me surpreendeu tanto que eu não pude fazer outra coisa além de pôr o escudo na minha frente para me proteger. Coisa que não funcionou tão bem assim, porque o metal esquentou rapidamente e eu queimei o meu antebraço esquerdo inteiro. Sacudi o escudo para longe e corri tropeçando nos ossos.

Eu estava encurralado: a rocha gigante ainda estava bloqueando a entrada da caverna. Caco se aproximou, ainda cuspindo um pouco de fogo, e eu simplesmente peguei uma pedra grande e atirei na cabeça dele. Não serviu para fazê-lo desmaiar, mas ele ficou cambaleando e eu pude passar por ele e voltar para os fundos da caverna; pelo menos lá eu poderia ter acesso a algumas armas.

Ou não, porque quase tudo estava queimado ou partido ao meio. Caco correu até onde eu estava com mais raiva do que antes, e eu peguei a única coisa que estava inteira por ali: uma corda. Mas não pude usá-la porque Caco chegou até mim muito cedo, sem me dar tempo de pensar no que fazer. E aí eu fui obrigado a jogar outra pedra na cabeça dele. Essa pareceu afetá-lo mais do que a primeira, ele caiu sentado e ficou segurando a cabeça, totalmente atordoado.

Eu aproveitei a deixa, pulei nas costas dele, passei a corda pelo seu pescoço e apertei até ele cair, quase me esmagando.

Aquela foi por muito, muito pouco! Eu parei para respirar por um instante e daí me lembrei da hora: eu tinha menos de cinco minutos para voltar! Corri para o labirinto de cavernas e me perdi um pouco antes de encontrar uma saída. Antes de eu poder ver Sínis e os outros, eu escutei Hector gritar. Então gritei dali mesmo:

- EU CONSEGUI, EU CONSEGUI! Sínis, eu consegui! – desabei no chão aos pés de Sínis.

Ele riu, deliciado com a situação. Hector estava todo vermelho, não ia agüentar mais um minuto daquela tortura e Sínis não estava dando sinais de que ia interferir. Eu cortei a corda que prendia as pernas de Hector com a minha espada.

- Ah... – Sínis encarou Hector tentando recuperar as suas forças, com cara de desapontamento. – Você não tem senso de humor, garoto Fúria.

- Brincar com a vida dos meus amigos não tem graça! – eu saí cortando as cordas que prendiam John e Sam. – Caco está morto e eu encontrei a coisa que vai nos tirar daqui. Vamos embora.

Sínis foi na frente, todo animado. Nós três tivemos que ajudar Hector a caminhar até a caverna. Chegando lá, Sínis estava de pé, contemplando a areia que restou de Caco, satisfeito.

- Só espero que isso funcione. – John murmurou, se dirigindo para a TV.

- Ah, foi o que eu pensei! – Sínis nos empurrou para ver a TV de perto. – Eu sabia que isso aí tinha magia! Como é que funciona? – e aí ele começou a apertar todos os botões insistentemente.

- Não! Não! Pare com isso! – nós ficamos tentando afastá-lo, mas fomos sugados pela TV antes que pudéssemos escolher para onde queríamos ir.