E
u voltei para aquela Los Angeles em ruínas aos tropeços. Aparentemente o tempo não havia passado desde que eu saí: as cenas ainda eram as mesmas. Hannah me encarou cheia de ódio através da mensagem de Íris e Eve desfez a mensagem logo depois. Hector e Sam vieram até onde eu estava, com os olhares mais chocados que eu já vi.- Nico, você...como...por que você... – Hector perdeu alguns minutos tentando formular uma frase. – Foi você mesmo quem fez isso? – ele olhou para o corpo de Tobey.
Eu apenas assenti.
- O que vamos fazer com ele? – Sam perguntou. Ele nunca esteve tão sério e era estranho vê-lo agindo sem brincadeiras.
- Por enquanto acho melhor nós três voltarmos para a clareira. Vamos conversar com os outros e aí decidiremos o que fazer.
- Os outros? – minha voz estava rouca.
- É. Bem, nós recebemos reforços. Eles conseguiram segurar Raphael e recuperar o lençol negro. Mas Raphael conseguiu fugir. Por que nós não vamos...vamos andando. – Hector olhava nervosamente para o corpo de Tobey.
Ele jogou o lençol por cima de nós três e logo nós estávamos do lado de fora da casinha na clareira. Sentado em um dos banquinhos perto da fonte, estava um trio um tanto inusitado: Dione Stevens, Owen King e Barbara Keating. Eles não estavam muito melhores do que eu e Sam no quesito aparência; estavam esfarrapados e machucados, como se estivessem lutando há alguns dias.
Dione e Barbara vieram me abraçar. Era ótimo reencontrar Barbara, mas abraçar Dione foi meio estranho; da última vez que ela me viu eu estava dando uns amassos na Hannah. Owen me olhou vagamente, dizendo "E aí, Nico?". Achei que ele estivesse guardando ressentimento por causa da coisa toda com Hannah, mas olhei melhor e vi John sentado na fonte, de frente para ele. Esqueci um pouco dos meus problemas e me lembrei que Owen nem mesmo devia saber que John estava vivo. Tive a impressão de que a nossa chegada havia interrompido, pelo menos temporariamente, uma discussão; ainda havia aquela tensão no ar.
Felizmente Hector começou a contar o que tinha acontecido comigo e com Sam e John começou a fazer perguntas a nós dois e aí a tensão foi se dissipando aos poucos. Nós entramos na casa para comer alguma coisa e tomar um banho. Depois que tudo havia se acalmado um pouco, Barbara disse:
- A reunião vai ser daqui a uma hora e meia. Devemos ir andando?
- Que reunião? – eu perguntei.
- Eu te disse antes, Nico, que nós não éramos a única equipe tentando acabar com a organização da Maureen. Eles três – John apontou para Owen, Barbara e Dione. – são mais uma equipe e há muitas outras que virão se encontrar com a gente mais tarde.
- Todas as equipes empacaram em uma questão fundamental: onde fica a base da organização. – disse Dione. – Vamos nos reunir para coletar informações e bolar uma nova estratégia.
- Mas nós não tínhamos espiões? Nenhum deles foi até a base? – falei.
- Não até a principal. Maureen é bastante esperta: ela não permite acesso a uma informação como essa aos recém chegados. Apenas aqueles que estiveram com ela desde o começo podem freqüentar a base principal. – explicou Owen.
Eles ficaram conversando durante um tempão, mas só sobre a missão. Aproveitei que estavam distraídos e saí da casa sorrateiramente. Ninguém deu importância ao fato de Tobey estar morto; eu sabia que ele era um traidor, mas a questão era que eu estava me sentindo péssimo com relação àquilo. Me sentei no banquinho do lado de fora, fechei os olhos e encostei a cabeça na parede. Pouco tempo depois, ouvi passos sob as pedras e alguém se sentou ao meu lado.
- Só estão perdendo tempo lá dentro. – Dione reclamou. – Você está bem?
- Não. – eu não quis ser grosso nem nada; eu apenas disse a verdade.
- O negócio do Tobey Grant, não é?
- É...As pessoas acham que ser filho do deus da morte faz com que eu encare a morte com a maior tranqüilidade. Mas isso não tem nada a ver.
- Eu sei. Como foi que vocês chegaram a isso, afinal?
Foi engraçado o que aconteceu: eu me vi contando absolutamente tudo à Dione. Não é como se fôssemos estranhos, nós éramos amigos, mas não melhores amigos. E ela ouviu tudo com a maior atenção, sem me interromper nem uma vez. Eu terminei de falar me sentindo infinitamente melhor, como se antes eu estivesse carregando dez toneladas sobre os ombros.
