D
ois meses se passaram. E ouso dizer que foram dois dos mais dolorosos da minha vida. Eu só me lembrava de ter me sentido tão infeliz e perdido assim quando Bianca morreu. Mas, ao mesmo tempo, eu me sentia dormente, como se não fosse capaz de ter nenhum sentimento, como se eu estivesse apenas assistindo enquanto a vida corria diante dos meus olhos. Nada me tirava da cabeça a idéia de que foi a minha falta de controle sobre os meus sentimentos que colocou os meus amigos e a mim mesmo naquela situação: alguns desaparecidos e outros simplesmente separados.Poucos dias depois de ter visto Eve e Hannah desaparecerem diante dos meus olhos, eu mandei uma mensagem de Íris para o acampamento para falar com Quíron. Ele não tinha só más notícias, mas, mesmo aquela que supostamente deveria ser a boa, me deixou angustiado. Quíron disse que não tinha notícias de Eve, mas seus irmãos estavam procurando por ela, incansavelmente. Logo após o ataque, todos os espiões deixaram o acampamento, até porque os túneis já haviam sido completamente descobertos. Daí ele me disse a coisa mais repulsiva e inacreditável de todas: foi Allan Morgan, filho de Afrodite e melhor amigo de Hannah, quem a atacou; ele era um espião. Se eu não tivesse problemas mais sérios com que lidar, eu teria pegado a minha espada e teria ido caçar Allan até em outro planeta se fosse preciso, mas Quíron ainda não tinha dito nada sobre Hannah e o fato de ele ter deixado essa parte para depois me deixou preocupado. Ele falou, tentando se mostrar tranqüilo, mas eu sabia que aquilo o estava aborrecendo:
- Hannah foi levada para um lugar seguro.
- Que lugar?
- Não posso dizer, Nico. Isso colocaria o segredo em risco.
- Tudo bem. Mas quem a levou? E como? Tudo que eu vi foi uma luz muito forte atrás dela.
- Não vamos mais falar sobre isso. Mas não precisa ficar preocupado. Eu garanto que ela está cem por cento segura.
Até tentei discutir com ele, mas Quíron estava irredutível e parecia meio acabado com toda a agitação dos dias anteriores.
Enquanto estavam fazendo os preparativos para a nossa viagem, eu passava os dias inteiros tentando imaginar o que poderia ter acontecido com Eve. Ela já estava praticamente incapacitada no dia do ataque; eu não via motivos para que os asseclas de Maureen tivessem feito com que a terra a engolisse de alguma maneira. Mas, se não foi uma maldade de Maureen, o que mais poderia ser? Na quarta noite depois do ocorrido, eu tive um sonho. Não foi nada claro e muito menos lógico, mas mostrava Eve em diversas situações. Primeiro se arrastando com dificuldade para fora de um rio; depois tremendo deitada em um jardim e logo em seguida presa pelos pulsos em um muro cheio de hera. E esse foi só o primeiro sonho. Quase todas as noites eu sonhava com Eve sofrendo de alguma forma. Outras vezes ela aparecia lutando contra um exército que ela derrotava com facilidade ou contra um único adversário bastante difícil, mas o sonho nunca era nítido, então eu não sabia dizer exatamente com quem ela estava lutando.
Hector e eu nos encontrávamos nas batalhas de vez em quando. Eu, John e Owen encontrávamos uma base e chamávamos uma ou mais equipes de ataque para acabar com o lugar. Quando estava tudo feito, nós conversávamos um pouco. Ele parecia muito satisfeito com a função dele, mas tentava não demonstrar isso para que eu não ficasse chateado. Também era legal da parte dele me distrair com outros assuntos e não falar sobre Hannah ou o incidente com o Tobey. Uma equipe foi enviada para o lugar em que ele morreu para recolher o corpo dele e enviar para a família. Eu imaginava que Maureen já teria se adiantado nesse aspecto, apesar de achar que seria atípico se ela fosse fazer a mesma gentileza que nós. Mas acontece que ela ou alguns de seus aliados chegaram lá antes de nós e levaram apenas uma coisa: a última flecha especial que Tobey ganhara de seu pai. O corpo foi enviado para o acampamento para que ele fosse tratado como qualquer outro campista, apesar de ser um traidor. Quíron ficou encarregado de dar a notícia à mãe de Tobey. Não sei como foi o funeral; nunca quis saber. Mas, mais tarde, no mesmo dia em que foram buscar o corpo de Tobey, Maureen mandou uma mensagem de Íris para mim. Aquilo foi tão inesperado que eu nem mesmo reagi, só fiquei encarando ela e os asseclas que estavam a sua volta, com cara de idiota. Maureen não falou nada também. Só me mostrou a lâmina de sua espada, onde estava gravado o nome de Tobey com letras bem grandes, e depois pegou a flecha especial dele e riscou o nome, fazendo com que a lâmina se desintegrasse imediatamente. E aí ela e os seus amigos se acabaram em risadas e apagaram a mensagem. Eu conhecia a opinião de Maureen a respeito de agentes duplos como o Tobey, mas aquela frieza e crueldade diante de morte dele eram demais até para ela.
