C
hegamos pela manhã a uma escola abandonada na Carolina do Sul . Era incrível ver todos aqueles semideuses trabalhando juntos. Alguns deles já haviam deixado o acampamento há anos, mas mesmo assim largaram suas faculdades e até mesmo seus empregos para vir ajudar.- Ei! Bem vindos à nossa base! – John veio nos receber muito sorridente; ele estava irreconhecível desde que descobriu a verdade sobre Hannah.
- Nossa base? – confesso que fiquei um pouco desapontado com as instalações. Eu podia jurar que havia visto uma placa de "Condenado pela Defesa Civil" na entrada.
- É... – John pareceu um pouco envergonhado por causa da aquilo. – Foi o que conseguimos arranjar de última hora. Mas vai servir, acredite. E como você está, Hannah?
- Bem, obrigada. – ela conseguiu sorrir. Eu sabia que estava péssima, mas estava se esforçando já que havia chegado até lá.
- Venha, vou te apresentar ao pessoal. Estão todos ansiosos para conhecer você.
Segui John e Hannah até o ginásio da escola. Aparentemente correspondia à arena do acampamento; muita gente estava treinando com espadas e arcos e flechas, outros estavam aprendendo a manusear fogo grego e eu vi Sam e Lionel treinando no campo ao lado.
Quando Hannah surgiu, todo mundo parou e ficou olhando fixamente para ela. Foi uma cena meio surreal. Fiquei me perguntando se era por causa da profecia ou pelo fato de eles nunca terem conhecido uma filha de Hera ou simplesmente porque, apesar de ela ter interrompido o processo de se transformar em deusa, ela ainda estava anormalmente bonita. De qualquer maneira, o pessoal só parou de encarar quando Hector gritou "Hannah!" e veio na nossa direção.
- Caramba, Hannah, eu senti tanto a sua...Uau. – ele ia abraçá-la, mas parou quando chegou mais perto e olhou bem para ela.
Eu sabia muito bem o que aquele "Uau" significava. Lancei o meu pior olhar na direção de Hector, mas ele não estava nem aí para o fato de os meus poderes terem voltado e eu estar morrendo de ciúmes.
- Você está linda! – ele a abraçou sem o menor pudor e bagunçou o cabelo dela. – Sinto muito por tirá-la do seu tratamento de primeira no Olimpo, mas a gente realmente precisa de você por aqui.
- Hector, você pode mostrar o lugar à Hannah, certo? Eu preciso conversar com o Nico. – disse John.
- Claro que sim. Vamos? – ele passou o braço pelos ombros dela e a conduziu para dentro do ginásio.
No meio do caminho, quando eles pararam para que Hannah falasse com algumas pessoas, ele se virou para mim, riu e formou a seguinte frase com os lábios: "Cuidado com a sua garota!". Eu olhei para ele com desprezo. John me despertou do meu ciúme:
- E então? Tudo certo na viagem?
- Correu tudo bem, mas...Eu queria fazer algumas perguntas a você.
John me levou para dentro da escola, para uma sala que eles deviam estar usando como sala de reuniões. Nós nos sentamos à mesa e eu comecei:
- O medalhão do Estige me mostrou algo que aconteceu há alguns anos. Foi uma espécie de reunião da Maureen com outras pessoas que fazem parte da organização. Eles estavam discutindo sobre o que fazer já que eles haviam descoberto quem era a filha de Hera. Não foi exatamente a discussão que me deixou perturbado, mas sim as pessoas que estavam na reunião. Como Julia Hawkins, filha de Jano. Eu sempre achei que ela era uma vítima; que ela havia sido assassinada porque Maureen queria a Dádiva dela.
- Ah. Julia... – John suspirou. – A história dela é igual a de muitos outros semideuses: ela se juntou à organização logo no início, quando nossos fins ainda eram relativamente pacíficos. E depois, quando nossas atitudes começaram a passar dos limites, ela quis cair fora. Mas a Dádiva dela era muito poderosa para Maureen abrir mão. Então eles a mataram para conseguir a Dádiva e, principalmente, para impedir que ela revelasse os planos da organização. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo.
- Eu preciso saber mais sobre a organização, John. Preciso saber como e quando ela começou. Por exemplo: eu sempre achei que Maureen fosse a idealizadora disso tudo, mas havia um cara nessa reunião que parecia ser o líder e ninguém nunca o mencionou.
