E
u estava a ponto de ter um colapso nervoso no elevador. Ele costumava ser bem rápido, mas naquele dia tudo parecia estar se arrastando. Inventei mil desculpas para John me liberar daquela tarefa; disse que ele saberia explicar a situação muito melhor do que eu, mas ele disse que iria convocar uma reunião de emergência com os nossos aliados e precisaria estar presente para explicar tudo para eles. Depois eu perguntei se poderia levar o Hector comigo; ele respondeu que não, porque teria que ser uma ação discretíssima e quanto menos pessoas envolvidas, melhor. Tinha que ser uma ação tão discreta que ele nem me deixou usar uma biga voadora. Nós alugamos um carro e ele me mandou dirigir até lá. A coisa mais absurda era onde ficava "lá": em Nova York. Mais precisamente? No Empire State Building. Hannah estava no monte Olimpo!Não tive problemas no caminho de Nova Jersey até Nova York, exceto pelo trânsito do fim do dia. Convencer o recepcionista do Empire State Building a me deixar subir também não foi tão difícil: primeiro ele me garantiu que não existia sexcentésimo andar, daí eu comecei a revirar os bolsos em busca de um dracma de ouro e acabei afastando a camiseta o suficiente para ele ver Stygian; ele tomou um susto, me pediu para ficar calmo e me deu logo um cartão para usar no elevador.
E foi só quando as portas do elevador se fecharam que eu me dei conta do quanto eu estava nervoso. Não só pela grande probabilidade de Zeus encarar a minha visita como uma invasão e me eletrocutar, mas principalmente porque seria a primeira vez que eu ficaria cara a cara com Hannah desde que nós terminamos. Se esse fosse o único motivo que estava deixando Hannah com ódio de mim, eu até que estaria numa boa; mas, unindo isso à morte de Tobey, eu estava com mais medo dela do que de todos os olimpianos juntos.
As portas do elevador se abriram com um "plim!" e eu encarei a longa escadaria diante de mim, já me sentindo exausto. Subir tudo aquilo pareceu levar uma eternidade, mas ao mesmo tempo eu sentia que os minutos estavam correndo feito loucos. Atravessei a bela cidade; quase não havia ninguém circulando nas ruas. Eu não fazia idéia de onde Hannah poderia estar e os sátiros e as ninfas que estavam por ali se afastavam com medo quando eu lhes pedia informação. "Ótimo. Eles devem achar que eu vim destruir o Olimpo em nome do meu pai." foi o que eu pensei. Não tive escolha senão perguntar a uma mulher parada de costas para mim no topo da escadaria de um templo com colunas brancas. Eu não sabia se ela era uma deusa ou uma ninfa, então disse apenas:
- Hum, dá licença, moça? – enquanto subia as escadas.
Quando ela se virou para mim e eu quase caí por ter ficado inebriado diante de tanta beleza, eu tinha certeza de que ela era uma deusa. Ela usava um vestido longo de seda vermelha e seu cabelo estava trançado com fios de ouro. Olhando outra vez com mais atenção, eu percebi que não era uma deusa, mas eu precisei olhá-la de cima a baixo várias e várias vezes para me convencer completamente de que aquela mulher linda era Hannah.
Pelo menos eu não agi que nem um idiota e disse algo do tipo "Você está tão linda!". E pelo menos ela não fez a coisa certa e disse "Saia da minha frente antes que eu parta você em mil pedaços e te jogue no Tártaro!". Nós dois tivemos a mesma reação: ficamos quase um minuto inteiro nos encarando, muito surpresos. Mas é claro que eu parecia muito idiota fazendo isso. Hannah desmanchou sua cara de surpresa e me perguntou, bem séria:
- O que veio fazer aqui?
- Eu...hã...é...bem. – respirei bem fundo e dei um tempo a mim mesmo. – Nós precisamos conversar. Sobre um monte de coisas. É muito importante.
- Como sabia que eu estava aqui?
- É uma longa história. Te conto tudo no caminho.