Ao contrário de Hector, que estava se dando muito bem com os seus novos colegas de equipe, eu estava a ponto de matar John e Owen. Era de se pensar que dois meses fariam com que eles pelo menos parassem de discutir e simplesmente se ignorassem, como a maioria das pessoas que se detestam faz. Mas não; tudo era motivo para eles começarem a lavar roupa suja! Iríamos comer pizza ou hambúrguer no jantar? Briga. Viajaríamos de trem ou de ônibus? Briga. Iríamos para o Alabama ou para Oregon? Briga. E o pior de tudo era que a briga era sempre a mesma: John acusava Owen de ter agravado a situação por não ter dado ouvidos a ele antes e não ter mobilizado o acampamento para cortar o mal pela raiz; Owen acusava John de ter se acovardado e se escondido esperando que alguém resolvesse um problema que ele ajudou a criar. No começo eu tentava ajudar e expressava minha opinião e dizia que cada um fez o que podia para consertar as coisas, mesmo que fosse um pouco mais tarde. Eu lembrava a eles que não era o momento para eles estarem em guerra porque uma guerra maior estava por vir e nós precisaríamos estar unidos e confiar uns nos outros. Mas eles nunca me ouviam. Acho que tudo que eles queriam era brigar, só para extravasar as frustrações que ficaram guardadas todos aqueles meses em que eles estiveram separados. O negócio é que eu parei de tentar ajudar e passei a me retirar do recinto sempre que um deles dava um soco na mesa e se levantava para começar a acusar o outro. Às vezes a briga era tão séria que eu cheguei a pensar que eles iam ficar agindo feito criancinhas chegando até mim e dizendo: "Diga a ele que..." e daí o outro, que estaria bem do meu lado, ia falar: "Ele disse alguma coisa? Então diga a ele que...".
Mas, pelo menos na hora de trabalhar de verdade, eles se comportavam direito. John sabia a localização de muitas pequenas bases e nos levava até elas para que tentássemos descobrir algumas informações sobre a principal. O ideal era que investigássemos no fim da tarde quando o pessoal ia jantar e os guardas estavam trocando de lugar e as coisas ficavam relativamente abandonadas; assim evitaríamos lutas desnecessárias e um aumento na segurança das outras bases. Em geral, não estávamos progredindo muito. Conseguimos informações sobre muitas das Dádivas que Maureen possuía e o que estava fazendo com algumas delas; descobrimos que, assim como nós, ela está recrutando os melhores guerreiros para compor um exército; e descobrimos, da pior forma possível, que ela já havia mandado semideuses para me capturar.
Aconteceu durante uma invasão meio desastrada em uma base no interior de Vermont. John e Owen não haviam entrado em acordo sobre como iríamos entrar naquela mansão abandonada que Maureen estava usando como base. Nós acabamos nos separando e isso só chamou mais atenção, de modo que fomos encurralados e o pessoal de lá olhou para mim e começou a gritar coisas do tipo "É o filho de Hades! Peguem ele! Maureen disse que vai promover quem conseguir capturá-lo!". Só conseguimos nos livrar deles porque Owen previu que a invasão daria errado e chamou logo uma equipe de ataque.