- Meus deuses... – Dione parecia estar se afogando no meio de tantas revelações chocantes. – Quíron precisa saber que os aliados de Maureen têm mais acesso ao acampamento do que imaginamos. Estão todos em perigo lá dentro! Tobey pode ter implantado várias armadilhas e...
- Vou falar sobre isso na reunião mais tarde.
Fiquei em silêncio depois daquilo. Dione interpretou isso da maneira errada:
- Achei que desabafar fosse fazer você se sentir melhor.
- E fez. É só que...eu nunca matei uma pessoa. Na verdade, quando eu tive o sonho eu pensei "Sem chance. Não importa o que aconteça, eu jamais vou fazer isso.".
- Talvez você não imaginasse que as circunstâncias fossem tão sérias.
- Não importam as circunstâncias; esse simplesmente não é o tipo de coisa que eu faço. Estou achando que Maureen possa ter usado uma Dádiva para me obrigar a fazer isso e...
- Para com isso, Nico. – Dione me interrompeu. Olhei para ela, surpreso. – O que aconteceu não foi culpa de Maureen ou de qualquer outra pessoa. Você fez isso. Pode até ser que você tenha cometido um erro enorme, mas a culpa foi só sua. Você estava com raiva de Tobey e suas emoções controlaram suas ações. Isso acontece.
Dione se levantou e entrou na casa.
Eu não havia acreditado quando o Sr. Pope disse que a culpa era somente minha. Mas Dione praticamente esfregou a verdade na minha cara: ultimamente eu estava deixando as minhas emoções controlarem as minhas ações o tempo todo. Esse foi o meu mal. Mas eu não ia ter tempo para ficar me lamentando por aquilo. Uma verdadeira guerra estava a um passo de começar e eu precisava, pelo menos daquela vez, deixar as minhas emoções de lado.
Me senti meio revoltado em saber que havia pelo menos quarenta semideuses espalhados pelo país com o objetivo de parar Maureen, porque eu passei os últimos tempos perdendo o sono achando que se eu, John e os Madison falhássemos, não haveria mais salvação. Mas aí estávamos todos nos espremendo dentro de um bar minúsculo em Grand Forks, Dakota do Norte.
Não é que eu estivesse esperando uma reunião tranqüila, mas aqueles caras podiam ao menos ser civilizados! Tinha gente subindo em cima das cadeiras para ser ouvido ou então batendo a espada no escudo; também tinha um cara mais velho, que parecia ter quase trinta anos, que atirava copos de vidro na parede sempre que a bagunça estava demais.
- Como é possível que, depois de tanto tempo e de tanto investimento em espiões, ninguém tenha uma única pista de onde pode ser a base principal da organização?! – gritou o cara dos copos, um filho de Dioniso cujo nome era Bill. Ele tinha um pouco do temperamento do pai, mas era gente boa.
- Eu avisei a vocês, não avisei? Tudo precisa de um planejamento! Mas vocês não quiseram me ouvir e foram fazendo o que deu na telha! O resultado? Ficaram perdendo tempo e não se empenharam em localizar a base! – disse uma filha de Atena chamada Abigail.
- Ei, não é verdade! Todos tentaram localizar a base; o objetivo sempre foi esse! – alguém retrucou.
- Mas agora nós vamos precisar de um plano, certo? Chegou a hora de trabalharmos todos juntos! – uma outra filha de Atena declarou.
- Ok. Antes de tudo, precisamos de pelo menos duas equipes para procurar a base: uma vai trabalhar com os nossos espiões e a outra vai continuar testando as possibilidades. – disse Bill e todos pareceram concordar.
- Descoberta a base, nós vamos precisar de um exército tão poderoso que não dê nem chance para eles se defenderem! – foi um filho de Ares chamado Lionel que disse isso. – Os melhores guerreiros e as melhores armas! E, falando em arma, nós vamos ter a oportunidade de combater fogo contra fogo graças ao nosso amiguinho aqui. – ele bateu no ombro de Sam.
Algumas pessoas ainda não sabiam que Sam recebera uma Dádiva de Ares idêntica a de Raphael Young, então Lionel explicou.
- Mas isso é fantástico! Nossa maior preocupação era o general deles, o Young, e agora tem alguém que vai mantê-lo longe de nós! – todo mundo ficou aliviado ao saber de Sam e começaram a cantar vitória antes do tempo.
- Ei, pessoal, esperem um pouco: - Hector os cortou, parecendo preocupado. – Sam acabou de receber a Dádiva dele! Quem tem uma Dádiva aqui sabe que leva tempo para que ela possa funcionar perfeitamente, além de exigir muita prática. Depositar toda essa responsabilidade nos ombros dele é perigoso e pode pôr tudo a perder!