- O quê? Caminho para onde?
- Me mandaram buscar você. Precisamos nos encontrar com os outros e...
- Ela não vai a lugar algum. – uma mulher se materializou ao lado de Hannah e me disse isso de um jeito tão ríspido e autoritário que eu quase falei "Sim, senhora" e fui embora.
- Mãe, ele... – Hannah começou a falar, mas a mulher a cortou.
- Eu sei muito bem o que ele pretende. – ela estreitou os olhos para mim. - Vá para o seu quarto. Eu quero ter uma conversa a sós com esse rapaz.
Hannah hesitou por alguns instantes e ficou olhando de sua mãe para mim e depois fazendo o inverso. Percebendo a seriedade da situação, ela começou a descer as escadas. Eu sabia que Hera não me deixaria falar com Hannah outra vez e sabia que eu teria que desaparecer dali depois da nossa conversa, então agarrei o braço de Hannah quando ela passou ao meu lado nas escadas. Foi muito arriscado. Qualquer uma das duas podia ter me matado naquele momento, mas eu não podia perder aquela oportunidade.
- Fique com isso. – eu empurrei o medalhão do rio Estige para Hannah.
- O que é?
- Um presente do seu pai.
- D-do m-meu...pai? – ela agarrou o meu outro braço e me olhou suplicante; com certeza queria saber mais detalhes sobre isso.
- Vá para o seu quarto agora, Hannah. – Hera ordenou.
- Eu... – Hannah ficou dividida entre obedecer sua mãe e me fazer perguntas.
- Se você estiver precisando tomar uma decisão, isso vai te ajudar. – eu disse e ela foi embora relutantemente.
Quando ela sumiu do meu campo de visão, Hera começou:
- É muito audacioso de sua parte vir até aqui sem permissão.
- A senhora disse que conhecia o motivo que me trouxe até aqui. Então também deve compreender que eu não tinha outra forma de fazer isso.
- Muito bem. Não vale mais a pena discutir a sua invasão. Eu vou ser bem clara: você não vai levar Hannah daqui.
- Acho que essa decisão depende apenas dela.
- Hannah não seria ingrata comigo depois de tudo que eu fiz por ela.
- Tenho certeza de que ela será eternamente grata por você tê-la salvado do ataque no acampamento, mas isso não vai impedi-la de ajudar os amigos dela.
- Você e os outros heróis não precisarão levantar uma única espada para combater aqueles que pretendem destruir os deuses. Minha Hannah será capaz de fazer tudo sozinha. A profecia diz que...
- Conheço a profecia. – eu a cortei. - Mas é absurdo pensar que Hannah poderá combater sozinha um exército de semideuses que controlam Dádivas muito poderosas. Todas as profecias citam apenas alguns heróis, mas nenhum deles jamais conseguiu alguma coisa sem a ajuda dos outros.
- E você está se referindo a sua ajuda? – ela zombou. – Hannah já conseguiu o que precisava de você: o anel. Eu providenciei todo o resto.
- Que resto?
- Os treinamentos, é claro. Eu não tirei Hannah do acampamento só para protegê-la, mas para treiná-la também. Ela estava sofrendo muito com o poder descontrolado dentro dela.
- A doença dela...
- Exatamente. Ela já nasceu com poderes, mas precisava do anel para despertá-los e essa sobrecarga repentina de poder quase a destruiu. Eu estava prestes a interferir, mas ela conseguiu manter o controle. E agora ela já controla perfeitamente todas as suas habilidades.
- Já que é assim, a senhora deveria deixá-la se juntar a nós.
- Ela vai lutar quando for a hora certa.
- E quando vai ser isso?
- Quando os inimigos acharem que estão perto da vitória; estarão mais vulneráveis.
- Então você vai permitir que eles sigam em frente com o plano?! Mas isso é ridículo! Semideuses estão sendo torturados e vão morrer se não agirmos imediatamente! Percy e Thalia serão sacrificados e...