Por isso eu sofri algumas perseguições durante todo esse tempo. O que era lógico porque, se de acordo com Quíron, Hannah estava muito bem escondida e segura, então Maureen devia estar desesperada para me capturar na esperança de que eu soubesse alguma coisa sobre a localização de Hannah. Isso me deixava bastante esperançoso porque significava que estávamos atrasando os planos de Maureen. John não estava muito feliz com isso. Na verdade, ele ficava mais nervoso a cada dia porque nós ainda não tínhamos nem idéia de onde ficava a base principal e isso significava que também estávamos com os planos atrasados. Ele disse que estava mais fácil Maureen me capturar do que nós identificarmos a base, já que ele quase não tinha mais idéias de onde procurar.
Completei dezessete anos nesse meio tempo. Nunca tive uma festa de aniversário em toda a minha vida e naquele ano não foi diferente, principalmente devido às circunstâncias. Owen e John não sabiam da data e eu não ia interromper a briga matinal deles para comentar isso. No mesmo dia íamos invadir uma base em Springfield, Ohio. Ela ocupava todo o subterrâneo de um parque de skate da cidade e era enorme e estava cheia de soldados e armas; dificilmente nós três iríamos conseguir alguma coisa sozinhos, então convocamos algumas equipes para nos ajudar. Hector, Dione, Barbara e suas equipes vieram. Fizemos nosso trabalho, que tomou boa parte da noite, e depois de Dione ter anunciado aos quatro cantos do mundo que era meu aniversário, todo mundo me arrastou para uma lanchonete para a gente pelo menos comer um pedaço de bolo.
Hector também lembrou da data e me de um escudo novo de presente; um bom de verdade, e não aqueles que se destruíam se alguém desse uma única pancada neles. Acabou sendo o aniversário mais bacana que eu já tive: sentado em uma lanchonete com os meus amigos comendo hambúrguer e bolo e conversando e rindo como qualquer adolescente faria. Tentei de verdade manter os meus pensamentos longe dos problemas, pelo menos naquela noite, mas acabei pensando em como seria perfeito se Hannah e Eve estivessem ali também. Aquilo ficou martelando na minha cabeça e eu pedi licença e fui para o parquinho vazio do lado de fora. Me sentei em um banco e Dione apareceu pouco tempo depois.
- Você está bem? – ela perguntou, sentando-se ao meu lado.
- Mais ou menos... – desde o dia em que nos reencontramos e Dione conversou um pouco comigo sobre Tobey, nós vínhamos nos falando com uma certa freqüência; assim como Hector, ela também me mandava mensagens de Íris de vez em quando. – É só que eu nunca comemorei um aniversário antes e está sendo legal, mas...Queria que Eve estivesse aqui também.
- Eu já imaginava que você fosse dizer isso. Também sinto muito a falta dela; é uma das irmãs que eu mais gosto.
- Eu sei. E ela é a minha melhor amiga.
- Não desistiram de procurar por ela, Nico, mas é que já se passou tanto tempo que...Bem, têm mais gente desaparecendo também.
- E morrendo. – completei.
- Claro.
Ficamos em silêncio por um tempo e depois ela voltou a falar:
- Mas é só isso que está te incomodando mesmo?
- Principalmente. Mas também fico preocupado com o andamento da missão. Não estamos conseguindo muita coisa, você sabe.
- Sei. Mas eu estava querendo saber se você não está sentindo falta de outra pessoa hoje...
Eu sabia muito bem o que ela queria dizer com "outra pessoa": Hannah. É claro que eu sentia falta de Hannah! Mas eu não me sentia à vontade para falar sobre aquilo com Dione. Quero dizer, até aquele dia ela nunca havia tocado no assunto, então eu simplesmente concluí que esse não era o tipo de conversa que eu poderia ter com ela.
- Eu nunca entendi bem o que rolava entre vocês. – ela prosseguiu.
- Pra falar a verdade, nem eu. Durou pouco tempo.
- Ouvi dizer que você sempre teve uma queda por ela.
- Quem disse isso?! – o nome de Eve começou a piscar na minha mente.
Dione deu risada.
- Calma! Foram só uns filhos de Hefesto; os amigos do Tobey.
Ah, claro que sim.
- O problema é que eu não acho que ela sinta o mesmo.
- Caramba, Nico, eu vi vocês dois na fogueira naquele dia! Se aquilo não é gostar, eu não faço idéia do que possa ser.
- Não sei, Dione... Eu contei a você o que aconteceu entre ela e o Tobey antes de ele morrer. Isso me deixou muito confuso.
- O beijo? Isso não significa necessariamente que ela ainda gosta dele.