- Como ele era?
- Estava escuro, mas...Ele parecia alto e tinha o cabelo meio cinzento e olhos verdes.
- Noel. – John falou sem surpresa nenhuma.
- Quem?
- Noel. Era um filho de Hermes.
- "Era"?
- Você observou bem, Nico: ele foi o idealizador e líder da organização. Acho que também pode imaginar o que aconteceu com ele.
- Maureen o matou.
- Exatamente. Mas não posso dizer que ele foi traído; na verdade, ele provou do próprio remédio. Maureen nem sempre foi o monstro que é hoje; toda essa crueldade e frieza foram ensinamentos do próprio Noel.
- Na cena que o medalhão mostrou, eles disseram que sua função era outra. Qual era a sua função?
- Eu vou lhe contar toda a história, Nico; você precisa conhecê-la. Tudo começou há mais ou menos cinco anos atrás. Noel era o pior tipo de filho de Hermes: ladrão, inescrupuloso, revoltado com os deuses. Ele foi um dos primeiros a se juntar a Cronos quando ele estava prestes a se reerguer. Mas ele era um covarde, então voltou para o nosso lado quando viu que Cronos ia perder; só que ele nunca abandonou a idéia de derrubar os deuses. Os ânimos não ficaram melhores quando a guerra terminou. Mesmo com algumas mudanças no acampamento, muitos semideuses filhos dos deuses menores se sentiam menosprezados diante de semideuses poderosos como você e Percy. Noel percebeu isso e começou a atrair muita gente com o discurso de que os semideuses deviam ser todos iguais e do quanto os deuses eram injustos; ele desejava divindades que poderiam garantir essa "justiça". Durante muito tempo a organização foi apenas isso, mas Maureen descobriu que Tobey recebeu uma Dádiva de seu pai e disse ao Noel que acumular Dádivas poderia ser uma forma de ter poder o suficiente para destronar os deuses. Desde então Noel adotou Maureen como seu braço direito. A verdade é que a idéia de acabar com os deuses não seria bem aceita pela maioria dos membros da organização, então era algo que ficava restrito a um grupo; provavelmente o grupo que o medalhão mostrou. Eu era encarregado de estudar as Dádivas e localizá-las, já que nós ainda nem sabíamos da existência de um livro das Dádivas. Havia outro grupo, por exemplo, que era encarregado de recrutar mais semideuses, de preferência os que possuíam Dádivas. As atitudes foram se agravando aos poucos: primeiro Noel começou a ameaçar os semideuses que se recusavam a participar da organização; depois passou a roubar suas Dádivas e de repente estava assassinando-os. Foi mais ou menos nessa época que eles tomaram conhecimento da profecia que menciona Hannah; alguém estava vasculhando o sótão em busca de um troféu qualquer e acabou encontrando um papel com a profecia escrita. Noel e os outros enlouqueceram. Eles não descansaram até descobrir o que significava "filho de uma traição" e depois onde a filha de Hera estava. Foi basicamente Maureen quem desvendou o mistério, ela sempre foi absurdamente inteligente. E quando eles descobriram onde Hannah morava...Bem. Acho que você já sabe o que acontece depois.
- Sim. Eles mandaram um gigante matá-la. Mas...você não sabia disso? Não pôde impedir ou o quê?
- Sinceramente, eu não sabia. Na verdade, Nico, muito do que eu estou lhe contando agora eu só descobri anos depois, quando estava preso em uma das bases da organização. Foi o meu informante quem me contou tudo. Como eu disse, a maioria não aprova totalmente a idéia de derrubar os deuses, usar os filhos dos Três Grandes como sacrifício e coisas assim; por isso as informações são muito pouco divulgadas entre os membros da organização.
- Entendi. Mas, e depois? Hannah chegou ao acampamento e nada aconteceu durante todos os anos em que ela esteve lá.