- Não me fale de Thalia! – Hera ficou tão enraivecida que começou a brilhar, prestes a ficar na sua forma original. Eu desviei os olhos.
- Você nem liga! Não vai fazer diferença para você se eles morrerem! Como você pode ser tão fria, Hera? Foram eles que salvaram o Olimpo quando Cronos atacou e, se eles não puderem ajudar, o Olimpo, a sua casa, vai cair!
- Eu me importo com o Olimpo e com a minha família. Quanto a vocês semideuses... – ela não completou a frase.
- A sua filha é uma semideusa.
- Hannah precisou nascer para salvar o Olimpo. O restante de vocês não passa de erros.
- São esses erros que cuidam da civilização ocidental desde sempre.
- Vou provar a você que minha filha pode cuidar disso sozinha. Espere e verá. Agora pode ir embora.
Aquela conversa me deixou com tanta raiva! Eu já sabia que Hera não era fã de heróis e que tinha métodos um tanto radicais para resolver as coisas, mas o que eu tinha acabado de ouvir só me fazia pensar no seguinte: aquela deusa era uma psicopata! Mas por mais que eu estivesse com vontade de dizer isso e outras coisas na cara dela, eu me contive. Não ia ter como convencê-la, pelo menos não naquele momento. Eu precisava tentar outra coisa:
- Tudo bem. Mas me deixe pelo menos contar a ela o que está acontecendo lá embaixo.
- Não.
- Ela tem o direito de saber!
- Não! – Hera gritou, furiosa, e me deu as costas.
- Por favor! Não precisa fazer isso por mim; faça por ela! – algo começou a me puxar para trás. No começo achei que fosse o vento, mas aí se tornou forte como correntes e logo eu estava sendo arrastado para fora do monte Olimpo.
Me jogaram no elevador e as portas se fecharam antes que eu pudesse correr de volta para lá. Eu me sentei no chão, derrotado. Na realidade, eu não sabia se aquilo era o pior que podia acontecer ou se o fato de eu ter conseguido escapar ileso era a melhor das possibilidades.
Caminhei lentamente até o carro, tentando pensar rápido em uma maneira de voltar lá e raptar Hannah. Mas eu não podia fazer algo assim. Não só porque Hera iria ficar vigiando a filha o tempo inteiro depois da minha visita, mas também porque eu me lembrei de algo que Hector me disse há algum tempo atrás: que não seria nenhuma surpresa se Hannah estivesse cheia de tudo aquilo. E se eu voltasse lá e ela me dissesse que não queria se juntar a nós?
Entrei no carro e, ao invés de tomar alguma atitude, eu deitei a cabeça no volante. Eu passava tanto tempo sem descansar que estava começando a achar que não precisava disso. Mas o negócio é que eu estava acabado; física e emocionalmente. Fiquei alguns minutos de olhos fechados tentando imaginar o que iria acontecer quando eu chegasse na reunião e dissesse que não consegui levar Hannah até lá. John estava tratando aquilo como se fosse a nossa única esperança e eu tinha certeza de que todo mundo ia entrar em pânico quando eu dissesse que a gente teria que pensar em outra coisa. Achei melhor mandar uma mensagem de Íris para John contando o que tinha acontecido e perguntando se tinha mais alguma coisa que eu poderia fazer. Eu estava distraído procurando um dracma na mochila quando alguém abriu a porta e se sentou no banco do passageiro. Fala sério! Um assalto num momento como aquele?! Mas a pessoa que entrou não me pediu para passar a carteira; só disse:
- Melhor correr. Quanto mais longe estivermos quando ela descobrir que eu fugi, melhor.
Hannah estava ofegante. Devia ter corrido muito para me alcançar ali. Havia trocado de roupa e soltado o cabelo; agora vestia jeans e moletom e seu cabelo caía em cachos sobre os ombros. Eu quase dei um beijo nela. Estava tão feliz por ela ter decidido vir comigo mesmo sem saber dos detalhes que quase não me controlei. Mas eu só pude sorrir. Liguei o carro imediatamente e partimos em dois tempos.