- Não? – aquilo me pareceu absurdo.
- A situação era complicada. Acho que ela ficou confusa. Ela deve ter entendido que o Tobey corria risco de vida e isso mexe com qualquer pessoa, não é? A única maneira de saber a verdade absoluta é perguntando a ela.
- Mas esse não é o único problema. Ela me viu assassinando Tobey. E isto não é imaginação minha: ela deve estar me odiando agora. Seja lá o que havia entre nós, vai ser difícil recuperar.
Dione ficou refletindo em silêncio por alguns instantes e disse:
- A vida é completamente imprevisível. Por mais que a gente tenha certeza de algo, pode ser que isso mude.
- Sábias palavras.
- É uma verdade. Você devia experimentar.
- Experimentar? Como assim?
- Dando oportunidade para as coisas mudarem. – ela se aproximou mais de mim e olhou nos meus olhos. – Se vai dar certo, se vai dar errado...Só tem um jeito de saber.
Eu sempre imaginei como seria tudo mais simples se eu ficasse com Dione. Para começar, porque ela não tinha nenhum complicado relacionamento passado (bom, teve aquele filho de Nêmesis, mas não foi tão sério assim); e depois porque ela era cheia de qualidades: era bonita, inteligente, corajosa, sincera e mais um monte de coisas. Às vezes eu me perguntava o que teria acontecido se eu nunca tivesse beijado Hannah. Tobey podia não ter escolhido Maureen e talvez fosse infinitamente mais fácil combatê-la. As coisas podiam estar em paz há muito tempo. E parecia que, quanto mais tempo eu passava envolvido de alguma forma com Hannah, as coisas só pioravam. Será que eu estava errado? Será que Hannah e eu não devíamos ficar juntos? Será que foi o nosso relacionamento, fosse de amor ou só amizade, que causou toda essa catástrofe? Aquelas idéias estavam me perturbando há algumas semanas e, apesar de não estar totalmente confortável com aquilo, eu precisava dar uma chance à Dione. A verdade era que eu não tinha motivo para dizer não. Antes eu podia dizer que estava apaixonado por Hannah, mas, e naquele momento? Então eu disse:
- Tem razão. – e nós nos beijamos.
O beijo foi ótimo. Tecnicamente. Quero dizer, eu estava com medo de ser uma porcaria porque eu não estava realmente com aquela vontade louca de beijá-la, mas deu tudo certo. Como eu disse, a "técnica" foi perfeita, mas faltava aquilo que eu sempre sentia quando beijava Hannah: uma sensação calorosa por dentro e o fato de um simples toque dela fazer com que eu me sentisse melhor. Por piores que as coisas estivessem entre nós e por mais que eu achasse que a gente não tinha futuro, eu não podia ignorar aquele sentimento inominado que estava vivo e forte dentro de mim. Talvez um dia eu conseguisse superar isso, mas, por hora, eu não podia ficar com Dione.
Ela se afastou de mim, disse "Feliz aniversário, Nico" e voltou para a lanchonete. Eu preferi ficar ali sozinho durante mais um tempo porque eu tinha mesmo muito em que pensar. Acabei não precisando encarar Dione depois do beijo, porque John e Owen vieram me chamar enquanto eu ainda estava no parque, dizendo que receberam um alerta de uma base cheia de prisioneiros em Nova Jersey e tudo levava a crer que era onde Percy e Thalia estavam sendo mantidos. Nós partimos imediatamente.
No final das contas, conseguimos libertar alguns prisioneiros e recuperar algumas de suas Dádivas em uma ação que nos tomou quase o dia inteiro. A base era uma mansão abandonada e estava tão bem protegida que eu tinha quase certeza de que era a que estávamos procurando. Mas Percy e Thalia não estavam lá e também não havia nenhuma pista da base principal.
John teve um ataque depois de revirar o lugar inteiro em busca de informações. Eu não podia condená-lo por ter começado a destruir os murais, os computadores e o resto das coisas porque eu sabia exatamente como ele estava se sentindo: como se Maureen estivesse brincando com todos nós e cada invasão a fizesse ter crises de riso. Nem mesmo Owen interferiu para dizer que ele estava destruindo materiais que podiam ser úteis para nós de alguma maneira. Nós dois só esperamos em silêncio até ele se acalmar um pouco. Chegou um momento em que ele deslizou pela parede até se sentar no chão e escondeu o rosto nas mãos. Eu sabia que ele não estava chorando, mas foi só nesse momento que eu me dei conta do quanto John era forte: era a primeira vez, desde que eu o havia conhecido, que eu o via tão abatido e olha que a gente já passou por um monte de coisas.