- Quíron já conhecia a profecia e, quando Hannah chegou lá e foi reconhecida como filha de Hera, ele desconfiou imediatamente de que a profecia estava se concretizando. Além disso, o fato de o gigante que estava preso no acampamento ter se deslocado até o Texas e ter atacado justamente a casa de Hannah foi mais do que um sinal claro de que algo estava acontecendo. Por isso Quíron começou a fiscalizar todo o acampamento, como esteve fazendo recentemente, e a organização foi obrigada a dar um tempo em todas as ações para não levantar suspeitas. Bom, pelo menos as ações no acampamento foram suspensas. Nesse meio tempo eles construíram bases por todo o país; capturaram monstros para servi-los, como gigantes e telquines que trabalham nas suas forjas construindo armas. Esse tempo todo sem ataques levou Quíron a crer que a ameaça não estava presente no acampamento.
- E todo mundo acabou se surpreendendo...Que história. Eu não fazia idéia de que tudo isso era tão...grande, eu acho. Vou precisar de algum tempo para absorver tudo que você me disse.
- Tudo bem. Contanto que você esteja bem focado nos próximos dias.
- Por que?
- Vou ver como Hannah está lidando com os poderes dela e quero que você esteja lá também.
- Hã...É que eu...
- Eu sei que vocês têm um...relacionamento complicado? Seja lá o que for, vocês vão precisar deixar isso de lado, porque nossa melhor chance na batalha é a união dos poderes de vocês. Portanto, tire o dia de hoje para descansar e amanhã vamos começar a treinar bem cedo.
O pessoal havia realmente transformado aquela escola abandonada em uma base de operações: as salas de aula comuns estavam sendo usadas como dormitórios e arsenais; a sala do diretor era onde John estava montando um grande mural tentando conectar todos os fatos relacionados à organização de Maureen; quem tinha o mínimo de habilidade culinária se revezava cozinhando no refeitório; e as áreas externas eram usadas para treinamento.
Eu havia dormido feito uma pedra, apesar de estar acomodado num saco de dormir e de haver gente demais na mesma sala que eu. Comi qualquer coisa no refeitório e fui direto para o ginásio. Quase todo mundo já estava acordado e, julgando pelo suor, já deviam estar de pé há bastante tempo. Avistei logo Hannah e Hector duelando entre si. Me lembrou muito de quando estávamos viajando todos juntos e ele decidiu treiná-la: Hannah parecia estar fazendo um esforço tremendo, enquanto Hector nem havia começado a suar.
- Oi. – John estava observando os dois de braços cruzados, com uma expressão não muito satisfeita.
- E aí? Como estão as coisas?
- No geral estão bem, mas... – ele suspirou quando olhou para Hannah outra vez. – Acho que estamos perdendo tempo com isso aqui.
Eu não perguntei o motivo daquela afirmação porque Hector ficava gritando para Hannah o tempo todo: "Você tem boa defesa, Hannah; mas onde está o seu ataque?".
- Hector insistiu, mas eu continuo achando que devíamos ver o que ela pode fazer com os poderes dela. – disse John.
- Eu acho que Hector tem razão em querer prepará-la para combates diretos. Hannah nunca foi muito boa com a espada e Maureen provavelmente sabe dessa fraqueza e vai explorá-la.
- Teoricamente, sim, Nico. Sei que isso é importante, mas, se Maureen for adiante com o plano dela e equipar semideuses comuns com Dádivas, combates diretos não vão detê-los. Só você, Hannah e Sam têm habilidades que estão à altura das Dádivas. Nosso maior objetivo agora é resgatar Percy e Thalia para que eles possam nos ajudar também.
- Ainda estão fazendo buscas?
- Só um grupo. E mesmo assim eles vão voltar logo para cá. Se não encontramos a base principal deles até agora, então só iríamos perder tempo se continuássemos arriscando nossas vidas e desperdiçando munição nessas invasões. Maureen precisa de você e de Hannah para concretizar os planos dela, certo? Uma hora ela vai ter que sair do esconderijo para procurar por vocês. Vamos aproveitar esse tempo para nos prepararmos da melhor maneira possível.
John disse que eu iria começar o treinamento junto com Hannah mais tarde. Nesse meio tempo eu fui dar um alô para Sam. Ele treinava em um local mais afastado da base, no meio dos destroços de umas casas que foram destruídas por uma enchente ou algo parecido. Eu cheguei no momento em que alguns semideuses, posicionados em diferentes ângulos, disparavam canhões na direção dele, de modo que ele precisava erguer rapidamente muros que o protegiam e logo depois ele precisava atingir alguns alvos com estilhaços de vidro, estacas de madeira ou qualquer outra coisa que ele tivesse ao redor. Enquanto ele rolava no chão para se esquivar e apontava para atingir um alvo, eu percebi o quanto ele estava diferente; parecia ter envelhecido uns três anos, estava mais alto, mais forte, com algumas cicatrizes e com uma expressão mais severa. Ele me viu parado por ali e gritou "Tempo!". Sam e os outros semideuses se afastaram dos destroços e foram pegar garrafas d'água em um isopor.