Mandei uma mensagem de Íris para John assim que nos afastamos o suficiente do Empire State Building; disse que havia conseguido trazer Hannah e ele disse que deveríamos ir até a Carolina do Sul. De carro. Eu sabia que se Hannah ou eu fôssemos capturados seria o fim, mas mesmo assim uma biga voadora nos faria ganhar bastante tempo.
Não me lembro exatamente quem foi que disse que sonhava em viajar pelo país de carro com a namorada. Ouvi alguém dizer isso no acampamento e achei que devia ser mesmo muito legal. Na época, é claro que eu me imaginei fazendo isso com Hannah. E, mesmo que a situação fosse totalmente adversa, era o que estávamos fazendo. Hannah não disse uma única palavra durante muito tempo. Ela nem mesmo olhava para mim; fez questão de ficar encarando a janela o percurso inteiro, mesmo que não tivesse nada de interessante para ver ali. Eu não era tão bom motorista assim, então também não podia me permitir ficar conversando enquanto dirigia. Mas ficamos parados durante um tempão em um engarrafamento, então eu relaxei no volante e dei uma olhada em Hannah: havia algo diferente nela. Ela parecia mais bonita do que nunca; primeiro eu pensei que era por causa do vestido, do penteado, das jóias e tudo mais, mas ela já havia se livrado daquilo tudo e mesmo assim nunca esteve tão...perfeita. Olhei com mais atenção para o caso de eu estar deixando passar alguma coisa óbvia como um corte de cabelo, mas me dei conta de algo realmente estranho:
- O que houve com o seu aparelho auditivo? – perguntei.
- Eu não preciso mais dele. – ela respondeu, ainda sem olhar para mim.
- Como...?
- Minha mãe me curou.
- Ah. – isso era bem de Hera: querer filhos absolutamente perfeitos.
Hannah aproveitou que o carro não estava em movimento para encostar a cabeça na janela e tirar um cochilo abraçada à mochila. Foi quando ela colocou as mãos sobre a mochila que eu vi um anel grande na sua mão direita: era de ouro, com pedras preciosas de várias cores formando um desenho semelhante a um pavão.
- Belo anel. Presente da sua mãe também?
- Em parte. Foi um presente seu, mas ela fez algumas modificações.
- Então esse aí é o meu anel?
- Bom, sim. Eu ia devolver, mas agora...eu preciso dele.
Ficamos em silêncio durante mais um bom tempo. O trânsito estava simplesmente parado. Os únicos sons eram as buzinas dos carros e as músicas de um CD do Three Days Grace que eu encontrei no banco de trás do nosso carro. Eu pensei muito a respeito do que eu pretendia fazer. A verdade é que eu não tinha nada a perder: ou daria muito certo ou as coisas ficariam na mesma. Reuni toda a minha coragem e disse:
- Hannah, aquilo que eu disse a você no acampamento antes de ir embora... – eu esperei que ela se voltasse para mim, mas ela permanecia de olho na janela, inexpressiva. – Eu não fui sincero com você. Eu...precisei mentir. Sei que esse não é o melhor momento, mas eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente e você precisa saber a verdade: eu nunca quis terminar com você.
Ela não respondeu de imediato. Respirou fundo e passou a encarar o seu anel.
- Eu sei disso. – ela falou como se não fosse nada demais.
- Sabe?- uma ponta de esperança se acendeu dentro de mim.
- Eve me contou alguns dias depois. Eu estava muito mal e ela achou que isso fosse fazer com que eu me sentisse melhor.
- Se você sabe, então... – "Então" o quê? O que eu poderia propor à Hannah?
- Acho que eu preferia não saber. Só piorou as coisas.
- Como pode ter piorado? Isso significa que eu nunca deixei de gostar de você!
- Eu não acredito nisso... – a voz dela ficou mais frágil, como se ela estivesse se esforçando muito para não chorar. – Eu não confio mais em você. Nos últimos meses você só me deu mais motivos para não confiar.