Owen também devia estar derrotado, porque se sentou ao lado de John, deu uns tapinhas nas costas dele e começou a dizer "Cara, nós vamos dar um jeito nisso. Não estamos sozinhos e nosso pessoal supera o pessoal de Maureen fácil. Você é tão esperto quanto a Maureen. Simplesmente há algo que nós ainda não estamos vendo.". Daí eles começaram a conversar sem brigar pela primeira vez desde que se reencontraram e eu achei melhor deixá-los sozinhos e fui para as escadas na varanda da mansão.
Eu nunca estive tão disperso em uma ação como estive naquela. Ainda bem que os guardas não eram lá essas coisas porque qualquer adversário um pouco mais habilidoso poderia ter tomado conta da situação. O meu problema? Eu não conseguia parar de pensar em Hannah e Dione; de formas distintas, é claro. Eu não tinha certeza do que estava sentindo: eu era louco por Hannah, mas ela provavelmente nunca mais ia olhar na minha cara; e Dione era uma garota incrível que gostava de mim, mas eu sabia que não sentia o mesmo por ela. Eu ficava me perguntando se devia me esforçar mais para esquecer Hannah; talvez eu devesse dar mais chances para Dione quando as coisas se resolvessem. Algo ficou mais pesado no meu bolso enquanto eu estava ali. Tirei de lá o medalhão que o Sr. Pope havia me dado.
Desde que o ganhei, eu nunca tive tempo para tentar fazê-lo funcionar. Na verdade, eu havia me esquecido dele. Mas aí eu me lembrei que o pai de Hannah havia dito que ele me daria as provas que eu precisasse. Eu não sabia se era exatamente de provas que eu estava precisando naquele momento, mas qualquer tipo de orientação já estava servindo. Achei que precisaria forçar a abertura do medalhão, mas consegui abri-lo sem o menor esforço.
Inicialmente não havia nada lá dentro, mas uma névoa negra começou a ondular e logo eu estava vendo uma rua mal iluminada durante uma noite de céu limpo. Uma mulher usando um vestido branco caminhava apressadamente carregando uma trouxinha branca nos braços. Ela parou na porta de vidro de uma lavanderia e esperou. Pouco tempo depois, um cara de uns vinte anos abriu a porta:
- Onde você esteve?! – ele parecia aliviado, porém um tanto aborrecido.
- Eu já expliquei tudo a você, Eric. Nós precisamos conversar. Você vai me deixar entrar ou não? – a mulher era muito bonita. Tinha pele cor de creme e longos cabelos castanhos, com olhos da mesma cor.
- Meus pais vão chegar logo. – ele não parecia tão disposto assim a dispensá-la, mas acho que queria se fazer de durão.
- Vai dar tempo. – ela entrou sem esperar a permissão dele.
Ele a seguiu pela casa e se sentou na poltrona, enquanto ela se sentou graciosamente no sofá. Ele apertava discretamente os braços da poltrona, nervoso, sem tirar os olhos dela. Ela começou a abrir o seu embrulho, sem olhar para Eric.
- Sinto muito se eu lhe trouxe problemas, Eric. – a mulher encarava a trouxinha, parecendo um pouco triste. – Nunca tive a intenção de complicar a sua vida, mas confesso que eu não pensei nas conseqüências. Estava muito aborrecida com o meu marido e...você fez com que eu me sentisse muito bem. Homens como você são muito raros.
Eric ficou muito vermelho depois de ouvir isso.
- Você não me trouxe problemas. – ele fez questão de esclarecer logo. – Eu não me importo com o que a minha família pensa. Eu quero ficar com você, Hera! – ele foi para o sofá e pegou a mão dela.
Ela olhou para ele, tristemente.
- Não é tão simples assim. – ela acariciou o rosto dele. – Você vai ter que seguir com a sua vida e...
- E esquecer você? É isso? – ele ficou indignado.
- Bem, isso não vai ser possível. Por mais que ela se pareça com você... – Hera tirou um bebê das cobertas brancas e o entregou a Eric – ela tem os meus olhos.