A maioria considerou o Hector disse; os filhos de Ares mandaram ele parar de ser tão estraga-prazeres.
- Bom, eu me responsabilizo pelo treinamento do Sam. – Lionel falou. – Não sabemos quanto tempo vai demorar até que a base seja descoberta, mas eu garanto que, até esse dia chegar, Sam vai ficar tão poderoso que vai fazer o imbecil do Young chorar pela mãe dele!
O pessoal ficou eufórico e Bill precisou atirar três copos na parede até que a ordem se restabelecesse.
- Ótimo! Agora eu quero que os outros candidatos ao ataque ponham o nome nessa lista aqui! – Bill passou um papel para a multidão. Dione, Hector e Barbara assinaram. Quando chegou a minha vez, Bill disse: - Hã...Acho que não, cara. – e tirou o papel das minhas mãos.
- Como assim?! Por que não? – fiquei indignado.
- Isso é bem óbvio, Nico. – disse John, e eu fiz cara de paisagem. Daí ele me puxou para um canto e explicou: - Percy e Thalia já foram capturados. O que você viu naquela mensagem de Íris só prova que Hannah está completamente desprotegida; é péssimo que isso seja verdade, mas ela provavelmente é a próxima. Não podemos arriscar que você também seja capturado. Acho que é só isso que falta para Maureen.
- Isso é a coisa mais ridícula que eu já ouvi! – me enfureci. – Vocês vão me deixar escondido com uma dezena de seguranças em volta? Esse é o grande plano?!
- Claro que não. Você vai junto com a equipe que vai procurar a base principal. Não é como se você fosse ficar de fora.
Isso me fez lembrar do último Capture a bandeira do qual participei no acampamento: Jenny Felton me colocou como protetor da bandeira e depois que eu fui o responsável por encontrar a bandeira dos adversários ela me pediu desculpas por não me dar uma função melhor.
- Estão cometendo um erro! Meus poderes voltaram com força total – tudo bem, segundo o Sr. Pope eles não estavam ainda cem por cento, mas, em comparação ao fiasco de alguns meses atrás, eu estava acima de quase todos os adversários possíveis. – e eu posso fazer a diferença na batalha!
- E é justamente para garantir que você possa participar da batalha final que nós precisamos que você não se arrisque em lutas menores! Poxa vida, Nico, você não pode estar em todas as batalhas que aparecerem! Os heróis que tentam fazer isso acabam morrendo antes da hora! – John me deixou, estressado.
Quando eu voltei para o meu lugar, o pessoal estava determinando quem seriam as equipes de busca: eu, John e Owen seríamos uma delas. Isso me deixou mais aborrecido do que eu já estava porque nunca existiu um grupo mais nada a ver do que aquele! Como se John e Owen já não fossem esquisitos separadamente, imagine esses dois trabalhando juntos! Era estranho enxergá-los como dois caras que já foram os melhores amigos, porque naquele momento tudo que eles faziam era brigar e acusar e dar indiretas e discutir como um casal de velhos. Como, meus deuses, eu iria agüentar a companhia daqueles dois por sabe-se lá quanto tempo?! Eu estava quase implorando para Hector desistir de participar do exército para me fazer companhia. Sério. Pelo menos ele era normal, do tipo que conversa sobre outras coisas que não têm necessariamente a ver com a missão; e com isso eu quero dizer "garotas".
Aquilo foi praticamente uma despedida. Já estava tudo devidamente planejado, com a benção de Abigail, e o pessoal já estava se preparando para ir embora quando um garoto veio correndo esbaforido da cozinha, pálido e com os olhos esbugalhados:
- Vocês precisam ver isso! Rápido! – e correu de volta para lá.
De alguma forma, eu meio que já sabia do que se tratava. Nada havia me dado um dica sutil do que poderia ser, mas desde a última mensagem de Íris eu estava com a sensação de que o meu dia seria longo e muito mais doloroso do que eu poderia imaginar.
Minha urgência de chegar até lá foi tanta que eu consegui ultrapassar aquele monte de gente que correu para a cozinha e ser um dos primeiros a o meu fôlego desapareceu quando eu pus os olhos naquela cena. Acho que eu só não desmaiei porque havia gente demais à minha volta me impedindo de desabar no chão. Eu poderia muito bem ter morrido naquele instante, mas até a morte pôde esperar diante do estado em que eu me encontrava. Aquela cena me fez acreditar que, como o Sr. Pope disse, eu não era movido pelo ódio. Porque eu estava sentindo sim um ódio imenso; inimaginável, até. Mas eu não me sentia mais forte. Muito pelo contrário: eu me sentia a menor e mais frágil das criaturas. Qualquer coisa estúpida, tipo chuvisco, podia me derrubar.