- Hannah, você...Isso é um absurdo! Você tem noção do que está dizendo?! Se isso é por causa do que aconteceu com o Tobey, eu...
- Não se atreva a falar do Tobey! – ela finalmente me encarou.
- Nós vamos sim falar sobre o Tobey! É óbvio que você ainda não sabe a verdade sobre ele!
- Chega! Como você pode ser tão frio a ponto de querer dar uma explicação razoável para um assassinato?!
- Assassinato?! Tobey era um traidor! Ele mataria qualquer um de nós se tivesse chance! Ele mentiu descaradamente para você! Quem é o vilão aqui, Hannah?
Hannah escancarou a porta do carro e saiu correndo em direção as plantações na beira da estrada. Aquilo foi tão inesperado que eu nem consegui reagir imediatamente. O trânsito estava começando a fluir, então eu perdi tempo levando o carro para o acostamento e só quando consegui eu o desliguei e corri atrás de Hannah.
- Ficou louca?! – eu a agarrei e tentei levá-la até o carro, mas além de ela ser pesada demais para que eu a carregasse, ela também começou a me bater para que eu a soltasse. – Hannah, pare! Estamos chamando atenção!
- Que se dane! Eu não vou a lugar algum com você!
- E vai fazer o quê? Pedir carona na estrada? Nós precisamos correr antes que Maureen chegue até nós!
- Se Maureen chegar perto de mim, ela vai ser uma garota morta!
- Então você acredita naquela idéia ridícula da sua mãe? Você acha mesmo que vai derrotar todos sozinha?
- Sim, eu acredito!
- Se liga: você é só uma semideusa!
- Por enquanto! Falta pouco para eu ser muito mais do que isso!
Ela finalmente conseguiu se soltar. Mas foi porque eu fiquei tão chocado com o que eu havia acabado de descobrir que deixei que ela escapasse. Tudo se encaixava: a beleza fora do comum; a certeza de Hera de que Hannah teria poder o suficiente para acabar com a organização de Maureen; as barrinhas que ela comeu durante a viagem que pareciam muito com Ambrosia. Por mais insano que aquilo soasse, era verdade:
- Você está virando imortal. – eu balbuciei.
- Uma imortal divina. – ela se empertigou.
- Uma deusa.
Nós nos encaramos longamente. Todas as provas estavam ali, mas eu me recusava a acreditar. Eu não sabia se aquilo era um procedimento padrão para os filhos de Hera ou se Hannah era um caso especial. Haviam oferecido a imortalidade a Percy há alguns anos, mas a situação era bem diferente. Foi esse tipo de atitude dos deuses que provocou a ira de Maureen: os favoritismos. Será que ninguém havia pensado nas conseqüências que isso traria para a guerra iminente e para a vida de Hannah?
- Está de brincadeira, não é? Isso seria catastrófico!
- Por que? Era disso que a profecia falava quando disse que eu acabaria com a organização de Maureen sozinha. Eu jamais conseguiria como semideusa, mas, quando eu me tornar imortal, Maureen não vai nem saber o que a atingiu.
- Ok. Pode ser que seja isso mesmo. Mas e você, Hannah? Você vai simplesmente deixar a sua vida de mortal para trás? E a sua família, os seus amigos, as pessoas que se importam com você?
- É claro que eu não vou deixar a minha família e as pessoas com quem eu me importo para trás. Ser imortal não vai mudar o que eu sinto por eles.
- Não é assim que a imortalidade funciona. Não é como se você pudesse viver entre os mortais do jeito que vivia antes. As pessoas morrem, Hannah! Todos vão morrer e você vai continuar do mesmo jeito eternamente. Tem certeza de que pode lidar com isso?
Pela cara dela, estava muito óbvio que ela ainda não havia aceitado completamente esses detalhes. Ela baixou a guarda, mas ainda não queria dar o braço a torcer:
- Os deuses assistem as pessoas morrerem há séculos; é uma conseqüência da imortalidade e, se é disso que eu preciso para salvar o Olimpo, eu vou suportar.