- Nico! – Sam veio animado na minha direção e me deu um soco no ombro. – Hector me disse que você estava de volta. Conseguiu sobreviver àquela chatice de busca?
- Eu quase não sobrevivi, mas e você? Canhões? Aposto que se divertiu muito nos últimos meses.
- Ah, sim, os canhões foram uma idéia excelente! Mas ainda não estou cem por cento, começamos na semana passada.
- Está de brincadeira?! Você estava detonando!
- Meu pai disse que eu posso fazer muito mais. Eu preciso ousar para perder o medo.
- Então o seu pai veio falar com você sobre a Dádiva?
- Veio. Ele é simplesmente incrível! Foi ele quem deu a idéia dos canhões e outras que vamos colocar em prática quando eu me superar.
- Isso parece ótimo. – fiquei me perguntando que outro tipo de treinamento cruel Ares havia sugerido.
- Preciso voltar para lá. Mas se prepare porque nós vamos nos enfrentar por esses dias e eu não vou pegar leve! – ele correu de volta para o meio da sua arena improvisada.
Não pude deixar de rir depois daquilo; por dentro, Sam continuava o mesmo.
- Ele está se saindo muito bem, não está? – um cara de cabelos castanhos claros, um pouco mais velho do que eu, apareceu.
- Acho que sim...- levei algum tempo para reconhecê-lo.- Lionel, não é?
- Isso aí. Sabe, no começo eu tive minhas dúvidas de que ele teria disciplina para encarar esse treinamento; achei que ele ainda era muito criança. Mas o nosso pai escolheu muito bem qual filho presentear. Dessa vez, pelo menos.
- Está falando do Raphael Young?
- É. Os deuses supostamente deveriam saber alguma coisa sobre o nosso futuro; se eles sabem, por que presentear um filho com uma Dádiva perigosa que um dia pode ameaçar a soberania deles?
- Os deuses não podem interferir diretamente no futuro. Os semideuses recebem Dádivas dos seus pais quando estão em apuros. Ares deve ter ajudado Raphael simplesmente porque essa era a obrigação dele. Mas ele compensou esse problema dando a mesma Dádiva ao Sam.
- Vai entender toda essa loucura divina... – Lionel coçou a cabeça e eu reparei no corte gigantesco no seu braço. Ele percebeu que eu estava olhando e riu: - Isso aqui? Um pequena conseqüência de ter me oferecido para treinar Sam. Nada demais. Por falar em treinamento, Sam falou sério quando disse que vocês vão se enfrentar por esses dias.
- Vai ser divertido. – tentei entrar no clima de "Eu amo guerra" dos filhos de Ares.
- É muito importante que a gente veja como você lidaria se tivesse que lutar com o Young. Nós achamos que uma luta entre ele e Sam não seria vantajosa para nenhum dos dois lados; seria uma grande perda de tempo. É possível que Maureen mande Young atacar você e por isso você vai precisar conhecer o terreno.
- Tem razão. Estarei pronto quando vocês precisarem. Então você é tipo o nosso general?
- Eu? Não. Sam é o nosso general.
- Sam?! Isso não é responsabilidade demais para um garoto de doze anos?
- Ei, sem preconceitos, cara. Você também não tinha um monte de responsabilidades quando era até mais novo do que ele? Espere até vê-lo em ação. E quando falo em ação estou me referindo a estratégias de batalha. O garoto tem um dom!
- Não é preconceito, é preocupação. Ele está parecendo acabado.
- Todos nós estamos acabados. O pessoal do acampamento e quem ainda não chegou aqui também.
- Eu perguntei se você era o general porque...eu queria saber se você acha que nós temos chance.
Lionel me estudou por alguns instantes e depois perguntou:
- Você andou conversando com o John, não foi?
- Um pouco.