Havia uma mensagem de Íris no meio da cozinha mostrando duas garotas correndo desesperadas por entre as árvores de uma floresta. Era a floresta do acampamento e as garotas eram Hannah e Eve. Alguém ou alguma coisa as estava perseguindo; a mensagem não mostrava quem era. Hannah estava praticamente carregando Eve porque ela mal conseguia ficar de olhos abertos; com certeza por causa da mancha gigantesca de sangue que cobria quase toda a sua blusa e parte da calça. A própria Hannah estava com alguns machucados também. Em um certo ponto da corrida, Eve foi sugada pela terra. Parecia areia movediça, mas ela afundou rápido demais. Hannah gritou, caiu de joelhos e a segurou pelos braços impedindo que ela afundasse por completo.
- Mas o que é isso?! – Hannah tentava puxar Eve para fora, olhando ao redor cheia de medo.
- Hannah, corra! – disse Eve. – Eles não podem levar você daqui!
- Não! E-eu consigo! Eu vou tirar você daí! – a terra parecia se apertar mais em volta de Eve conforme o tempo ia passando. As tentativas de Hannah não estavam surtindo efeito e acho que ela sabia disso, porque tinha começado a chorar.
- Eles não querem nada comigo! Me deixe aqui e corra para avisar os outros!
Escutei pessoas correndo nas redondezas e Hannah deve tê-los visto. Isso fez com que ela considerasse o que Eve disse, e ela afrouxou um pouco o aperto nos braços de Eve. Imediatamente, a terra engoliu Eve quase que até o pescoço. Hannah a agarrou pelos ombros.
- Não vou deixar você aqui! Eu vou dar um jeito nisso! – ela começou a cavar furiosamente em volta de Eve, mas a terra sempre voltava para o mesmo lugar.
- HANNAH! – Eve gritou e encarou Hannah severamente. – Acredite, eu não dou mais valor à sua vida do que você dá. Mas isso tudo não é para proteger você; é para salvar a civilização da insanidade da Maureen! Se você quiser morrer, fique à vontade! Mas os seus amigos precisam que você fique viva para ajudá-los a acabar com esse mal! Então pare de ser egoísta e SAIA DAQUI AGORA!
Não sei se foi o discurso de Eve ou as flechas que aterrissaram a poucos centímetros de Hannah, mas ela saiu correndo sem contestar mais. Hannah acabou sendo obrigada a reduzir a velocidade em um trecho da floresta que era cheio de pedras e arbustos com espinhos. Seja lá quem estava atrás dela, não reduziu a velocidade e ela teve que correr, escorregando nas pedras e se ferindo nos espinhos. Não demorou muito e ela caiu ao tropeçar em uma pedra. Hannah até tentou se levantar, mas o inimigo já estava a cinco passos dela; eu podia ver parte da roupa de um cara, mas seu rosto permanecia oculto. Ela não tinha arma nenhuma; ele havia tomado posse de sua espada. Não sei se ela estava se rendendo ou não, mas ela suspirou e disse apenas:
- Eu confiei em você!
O cara deu risada e estava prestes a avançar na direção de Hannah, mas algo dourado e brilhante surgiu atrás dela e a sugou para dentro em uma fração de segundo. Ele deu um grito de frustração e jogou a espada no chão. Foi aí que a mensagem se desfez.
Todos aqueles semideuses barulhentos ficaram mudos por uns minutos. Ninguém nem mesmo moveu os olhos do lugar onde a mensagem de Íris esteve. Até que alguém falou:
- Aquela não era a garota filha de Hera?
E a confusão começou:
- O que foi aquilo que desapareceu com ela?
- Será que foi uma das Dádivas que Maureen roubou? Quem está com a relação dos itens roubados?
- Alguém mande logo uma mensagem para Quíron no acampamento! Duas campistas foram atacadas e correm risco de vida!
- Alguém sabe quem as atacou? Devia ser um dos espiões no acampamento! Quero informações sobre os amigos mais próximos da filha de Hera!
Daí vieram até mim me perguntando se eu tinha alguma idéia do que tinha acabado de acontecer e se eu podia dar algumas informações. Eu disse a eles para perguntarem ao Hector e saí do bar em busca de um ar fresco milagroso que pudesse desfazer aquele nó gigantesco na minha garganta e me dar forças para prosseguir com aquela missão.