- Os deuses já nasceram imortais, mas você não. Eles são a própria família, mas você cresceu com outra. Você já perguntou ao Peter o que ele pensa a respeito dessa decisão?
- E-ele entenderia. – sua voz começou a falhar por causa das lágrimas.
- Ele entenderia o fato de você ser obrigada a desaparecer da vida dele para sempre? Você, como deusa, teria obrigações com o Olimpo e não poderia visitá-lo e ele, como mortal, não poderia te visitar no monte Olimpo.
- O que você pretende com isso?! – ela se enfureceu. – Tudo que eu quero é salvar a nossa civilização e eu estou disposta a fazer sacrifícios por isso e você parece achar melhor que eu fique de braços cruzados enquanto Maureen toma conta de tudo!
- Não. Eu só acho que Hera está interpretando a profecia de forma errada. Você vai ser fundamental para a nossa vitória, mas como semideusa, não como imortal.
- Como você tem tanta certeza disso?
- A primeira profecia dizia "Cinco meio-sangues devem impedi-lo de atingir o poder supremo" e você está entre eles.
- Essa profecia nunca foi totalmente esclarecida. Talvez eu nem seja uma dos cinco.
- Ela nunca foi totalmente esclarecida porque essa luta ainda não terminou.
Hannah pareceu considerar aquela idéia.
- Não decida nada agora. Sei que você não confia em mim, mas espere até encontrar o John; ele sabe muito mais a respeito disso.
- Tudo bem. – ela resmungou e caminhou de volta para o carro.
Eu não achei que as coisas pudessem piorar tanto. Pelo menos antes de eu começar a falar Hannah estava com o humor controlado; depois da nossa discussão ela parecia prestes a me matar diante do mais inocente comentário. Toda vez que eu me virava para ver como ela estava, ela me lançava um olhar hostil. Eu tinha consciência de que estava forçando a barra, mas John havia me adiantado que Hannah e eu precisaríamos trabalhar juntos para tentar combinar as nossas forças, então eu precisava pelo menos tentar deixar o clima mais leve.
- Eu pensei que você não viria. – eu disse.
- O quê?
- Quando estava no Olimpo, eu tinha quase certeza de que você não iria querer vir comigo. Ainda mais depois da conversa que eu tive com a sua mãe.
- Não estou tão segura assim da minha decisão. – ela confessou. - Minha mãe me salvou e cuidou de mim e eu me sinto meio ingrata por ter fugido. Tenho medo de que ela não esteja mais disposta a me ajudar na batalha.
- Se tudo isso está te incomodando, então o que fez você deixar o Olimpo?
- O meu pai. – ela tirou o medalhão do Estige da mochila e o olhou com tristeza.
- O medalhão mostrou alguma coisa?
Ela só conseguiu balançar a cabeça afirmativamente, pois já estava chorando outra vez.
- Hannah...O que você viu?
- Vamos parar no próximo restaurante. Eu vi algo que...Preciso que você veja também e me diga se eu estou imaginando coisas ou não.
Nós paramos em um restaurante na beira da estrada. Hannah havia parado de comer Ambrosia, estava com fome e pediu um omelete. Escolhemos uma mesa afastada para que ela pudesse me mostrar o que viu no medalhão. Ela o abriu e a névoa negra se expandiu.
Um grupo de adolescentes estava reunido em uma velha casa numa noite de tempestade.
- Então é mesmo real? – um garoto perguntou, parecendo um tanto chocado.
- Sim. Agora nós já temos certeza. – uma Maureen bem mais jovem estava sentada à mesa junto com os demais. Ela estava muito séria, mas ao mesmo tempo parecia ansiosa.
- Isso é fantástico! – o garoto riu feito bobo.
- O que está dizendo?! – Maureen se indignou. – Isso é terrível! Nós não vamos conseguir ir adiante.
- Caramba! Você é muito fraca! Eu sabia que uma menina da sua idade não ia agüentar o tranco! – ele zombou.