- Eu entendo você. John está pessimista e acaba contagiando qualquer pessoa que troca duas palavras com ele. Eu já mandei ele parar com isso. Mas, respondendo à sua pergunta, eu acho que nós temos chance sim.
- Esse é um bom momento para você me dar razões para ficar otimista.
- Tudo bem. – ele deu risada. – O fato de você e a filha de Hera não terem sido capturados é uma vantagem para nós; vocês farão diferença nas batalhas e atrasarão Maureen.
- Foi o que o John falou.
- Bem, eu não vou mentir para você: nosso exército é menor quando comparado aos semideuses e monstros de Maureen.
- Monstros?! Maureen está comandando monstros também?!
- Telquines nas forjas, e gigantes. Não estão em grande número, mas os gigantes podem nos causar problemas. Por outro lado, John conseguiu mobilizar dezenas de semideuses mais velhos e mais experientes que já haviam deixado o acampamento. Maureen tem um pessoal bastante poderoso ao lado dela, mas são uma minoria.
- Mas eles têm mais armas, certo? Por causa dos telquines trabalhando nas forjas.
- Provavelmente. Mas nós temos o bastante, não vai ser um problema. Na verdade, se Maureen atacasse nesse exato momento nós conseguiríamos nos virar. Estamos treinando sem parar há semanas! Talvez não estejamos fortes o suficiente para acabar com ela de vez, mas podemos deixar a organização bem fragilizada. A maioria dos meus irmãos não acredita nisso, mas ataques pequenos e com um objetivo determinado são muito mais eficazes do que uma grande batalha com guerreiros exaustos e dispersos. Eu ouvi Sam tirando sarro de você por ter ficado com as buscas, mas eu acho mesmo que vocês fizeram um trabalho fundamental. – dito isso, Lionel se despediu de mim com um soco no outro ombro e foi se juntar aos seus irmãos no treinamento de Sam.
Depois do almoço, Hannah e eu deveríamos treinar juntos. Eu estava numa boa com isso, mas parece que Hector e John precisaram insistir muito com ela antes de ela finalmente dar as caras no ginásio. Hannah chegou e não me lançou mais do que um olhar de desprezo que durou uma fração de segundo. Eu, em compensação, não consegui parar de encará-la enquanto ela colocava a armadura: ela vestia um short jeans e uma blusa sem mangas e, apesar de ela sempre ter tido umas curvas bem legais, toda aquela coisa de quase virar deusa deixou tudo ainda mais...interessante. Mas a aparência dela já estava voltando ao normal desde a noite passada; não havia mais aquela espécie de brilho em volta dela, por exemplo. Notei que, de repente, quase todo mundo deu um tempo nos seus treinamentos e ficou ao nosso redor para nos assistir. Acontece que, considerando que a maioria esmagadora dessas pessoas era do sexo masculino, provavelmente eles foram lá para dar uma olhada em Hannah e não na minha habilidade de convocar um exército de mortos. Isso me lembrou de algo importante: Dione. Nós dois nunca havíamos tido a oportunidade de conversar depois do que aconteceu no meu aniversário e por mais que a idéia de ter essa conversa me apavorasse, eu sabia que a volta de Hannah ia me obrigar a tomar uma atitude, mesmo que ela parecesse me odiar naquele momento. Dione estava conversando com Owen no outro lado do ginásio; eles pareciam completamente alheios ao que estava acontecendo.
- Hannah, você pode começar. – disse John, fazendo com que eu voltasse a prestar atenção nela.
- Ok. Só não fiquem muito decepcionados se eu não conseguir de primeira. – ela olhou para o pessoal em volta. - Eu estou um pouco nervosa. – ela confessou apenas para John, Hector e eu.
- Fique tranqüila. Tome o tempo que precisar. – a expressão de John denunciava que ele pensava exatamente o contrário.
Hannah fechou os olhos, respirou fundo e ergueu discretamente as mãos. Um clarão invadiu todo o ginásio. Fechei os olhos por instinto e quando os abri pensando que aquilo havia sido uma amostra dos poderes de Hannah, me deparei com Hera de pé entre nós dois.
- Então essa é a sua escolha? – Hera estreitou os olhos para Hannah.
Depois que todos abriram os olhos e conseguiram assimilar o que estava acontecendo, se ajoelharam no chão, nervosos. Apenas Hannah e eu permanecíamos de pé.