- O quê?! – ele quase derrubou o bebê de tanto susto. – Como é possível que...ela é minha filha? – sua voz praticamente desapareceu.
- Sim. Nossa filha.
Eric ergueu um pouco o bebê que estava despertando de um cochilo; o bebê esfregou os olhos desajeitadamente e os abriu um pouco. Quando encarou aqueles olhos escuros pela primeira vez, Eric não conseguiu mais parar de olhar para a filha.
- Ela é linda! – ele sorriu, completamente bobo.
- Vou deixar você escolher o nome dela.
- É sério? Eu...eu não sei. Talvez Grace. Ou Hope. Ou Emily, como a minha mãe. Ou então...Hannah. Hannah é um nome bonito, não é?
- Hannah... – Hera considerou a idéia. – É mesmo um belo nome.
- Então será Hannah. – ele a abraçou com cuidado e beijou sua cabeça. Depois pareceu se lembrar de algo muito importante. – Hera, eu não tenho coisas de bebê aqui. E eu realmente não sei cuidar de um bebê! Não sei como os meus pais vão reagir e se eles vão me ajudar a criá-la ou não e...
- Não precisa se preocupar com nada disso. – Hera estalou os dedos. – Acabei de colocar tudo o que você vai precisar em um dos quartos lá de cima e aqui está o número da conta da poupança dela. – ela entregou um pedaço de papel a ele.
- Poupança? – ele a encarou, estupefato.
- Sim. É o suficiente para pagar uma boa escola, a faculdade de primeira linha, as roupas e tudo mais que ela quiser.
Eric se esparramou no sofá como se todas aquelas informações o estivessem deixando tonto. Hera deu uma risada tranqüila e beijou o rosto dele.
- Você será um pai maravilhoso! Lembre-se que a paternidade é, acima de tudo, amor e dedicação. E isso você tem de sobra. Mas...eu preciso que você saiba o quanto Hannah é especial. Ela não será uma criança como as outras; ela vai correr perigos.
- Que tipo de perigos?
- Monstros. Eles perseguem meio-sangues.
- Meio-sangues?
- Ou semideuses. Ela precisará de treinamento. Existe um acampamento em Long Island para pessoas como ela. Você deve mandá-la para lá.
- Treinamento? Você quer dizer que ela vai precisar...lutar?
- A profecia diz que ela é muito poderosa. No acampamento ela vai poder desenvolver os seus poderes.
- Profecia? Poderes? Eu não entendo nada do que você está dizendo!
- Lamento. Os mortais não podem saber muito. Mas temos a obrigação de contar a vocês a respeito do acampamento.
- Não quero minha filha metida em lutas. Ela não vai para o acampamento. – Eric envolveu Hannah como se quisesse protegê-la de Hera.
- Eric... – Hera estava prestes a começar a discutir, mas mudou de idéia. – Você vai compreender depois. Por enquanto, apenas faça o melhor por ela. – ela se levantou para ir embora.
- Quando você vai voltar?
- Não posso voltar.
- Então Hannah vai crescer sem conhecer a mãe?! O que eu vou dizer a ela?!
- Quando ela tiver idade para compreender e guardar segredo, diga a verdade. – ela pegou Hannah dos braços de Eric e beijou sua testa carinhosamente. – Adeus, Hannah. Eu vou estar sempre olhando por você. – ela a devolveu, e quando Eric desviou o olhar por uma fração de segundo só para ajeitar a manta que a envolvia, Hera desapareceu.
A névoa ondulou novamente e estava quase sumindo quando uma voz atrás de mim exclamou:
- O que é isso aí, Nico?! – John me olhava, perplexo. Owen também. Os dois estavam debruçados sobre a cerca da varanda.
- Hã...
- Deixa eu ver! – antes que eu pudesse responder, John praticamente voou até as escadas e arrancou o medalhão da minha mão. – Onde conseguiu isso?
- Bem, eu...
- Isso não foi uma mensagem de Íris, foi uma memória. – disse Owen, também já sentado ao meu lado. – Eu sei o que é isso: é um medalhão do rio Estige! Seu pai deu a você ou algo assim?
- Na verdade, eu...
- Isso não importa. – John cortou. – Você ouviu o que Hera disse, Owen? Hannah é a semideusa da profecia! – ele se iluminou.