- Isso não é verdade! Não estou fraquejando! Acontece que a profecia diz que a garota vai nos destruir. De que adianta levar esse plano adiante se no final vamos perder tudo?
- Ah, cara, você bem que podia ter passado alguns anos adquirindo experiência antes de se juntar a nós. Mas pode deixar que eu vou explicar: as profecias podem ser interpretadas de várias maneiras; a gente só sabe a verdade quando as coisas finalmente acontecem. Mas, até lá, a gente pode tentar manipulá-las ao nosso favor.
- Hum...Como? – Maureen estava duvidando.
- No nosso caso, por exemplo: uma filha de Hera está destinada a destruir os nossos planos. Mas, se não houvesse filha de Hera, o que aconteceria?
- Espere aí: - nesse momento, Tobey se exaltou na sua cadeira. – então você está sugerindo que a gente mate a garota? – Eu nem havia me dado conta de que ele estava presente naquele grupo.
- Claro. Que outra solução pode existir? – o outro garoto deu de ombros.
- Deve haver outra. Não foi para fazer esse tipo de coisa que eu entrei no grupo. – Karen Leroy cruzou os braços, aborrecida.
- Nós devíamos falar com o John sobre isso. – sugeriu uma menina morena e magrinha. Eu me lembrava vagamente dela: era Julia Hawkins, filha de Jano.
- O Nelson? O que ele tem a ver com isso? A função dele é outra. Nós tomamos esse tipo de decisão. – o garoto falou. – O que é que você acha, Maureen?
- Bom, eu...
- Não me diga que você vai agir como esses covardões! Eu sei que você é uma garota inteligente; você só precisa ter consciência da importância do nosso trabalho. Maureen, você nem sabe de que forma a filha de Hera pode acabar com os nossos planos. E se isso significar que vamos ser mortos por ela? Eu acho que é bastante justo que nós façamos algo para a nossa própria proteção.
Todos pareceram considerar o que ele disse e ficaram murmurando durante algum tempo.
- Tudo bem. – Maureen levantou e bateu na mesa para chamar atenção. – Vamos fazer isso.
- É isso aí, garota! – o cara deu tapinhas nas costas dela.
- A garota provavelmente ainda não sabe a verdade sobre sua mãe e os monstros também ainda não a encontraram. Esse é o momento para agirmos, antes que ela chegue ao acampamento, para não levantar suspeitas. – disse Maureen.
- Eu até já sei como vamos fazer isso: vamos usar o gigante que tentou atacar o acampamento. Quíron está pensando em deixá-lo na floresta para que possamos treinar os combates. Vamos levá-lo até a filha de Hera.
- E como você vai fazer isso, gênio? – Tobey perguntou.
- Acredito que Julia possa nos ajudar. – ele a encarou sugestivamente.
- O quê? Usar a minha Dádiva com um gigante? – ela riu nervosamente. – Não sei se funcionaria.
- Vamos tentar. Se não funcionar, temos uma equipe de primeira para pensar em outra coisa. – o garoto sorriu descontraidamente.
A névoa negra apagou aquela cena e depois mostrou outro lugar.
Hannah estava sentada em sua cama, com uma expressão triste. Ela estava mais jovem e aquele não era o quarto que eu havia conhecido na casa de seus avós em Del Rio. Ela estava sozinha, mas dava para ouvir vozes exaltadas em outro cômodo.
- Eric, as coisas já passaram do limite! – uma mulher gritou. – Até quando você vai tratá-la como se fosse uma princesa? É por causa do seu excesso de mimos que ela está desse jeito: prestes a repetir de ano na escola! Você não cobra nada dela!
- Ela tem dislexia, Laura! Os médicos falaram que é normal que ela tenha dificuldades na escola.
- Dislexia?! Isso é só uma desculpa para crianças preguiçosas!
- Quantas vezes eu vou ter que explicar a você que Hannah é uma criança diferente?