- Mãe...Eu... – Hannah ficou pálida e sua voz falhava.
- Você não está sendo inteligente, Hannah. Por acaso está esperando que você e esses semideuses – ela falou como se aquilo fosse uma ofensa. – sejam esmagados pelo exército inimigo para só depois disso você se dar conta de que precisa da minha ajuda?
- Você me ajudou muito, mãe! – disse com sinceridade. – Mas eu não acho que esteja fazendo uma má escolha. Eu preciso deles tanto quanto eles precisam de mim. Não vamos vencer essa guerra separados.
- Eu fiz tudo por você... Provoquei a ira de Zeus para manter você segura no Olimpo... – Hera estava tão furiosa que sua imagem brilhava irregularmente, como se ela fosse revelar sua forma original a qualquer momento.
- Sinto muito por ter fugido. Eu não queria que as coisas tivessem acontecido desse jeito, mas eu não agi assim por ingratidão, e sim porque você estava irredutível. E também porque...acho que meu pai me mandou uma mensagem naquela noite; eu não podia ignorar algo assim.
Hera a encarou por alguns instantes,com os lábios apertados, e depois disse:
- Pois bem. Sua escolha foi feita. Quando tudo der errado, não venha pedir a minha ajuda. Essa guerra agora é um problema unicamente seu e deles. – ela novamente olhou para o restante de nós como se fôssemos vermes.
- Não nos amaldiçoe, rainha Hera! – John surpreendeu a todos quando se levantou e gritou com ela, vermelho de tanta raiva. – Se nós formos derrotados, os deuses irão cair e isso inclui você! Tenho certeza de que você não quer ser jogada no Tártaro junto com o resto da sua família.
Hera esbravejou e desapareceu com um outro clarão, nos deixando ainda mais perturbados. O lado bom disso foi que o pessoal começou a se dispersar, deixando Hannah menos nervosa.
- Hannah, você... – Hector tocou o ombro dela com preocupação.
- Estou bem. – garantiu ela, mas dava para ver que aquilo a deixou ainda mais tensa. -Vamos continuar.
Hector estava prestes a protestar, mas aí uma fenda se abriu no chão chegando até os meus pés. Uma fenda para o mundo inferior, para ser mais exato. Eu podia sentir o ar frio que saía de lá e também sentia que seria sugado se chegasse perto demais.
- Você...você fez isso?! – eu olhei para Hannah, chocado.
- Mas...então são esses os poderes de uma filha de Hera? Fendas para o mundo inferior?! – Hector estava tão perplexo quanto eu.
O único que não parecia surpreso era John. Ele ficou encarando a fenda com a mão no queixo.
- Isso é muito interessante. – foi o que ele disse.
- "Interessante"? Bizarro, isso sim! – eu exclamei.
- Bom, não é nada improvável. Na verdade, era o esperado.
- Eu não entendo.
- Hannah herdou o anel de você e conseqüentemente deve ter herdado algumas das suas habilidades. Objetos de poder sempre ficam...como posso dizer? "Marcados" pelos seus donos. É claro que essas habilidades que ela herdou não são nem de longe tão poderosas quanto as suas e pode ser que elas desapareçam com o passar do tempo, mas nós podemos tirar proveito disso: eu acredito que ela possa deixá-lo mais forte, Nico.
- Minha mãe meio que mencionou isso. – disse Hannah.
- Sim. União de poderes entre semideuses é algo bastante comum. Como os filhos de Deméter, por exemplo: sozinhos eles podem fazer pequenas plantas crescerem rapidamente, mas juntos eles podem erguer uma floresta inteira em questão de segundos.
Senti um aperto no peito com a menção dos filhos de Deméter, por causa de Eve. Hannah e Hector também mudaram de expressão imediatamente. John percebeu a gafe e tentou concertar:
- Ah...Sinto muito, pessoal. Foi sem querer.
- Deixa pra lá. Você estava dizendo que eu posso ajudar o Nico; como eu faço isso?
- Não tenho certeza absoluta de como fazer; mas acho que vamos descobrir isso se vocês treinarem juntos.
Hannah suspirou e estava parecendo que ela preferia que alguém a jogasse num tanque cheio de insetos a passar algum tempo comigo.