- Não, não pode ser... – apesar disso, Owen não parecia duvidar muito. Ele estava rindo nervosamente. – Isso é muito surreal! Ela nunca manifestou nenhum poder.
- Ela ainda não teve a oportunidade, mas tudo aconteceu conforme a profecia.
- Como?
- Veja isso. – John pegou minha mão e mostrou ao Owen. Tanto eu quanto ele fizemos cara de confusos, porque eu não via nada de estranho na minha mão.
- Não vejo nada. – disse Owen.
- Exatamente! O anel dele, aquele que deveria ajudá-lo a controlar os poderes! O que aconteceu com ele, Nico?
- Eu meio que...- hesitei porque não sabia se aquilo seria a nossa salvação ou a nossa ruína. - deixei Hannah ficar com ele.
- Eu sabia! – John comemorou. – Eu tinha visto no dedo de Hannah no dia em que ela desapareceu, mas não liguei os pontos. Agora tudo se explica!
- Caramba! Era Hannah o tempo todo! Quem poderia imaginar? – Owen também estava celebrando.
Antes eu achava que era ruim ter John e Owen brigando o tempo inteiro. Mas eles eram infinitamente mais irritantes como amigos! O negócio é que eles ficavam conversando entre si e me deixavam totalmente por fora.
- Ei! Eu quero saber o que está acontecendo! Será que dá para vocês me explicarem?! – me enfureci.
- Ah. Nico. – John interrompeu sua conversa inteligente com Owen e olhou para mim como se nem tivesse percebido que eu estava ali o tempo todo. – Desculpa. É que isso é ótimo mesmo, eu me empolguei demais.
- Certo. Me explica para eu poder ficar empolgado também. – minha paciência estava no limite.
- Aconteceu há alguns anos atrás. Nenhum de nós havia chegado ao acampamento ainda. Mas já existia uma profecia que dizia mais ou menos isso:
"Os arquitetos do poder se erguerão
A soberania do ocidente ficará ameaçada
Os deuses serão afrontados por seus próprios frutos
Porém um desses frutos, filho da traição, receberá o poder para enfrentar o mal
E cabe a esse fruto garantir a força do Olimpo"
Eu pensei um pouco e depois me dei conta de que:
- Isso faz sentido.
- Agora faz. Veja: os arquitetos do poder são Maureen e seus aliados, até eu já fui um deles; os deuses e toda a civilização ocidental estão sendo ameaçados por seus frutos: os semideuses e as Dádivas; Hera traiu Zeus quando se envolveu com o pai de Hannah, então ela é filha de uma traição; e você deu a ela o poder para combater Maureen. – John explicou.
- Só tem uma coisa: eu não acho que aquele anel vá deixar Hannah forte o bastante para derrotar Maureen, seu exército e suas Dádivas. Quero dizer, eu sempre achei que aquele anel era só simbólico; ele não me ajudou em nada nas batalhas, pelo menos não nas mais recentes.
- Talvez a função dele seja apenas de ajudar o herói a controlar suas habilidades no começo. Depois ele não faz mais diferença. – Owen chutou.
- Pode ser. Mas tudo vai mudar a partir de agora. – disse John.
- Como assim?
- Hannah não é só mais uma vítima, ela não pode mais ficar escondida. Segundo a profecia, é ela quem vai derrotar Maureen, então nós precisamos...
- Ok. Eu já sei qual é o seu plano. – fiquei uma pilha de nervos imediatamente. – Mas tem um grande problema: ela foi levada para algum lugar super secreto e nós já estamos tendo problemas o suficiente para encontrar a base de Maureen. Nós não podemos deixar isso de lado para tentar descobrir onde Hannah está.
- Hum, não era isso que eu ia propor. – John detestava quando alguém interrompia a exposição do plano dele. – Até porque eu já sei onde Hannah está.
- Você sabe?! Quíron contou a você?! – me senti traído.
- Não, ele não me contou. Mas, agora que a profecia foi desvendada, eu confirmei a minha suspeita e só existe um lugar onde Hannah possa estar em segurança e sendo treinada.
- Onde?
- Eu vou explicar tudo enquanto você arruma suas coisas, Nico. – John me ajudou a levantar e foi me empurrando para dentro da mansão abandonada.
- Arrumar as minhas coisas? Por que?
- Porque está na hora de ir buscar Hannah.