- Eu entendi da primeira vez que você explicou. Mas eu não ligo para quem seja a mãe dela. O problema é que o Peter acha que, se Hannah tira notas baixas e nada acontece, vai ser igual com ele. Eu realmente não me importo com as notas da sua filha, mas eu não admito que o meu filho siga o exemplo dela. Então acho bom você começar a disciplinar aquela garota, senão eu vou levar o Peter para longe de vocês dois! – uma porta bateu.
O pai de Hannah abriu a porta do quarto dela.
- Ainda está acordada? – ele se surpreendeu e foi até a cama dela. – Você está bem?
- Mais ou menos... – ela desviou o olhar dele.
- Hannah, se foi por causa do que você ouviu a Laura falando...Olha, não precisa se preocupar com isso. Ela só teve um dia difícil. Está tudo bem.
- Não está, pai. Vocês estão discutindo todos os dias...por minha causa.
- Você não tem culpa de nada.
- Tenho sim. Eu devia me esforçar mais. Acho que vou entrar em um daqueles grupos de estudo.
- Mas eles não são no mesmo horário dos treinos da torcida?
- São, mas eu acho que preciso largar a torcida. Pelo menos até as minhas notas melhorarem.
- Não precisa fazer isso, Hannah. Eu não vou deixar você fazer.
- Mas, pai...
- A culpa disso tudo é minha. Eu devia ter me planejado para mudar para uma cidade maior quando você entrou na escola. Cidades grandes têm escolas para pessoas com dislexia.
- Eu só não quero ficar longe do Peter.
- Vou dar um jeito nisso. Eu prometo. – ele sorriu e beijou a testa dela. – Agora durma. Vamos acordar mais cedo para ir até Austin. Podemos comprar aquela bolsa que você gostou.
- Ok. Boa noite, pai. – ela começou a se acomodar entre as cobertas.
- Boa noite, princesa. – ele já estava saindo do quarto quando um grande estrondo sacudiu a casa.
- O que foi isso?! – Hannah saiu da cama e correu para a janela.
- Hannah, saia daí! – Eric foi até a janela também.
- AH! – ela gritou. – Tem uma coisa enorme se mexendo lá fora!
- Eric! – a voz de Laura ecoou de outro cômodo.
- Hannah, vá ficar com Laura e Peter. – disse Eric, tenso.
- O que você vai fazer? – Hannah agarrou o braço dele.
- Não saia de casa.
- Chamo a polícia?
- Não.
- Mas...
- Hannah. – ele a olhou severamente. Ela deixou o quarto, contrariada.
Eric foi até a sala, pegou uma espingarda, respirou fundo e saiu da casa. Pouco tempo depois, Hannah o seguiu.
Não pude ver o que aconteceu depois porque Hannah fechou o medalhão bruscamente. Eu me virei para ela pronto para reclamar, mas o rosto vermelho e inchado dela não permitiu que eu fizesse isso.
- Eu me lembro perfeitamente do que aconteceu depois. – sua voz estava fraca.
- Foi nesse dia que...?
- Foi nesse dia que um gigante apareceu na nossa fazenda no meio da noite e... – ela precisou parar por causa do choro. - Meu pai tentou distraí-lo para que nós fugíssemos, mas ele não pensou no que faria depois. Eu voltei para ajudá-lo, mas eu nunca havia lutado na minha vida, então...O gigante derrubou o telhado em cima de nós. Meu pai não sobreviveu; eu fiquei desacordada durante muito tempo, então o gigante deve ter se convencido de que eu estava morta e foi embora.
Eu já conhecia essa história. Só se falava sobre isso quando Hannah chegou ao acampamento. Mas ouvi-la contando era infinitamente mais doloroso. Eu passei por momentos terríveis na minha vida, mas as lembranças que eu tinha eram muito vagas. Era surpreendente como Hannah conseguia viver com aquela cena lhe atormentando todos os dias.
- Agora que você viu, me diga: Maureen realmente mandou um gigante para me matar, não foi?
Eu assenti.
- Foi isto que me fez vir com você: vingança. Maureen matou o meu pai. E ela vai pagar muito caro por isso.
